É uma angústia, se é que me entende. Não saber de você, apenas supor que está bem. Dói um pouco. Uma dor latente que eu logo afasto, mas que mesmo de longe, dói.
Tem também essa saudade: saudade memória, de cinco minutos depois. Ainda preservo a tua imagem de logo agora, teu beijo, teu adeus. Mas há a saudade.
E há a vontade. De logo mais, de amanhã, de daqui a dez dias.
Nem sempre foi assim. Eu costumava ser racional. Aí me veio você. E você é meio absurdo, baby. O tempo passa devagar quando você não está. E quando está, as paisagens cinzas ganham cor.
Há a angústia. Há a saudade. Há a vontade. E eu já não me entendo mais.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
sábado, dezembro 08, 2007
De mim, nos outros...
"Um dia despertou-lhe na alma o desejo de esculpir uma estátua do Prazer que dura um só instante. E partiu pelo mundo à procura do bronze, porque ele só podia trabalhar o bronze.
Mas todo o bronze existente no mundo havia desaparecido e em nenhuma parte o metal seria encontrado, a não ser na estátua da Dor que é permanente. E fora ele que, com as próprias mãos, fundira essa estátua, erigindo-a no túmulo de alguém que muito amara na vida. E na tumba da morta colocou a própria criação, como um símbolo do amor, que é imortal, e da dor humana, que dura a vida inteira.
E em todo o mundo não havia bronze, a não ser o dessa estátua. Ele, então, retirou a estátua que moldara e colocou-a num grande forno, deixando-a derreter-se. E com o bronze da estátua da Dor que é permanente, fundiu a do Prazer que dura um só instante."
Oscar Wilde: O Artista
Mas todo o bronze existente no mundo havia desaparecido e em nenhuma parte o metal seria encontrado, a não ser na estátua da Dor que é permanente. E fora ele que, com as próprias mãos, fundira essa estátua, erigindo-a no túmulo de alguém que muito amara na vida. E na tumba da morta colocou a própria criação, como um símbolo do amor, que é imortal, e da dor humana, que dura a vida inteira.
E em todo o mundo não havia bronze, a não ser o dessa estátua. Ele, então, retirou a estátua que moldara e colocou-a num grande forno, deixando-a derreter-se. E com o bronze da estátua da Dor que é permanente, fundiu a do Prazer que dura um só instante."
Oscar Wilde: O Artista
sábado, novembro 24, 2007
De mim, nos outros...
"Fora de você não passa tempo nenhum. É incrível. O balé da tarde lá embaixo é em câmera lenta, os movimentos lá em cima de mímicos em geléia azul. Se quisesse você poderia facilmente ficar ali pra sempre, vibrando por dentro tão depressa que flutuaria imóvel no tempo, como uma abelha sobre alguma coisa doce.
(...)
Onde você está agora é calmo e quieto. Vento rádio gritos água esguichando aqui não. Sem tempo e sem som real a não ser seu sangue latejando dentro da sua cabeça.
(...)
Olhe só. Você pode ver a complicação toda, azul, branca, marrom e branca, mergulhada num brilho aquoso de vermelho profundo. Todo mundo. Isso é o que as pessoas chamam de vista. E você sabia que de baixo você não olharia assim tão alto lá em cima. Você agora vê o quanto você está lá em cima. Você sabia que lá de baixo não dava pra dizer.
(...)
O tempo existiu esse tempo todo. Não dá pra matar o tempo com seu coração. Tudo toma tempo. As abelhas têm de se mexer muito depressa pra ficarem paradas.
(...)
Flores de metal se abrem na sua língua. Nenhum tempo mais para pensar. Agora que existe tempo você não tem tempo.
(...)
A mentira é que é uma ou outra. Uma abelha parada, flutuando, está se mexendo mais depressa do que se pode pensar. Lá em cima a doçura a deixa louca.
(...)
Isso é para sempre. Pise na pele e desapareça.
Olá."
David Foster Wallace: Para sempre em cima
(...)
Onde você está agora é calmo e quieto. Vento rádio gritos água esguichando aqui não. Sem tempo e sem som real a não ser seu sangue latejando dentro da sua cabeça.
(...)
Olhe só. Você pode ver a complicação toda, azul, branca, marrom e branca, mergulhada num brilho aquoso de vermelho profundo. Todo mundo. Isso é o que as pessoas chamam de vista. E você sabia que de baixo você não olharia assim tão alto lá em cima. Você agora vê o quanto você está lá em cima. Você sabia que lá de baixo não dava pra dizer.
(...)
O tempo existiu esse tempo todo. Não dá pra matar o tempo com seu coração. Tudo toma tempo. As abelhas têm de se mexer muito depressa pra ficarem paradas.
(...)
Flores de metal se abrem na sua língua. Nenhum tempo mais para pensar. Agora que existe tempo você não tem tempo.
(...)
A mentira é que é uma ou outra. Uma abelha parada, flutuando, está se mexendo mais depressa do que se pode pensar. Lá em cima a doçura a deixa louca.
(...)
Isso é para sempre. Pise na pele e desapareça.
Olá."
David Foster Wallace: Para sempre em cima
quinta-feira, novembro 22, 2007
Piada interna
- Ai! Minha cabeça!
- É, hoje é o dia! Faz pouco uma moça bateu o queixo aí...
- É... hoje é o dia...
- É, hoje é o dia! Faz pouco uma moça bateu o queixo aí...
- É... hoje é o dia...
segunda-feira, novembro 19, 2007
Correspondência extraviada III
R.,
Primeiro eu preciso explicar uma coisa. Veja... as últimas cartas foram dramáticas. É óbvio que não é nada daquilo. Bom... quase nada daquilo. Eu só estava sem idéias, então, fantasiei um pouco aquele nosso lance pra, você sabe, escrever alguma coisa agradável e romântica e blá, blá, blá. Enfim, eu já fiz isso milhões de vezes. Não é grande coisa.
Feito.
Ok. Então eu acendo um cigarro logo depois de ter esmagado uma bituca no cinzeiro e lamento por não ter mais cervejas na geladeira. E essa música... "je t'aime tant, je t'aime tant" - certo, isso não tem nada a ver com você, mas é o que a música diz e eu não consigo parar de ouvi-la.
Você... bem, você sumiu. Odessa?
Enfim...
O problema, moço, é que não sabemos de nada.
Eu não sei nada sobre você a não ser que você lê David Foster Wallace.
Você não sabe nada sobre mim a não ser que eu admiro a arte de Edward Hopper.
Além daquelas outras coisas... todas irrelevantes.
Mas eu sei que você sabe que eu não sei mais quem eu sou.
Ok. Eu não sei se você sabe, mas eu não sei mais quem eu sou.
E você sabe que eu sei que você não sabe mais quem você é.
Ok. Eu não sei se você sabe que eu sei. Na verdade, eu nem sei se você não sabe mais quem você é.
Tiros no escuro.
O fato é que temos algo em comum. Você gosta de jazz. Eu tenho insônia. E vice-versa.
Acredita que outro dia fui comprar um Kieslowski pela internet e encontrei um comentário seu sobre o filme no site? Você gostou. Eu também. Pois é...
Então, será que você poderia aparecer, qualquer dia desses, pra me tirar dessa rotina cigarros-cervejas-je t'aime tant? Ou, quem sabe, juntar-se a mim nesses vícios e bobagens e tudo mais? Me ajudar a descobrir alguma coisa? Hã?
Não?
Ok. Certo. Então... será que você poderia, pelo menos, deixar um bilhete em baixo da minha porta, ou mandar um e-mail, ou qualquer coisa assim, dizendo algo do tipo: "Foi bem bom este começo de te conhecer, mas...adeus.". Já está bom pra mim.
Não totalmente bom, na verdade. Assim... eu realmente apreciaria se você justificasse o "adeus". Você sabe... algo como: "Você é feia, boba, chata e tem cara de mamão!" ou "I'm really sorry, lady, but you sucks!".
Obrigada!
...
Primeiro eu preciso explicar uma coisa. Veja... as últimas cartas foram dramáticas. É óbvio que não é nada daquilo. Bom... quase nada daquilo. Eu só estava sem idéias, então, fantasiei um pouco aquele nosso lance pra, você sabe, escrever alguma coisa agradável e romântica e blá, blá, blá. Enfim, eu já fiz isso milhões de vezes. Não é grande coisa.
Feito.
Ok. Então eu acendo um cigarro logo depois de ter esmagado uma bituca no cinzeiro e lamento por não ter mais cervejas na geladeira. E essa música... "je t'aime tant, je t'aime tant" - certo, isso não tem nada a ver com você, mas é o que a música diz e eu não consigo parar de ouvi-la.
Você... bem, você sumiu. Odessa?
Enfim...
O problema, moço, é que não sabemos de nada.
Eu não sei nada sobre você a não ser que você lê David Foster Wallace.
Você não sabe nada sobre mim a não ser que eu admiro a arte de Edward Hopper.
Além daquelas outras coisas... todas irrelevantes.
Mas eu sei que você sabe que eu não sei mais quem eu sou.
Ok. Eu não sei se você sabe, mas eu não sei mais quem eu sou.
E você sabe que eu sei que você não sabe mais quem você é.
Ok. Eu não sei se você sabe que eu sei. Na verdade, eu nem sei se você não sabe mais quem você é.
Tiros no escuro.
O fato é que temos algo em comum. Você gosta de jazz. Eu tenho insônia. E vice-versa.
Acredita que outro dia fui comprar um Kieslowski pela internet e encontrei um comentário seu sobre o filme no site? Você gostou. Eu também. Pois é...
Então, será que você poderia aparecer, qualquer dia desses, pra me tirar dessa rotina cigarros-cervejas-je t'aime tant? Ou, quem sabe, juntar-se a mim nesses vícios e bobagens e tudo mais? Me ajudar a descobrir alguma coisa? Hã?
Não?
Ok. Certo. Então... será que você poderia, pelo menos, deixar um bilhete em baixo da minha porta, ou mandar um e-mail, ou qualquer coisa assim, dizendo algo do tipo: "Foi bem bom este começo de te conhecer, mas...adeus.". Já está bom pra mim.
Não totalmente bom, na verdade. Assim... eu realmente apreciaria se você justificasse o "adeus". Você sabe... algo como: "Você é feia, boba, chata e tem cara de mamão!" ou "I'm really sorry, lady, but you sucks!".
Obrigada!
...
quinta-feira, outubro 25, 2007
Conformismo?
Moço... e se eu te disser que o problema é que não tenho saída a não ser viver nesse meio termo entre meu desejo de ganhar o mundo e minha preguiça pra sair da cama de manhã?
segunda-feira, outubro 15, 2007
Correspondência extraviada II
R.,
Triste precisar desse fundo negro para poder falar contigo. Sinto saudades da eletricidade de nossas conversas.
Hoje me veio uma provável resposta: o que te afastou de mim foi a mesma coisa que um dia te tornou possível. Ao menos foi a essa conclusão que cheguei depois de quase dezoito mil horas sem que nada mais me viesse de ti. Estou certa?
Eu sinto cada minuto, moço, e já são mais de dois anos. O tempo quase não passa, os dias se repetem. Eu anseio pelos fins de tarde, na esperança de encontrar algo teu na caixa de correio ou de te ver postado à minha porta, trazendo respostas ou mesmo só um silêncio, que eu suponho que teu silêncio me possa dizer muitas coisas. Mas tu não vens.
E é engraçado que a tua ausência seja capaz de deixar-me assim, tão ausente de mim mesma, porque a verdade é que eu nem sei ao certo quem tu és. Quero dizer, eu sei de tua rotina de anos atrás, sei de teus talentos e de tuas formas, mas nada além. E não entendo porque me perco tanto te buscando. Saio de casa todos os dias pronta pra te encontrar em alguma esquina. Visito tua praça, teus bares. Não há, em qualquer lugar, qualquer vestígio de ti.
Fato que a nossa história é por demais incerta e cheia de lacunas. E eu só sei que existiu uma história porque me pareceu muito real o teu rosto corado, teu amontoado de idéias, teus elogios exagerados, tuas despedidas espirituosas em francês e tudo mais. Mas depois, teu sumiço, minhas súplicas e um vazio foi tudo o que ficou.
E eu procuro no vácuo por explicações para o teu atraso. Já enredei-me em mais de cem hipóteses, assumi erros, deslizes, acreditei em coincidências, em destino, formulei teorias de conspirações, te vi com medo, te vi com nojo, te vi com raiva. E não me canso.
Talvez tu tenhas morrido. Quem sabe?
Sabe, moço, eu fico procurando palavras para não repetir as tuas, estas que esqueceste sobre o criado-mudo no dia em que resolveste partir, as últimas letras de ti que me ficaram e que parecem resumir minhas sensações sobre a tua chegada e sobre a tua partida. Bem sei que falavas ao acaso ou talvez sobre uma outra moça, de olhos mais verdes que os meus, mas me vejo nas entrelinhas e gosto de pensar que há mesmo um pouco de mim nas tuas angústias, naquelas angústias de quinta-feira, ao menos.
Fato que ficaram coisas demais por serem ditas, coisas demais...
O mundo é mosaico, moço, tu já me havias dito, somos ladrilhos errantes. Mas eu não tenho cores, te enganaste. Eu acho que sou a sobra de azulejo bege que só caberia em paisagem de areia. Mas todas as paisagens de areia estão completas e então eu fico por aqui... sendo sobra de azulejo bege... e só.
...
Triste precisar desse fundo negro para poder falar contigo. Sinto saudades da eletricidade de nossas conversas.
Hoje me veio uma provável resposta: o que te afastou de mim foi a mesma coisa que um dia te tornou possível. Ao menos foi a essa conclusão que cheguei depois de quase dezoito mil horas sem que nada mais me viesse de ti. Estou certa?
Eu sinto cada minuto, moço, e já são mais de dois anos. O tempo quase não passa, os dias se repetem. Eu anseio pelos fins de tarde, na esperança de encontrar algo teu na caixa de correio ou de te ver postado à minha porta, trazendo respostas ou mesmo só um silêncio, que eu suponho que teu silêncio me possa dizer muitas coisas. Mas tu não vens.
E é engraçado que a tua ausência seja capaz de deixar-me assim, tão ausente de mim mesma, porque a verdade é que eu nem sei ao certo quem tu és. Quero dizer, eu sei de tua rotina de anos atrás, sei de teus talentos e de tuas formas, mas nada além. E não entendo porque me perco tanto te buscando. Saio de casa todos os dias pronta pra te encontrar em alguma esquina. Visito tua praça, teus bares. Não há, em qualquer lugar, qualquer vestígio de ti.
Fato que a nossa história é por demais incerta e cheia de lacunas. E eu só sei que existiu uma história porque me pareceu muito real o teu rosto corado, teu amontoado de idéias, teus elogios exagerados, tuas despedidas espirituosas em francês e tudo mais. Mas depois, teu sumiço, minhas súplicas e um vazio foi tudo o que ficou.
E eu procuro no vácuo por explicações para o teu atraso. Já enredei-me em mais de cem hipóteses, assumi erros, deslizes, acreditei em coincidências, em destino, formulei teorias de conspirações, te vi com medo, te vi com nojo, te vi com raiva. E não me canso.
Talvez tu tenhas morrido. Quem sabe?
Sabe, moço, eu fico procurando palavras para não repetir as tuas, estas que esqueceste sobre o criado-mudo no dia em que resolveste partir, as últimas letras de ti que me ficaram e que parecem resumir minhas sensações sobre a tua chegada e sobre a tua partida. Bem sei que falavas ao acaso ou talvez sobre uma outra moça, de olhos mais verdes que os meus, mas me vejo nas entrelinhas e gosto de pensar que há mesmo um pouco de mim nas tuas angústias, naquelas angústias de quinta-feira, ao menos.
Fato que ficaram coisas demais por serem ditas, coisas demais...
O mundo é mosaico, moço, tu já me havias dito, somos ladrilhos errantes. Mas eu não tenho cores, te enganaste. Eu acho que sou a sobra de azulejo bege que só caberia em paisagem de areia. Mas todas as paisagens de areia estão completas e então eu fico por aqui... sendo sobra de azulejo bege... e só.
...
domingo, outubro 07, 2007
Sutileza
Ah, eu sou delicada? Você sabe tanto sobre mim! É, eu sou simpática, eu sou companheira, uma ótima companhia e o escambau. Eu sou compreensiva, dou bons conselhos, entendo a essência da alma humana e digo coisas, assim, liiiindas sobre os sentimentos e blá blá blá. Eu sou tão competente e inteligente que meu pai deveria ter me mandado para um colégio de superdotados na França quando eu era pequena. Claro, claro. Eu sou guerreira, batalhadora, vencedora, amiga e todos os outros substantivos adjetivados bregas que você conseguir imaginar.
O que você não sabe, darling, é que eu sofro horrores dessa vontade absurda de puxar o gatilho toda vez que você abre a sua maldita boca!
O que você não sabe, darling, é que eu sofro horrores dessa vontade absurda de puxar o gatilho toda vez que você abre a sua maldita boca!
sexta-feira, outubro 05, 2007
I CAN'T go with the flow
Eu vou descobrindo coisas pelo caminho. Todos os dias me chegam notícias aos ouvidos. Algumas ruins, outras boas. Nenhuma mesmo péssima ou sensacional. O mundo anda meio morno. Essa cidade, na verdade, essas paredes andam meio mornas. O mundo eu não sei.
Eu sinto que estou me repetindo indefinidamente e não consigo parar. A verdade é que tenho tido mais de mil idéias por minuto, por segundo. E meus dedos não acompanham meu cérebro e falta tinta nas canetas e acaba sobrando só a mesmice, essas reclamações redondas, esses suicídios nas entrelinhas, esses homicídios escancarados, essa vontade batida de jogar uma mochila nas costas, deixar de pagar as contas, gastar todo meu dinheiro em uma passagem pra Europa, pra África, pra Oceania ou para o Maldito Cafundó Onde Judas Esqueceu Suas Famosas Botas e perder o vôo de volta.
Que seja! Cerveja, cigarros e Queens Of The Stone Age no player. Bah!
Eu sinto que estou me repetindo indefinidamente e não consigo parar. A verdade é que tenho tido mais de mil idéias por minuto, por segundo. E meus dedos não acompanham meu cérebro e falta tinta nas canetas e acaba sobrando só a mesmice, essas reclamações redondas, esses suicídios nas entrelinhas, esses homicídios escancarados, essa vontade batida de jogar uma mochila nas costas, deixar de pagar as contas, gastar todo meu dinheiro em uma passagem pra Europa, pra África, pra Oceania ou para o Maldito Cafundó Onde Judas Esqueceu Suas Famosas Botas e perder o vôo de volta.
Que seja! Cerveja, cigarros e Queens Of The Stone Age no player. Bah!
quarta-feira, outubro 03, 2007
C
C é uma pessoa única e é várias pessoas, por assim dizer. É um camaleão serelepe que se disfarça de si mesmo em diferentes formas e diversas vezes, mas é sempre igual. C tem sempre aquele sorriso que aprova ou desaprova alguma besteira que a gente diz ou uma ou outra grande idéia que a gente tem. C quase nunca chora e procura se manter acima dessa tristeza infundada que os outros costumam sentir. C é mulher dona de seu próprio nariz e costuma não reparar e nem se importar com o tamanho ou a forma do nariz dos outros.
C é um poço de mistérios que eu julgo ter revelados, é paradoxal: ora dona do silêncio, ora rainha do dinamismo.
C é artística, em todos os sentidos, mas insiste, não sei se por vaidade ou por descrença, em não admitir seus muitos talentos. Não gosta de elogios exagerados e aceita bem as críticas. Cá entre nós, C não se sabe tanto quanto é.
C esteve sempre presente, desde os tempos da minha timidez até para perguntar as horas. C não se lembra, mas nos conhecemos jogando basquete no colégio, quando eu ainda usava tênis cor-de-rosa e calças saint tropez. C sabe de todas as minhas paixões e já se riu de mim inúmeras vezes, sem nenhuma cerimônia. Cresceu junto comigo e, apesar de sermos totalmente diferentes, somos, no fundo, quase idênticas.
C está em um grupo de poucos amigos. Daqueles que a gente não esquece nem que se esforce, daqueles cujo número do telefone está sempre rabiscado num cantinho da memória, ainda que demore meses para ser discado.
C mistura tons de cor-de-rosa-choque e preto. Um preto noite, cheio de segredos, onde brilham estrelas que a gente pode ver perfeitamente mas que, na verdade, estão mais longe do que dá pra imaginar.
C é um poço de mistérios que eu julgo ter revelados, é paradoxal: ora dona do silêncio, ora rainha do dinamismo.
C é artística, em todos os sentidos, mas insiste, não sei se por vaidade ou por descrença, em não admitir seus muitos talentos. Não gosta de elogios exagerados e aceita bem as críticas. Cá entre nós, C não se sabe tanto quanto é.
C esteve sempre presente, desde os tempos da minha timidez até para perguntar as horas. C não se lembra, mas nos conhecemos jogando basquete no colégio, quando eu ainda usava tênis cor-de-rosa e calças saint tropez. C sabe de todas as minhas paixões e já se riu de mim inúmeras vezes, sem nenhuma cerimônia. Cresceu junto comigo e, apesar de sermos totalmente diferentes, somos, no fundo, quase idênticas.
C está em um grupo de poucos amigos. Daqueles que a gente não esquece nem que se esforce, daqueles cujo número do telefone está sempre rabiscado num cantinho da memória, ainda que demore meses para ser discado.
C mistura tons de cor-de-rosa-choque e preto. Um preto noite, cheio de segredos, onde brilham estrelas que a gente pode ver perfeitamente mas que, na verdade, estão mais longe do que dá pra imaginar.
segunda-feira, outubro 01, 2007
Hífens
- Di-a pri-mei-ro de ou-tu-bro. Se-gun-da fei-ra.
Ela falou assim, separando as sílabas, riscando hífens no ar com o indicador da mão direita. Depois contou que gosta de dias primeiros que caem em segundas-feiras. Dá vontade de recomeçar, ela disse.
- Recomeçar o que?
- Ah, sei lá, qualquer coisa... a dieta?
- Hum...
- Ai, mas que desânimo, Anna! Cruz-credo!
Ela falou assim, separando as sílabas, riscando hífens no ar com o indicador da mão direita. Depois contou que gosta de dias primeiros que caem em segundas-feiras. Dá vontade de recomeçar, ela disse.
- Recomeçar o que?
- Ah, sei lá, qualquer coisa... a dieta?
- Hum...
- Ai, mas que desânimo, Anna! Cruz-credo!
sábado, setembro 29, 2007
Momento
Interrogações formadas por fios de cabelo na porta do box.
Jogo água...
E todas as minhas dúvidas se vão pelo ralo.
Jogo água...
E todas as minhas dúvidas se vão pelo ralo.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Oh, yeah, of course...
É tipo um enjôo, ainda que não exatamente. Os dias se repetem. Todas as manhãs maldigo a vida que levo. Depois me convenço de que sou feliz e de que devo acreditar em todas as mentiras que me conto, que me contam. Sinto náuseas.
Eu acordo tarde demais. Sempre. Ainda que me comprometa seriamente ao contrário antes de dormir. Me arrasto até o chuveiro. Fumo um cigarro no caminho para o trabalho. Trabalho. Tenho evitado bom dias porque as réplicas soam por demais irônicas e me irritam. Meus pensamentos são mecânicos. Vontades quase incontroláveis de explodir as coisas todas, as pessoas, os lugares.
Eu não sei exatamente o porquê, mas alguns me julgam competente. Depois falam de minhas olheiras, que eu trabalho demais. Como se não soubessem que só o faço por falta de opção. Odeio políticas de boa vizinhança. As preocupações são ensaiadas e os conselhos, inúteis. Suspiro. Desejo ter uma arma na bolsa.
Passo os dias sangrando os dedos sobre o teclado. Tomo dois litros de coca-cola. Levanto-me apenas para ir ao banheiro. Não me olho no espelho porque ele denuncia minha hipocrisia e me faz querer vomitar. Alucino um pouco. O dia de trabalho tem longas horas que ora parecem demais, ora parecem de menos. De um jeito ou de outro, eu tenho sempre que estar lá. Nada vale a pena.
Adio compromissos porque me falta tempo. Eu gosto de pensar que estou adiando compromissos, mas a verdade é que eu estou me adiando, me deixando pra amanhã, pra amanhã, pra amanhã. Todos os dias.
E os momentos, aqueles de cerveja e riso. Eu quero, eu me apego. Eu me desapego, eu já não quero mais. Eu reclamo, eu tripudio, eu me rio de mim mesma, os outros riem de mim. Divertido. Uma fuga. Mas eu sempre tenho que voltar pra casa, pra cama, pro chuveiro, pro caminho do trabalho.
A velha do apartamento ao lado do meu me diz que emagreci. Tenho vontade de dizer que a verdade é que engordei três malditos quilos no último mês, mas não digo. Agradeço o que parece ser um elogio e sorrio. Ela sorri de volta. O mesmo sorriso das inúmeras vezes em que subo cinco andares de escada porque ela está segurando a maldita porta do elevador.
A verdade é que não existe nada além das paredes do meu quarto. O tal mundo lá fora é um reflexo de mim. Auto-ajuda. Repito mantras, medito, bebo erva de São João e vou dormir. Ha! O dia de amanhã há de ser um dia melhor. Não existe mesmo jeito de ele ser pior do que o de hoje.
Eu acordo tarde demais. Sempre. Ainda que me comprometa seriamente ao contrário antes de dormir. Me arrasto até o chuveiro. Fumo um cigarro no caminho para o trabalho. Trabalho. Tenho evitado bom dias porque as réplicas soam por demais irônicas e me irritam. Meus pensamentos são mecânicos. Vontades quase incontroláveis de explodir as coisas todas, as pessoas, os lugares.
Eu não sei exatamente o porquê, mas alguns me julgam competente. Depois falam de minhas olheiras, que eu trabalho demais. Como se não soubessem que só o faço por falta de opção. Odeio políticas de boa vizinhança. As preocupações são ensaiadas e os conselhos, inúteis. Suspiro. Desejo ter uma arma na bolsa.
Passo os dias sangrando os dedos sobre o teclado. Tomo dois litros de coca-cola. Levanto-me apenas para ir ao banheiro. Não me olho no espelho porque ele denuncia minha hipocrisia e me faz querer vomitar. Alucino um pouco. O dia de trabalho tem longas horas que ora parecem demais, ora parecem de menos. De um jeito ou de outro, eu tenho sempre que estar lá. Nada vale a pena.
Adio compromissos porque me falta tempo. Eu gosto de pensar que estou adiando compromissos, mas a verdade é que eu estou me adiando, me deixando pra amanhã, pra amanhã, pra amanhã. Todos os dias.
E os momentos, aqueles de cerveja e riso. Eu quero, eu me apego. Eu me desapego, eu já não quero mais. Eu reclamo, eu tripudio, eu me rio de mim mesma, os outros riem de mim. Divertido. Uma fuga. Mas eu sempre tenho que voltar pra casa, pra cama, pro chuveiro, pro caminho do trabalho.
A velha do apartamento ao lado do meu me diz que emagreci. Tenho vontade de dizer que a verdade é que engordei três malditos quilos no último mês, mas não digo. Agradeço o que parece ser um elogio e sorrio. Ela sorri de volta. O mesmo sorriso das inúmeras vezes em que subo cinco andares de escada porque ela está segurando a maldita porta do elevador.
A verdade é que não existe nada além das paredes do meu quarto. O tal mundo lá fora é um reflexo de mim. Auto-ajuda. Repito mantras, medito, bebo erva de São João e vou dormir. Ha! O dia de amanhã há de ser um dia melhor. Não existe mesmo jeito de ele ser pior do que o de hoje.
quinta-feira, setembro 27, 2007
Das coisas que não foram...
Hoje contei tua história pra mais um alguém. Falei de como viestes e de como fostes tantas vezes e da tal afinidade e de minha estupidez e das coincidências, as boas, as más...
Eu queria viajar no tempo, baby. Voltar p'raquela noite fria em que me notastes. E eu faria tudo diferente dessa vez.
Eu queria viajar no tempo, baby. Voltar p'raquela noite fria em que me notastes. E eu faria tudo diferente dessa vez.
quarta-feira, setembro 26, 2007
Migalhas
Acordei febril, dez da manhã, não fui trabalhar. Sentei-me em frente ao computador, escrevi mil coisas. De repente uma voz de mulher, vinda da rua, grita: "anda, anda, já são seis!". Eram seis da tarde. Não sei onde eu estive no dia de hoje.
domingo, setembro 23, 2007
D
D dorme de toca. Literalmente. E só consegue sobreviver ao resto do dia se tomar um bom banho pela manhã. E isso é mais ou menos noventa por cento de tudo o que eu sei sobre D.
D é distante demais. Na maioria das vezes, fala somente com gestos, ainda que suas palavras ecoem mudas pelo ambiente. Insiste em dirigir-se a mim pelo meu nome completo, com todas as letras, e me faz elogios que, de tão desvelados, ruborizam-me as faces e me fazem sempre repetir que é tudo um exagero.
D tem sonhos que eu desconheço, mas que posso identificar quando percebo o desapego que ele tem das coisas às quais o mundo todo costuma se apegar. D se doa mais do que deveria, como ele mesmo reconhece, e isso acaba por torná-lo ainda mais admirável, ainda que triste. D guarda seu coração em um enorme vidro de conserva.
D não é imagem, é pensamento, é idéia que se forma depois de alguns minutos de silêncio, enquanto ele transmuta todas as nossas primeiras impressões.
D também é gourmet. De mão e boca cheia. E, inclusive por isso, forte candidato a meu padrinho de casamento e a convidado especial de almoços e jantares em meu futuro lar (isso se um dia eu chegar a me casar).
D é daquele tipo de amigo que a mãe da gente sempre gosta. É o clássico "boa gente", ainda que descrevê-lo seja uma tarefa árdua que jamais se resumiria a duas simples palavras genéricas.
D é vermelho. Por dentro e por fora. De um vermelho-vida, que ele transpira por todos os poros. E isso é tudo o que eu posso dizer sobre D.
D é distante demais. Na maioria das vezes, fala somente com gestos, ainda que suas palavras ecoem mudas pelo ambiente. Insiste em dirigir-se a mim pelo meu nome completo, com todas as letras, e me faz elogios que, de tão desvelados, ruborizam-me as faces e me fazem sempre repetir que é tudo um exagero.
D tem sonhos que eu desconheço, mas que posso identificar quando percebo o desapego que ele tem das coisas às quais o mundo todo costuma se apegar. D se doa mais do que deveria, como ele mesmo reconhece, e isso acaba por torná-lo ainda mais admirável, ainda que triste. D guarda seu coração em um enorme vidro de conserva.
D não é imagem, é pensamento, é idéia que se forma depois de alguns minutos de silêncio, enquanto ele transmuta todas as nossas primeiras impressões.
D também é gourmet. De mão e boca cheia. E, inclusive por isso, forte candidato a meu padrinho de casamento e a convidado especial de almoços e jantares em meu futuro lar (isso se um dia eu chegar a me casar).
D é daquele tipo de amigo que a mãe da gente sempre gosta. É o clássico "boa gente", ainda que descrevê-lo seja uma tarefa árdua que jamais se resumiria a duas simples palavras genéricas.
D é vermelho. Por dentro e por fora. De um vermelho-vida, que ele transpira por todos os poros. E isso é tudo o que eu posso dizer sobre D.
quinta-feira, setembro 20, 2007
De mim, nos outros...
"They are playing a game. They are playing at not playing a game. If I show them I see they are, I shall break the rules and they will punish me. I must play their game, of not seeing I see the game."
R.D. Laing: Knots
R.D. Laing: Knots
sábado, setembro 15, 2007
Fragmentos de cadernetas III
Há sol. Sempre há sol. Mas o céu está cheio de nuvens. Eu, cá, sentada a uma das mesas do Café, na calçada, sob o toldo, sinto frio. Existe uma mesa ensolarada e penso se devo sentar-me por lá. Preguiça. Sono. Cogito ir dormir no chão do toalete feminino. Meus olhos estão se fechando. Os fins de tarde são sempre assim, morosos.
Ainda faltam vinte minutos e o banheiro está ocupado. Meus pés estão congelando. Sono. Muito sono. Vou acabar dormindo sobre a mesa. Minha letra sai mais borrada do que deveria e sinto vontade de abreviar as palavras. Preciso de algo que me desperte e essa água com gás não está adiantando. Cafeína. A idéia me faz levantar da cadeira e me arrastar até dentro do Café para pedir um espresso, bem forte. Não entendo porque espresso não se escreve com "x".
O atendimento aqui é péssimo, embora os donos, um casal de japoneses, sejam muito simpáticos. Um tanto quanto sem noção, é fato. Costumam me fazer agradinhos porque sou cliente assídua. Ontem, no almoço, me trouxeram um rissole de carne junto com o prato executivo que pedi. Eu acho que rissole não combina muito com arroz, feijão, bife e salada. Comi por educação.
Há um shopping logo ali na esquina. Um pequeno shopping. O nome é Springfield. Engraçado. Não. Engraçado seria ver o Homer Simpson sentando-se na mesa ao lado e pedindo uma cerveja.
Meu café chegou depois de não sei quantos longos e tenebrosos minutos. O primeiro gole me queimou a língua e vejo que isso foi bem mais eficaz para me fazer despertar do que a cafeína em si.
Eu já disse que, às vezes, odeio barulhos de moto? Passam muitas motos por aqui.
Tem esse menino, o garçom. Ele me olha estranho. Valdisnei, o nome dele (ele me disse outro dia, sem que eu perguntasse). Acaba de interromper meus pensamentos pra perguntar se eu conheço um bar chamado "Rodeio", no Bacacheri. Tive vontade de dizer que detesto qualquer coisa relacionada a rodeio e que jamais fui, nem tenho a menor intenção de ir, até o Bacacheri. Respondi somente que não, não conheço, e sorri. Ele se espantou. Arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão direita, soltou um ruído ininteligível e então disse que "todo mundo conhece, sempre lota, só no sábado deu mais de mil e quinhentas pessoas lá". Veio-me a vontade de um "Zeus que me livre", mas eu apenas sorri, mais uma vez. Ele disse que quando eu quiser conhecer o tal bar é pra falar com ele que ele me arranja convites. Reparem no "quando", ele não assumiu um "se por acaso". Ok.
Os vinte minutos já se passaram. Eu estou esperando o moço que sempre se atrasa. Acendo um cigarro. Já é o quinto desde que me sentei aqui, há pouco mais de uma hora. Sono. Muito sono. O café acabou. A língua já não arde mais. Bart Simpson acaba de passar apressado, de skate. Está começando a escurecer.
Ainda faltam vinte minutos e o banheiro está ocupado. Meus pés estão congelando. Sono. Muito sono. Vou acabar dormindo sobre a mesa. Minha letra sai mais borrada do que deveria e sinto vontade de abreviar as palavras. Preciso de algo que me desperte e essa água com gás não está adiantando. Cafeína. A idéia me faz levantar da cadeira e me arrastar até dentro do Café para pedir um espresso, bem forte. Não entendo porque espresso não se escreve com "x".
O atendimento aqui é péssimo, embora os donos, um casal de japoneses, sejam muito simpáticos. Um tanto quanto sem noção, é fato. Costumam me fazer agradinhos porque sou cliente assídua. Ontem, no almoço, me trouxeram um rissole de carne junto com o prato executivo que pedi. Eu acho que rissole não combina muito com arroz, feijão, bife e salada. Comi por educação.
Há um shopping logo ali na esquina. Um pequeno shopping. O nome é Springfield. Engraçado. Não. Engraçado seria ver o Homer Simpson sentando-se na mesa ao lado e pedindo uma cerveja.
Meu café chegou depois de não sei quantos longos e tenebrosos minutos. O primeiro gole me queimou a língua e vejo que isso foi bem mais eficaz para me fazer despertar do que a cafeína em si.
Eu já disse que, às vezes, odeio barulhos de moto? Passam muitas motos por aqui.
Tem esse menino, o garçom. Ele me olha estranho. Valdisnei, o nome dele (ele me disse outro dia, sem que eu perguntasse). Acaba de interromper meus pensamentos pra perguntar se eu conheço um bar chamado "Rodeio", no Bacacheri. Tive vontade de dizer que detesto qualquer coisa relacionada a rodeio e que jamais fui, nem tenho a menor intenção de ir, até o Bacacheri. Respondi somente que não, não conheço, e sorri. Ele se espantou. Arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão direita, soltou um ruído ininteligível e então disse que "todo mundo conhece, sempre lota, só no sábado deu mais de mil e quinhentas pessoas lá". Veio-me a vontade de um "Zeus que me livre", mas eu apenas sorri, mais uma vez. Ele disse que quando eu quiser conhecer o tal bar é pra falar com ele que ele me arranja convites. Reparem no "quando", ele não assumiu um "se por acaso". Ok.
Os vinte minutos já se passaram. Eu estou esperando o moço que sempre se atrasa. Acendo um cigarro. Já é o quinto desde que me sentei aqui, há pouco mais de uma hora. Sono. Muito sono. O café acabou. A língua já não arde mais. Bart Simpson acaba de passar apressado, de skate. Está começando a escurecer.
quinta-feira, setembro 13, 2007
A outra
Existe essa, que me espreita. Uma irmã gêmea. Veste as mesmas roupas que eu e penteia os cabelos do mesmo jeito. Faz pouco mais de um mês, dois talvez, que ela começou a aparecer. Eu pintava os olhos em frente ao espelho e a vi sentada no umbral da janela, fitando-me, com cara de nada. Susto. Gritei por socorro. Corri porta afora. Depois voltei, crendo ter tido uma alucinação. Ela ainda estava lá. Perguntei quem era ela e ela apontou um dedo torto na direção de meu reflexo no espelho. Mandei que saísse e ela deu de ombros. Perguntei o que diabos ela fazia ali e ela deu de ombros mais uma vez. Ela não fala. Até agora não disse palavra.
Houve uma vez. Eu assistia a um programa besta na televisão e ela apareceu. Sentou-se à mesa, apoiou os cotovelos no tampo de vidro e ficou me olhando. Eu questionei de novo a sua presença, a sua cara de nada. Mas, dessa vez, ao invés de simplesmente dar de ombros, como na primeira, como em todas as outras vezes, ela me fulminou com um olhar diabólico. Senti medo. Um medo ainda mais aterrorizante do que o que eu costumava sentir sempre que ela surgia. Saí de casa, como quem foge. Passei ao lado dela, medindo os passos, como se temesse que ela fosse se levantar da cadeira e lutar comigo até que meu corpo exausto despencasse da janela. Quinto andar.
No começo, ela aparecia apenas quando não havia outras pessoas por perto. Então, eu me sentia segura, lá fora, na rua. Fiquei dias perambulando pelos bares, parques, shoppings, dormindo em casas de amigos. Mas existe esse negócio de morar e eu precisei voltar. Quando entrei em casa, ela não estava. Senti-me aliviada, mas tensa. Ela esteve ausente por mais de uma semana. Depois voltou. Surgiu do nada, encostada na parede do corredor, uma mão na cintura, mordendo as cutículas da outra com seus dentes brancos como cal, iguais aos meus.
A presença dela me incomodava. Meu coração acelerava cada vez que ela fazia um movimento. Eu deixava escapar um putaqueopariu ou algo do gênero. Pânico. Fazia cara de espanto. Sei que fazia cara de espanto porque ela tem essa mania estúpida de reproduzir meus gestos do mesmo jeito que as crianças costumam fazer quando querem zombar de você. Aí ela me olhava, com aquela expressão diabólica e ria. Gargalhadas silenciosas.
O gato tinha medo dela. No dia em que ela surgiu, ele se escondeu na despensa e não saiu mais de lá. Quando eu ia lhe fazer um agrado ele soltava grunhidos, eriçava os pêlos, fugia de mim. Eu lhe dizia que estava tudo bem, que era eu, não a outra, e então ele me mostrava as garras. Acho que passou a ter medo de mim também. Somos iguais, eu e a outra. Um dia a porta do apartamento amanheceu aberta e o gato não estava mais.
Há algumas semanas, recomendaram-me um psiquiatra. É engraçado ver como as pessoas reagem quando você lhes conta coisas fantásticas. Primeiro elas se surpreendem. Depois compartilham da sua loucura e te contam causos sobre fantasmas e vozes do além. Finalmente, quando elas concluem que você perdeu completamente a noção da realidade, elas te recomendam um psiquiatra.
A coisa fica diferente quando você conta a sua história para o psiquiatra. Ele não pode demonstrar surpresa. Ele não pode dividir com você as histórias bizarras sobre os fenômenos estranhos que ele já presenciou. Ele também não pode te recomendar um psiquiatra. Então ele te fala sobre um transtorno assim assado, sobre frenias e manias e te dá uma receita. Tarja preta. Isso há de resolver, volte daqui uma semana.
Eu sempre soube que ela é apenas coisa da minha cabeça, que é só a minha imaginação. Mas você se sente um tanto perturbado quando a sua imaginação toma forma humana e passa a perambular pelos cômodos da sua casa, te seguindo, te julgando, te fazendo sentir medo da própria sombra.
Comprei o remédio. Tomei o remédio. Não adiantou. Ela continuou por perto. Ela suspirava e fazia cara de deboche quando eu tirava um comprimido da cartela.
Voltei ao psiquiatra depois de uma semana. Ela foi comigo. Acho que foi a primeira vez que saiu de casa. Contei a ele que o remédio não estava resolvendo, que a coisa havia piorado, disse-lhe que a outra estava ali, no consultório, parada em pé ao meu lado. Imaginei que ele ficaria preocupado, falaria comigo, confirmaria minha tese de que ela era apenas a minha imaginação, me faria entender alguma coisa. Ao invés disso ele concordou, disse que sabia que ela estava ali, que também podia vê-la. Eu a fitei com o canto dos olhos e ela fez que não com a cabeça. O doutor sugeriu internação. Falou sobre uma clínica, um lugar no qual a outra estaria proibida de entrar, e sobre um tratamento, que eu estava muito abalada, e sobre outras coisas nas quais eu não prestei muita atenção. Acho que falou também sobre o quanto era horrível ter a cabeça esmagada por uma enciclopédia médica. Eu não quero me internar.
Isso foi ontem. Hoje, quando acordei pela manhã, a outra estava sentada ao pé da cama, tamborilando os dedos na madeira do estrado. Não sei exatamente o porquê, mas eu não sinto mais medo dela, ainda que a sua presença não seja exatamente agradável.
Ela tem feições, essa moça, essa coisa. Olha-me com pena quando eu choro. Franze a testa e faz biquinho quando eu acendo um cigarro ou quando abro uma lata de cerveja. Ela arregala os olhos enquanto eu praguejo em voz alta, tapa os ouvidos enquanto eu canto em russo, lambe os beiços enquanto eu preparo uma omelete. Ela me irrita, é fato.
Resolvi que vou pintar as paredes da casa. Algo me diz que talvez eu só esteja precisando renovar o ambiente para me ver livre dessas insanidades. Ela suspira e faz cara de deboche quando eu digo em voz alta coisas como essa.
Houve uma vez. Eu assistia a um programa besta na televisão e ela apareceu. Sentou-se à mesa, apoiou os cotovelos no tampo de vidro e ficou me olhando. Eu questionei de novo a sua presença, a sua cara de nada. Mas, dessa vez, ao invés de simplesmente dar de ombros, como na primeira, como em todas as outras vezes, ela me fulminou com um olhar diabólico. Senti medo. Um medo ainda mais aterrorizante do que o que eu costumava sentir sempre que ela surgia. Saí de casa, como quem foge. Passei ao lado dela, medindo os passos, como se temesse que ela fosse se levantar da cadeira e lutar comigo até que meu corpo exausto despencasse da janela. Quinto andar.
No começo, ela aparecia apenas quando não havia outras pessoas por perto. Então, eu me sentia segura, lá fora, na rua. Fiquei dias perambulando pelos bares, parques, shoppings, dormindo em casas de amigos. Mas existe esse negócio de morar e eu precisei voltar. Quando entrei em casa, ela não estava. Senti-me aliviada, mas tensa. Ela esteve ausente por mais de uma semana. Depois voltou. Surgiu do nada, encostada na parede do corredor, uma mão na cintura, mordendo as cutículas da outra com seus dentes brancos como cal, iguais aos meus.
A presença dela me incomodava. Meu coração acelerava cada vez que ela fazia um movimento. Eu deixava escapar um putaqueopariu ou algo do gênero. Pânico. Fazia cara de espanto. Sei que fazia cara de espanto porque ela tem essa mania estúpida de reproduzir meus gestos do mesmo jeito que as crianças costumam fazer quando querem zombar de você. Aí ela me olhava, com aquela expressão diabólica e ria. Gargalhadas silenciosas.
O gato tinha medo dela. No dia em que ela surgiu, ele se escondeu na despensa e não saiu mais de lá. Quando eu ia lhe fazer um agrado ele soltava grunhidos, eriçava os pêlos, fugia de mim. Eu lhe dizia que estava tudo bem, que era eu, não a outra, e então ele me mostrava as garras. Acho que passou a ter medo de mim também. Somos iguais, eu e a outra. Um dia a porta do apartamento amanheceu aberta e o gato não estava mais.
Há algumas semanas, recomendaram-me um psiquiatra. É engraçado ver como as pessoas reagem quando você lhes conta coisas fantásticas. Primeiro elas se surpreendem. Depois compartilham da sua loucura e te contam causos sobre fantasmas e vozes do além. Finalmente, quando elas concluem que você perdeu completamente a noção da realidade, elas te recomendam um psiquiatra.
A coisa fica diferente quando você conta a sua história para o psiquiatra. Ele não pode demonstrar surpresa. Ele não pode dividir com você as histórias bizarras sobre os fenômenos estranhos que ele já presenciou. Ele também não pode te recomendar um psiquiatra. Então ele te fala sobre um transtorno assim assado, sobre frenias e manias e te dá uma receita. Tarja preta. Isso há de resolver, volte daqui uma semana.
Eu sempre soube que ela é apenas coisa da minha cabeça, que é só a minha imaginação. Mas você se sente um tanto perturbado quando a sua imaginação toma forma humana e passa a perambular pelos cômodos da sua casa, te seguindo, te julgando, te fazendo sentir medo da própria sombra.
Comprei o remédio. Tomei o remédio. Não adiantou. Ela continuou por perto. Ela suspirava e fazia cara de deboche quando eu tirava um comprimido da cartela.
Voltei ao psiquiatra depois de uma semana. Ela foi comigo. Acho que foi a primeira vez que saiu de casa. Contei a ele que o remédio não estava resolvendo, que a coisa havia piorado, disse-lhe que a outra estava ali, no consultório, parada em pé ao meu lado. Imaginei que ele ficaria preocupado, falaria comigo, confirmaria minha tese de que ela era apenas a minha imaginação, me faria entender alguma coisa. Ao invés disso ele concordou, disse que sabia que ela estava ali, que também podia vê-la. Eu a fitei com o canto dos olhos e ela fez que não com a cabeça. O doutor sugeriu internação. Falou sobre uma clínica, um lugar no qual a outra estaria proibida de entrar, e sobre um tratamento, que eu estava muito abalada, e sobre outras coisas nas quais eu não prestei muita atenção. Acho que falou também sobre o quanto era horrível ter a cabeça esmagada por uma enciclopédia médica. Eu não quero me internar.
Isso foi ontem. Hoje, quando acordei pela manhã, a outra estava sentada ao pé da cama, tamborilando os dedos na madeira do estrado. Não sei exatamente o porquê, mas eu não sinto mais medo dela, ainda que a sua presença não seja exatamente agradável.
Ela tem feições, essa moça, essa coisa. Olha-me com pena quando eu choro. Franze a testa e faz biquinho quando eu acendo um cigarro ou quando abro uma lata de cerveja. Ela arregala os olhos enquanto eu praguejo em voz alta, tapa os ouvidos enquanto eu canto em russo, lambe os beiços enquanto eu preparo uma omelete. Ela me irrita, é fato.
Resolvi que vou pintar as paredes da casa. Algo me diz que talvez eu só esteja precisando renovar o ambiente para me ver livre dessas insanidades. Ela suspira e faz cara de deboche quando eu digo em voz alta coisas como essa.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Pedaços
Eu mastigo. Um mastigar lento. Mastigo cem vezes antes de engolir. Mas não engulo, cuspo fora.
Passei meses tentando me acostumar. Hoje me dei conta de que já me acostumei há anos. Perdi pouco mais de uma década tentando me acostumar com o fato de que eu sempre estive acostumada. A constatação me deixou um tanto quanto louca. Fui fazer malas. Depois percebi que não tenho para onde ir. Há todo esse tal de mundo lá fora e eu não tenho para onde ir. Eu nunca deveria ter me acostumado.
Acontece que foi fácil. Cheguei e fui me largando pelos cômodos. Não hesitei. Deixei-me levar pela preguiça em algumas vezes. Em outras, me permiti um pouco de pressa. Fato que me acomodei entre domingos de ócio e semanas velozes. Rotina. E fui ficando por aqui. Escolhi a cor das paredes, mas me faltou dinheiro pra comprar a tinta porque investi tudo em parafernálias tecnológicas. Informação. Eu vejo, escuto. É estranho que nada faça sentido.
Paciência. Sempre tive essa facilidade para aceitar as coisas. Não as idéias, os fatos - ainda que, inconscientemente, eu tenha tomado algumas idéias como fatos e me enterrado em buracos dos quais ficou impossível sair. No começo me faltou ar. Depois eu simplesmente deixei de respirar. Havia sempre as lições que eu precisava aprender, os lugares que eu precisava conhecer, as pessoas com as quais eu precisava me relacionar. Nunca existiu qualquer vontade. Era tudo mecânico.
O tempo todo aquela sensação de não, não assim. Eu tentava ignorar. A idéia estúpida de que eu devia me acostumar. Exercitei minha tolerância. Sem perceber, transformei tudo em resignação. Foi inconsciente. Houve uma época em que até existiu uma revolta oculta. Eu praguejei, fiz planos malucos. Mas havia sempre uma aceitação latente, um "que seja" escondido atrás de cada "nem pensar" que me vinha.
O que eu quero dizer é que sei dessa fome. Sempre tive essa vontade urgente de fugir de todos os meus malditos princípios. Mas nunca tentei, nunca me permiti arroubos. Os outros doem em mim e é engraçado que eu não sinta a mínima vontade de doer um pouco neles também, vê-los mordendo os lábios, me rogando pragas, tendo calafrios ao escutar meu nome.
Existe essa eu que eu sou e que é o que eu preciso ser e existe o eu que eu quero ser, uma espécie de alter ego que eu sufoco. Acaba que me sinto presa dentro do meu próprio corpo.
Não há arrependimento, somente cansaço. Não reclamo. Desabafo. E me permito mentir. Minhas lágrimas não são tão salgadas quanto parecem, ou são ainda mais salgadas do que parecem. Não importa. Preciso continuar a mastigar.
Passei meses tentando me acostumar. Hoje me dei conta de que já me acostumei há anos. Perdi pouco mais de uma década tentando me acostumar com o fato de que eu sempre estive acostumada. A constatação me deixou um tanto quanto louca. Fui fazer malas. Depois percebi que não tenho para onde ir. Há todo esse tal de mundo lá fora e eu não tenho para onde ir. Eu nunca deveria ter me acostumado.
Acontece que foi fácil. Cheguei e fui me largando pelos cômodos. Não hesitei. Deixei-me levar pela preguiça em algumas vezes. Em outras, me permiti um pouco de pressa. Fato que me acomodei entre domingos de ócio e semanas velozes. Rotina. E fui ficando por aqui. Escolhi a cor das paredes, mas me faltou dinheiro pra comprar a tinta porque investi tudo em parafernálias tecnológicas. Informação. Eu vejo, escuto. É estranho que nada faça sentido.
Paciência. Sempre tive essa facilidade para aceitar as coisas. Não as idéias, os fatos - ainda que, inconscientemente, eu tenha tomado algumas idéias como fatos e me enterrado em buracos dos quais ficou impossível sair. No começo me faltou ar. Depois eu simplesmente deixei de respirar. Havia sempre as lições que eu precisava aprender, os lugares que eu precisava conhecer, as pessoas com as quais eu precisava me relacionar. Nunca existiu qualquer vontade. Era tudo mecânico.
O tempo todo aquela sensação de não, não assim. Eu tentava ignorar. A idéia estúpida de que eu devia me acostumar. Exercitei minha tolerância. Sem perceber, transformei tudo em resignação. Foi inconsciente. Houve uma época em que até existiu uma revolta oculta. Eu praguejei, fiz planos malucos. Mas havia sempre uma aceitação latente, um "que seja" escondido atrás de cada "nem pensar" que me vinha.
O que eu quero dizer é que sei dessa fome. Sempre tive essa vontade urgente de fugir de todos os meus malditos princípios. Mas nunca tentei, nunca me permiti arroubos. Os outros doem em mim e é engraçado que eu não sinta a mínima vontade de doer um pouco neles também, vê-los mordendo os lábios, me rogando pragas, tendo calafrios ao escutar meu nome.
Existe essa eu que eu sou e que é o que eu preciso ser e existe o eu que eu quero ser, uma espécie de alter ego que eu sufoco. Acaba que me sinto presa dentro do meu próprio corpo.
Não há arrependimento, somente cansaço. Não reclamo. Desabafo. E me permito mentir. Minhas lágrimas não são tão salgadas quanto parecem, ou são ainda mais salgadas do que parecem. Não importa. Preciso continuar a mastigar.
quarta-feira, agosto 08, 2007
A fumaça do cigarro cegando teus olhos e te fazendo enxergar
Fragilidade. A gente se despedaça. Trabalho. Dinheiro. Sexo. Comida. Bebida. Cultura. Drogas. Vamos chegar aos trinta e contemplar com desânimo nossas caras arrebentadas no reflexo da vidraça de um quarto vazio. Perceber que não vivemos nada, ainda que tenhamos vivido tudo. De tudo, um pouco. Vamos sentir a urgência. Daí a gente vai se afundar em terapia. Vai ter a ilusão de que é possível compreender. Vai se perguntar porque não aceitou os conselhos da mãe, da avó, da tia. Vai sentir que devia ter se casado com aquele cara, aceitado aquele emprego, comprado aquele apartamento. A gente, aos trinta, sem marido, sem filhos, sem casa própria. Fazendo exatamente as mesmas coisas que fazíamos quando tínhamos vinte. E nossos dias vão durar menos da metade do tempo que duram agora. Vai doer. A gente vai acender velas, queimar incensos, entoar mantras. A gente vai fazer acumpuntura e cromoterapia. Daí a gente vai perceber que é um pouco tarde pra se lamentar e vai gargalhar histericamente. A gente vai engolir a rotina, como sempre engoliu. E continuar escrevendo cartas que nunca vão ser enviadas. Continuar se enfurecendo no trânsito. Continuar nas dietas malucas pra perder peso. Continuar fazendo palavras cruzadas no banheiro. E a gente vai pro bar, como sempre foi. E a gente bebe. E a gente esquece. Como se o hoje fosse ontem. Como se não importasse o fato de que vai haver amanhã. E então a gente var deixar a nossa solidão gritar seus desesperos e vai vomitar pra acabar com a tontura e poder dormir. Os mesmos olhos borrados de todas as manhãs. Como sempre foi.
quinta-feira, agosto 02, 2007
Um pouco mais
Senhor, faça-me a gentileza de morrer. Depressa. Ou serei obrigada a diluir cianureto no cafezinho que a copeira está prestes a te trazer. Já não mais aguento olhar para esta tua cara infausta e o tempo todo saber que tu não passas de um grandessíssimo filho da puta. Tu não tens idéia do quanto me seria fácil perfurar a tua jugular externa com essa caneta. O faria agora mesmo, aproveitando teu pescoço erguido, enquanto tu me fitas de cima com este teu jeito arrogante. Tu mereces, bem sabe. Acabaria por me agradecer. E, vou te dizer, sinto um prazer um tanto quanto mórbido ao imaginar tal cena e divirto-me um pouco com a visão do teu tapete persa manchado com este teu sangue nojento. Já perdi a conta do número de idéias que tive para te matar lenta e dolorosamente. Então, senhor, poupe-me a imaginação e o trabalho e faça-me o favor de morrer. O quanto antes, sim?
domingo, julho 22, 2007
Suficiente?
Você tem que me dizer como funciona porque eu não consigo assimilar sozinha.
Eu fico sempre tentando imaginar como vai ser e acaba que nunca consigo entender como tem sido, como é, de fato. Agora, que você me fez parar e avaliar, tenho a vaga impressão de que já não é mais, de que já foi, já era. Você parece nada ter percebido. É inconscientemente que me incita a estas reflexões.
Gosto de imaginar que você também não sabe de nada. Está tanto quanto ou mais perdido do que eu nessa realidade estranha. E eu gostaria mesmo de um dia te ver coçar o queixo com a junta do indicador e fazer uma cara de interrogação. Mas já percebi que você não quer entender. Pra você, as perguntas se bastam sem resposta. Não existem perguntas, melhor dizendo. Não há nada pra ser entendido.
Eu ando precisando me afogar, babe. Ouvir uns sons de trovões. Sentir a minha pele ardendo de um incêndio no meu colchão. Quero algo extremo. Me entende? Provável que não.
Às vezes eu entro nessa de te considerar um enigma. Gosto de pensar que você se esconde. Propositalmente me iludo, tentando buscar em você algo que transcenda essa imagem apagada que eu vejo todos os dias. Mas a verdade é que você não é nada além disso. Esse monte de obviedade sem importância, de gestos mecânicos, de frases feitas. Você não tem segredos, babe. Você não tem dilemas. Nenhuma dúvida existencial, nenhuma pulga atrás da orelha. Você não se apaixona, não sofre, nem dramatiza. Até as tuas lágrimas, quando surgem, ficam logicamente alinhadas no teu rosto inexpressivo. Você sistematiza, pra parecer que sente coisas que de fato nem conhece. E isso porque te basta esse nada que temos, te satisfaz essa ausência de explosão que somos.
A mim falta de tudo. Faltam assombros, surpresas, excentricidades. Faltam momentos únicos que me ficariam na memória quando você já não estivesse mais aqui. Acho mesmo que você nunca esteve. E eu me lamento por isso, vomito lástimas em cima de você que nem náuseas te causam. Eu brigo sozinha, babe. Luto violentamente contra a tua ausência invariável de sintomas. Me revolto, me debato. Depois me declaro e durmo em teus braços. Mas em nenhum momento você está de fato aqui.
Pra você tudo é apenas a ordem natural das coisas. E não há caos. Não há altos e baixos. Você é linear. E eu gostaria de saber quem te fez assim. Porque não é bem humana essa ausência de reação às coisas todas da vida. Você é sinistro, babe, como você mesmo disse outro dia. É sinistro.
Eu fico sempre tentando imaginar como vai ser e acaba que nunca consigo entender como tem sido, como é, de fato. Agora, que você me fez parar e avaliar, tenho a vaga impressão de que já não é mais, de que já foi, já era. Você parece nada ter percebido. É inconscientemente que me incita a estas reflexões.
Gosto de imaginar que você também não sabe de nada. Está tanto quanto ou mais perdido do que eu nessa realidade estranha. E eu gostaria mesmo de um dia te ver coçar o queixo com a junta do indicador e fazer uma cara de interrogação. Mas já percebi que você não quer entender. Pra você, as perguntas se bastam sem resposta. Não existem perguntas, melhor dizendo. Não há nada pra ser entendido.
Eu ando precisando me afogar, babe. Ouvir uns sons de trovões. Sentir a minha pele ardendo de um incêndio no meu colchão. Quero algo extremo. Me entende? Provável que não.
Às vezes eu entro nessa de te considerar um enigma. Gosto de pensar que você se esconde. Propositalmente me iludo, tentando buscar em você algo que transcenda essa imagem apagada que eu vejo todos os dias. Mas a verdade é que você não é nada além disso. Esse monte de obviedade sem importância, de gestos mecânicos, de frases feitas. Você não tem segredos, babe. Você não tem dilemas. Nenhuma dúvida existencial, nenhuma pulga atrás da orelha. Você não se apaixona, não sofre, nem dramatiza. Até as tuas lágrimas, quando surgem, ficam logicamente alinhadas no teu rosto inexpressivo. Você sistematiza, pra parecer que sente coisas que de fato nem conhece. E isso porque te basta esse nada que temos, te satisfaz essa ausência de explosão que somos.
A mim falta de tudo. Faltam assombros, surpresas, excentricidades. Faltam momentos únicos que me ficariam na memória quando você já não estivesse mais aqui. Acho mesmo que você nunca esteve. E eu me lamento por isso, vomito lástimas em cima de você que nem náuseas te causam. Eu brigo sozinha, babe. Luto violentamente contra a tua ausência invariável de sintomas. Me revolto, me debato. Depois me declaro e durmo em teus braços. Mas em nenhum momento você está de fato aqui.
Pra você tudo é apenas a ordem natural das coisas. E não há caos. Não há altos e baixos. Você é linear. E eu gostaria de saber quem te fez assim. Porque não é bem humana essa ausência de reação às coisas todas da vida. Você é sinistro, babe, como você mesmo disse outro dia. É sinistro.
quinta-feira, julho 19, 2007
Só para constar
Pausas, vírgulas, reticências. Não dizer que diz tudo, silêncio que grita. Meias palavras, indiretas, enigmas. Adoro.
Pontos finais e travessões. Direto ao ponto, oito ou oitenta. Explicações, frases feitas, o óbvio ululante exposto em linhas claras e precisas. Detesto.
Gosto de ouvir o que não dizes. Dispenso tua determinação por te fazer entender.
Mas nem sempre, babe, nem sempre...
Pontos finais e travessões. Direto ao ponto, oito ou oitenta. Explicações, frases feitas, o óbvio ululante exposto em linhas claras e precisas. Detesto.
Gosto de ouvir o que não dizes. Dispenso tua determinação por te fazer entender.
Mas nem sempre, babe, nem sempre...
segunda-feira, julho 16, 2007
Let me sing my rock'n roll
Clichê dizer que a vida é feita de escolhas. Verdade, sim, eu sei. Mas de que importa a constatação? Frase feita que os que não entendem nada vivem repetindo pra te fazer pensar que eles entendem tudo.
Começa que os meus problemas são meus. Só meus. Se eu quebro um braço tentando fazer uma acrobacia impossível, sinto a dor, grito a raiva, lamento a estupidez. E é tudo meu. O braço, as lágrimas, o nó atado forte na garganta. Inclusive o gesso.
Não costumo me arrepender. Se o faço, faço longe dos outros. Ocorre que, às vezes, os outros me deduzem arrependida e me atiram clichês precedidos por reticências.
"Ééé... a vida é feita de escolhas". Soa como um "eu sabia que você ia se dar mal". Verborragia. Charlatanismo explícito em previsões do passado, vindo das mesmas criaturas que esquecem o guarda-chuva em dia de tempestade.
Eu pediria que me poupassem, mas sei que em horas como essa a voz só me sai em grito. Calo-me, pois.
Fato que eles têm tanta razão quanto um rato de laboratório. Minha felicidade aumenta a cada dia, em progressão geométrica. E quando choro, se choro, meus olhos ficam mais verdes. Longe de mim esse pessimismo batido. Fazer a escolha errada não é tão mal assim.
Começa que os meus problemas são meus. Só meus. Se eu quebro um braço tentando fazer uma acrobacia impossível, sinto a dor, grito a raiva, lamento a estupidez. E é tudo meu. O braço, as lágrimas, o nó atado forte na garganta. Inclusive o gesso.
Não costumo me arrepender. Se o faço, faço longe dos outros. Ocorre que, às vezes, os outros me deduzem arrependida e me atiram clichês precedidos por reticências.
"Ééé... a vida é feita de escolhas". Soa como um "eu sabia que você ia se dar mal". Verborragia. Charlatanismo explícito em previsões do passado, vindo das mesmas criaturas que esquecem o guarda-chuva em dia de tempestade.
Eu pediria que me poupassem, mas sei que em horas como essa a voz só me sai em grito. Calo-me, pois.
Fato que eles têm tanta razão quanto um rato de laboratório. Minha felicidade aumenta a cada dia, em progressão geométrica. E quando choro, se choro, meus olhos ficam mais verdes. Longe de mim esse pessimismo batido. Fazer a escolha errada não é tão mal assim.
domingo, julho 15, 2007
Estou
Eles me dizem que é aqui mesmo que tenho que estar. Nessa cidade. Eles não sabem... essa cidade só me fode.
Eu vou ficando. Faço que não ligo. Tento acreditar que me faltam opções. Ainda existe por aqui uma ou outra fonte de inspiração e sossego. Observo a total ausência de movimento pela janela, inspiro tragadas de ar puro e nicotina e, por alguns instantes, tudo parece ficar bem.
Parece certo. Coisas que se encaixam como peças de lego. Um aumento de salário. O teto branco do escritório em chamas quando me reclino na cadeira. Sacolas de supermercado com comida para o gato, sabonete, pasta de dente, macarrão instantâneo, molho de tomate, creme de leite, sabão em pó e amaciante. Os livros. Os mestres. Beijos demorados e risadas. Happy hours de sexta-feira. Tédio. Tudo é de mentira.
Aí eles me dizem pra aproveitar o momento. Que me falta riso e álcool. Acontece que estou sempre cansada demais. Telefone que toca insistente e minha voz emudecendo quando tento dizer não. Mas se quero me arriscar nuns goles a mais, acabo sempre rodeada por latas de cerveja no chão da sala do meu apartamento. Nunca há para onde ir. Amanhece rápido desse lado de cá. E todos dormem quando tenho insônia.
A cidade tem os parques e as praças que eu odeio. Tem os olhares tortos e os discursos baratos de província. Os jornais que lambem o próprio umbigo. Nada funciona quando você precisa. Ausência de perspectivas. Tudo meio morno. Tem ainda aquelas mesmas caras que estão por todo lado porque, de fato, esse mundinho cabe na palma da mão de uma criança de cinco anos. É tudo muito pequeno ou muito grande. Frio. Calor. As coisas por aqui sempre acontecem na hora errada.
Agora chega-se mais rápido a pé, na hora do rush. Ruas alagadas em dias de chuva forte. Pichações nas paredes dos prédios de apartamentos. Enormes filas pra tudo. Um perigo de faca e revólver que ronda as madrugadas. Sirenes constantes. De outros cantos, as más lembranças acabam sendo tudo o que eu tenho.
E me rotulam arrogante ou coisa assim. Por vezes desistem de tentar me convencer e me dizem pra ir pra longe, se é isso o que eu quero. Mas não é isso o que eu quero. Difícil explicar. O problema, eles não sabem, é que essa cidade só me fode...
Eu vou ficando. Faço que não ligo. Tento acreditar que me faltam opções. Ainda existe por aqui uma ou outra fonte de inspiração e sossego. Observo a total ausência de movimento pela janela, inspiro tragadas de ar puro e nicotina e, por alguns instantes, tudo parece ficar bem.
Parece certo. Coisas que se encaixam como peças de lego. Um aumento de salário. O teto branco do escritório em chamas quando me reclino na cadeira. Sacolas de supermercado com comida para o gato, sabonete, pasta de dente, macarrão instantâneo, molho de tomate, creme de leite, sabão em pó e amaciante. Os livros. Os mestres. Beijos demorados e risadas. Happy hours de sexta-feira. Tédio. Tudo é de mentira.
Aí eles me dizem pra aproveitar o momento. Que me falta riso e álcool. Acontece que estou sempre cansada demais. Telefone que toca insistente e minha voz emudecendo quando tento dizer não. Mas se quero me arriscar nuns goles a mais, acabo sempre rodeada por latas de cerveja no chão da sala do meu apartamento. Nunca há para onde ir. Amanhece rápido desse lado de cá. E todos dormem quando tenho insônia.
A cidade tem os parques e as praças que eu odeio. Tem os olhares tortos e os discursos baratos de província. Os jornais que lambem o próprio umbigo. Nada funciona quando você precisa. Ausência de perspectivas. Tudo meio morno. Tem ainda aquelas mesmas caras que estão por todo lado porque, de fato, esse mundinho cabe na palma da mão de uma criança de cinco anos. É tudo muito pequeno ou muito grande. Frio. Calor. As coisas por aqui sempre acontecem na hora errada.
Agora chega-se mais rápido a pé, na hora do rush. Ruas alagadas em dias de chuva forte. Pichações nas paredes dos prédios de apartamentos. Enormes filas pra tudo. Um perigo de faca e revólver que ronda as madrugadas. Sirenes constantes. De outros cantos, as más lembranças acabam sendo tudo o que eu tenho.
E me rotulam arrogante ou coisa assim. Por vezes desistem de tentar me convencer e me dizem pra ir pra longe, se é isso o que eu quero. Mas não é isso o que eu quero. Difícil explicar. O problema, eles não sabem, é que essa cidade só me fode...
sábado, julho 14, 2007
3,2,1...
Você sente que é um sonho. Nightmare. A noite de ontem não aconteceu. Nada aconteceu desde a noite de ontem. A pontada nas costas te faz lembrar da necessidade de comprar um novo colchão. Você sai da cama com o pé esquerdo, sem perceber. A porta da sua casa amanheceu aberta mas, aparentemente, ninguém entrou e ninguém saiu. O gato dorme no sofá. São oito da manhã. Seu jejum já dura trinta horas.
Cerveja. Parece idéia fixa e seus amigos já te chamam de alcoólatra. Ontem ela te motivou a se enfiar em uma roupa apresentável e descer para o bar. Ela e a sua falta de paciência para as lágrimas ácidas que corroíam seu rosto.
Você sempre chega na hora certa por mais que se atrase. O chão como tabuleiro de xadrez. Há duas horas atrás você era o rei. Agora dois cavalos ameaçadores e dois bispos moralistas te obrigam a assumir sua posição de peão.
Pale Ale. Primeiros acordes. Seus cotovelos apoiados no balcão molhado do bar. A Lucky Strike tem uma publicidade agressiva. Calor. Todos têm o mesmo corte de cabelo. Você fuma, mas a fumaça dos cigarros alheios te incomoda. Sono. Você sente que precisa de um café amargo, ainda que você não goste de café.
Não dá exatamente pra saber em que hora do dia ou da noite passada começou o pesadelo que, agora, oito da manhã, você se esforça pra esquecer. Teve o sorriso hipócrita daquele moço. Eram sete e qualquer coisa da noite. Antes ainda uma espera que você não sabe se começou na tarde de ontem ou numa tarde qualquer de mais ou menos um ano atrás. Fato que foi ficando pior. O gosto das suas verdades ainda não saiu da sua boca. Agridoce.
A língua. Você falava uma língua que ninguém mais entendia. Sua mania de inventar palavras. Sempre foi assim. E quando você diz que acabou é porque está apenas começando. Seus delírios de opostos que se atraem. Ontem você chorou o impossível e hoje é impossível chorar. Você já nem faz mais questão de concordar o sujeito com o verbo. Seu adeus. Todo adeus que sai da sua boca sai tímido e dissonante. Os outros escutam um até logo.
Ontem não teve adeus. Passos trôpegos pra casa. Alguém gritou que você morreu. Tragicômico. Socos na parede. Você dormiu esperando. São oito da manhã e você ainda está esperando. Toda a humanidade está ocupada no momento, aguarde um minuto e sua chamada já será atendida. Há seis meses nada acontece. É um sonho. Serão precisos dez baldes de água fria pra te acordar. Mas alguém muito mau acabou com a conveniência dessa história, trancou a porta da sua casa e jogou a chave fora.
Cerveja. Parece idéia fixa e seus amigos já te chamam de alcoólatra. Ontem ela te motivou a se enfiar em uma roupa apresentável e descer para o bar. Ela e a sua falta de paciência para as lágrimas ácidas que corroíam seu rosto.
Você sempre chega na hora certa por mais que se atrase. O chão como tabuleiro de xadrez. Há duas horas atrás você era o rei. Agora dois cavalos ameaçadores e dois bispos moralistas te obrigam a assumir sua posição de peão.
Pale Ale. Primeiros acordes. Seus cotovelos apoiados no balcão molhado do bar. A Lucky Strike tem uma publicidade agressiva. Calor. Todos têm o mesmo corte de cabelo. Você fuma, mas a fumaça dos cigarros alheios te incomoda. Sono. Você sente que precisa de um café amargo, ainda que você não goste de café.
Não dá exatamente pra saber em que hora do dia ou da noite passada começou o pesadelo que, agora, oito da manhã, você se esforça pra esquecer. Teve o sorriso hipócrita daquele moço. Eram sete e qualquer coisa da noite. Antes ainda uma espera que você não sabe se começou na tarde de ontem ou numa tarde qualquer de mais ou menos um ano atrás. Fato que foi ficando pior. O gosto das suas verdades ainda não saiu da sua boca. Agridoce.
A língua. Você falava uma língua que ninguém mais entendia. Sua mania de inventar palavras. Sempre foi assim. E quando você diz que acabou é porque está apenas começando. Seus delírios de opostos que se atraem. Ontem você chorou o impossível e hoje é impossível chorar. Você já nem faz mais questão de concordar o sujeito com o verbo. Seu adeus. Todo adeus que sai da sua boca sai tímido e dissonante. Os outros escutam um até logo.
Ontem não teve adeus. Passos trôpegos pra casa. Alguém gritou que você morreu. Tragicômico. Socos na parede. Você dormiu esperando. São oito da manhã e você ainda está esperando. Toda a humanidade está ocupada no momento, aguarde um minuto e sua chamada já será atendida. Há seis meses nada acontece. É um sonho. Serão precisos dez baldes de água fria pra te acordar. Mas alguém muito mau acabou com a conveniência dessa história, trancou a porta da sua casa e jogou a chave fora.
quarta-feira, julho 04, 2007
Oui, bien sûr
Eis que me pisam o calo. Um estranho, rua qualquer da cidade, bermuda de sarja e boina cor de caqui. Pedido apressado de desculpas. Digo que não foi nada. Meus próximos passos são trôpegos, a testa franzida, o canto dos lábios repuxado de dor. E o outro segue despreocupado.
Fui centenas de vezes. Voltei outras tantas. Pintei o cabelo de loiro e as unhas de vermelho. Emprestei livros queridos que nunca mais me voltaram. Deixei de fumar. Decorei a cozinha com peixes. Vendi a cadeira velha que atravancava a sala. Trabalhei até mais tarde em incontáveis sextas-feiras. Comi buchada de bode e bebi caldinho de mocotó. Sim, pois não, é claro, em um minuto.
Perdi no trajeto uns mil dinheiros, alguns suspiros tristes e uma infinidade de vontades próprias. Resignei-me. E ainda hoje, se digo que fico, é sempre para o bem de todos e felicidade geral da nação.
Fui centenas de vezes. Voltei outras tantas. Pintei o cabelo de loiro e as unhas de vermelho. Emprestei livros queridos que nunca mais me voltaram. Deixei de fumar. Decorei a cozinha com peixes. Vendi a cadeira velha que atravancava a sala. Trabalhei até mais tarde em incontáveis sextas-feiras. Comi buchada de bode e bebi caldinho de mocotó. Sim, pois não, é claro, em um minuto.
Perdi no trajeto uns mil dinheiros, alguns suspiros tristes e uma infinidade de vontades próprias. Resignei-me. E ainda hoje, se digo que fico, é sempre para o bem de todos e felicidade geral da nação.
terça-feira, julho 03, 2007
Monólogo
- Pô, Guto, você por aqui! Tá fazendo o quê por essas bandas?
- Betão! Você viu se já passou o Clínicas?
- Xi, cara, não vi, não. Mas faz só uns cinco minutos que eu to aqui. Mas me conta, conseguiu aquele emprego? Você tinha dito que ia numa entrevista essa semana.
- To pensando em comprar um carro. Eu tenho um investimento que andou rendendo, acho que vou sacar e comprar um carro.
- Ah, faz bem, esse negócio de andar de ônibus é dose. Você viu que botaram fogo em mais um ontem?
- Amanhã eu vou no banco conversar com o gerente. To pensando num Corsa, mas quero ver se acho um em conta.
- Hum. Vai na concessionária onde meu irmão trabalha, diz que você é meu amigo e pede um descontinho pra ele. É ali na Pompéia. Sabe a estação da Vila Madalena?
- O duro é que os juros nesse país estão de matar e eu acho que não vou ter dinheiro suficiente pra comprar à vista.
- É verdade, eu mesmo estou devendo uma fortuna no cheque especial. Se eu te disser o valor você se assusta...
- Só sei que o meu carro precisa ter ar-condicionado porque esse calor anda insuportável. Olha aqui, eu to suando em baldes.
- Pois é, e não vem nem uma chuvinha pra refrescar. Tá bom pra ir pra praia. Seu tio ainda tem aquela casa em Maresias?
- To em dúvida entre preto ou prata.
- Hein?
- Vou conversar com a Marília e ver qual cor ela prefere.
- Hum, você e a Marília ainda estão juntos? Eu ouvi falar que ela voltou pra casa da mãe.
- Olha lá o Clínicas! Vou nessa, Betão! Foi bom conversar com você!
- ...
- Betão! Você viu se já passou o Clínicas?
- Xi, cara, não vi, não. Mas faz só uns cinco minutos que eu to aqui. Mas me conta, conseguiu aquele emprego? Você tinha dito que ia numa entrevista essa semana.
- To pensando em comprar um carro. Eu tenho um investimento que andou rendendo, acho que vou sacar e comprar um carro.
- Ah, faz bem, esse negócio de andar de ônibus é dose. Você viu que botaram fogo em mais um ontem?
- Amanhã eu vou no banco conversar com o gerente. To pensando num Corsa, mas quero ver se acho um em conta.
- Hum. Vai na concessionária onde meu irmão trabalha, diz que você é meu amigo e pede um descontinho pra ele. É ali na Pompéia. Sabe a estação da Vila Madalena?
- O duro é que os juros nesse país estão de matar e eu acho que não vou ter dinheiro suficiente pra comprar à vista.
- É verdade, eu mesmo estou devendo uma fortuna no cheque especial. Se eu te disser o valor você se assusta...
- Só sei que o meu carro precisa ter ar-condicionado porque esse calor anda insuportável. Olha aqui, eu to suando em baldes.
- Pois é, e não vem nem uma chuvinha pra refrescar. Tá bom pra ir pra praia. Seu tio ainda tem aquela casa em Maresias?
- To em dúvida entre preto ou prata.
- Hein?
- Vou conversar com a Marília e ver qual cor ela prefere.
- Hum, você e a Marília ainda estão juntos? Eu ouvi falar que ela voltou pra casa da mãe.
- Olha lá o Clínicas! Vou nessa, Betão! Foi bom conversar com você!
- ...
sexta-feira, junho 29, 2007
Os cinco
Eles chegaram numa noite fria de inverno. Eram cinco. Se instalaram na calçada em frente ao prédio, do outro lado da rua, uns papelões e cobertas, e dormiram. Achei que era só por aquela noite, mas eles foram ficando. Passavam o dia todo sentados na calçada. Nunca os vi pedindo esmolas ou algo do gênero. Um deles, o Negão, saía todos os dias no fim da tarde e só retornava de madrugada. Acho que o Negão trabalhava porque ele trazia comida sempre que voltava e vai ver era por isso que eles nunca pediam esmolas.
Um noite, quando o Negão não estava, veio uma viatura e os caras deram geral em todos. Reviraram as coisas deles, destruíram toda a comida, chamaram a Dona Tide de "velha escrota", bateram no Jonas. O Jonas era deficiente mental. Quando o Negão voltou do trabalho, a Dona Tide sussurrou qualquer coisa no ouvido dele. O Jonas, sentado no chão, de costas pra parede, balançando o corpo pra frente e pra trás. O Negão ficou puto. Eram três da manhã. Ele gritou uns desaforos, jogou tudo no vento. Disse que não agüentava mais essa vida e que os canas eram uns filhos das putas. A vizinhança toda do prédio saiu na janela pra ver.
Dias depois estacionou uma van branca. Desceram da van uns três caras e disseram pro Negão alguma coisa que eu não ouvi. Ele fazia que não com a cabeça. Nesse dia, levaram o Rolha. Disseram que o Rolha era de menor e que não podia ficar ali. Queriam levar todos, mas foi só o Rolha, que os outros se negaram. Foi o que eu soube. Mandaram, de qualquer forma, que eles saíssem de lá. Aí eles desapareceram por uns dias. Depois voltaram, numa outra noite fria. Dessa vez eram quatro. Os mesmos papelões e cobertas, continuaram dormindo por ali.
Um outro deles, uma moça, a Sandra, passava o dia todo desenhando, não falava com ninguém. Não lembro exatamente quando, a Sandra começou a sair junto com o Negão no fim da tarde. A Dona Tide ficava com o Jonas na rua durante toda a noite, choramingando, contando mazelas pro menino que não entendia nada. Um dia, o Negão voltou sem a Sandra. A Dona Tide chorou. Acabou que daí em diante passou a ser somente ela, o Jonas e o Negão, que ainda saía todas as noites pra trabalhar.
Ontem de manhã, vi pela janela um corpo coberto com jornal. Bem ali, no lugar onde os três costumavam dormir. Havia sangue ao redor. Um monte de carros da polícia e um do IML. Nenhum dos três estava lá. Por causa do jornal, não deu pra saber qual deles havia morrido, não deu nem pra saber se era mesmo um deles, na verdade. Fato que nem Dona Tide, nem Jonas e nem o Negão apareceram mais por essas bandas. Hoje ouvi o rapaz da farmácia comentando que isso era bom, que quando eles estavam ali espantavam os clientes. Ele disse que acha que quem morreu foi o Jonas e Dona Tide e o Negão devem ter ido morar num abrigo e que isso seria muito melhor pra eles, sem dúvidas, pobres coitados.
Um noite, quando o Negão não estava, veio uma viatura e os caras deram geral em todos. Reviraram as coisas deles, destruíram toda a comida, chamaram a Dona Tide de "velha escrota", bateram no Jonas. O Jonas era deficiente mental. Quando o Negão voltou do trabalho, a Dona Tide sussurrou qualquer coisa no ouvido dele. O Jonas, sentado no chão, de costas pra parede, balançando o corpo pra frente e pra trás. O Negão ficou puto. Eram três da manhã. Ele gritou uns desaforos, jogou tudo no vento. Disse que não agüentava mais essa vida e que os canas eram uns filhos das putas. A vizinhança toda do prédio saiu na janela pra ver.
Dias depois estacionou uma van branca. Desceram da van uns três caras e disseram pro Negão alguma coisa que eu não ouvi. Ele fazia que não com a cabeça. Nesse dia, levaram o Rolha. Disseram que o Rolha era de menor e que não podia ficar ali. Queriam levar todos, mas foi só o Rolha, que os outros se negaram. Foi o que eu soube. Mandaram, de qualquer forma, que eles saíssem de lá. Aí eles desapareceram por uns dias. Depois voltaram, numa outra noite fria. Dessa vez eram quatro. Os mesmos papelões e cobertas, continuaram dormindo por ali.
Um outro deles, uma moça, a Sandra, passava o dia todo desenhando, não falava com ninguém. Não lembro exatamente quando, a Sandra começou a sair junto com o Negão no fim da tarde. A Dona Tide ficava com o Jonas na rua durante toda a noite, choramingando, contando mazelas pro menino que não entendia nada. Um dia, o Negão voltou sem a Sandra. A Dona Tide chorou. Acabou que daí em diante passou a ser somente ela, o Jonas e o Negão, que ainda saía todas as noites pra trabalhar.
Ontem de manhã, vi pela janela um corpo coberto com jornal. Bem ali, no lugar onde os três costumavam dormir. Havia sangue ao redor. Um monte de carros da polícia e um do IML. Nenhum dos três estava lá. Por causa do jornal, não deu pra saber qual deles havia morrido, não deu nem pra saber se era mesmo um deles, na verdade. Fato que nem Dona Tide, nem Jonas e nem o Negão apareceram mais por essas bandas. Hoje ouvi o rapaz da farmácia comentando que isso era bom, que quando eles estavam ali espantavam os clientes. Ele disse que acha que quem morreu foi o Jonas e Dona Tide e o Negão devem ter ido morar num abrigo e que isso seria muito melhor pra eles, sem dúvidas, pobres coitados.
terça-feira, junho 26, 2007
Dos males, o maior...
Enquanto estou aqui escrevendo, meu gato dorme em meu colo, alheio a todos os problemas da humanidade.
Pra ele, não importa qual é o valor do salário dos senhores do Congresso, qual foi o político corrupto que ganhou a eleição, qual foi o time de futebol que comprou a vitória no campeonato, quais foram os filmes indicados ao Oscar, qual personagem vazio da novela vai morrer na semana que vem, qual dos participantes imbecis vai ganhar o Big Brother, quais são as últimas tendências idiotas da moda ou qual é a laranja mais madura do pé.
Ele não sabe o que é lobby e não entende a palavra "alienação".
Ele não está nem aí para o tráfico de drogas, de mulheres e de crianças, para os altos índices de criminalidade, para a super lotação dos presídios, para o desmatamento da Mata Atlântica, para as epidemias de dengue, para a alta do dólar, para a queda da bolsa de valores, para o preço abusivo da gasolina, para a crise na Aviação Civil Brasileira, para o calor insuportável na Itália, para a revolta que gerou a proibição do fumo na França, para os terremotos na Indonésia, para a doença de Fidel Castro e de Cuba ou para as praias de nudismo em Cartagena e San Andreas.
Ele não tem medo de morrer de bala perdida ou de passar vergonha numa conversa sobre desenvolvimento sustentável ou outros assuntos polêmicos nas rodinhas de intelectuais da alta sociedade.
A propósito, ainda que o buraco na camada de ozônio e o aquecimento global o afetem diretamente, ele não sabe disso. Ele não sabe o que é camada de ozônio. Mesmo que soubesse, ele não vai mesmo viver tempo suficiente pra se sentir prejudicado pelo aquecimento global. Então, ele não sofre. Não se preocupa com o futuro de seus filhos e netos. E, além disso, ele pode dormir com a consciência tranquila porque não é ele que está destruindo essa merda de planeta.
O mundo dele é monocromático e bidimensional.
Ele não sente raiva porque o Bush, ao invés do Al Gore ou do Kerry, é o presidente dos Estados Unidos. Ele não se choca ao saber que ainda existe escravidão no Brasil. Ele não fica triste quando vê uma criança mendigando na rua. Ele não se sensibiliza pelo fato de que centenas de nordestinos, somalianos, iraquianos, israelenses e palestinos morrem todos os dias por culpa da seca, da fome e das guerras. Gatos não fazem guerras. A comida dele é religiosamente despejada por mim em um potinho vermelho três vezes ao dia. A água que ele bebe está sempre fresquinha dentro de outro potinho, amarelo. Sou eu que tenho que trabalhar pra comprar a comida, a água e os potinhos, então ele também não se preocupa com seus horários de sono, com a roupa que vai usar no dia seguinte, com o trânsito caótico ou com o mal humor do chefe, nem fica deprimido, estressado e ansioso pelas próximas férias.
Quando se sente entediado ele corre pela casa brincando com bolinhas de papel.
Pra ele, a taxa de juros aplicada no Brasil não faz diferença nenhuma porque ele não fez um empréstimo no banco recentemente e nem deve as calças pra administradora do cartão de crédito. Ele sequer sabe o que é um banco ou um cartão de crédito. Ele sequer usa calças.
Ele não precisa de internet ou de televisão para ser feliz, não paga aluguel e não usa o telefone.
Ele não se preocupa em entender que lance é esse de infinitude do Universo, não se interessa em descobrir o que vem depois da morte, quantas listras tem uma zebra ou porque os kamikazes usavam capacete. Ele não fica tentando desvendar todos os mistérios do mundo e nem se mete em discussões fervorosas sobre o assunto.
Ele não precisou aprender o alfabeto ocidental e não vai fazer faculdade.
Ele não se deprime e não precisa fazer dieta quando fica gordo porque não existe uma mídia manipuladora jogando na cara dele que os gatos devem ser esbeltos. Ele nunca foi rejeitado pela gata mais linda da escola, nunca teve que conversar sobre sexo com o seu pai, nunca descobriu que estava sendo traído e sentiu vontade de matar a esposa, nunca levou bronca por chegar bêbado em casa e nunca brochou. Ele não chora no cinema, não se emociona com um poema triste e nunca teceu comentários acerca da falta que faz um baixo numa banda de rock'n roll.
Ele não tem preconceitos, problemas no fígado ou vergonha de falar em público.
Ele não precisa nem limpar as cagadas que faz. Sequer puxar a descarga.
Agora me dizem que nós, os homens, que trabalhamos para pagar pela comida, pela água e pelos potinhos para os gatos, somos seres evoluídos. Para o inferno com essa droga de evolução. Eu queria ser um gato.
Pra ele, não importa qual é o valor do salário dos senhores do Congresso, qual foi o político corrupto que ganhou a eleição, qual foi o time de futebol que comprou a vitória no campeonato, quais foram os filmes indicados ao Oscar, qual personagem vazio da novela vai morrer na semana que vem, qual dos participantes imbecis vai ganhar o Big Brother, quais são as últimas tendências idiotas da moda ou qual é a laranja mais madura do pé.
Ele não sabe o que é lobby e não entende a palavra "alienação".
Ele não está nem aí para o tráfico de drogas, de mulheres e de crianças, para os altos índices de criminalidade, para a super lotação dos presídios, para o desmatamento da Mata Atlântica, para as epidemias de dengue, para a alta do dólar, para a queda da bolsa de valores, para o preço abusivo da gasolina, para a crise na Aviação Civil Brasileira, para o calor insuportável na Itália, para a revolta que gerou a proibição do fumo na França, para os terremotos na Indonésia, para a doença de Fidel Castro e de Cuba ou para as praias de nudismo em Cartagena e San Andreas.
Ele não tem medo de morrer de bala perdida ou de passar vergonha numa conversa sobre desenvolvimento sustentável ou outros assuntos polêmicos nas rodinhas de intelectuais da alta sociedade.
A propósito, ainda que o buraco na camada de ozônio e o aquecimento global o afetem diretamente, ele não sabe disso. Ele não sabe o que é camada de ozônio. Mesmo que soubesse, ele não vai mesmo viver tempo suficiente pra se sentir prejudicado pelo aquecimento global. Então, ele não sofre. Não se preocupa com o futuro de seus filhos e netos. E, além disso, ele pode dormir com a consciência tranquila porque não é ele que está destruindo essa merda de planeta.
O mundo dele é monocromático e bidimensional.
Ele não sente raiva porque o Bush, ao invés do Al Gore ou do Kerry, é o presidente dos Estados Unidos. Ele não se choca ao saber que ainda existe escravidão no Brasil. Ele não fica triste quando vê uma criança mendigando na rua. Ele não se sensibiliza pelo fato de que centenas de nordestinos, somalianos, iraquianos, israelenses e palestinos morrem todos os dias por culpa da seca, da fome e das guerras. Gatos não fazem guerras. A comida dele é religiosamente despejada por mim em um potinho vermelho três vezes ao dia. A água que ele bebe está sempre fresquinha dentro de outro potinho, amarelo. Sou eu que tenho que trabalhar pra comprar a comida, a água e os potinhos, então ele também não se preocupa com seus horários de sono, com a roupa que vai usar no dia seguinte, com o trânsito caótico ou com o mal humor do chefe, nem fica deprimido, estressado e ansioso pelas próximas férias.
Quando se sente entediado ele corre pela casa brincando com bolinhas de papel.
Pra ele, a taxa de juros aplicada no Brasil não faz diferença nenhuma porque ele não fez um empréstimo no banco recentemente e nem deve as calças pra administradora do cartão de crédito. Ele sequer sabe o que é um banco ou um cartão de crédito. Ele sequer usa calças.
Ele não precisa de internet ou de televisão para ser feliz, não paga aluguel e não usa o telefone.
Ele não se preocupa em entender que lance é esse de infinitude do Universo, não se interessa em descobrir o que vem depois da morte, quantas listras tem uma zebra ou porque os kamikazes usavam capacete. Ele não fica tentando desvendar todos os mistérios do mundo e nem se mete em discussões fervorosas sobre o assunto.
Ele não precisou aprender o alfabeto ocidental e não vai fazer faculdade.
Ele não se deprime e não precisa fazer dieta quando fica gordo porque não existe uma mídia manipuladora jogando na cara dele que os gatos devem ser esbeltos. Ele nunca foi rejeitado pela gata mais linda da escola, nunca teve que conversar sobre sexo com o seu pai, nunca descobriu que estava sendo traído e sentiu vontade de matar a esposa, nunca levou bronca por chegar bêbado em casa e nunca brochou. Ele não chora no cinema, não se emociona com um poema triste e nunca teceu comentários acerca da falta que faz um baixo numa banda de rock'n roll.
Ele não tem preconceitos, problemas no fígado ou vergonha de falar em público.
Ele não precisa nem limpar as cagadas que faz. Sequer puxar a descarga.
Agora me dizem que nós, os homens, que trabalhamos para pagar pela comida, pela água e pelos potinhos para os gatos, somos seres evoluídos. Para o inferno com essa droga de evolução. Eu queria ser um gato.
domingo, junho 24, 2007
Fragmentos de cadernetas II
* É domingo.
* As moças das esquinas não vieram. Vender o corpo cansa e elas também têm direito a um dia de folga.
* Vieram os rapazes. Travestis. Um deles tem uma bunda e uma barriga pelas quais dez entre cada dez moças sofrem a vida toda e não conseguem ter.
* Pela Alameda Cabral um carro desce vagarosamente na contramão. O motorista usa chapéu.
* Meninos fumam crack em latas de Schweppes na Saldanha.
* O carrinho de cachorro-quente da Fernando Moreira ainda não abriu.
* Duas bicicletas amarradas a um poste na Clotário Portugal.
* Na banca de jornais da pracinha, uma mulher lê páginas grudadas nas paredes, apontando anúncios com o indicador da mão direita.
* Um adolescente de camiseta azul e boné rabisca um muro com uma moeda na Visconde de Nácar.
* Um casal caminha pela Cruz Machado dando gargalhadas. Trazem cachorros nas coleiras. Um Poodle e um Bulldog Inglês.
* Os ônibus param no tubo e deles descem senhoras pobres com crianças agarradas à barra da saia.
* São quase nove horas e vai começar o Fantástico.
* As moças das esquinas não vieram. Vender o corpo cansa e elas também têm direito a um dia de folga.
* Vieram os rapazes. Travestis. Um deles tem uma bunda e uma barriga pelas quais dez entre cada dez moças sofrem a vida toda e não conseguem ter.
* Pela Alameda Cabral um carro desce vagarosamente na contramão. O motorista usa chapéu.
* Meninos fumam crack em latas de Schweppes na Saldanha.
* O carrinho de cachorro-quente da Fernando Moreira ainda não abriu.
* Duas bicicletas amarradas a um poste na Clotário Portugal.
* Na banca de jornais da pracinha, uma mulher lê páginas grudadas nas paredes, apontando anúncios com o indicador da mão direita.
* Um adolescente de camiseta azul e boné rabisca um muro com uma moeda na Visconde de Nácar.
* Um casal caminha pela Cruz Machado dando gargalhadas. Trazem cachorros nas coleiras. Um Poodle e um Bulldog Inglês.
* Os ônibus param no tubo e deles descem senhoras pobres com crianças agarradas à barra da saia.
* São quase nove horas e vai começar o Fantástico.
domingo, junho 17, 2007
De cortar os pulsos
Mescaleros no player. Um friozinho de mentira. A escuridão de um quarto sem janelas. A brasa do cigarro queimando laranja no preto e branco, como num filme noir.
Podia ser Itamar Assumpção. Podia ser brisa quente, mar e areia. Podia ser céu azul estrelado como teto.
Mas da parte da brasa do cigarro queimando laranja no preto e branco eu gostei.
Podia ser Itamar Assumpção. Podia ser brisa quente, mar e areia. Podia ser céu azul estrelado como teto.
Mas da parte da brasa do cigarro queimando laranja no preto e branco eu gostei.
terça-feira, junho 12, 2007
BR 116 - Porto Alegre
Odeio as placas que indicam estradas. Odeio porque elas me lembram velocímetros marcando mais de 100 por hora e vento gelado batendo nas maçãs vermelhas do meu rosto. Eu vi, faz tempo - lá pro sul deram de exibir "highway" nos letreiros. Odeio ainda mais as placas do sul. Sorte não ter que olhar pra elas todos os dias. Ou não. Azar o meu, isso sim. Odeio mesmo é não poder ir pro sul rabiscar palavrões nas placas onde se lê "highway".
sábado, junho 09, 2007
Baco
Era Baco o apelido. Era Baco, obviamente, pelo óbvio. E é nisso que dá viver em rodas de intelectuais: ao invés de "Bebum" ou "Caninha", acaba sendo "Baco"...
No dia em que Baco morreu os amigos todos se reuniram, após o enterro, num desses bares em que costumavam ir às sextas-feiras. A sua morte não havia sido lá uma grande surpresa, há alguns meses o médico havia diagnosticado a cirrose e quando Baco contou sobre a doença aos amigos, naquele mesmo bar, fez-se apenas um silêncio pesaroso seguido por um "desce mais uma" que Baco gritou ao garçom. E riram, riram todos, que era tudo o que podiam fazer.
Era certo, desde muito antes do diagnóstico, que Baco morreria de cirrose ou de qualquer outra complicação provocada pelo álcool ou por algum dos muitos péssimos hábitos de sua vida totalmente desregrada. Era certo também que morreria cedo, "trinta e poucos" - não passaria disso. E era certo, ainda, que faria falta aos amigos nos botecos; que eles, os botecos, não seriam mais os mesmos sem o sorriso e a alegria de Baco e que eles, os amigos, também não seriam mais os mesmos quando não pudessem mais ouvir Baco falando sobre os pequenos e grandes prazeres de sua vida mundana enquanto fazia círculos com a fumaça do cigarro...
E ficaram num daqueles bares todos os amigos de Baco no dia de sua morte, relembrando méritos e causos, rindo de todas as maluquices e afetos que ele havia se permitido. E não houve tanta tristeza. Baco não se foi infeliz, foi como se apagasse a luz. Morreu com um sorriso largo estampado no rosto e um copo de vinho na mão, numa quarta-feira, às nove da manhã, ouvindo uma canção inédita de Johnny Cash, depois de ler um dos livros de Bukowski.
Não se deu ao desgaste de envelhecer, com ou sem dignidade. E não teve tempo suficiente para se arrepender de todos os tragos que deu, de toda a fumaça que engoliu. Mesmo que tivesse, Baco não o faria, nunca havia se importado com as excessivas regras dos bons costumes, acreditava que se tinha saúde e dinheiro era para que pudesse gastá-los. Se chegasse aos sessenta seria um velho doido e sereno, alheio às limitações do tempo. Mas não chegou. Morreu, numa manhã de quarta-feira. Sorrindo, sem dúvidas. Feliz, provavelmente.
No dia em que Baco morreu os amigos todos se reuniram, após o enterro, num desses bares em que costumavam ir às sextas-feiras. A sua morte não havia sido lá uma grande surpresa, há alguns meses o médico havia diagnosticado a cirrose e quando Baco contou sobre a doença aos amigos, naquele mesmo bar, fez-se apenas um silêncio pesaroso seguido por um "desce mais uma" que Baco gritou ao garçom. E riram, riram todos, que era tudo o que podiam fazer.
Era certo, desde muito antes do diagnóstico, que Baco morreria de cirrose ou de qualquer outra complicação provocada pelo álcool ou por algum dos muitos péssimos hábitos de sua vida totalmente desregrada. Era certo também que morreria cedo, "trinta e poucos" - não passaria disso. E era certo, ainda, que faria falta aos amigos nos botecos; que eles, os botecos, não seriam mais os mesmos sem o sorriso e a alegria de Baco e que eles, os amigos, também não seriam mais os mesmos quando não pudessem mais ouvir Baco falando sobre os pequenos e grandes prazeres de sua vida mundana enquanto fazia círculos com a fumaça do cigarro...
E ficaram num daqueles bares todos os amigos de Baco no dia de sua morte, relembrando méritos e causos, rindo de todas as maluquices e afetos que ele havia se permitido. E não houve tanta tristeza. Baco não se foi infeliz, foi como se apagasse a luz. Morreu com um sorriso largo estampado no rosto e um copo de vinho na mão, numa quarta-feira, às nove da manhã, ouvindo uma canção inédita de Johnny Cash, depois de ler um dos livros de Bukowski.
Não se deu ao desgaste de envelhecer, com ou sem dignidade. E não teve tempo suficiente para se arrepender de todos os tragos que deu, de toda a fumaça que engoliu. Mesmo que tivesse, Baco não o faria, nunca havia se importado com as excessivas regras dos bons costumes, acreditava que se tinha saúde e dinheiro era para que pudesse gastá-los. Se chegasse aos sessenta seria um velho doido e sereno, alheio às limitações do tempo. Mas não chegou. Morreu, numa manhã de quarta-feira. Sorrindo, sem dúvidas. Feliz, provavelmente.
quinta-feira, junho 07, 2007
Fragmentos de cadernetas I
Parado, espera. Ela ainda está longe e vem andando devagar. Quando ela passar, você pega. Hoje já perdeu o emprego porque mandou o chefe à puta que o pariu. Recebeu o tal manifesto, assinado por todos, todos, todos os vizinhos, que eles não agüentam mais o barulho que vem do seu apartamento e a fumaça de cigarro que se espalha pelo hall do prédio quando você, bêbado, perde as chaves de casa. Hoje já tomou chuva e se atrasou pro almoço com a mãe. Três horas e meia parado no engarrafamento, um Ford Ka na sua frente e crianças mal educadas grudadas no vidro fazendo caretas. Sua gasolina acabou no meio da Marginal Pinheiros. Enxaqueca, palavra horrível. Sua vida é um maldito filme de Woody Allen. Ela logo chega. Seja rápido que ela deve acelerar o passo quando passar por você. Preste atenção no som das sirenes do Corpo de Bombeiros. E no andaime que aquela construtora falida colocou no seu caminho. Preste atenção nos outdoors iluminados da Paulista. E no vão do Masp. Preste atenção na sujeira do seu umbigo. E na careca do caixa da padaria. Não procure por ela, ela virá até você. Preste atenção nessa seqüência de clichês que foi o a droga do seu dia. Nem sempre é assim. A inspiração está em cada peido que aquele guarda de trânsito dá e que ninguém escuta porque a cidade é barulhenta demais. Não deixe, não deixe, não deixe que ela escorregue das suas mãos.
domingo, junho 03, 2007
Acho que é o sono...
Chamada do Fantástico: "Na semana em que o prefeito de São Paulo perdeu a cabeça durante um protesto, cientistas explicam o que acontece no cérebro na hora da raiva".
Antes de ouvir a segunda parte da frase, me veio a imagem de Gilberto Kassab sendo decapitado no meio de uma manifestação furiosa da população paulistana - até que não seria nada mal.
Antes de ouvir a segunda parte da frase, me veio a imagem de Gilberto Kassab sendo decapitado no meio de uma manifestação furiosa da população paulistana - até que não seria nada mal.
terça-feira, maio 29, 2007
Ces't La Vie
Tu podes assistir ao teu telejornal. Eu faço que não ligo, olho pela janela. Somente ontem fiquei sabendo da morte do tal ditador e isso foi no domingo. Te importa a informação. A mim, agora, interessa somente a lua crescente do céu estrelado lá fora.
Nós não temos tempo, baby. Eu não tenho tempo pra assistir ao telejornal. Não tenho tempo pra ouvir as mazelas das prostitutas de Ipswich. Não tenho tempo pra enterrar todos os corpos em Bagdá. Notaste que faz calor hoje? Essas noites quentes me fazem querer caminhar. Sairias comigo?
Já é tarde, eu sei. Já temos mais de trinta. Deveríamos assistir ao telejornal. Já contei sobre a mocinha do almoxarifado? Ela sempre me pergunta sobre a novela. Faz uma faculdade qualquer e tem aulas à noite, nunca consegue chegar em casa pra novela. Eu não vi. Eu sempre digo que não vi, mas ela sempre me pergunta.
As notícias. Como é que tu irias viver sem elas? Outro dia, no elevador, o vizinho contou-me que voltou a fumar, depois de dez anos. São quinze andares, baby, e eu não sabia o que lhe dizer. Sorri com pesar. Ele sorriu de volta. E foi só. Doze andares de silêncio.
Não há nenhuma novidade no ar. As mesmas bombas e as mesmas celebridades sem calcinha. Atrás dessa parede o vizinho está amassando um cigarro num velho cinzeiro de metal. Em algum lugar a mocinha do almoxarifado está lendo sinopses com lágrimas nos olhos. O Iraque amanheceu nublado hoje, baby, nuvens de fumaça. E no Reino Unido as meninas da vida tremem de medo da reencarnação de Jack.
No próximo bloco. O cano da pia da cozinha está furado e a louça suja se acumula há dias. Dois meses de aluguel atrasado. A poluição da metrópole tem acabado com os meus pulmões. E aquela afta no céu da minha boca ainda arde. Boa noite.
Nós não temos tempo, baby. Eu não tenho tempo pra assistir ao telejornal. Não tenho tempo pra ouvir as mazelas das prostitutas de Ipswich. Não tenho tempo pra enterrar todos os corpos em Bagdá. Notaste que faz calor hoje? Essas noites quentes me fazem querer caminhar. Sairias comigo?
Já é tarde, eu sei. Já temos mais de trinta. Deveríamos assistir ao telejornal. Já contei sobre a mocinha do almoxarifado? Ela sempre me pergunta sobre a novela. Faz uma faculdade qualquer e tem aulas à noite, nunca consegue chegar em casa pra novela. Eu não vi. Eu sempre digo que não vi, mas ela sempre me pergunta.
As notícias. Como é que tu irias viver sem elas? Outro dia, no elevador, o vizinho contou-me que voltou a fumar, depois de dez anos. São quinze andares, baby, e eu não sabia o que lhe dizer. Sorri com pesar. Ele sorriu de volta. E foi só. Doze andares de silêncio.
Não há nenhuma novidade no ar. As mesmas bombas e as mesmas celebridades sem calcinha. Atrás dessa parede o vizinho está amassando um cigarro num velho cinzeiro de metal. Em algum lugar a mocinha do almoxarifado está lendo sinopses com lágrimas nos olhos. O Iraque amanheceu nublado hoje, baby, nuvens de fumaça. E no Reino Unido as meninas da vida tremem de medo da reencarnação de Jack.
No próximo bloco. O cano da pia da cozinha está furado e a louça suja se acumula há dias. Dois meses de aluguel atrasado. A poluição da metrópole tem acabado com os meus pulmões. E aquela afta no céu da minha boca ainda arde. Boa noite.
sábado, maio 26, 2007
Porque sim...
Não, eu não preciso de perguntas para as minhas respostas... e entre o “eu não poderia ter feito” e o “eu poderia não ter feito”, eu hei de ficar com o segundo, ainda que nenhum dos dois faça realmente o meu estilo. Eu nunca me arrependo, darling. Poucas vezes eu levo a mão à testa febril e lamento, enquanto tu assobias e te divertes com meu erro. Na maioria delas eu te fito com os olhos meio fechados, o dedo mínimo entre os lábios, um sorriso no canto da boca, os cabelos grosseiramente jogados para o lado esquerdo, num clichê de filme pornô, e me rio por dentro... a ponto de quase te ensurdecer.
quarta-feira, maio 23, 2007
Correspondência extraviada I
R.,
Não lembro exatamente do dia em que tu voltaste. Não saberia dizer se aquele havia sido um dia triste ou um dia feliz ou um dia qualquer. Lembro, no entanto, de um palpitar estranho dentro de mim quando te notei e de quase tudo que veio depois do beijo morno e mudo que me deste.
Tu vieste sem avisar, com um brilho de lágrima nos olhos e um amontoado de palavras bonitas em frases que começavam com letras minúsculas. Contaste-me de tuas andanças pelas calçadas do mundo, disseste que era bom estar de volta e derramaste elogios sobre meus cabelos desalinhados e minhas unhas vermelhas e meus sapatos novos.
No dia em que chegaste, deixaste-me muda por horas, atordoada com tua presença vibrante. O que me escapou da boca depois foi puro delírio. E tu disseste que havia uma afinidade assombrosa entre nós, que meus pensamentos eram os teus e que valia à pena viver por essas coisas.
De uma certa maneira, eu esperava por ti, esperava que viesses. O que eu não esperava é que trouxesses contigo o pedaço de mim que carregaste da primeira vez em que partiste. E ele estava lá e tu o havia embrulhado para presente num papel espelhado e com um laço grande de fita vermelha. Bem sabes do quanto coisas assim me comovem...
Para comemorar teu retorno, bebemos vinho. Disso lembro-me bem porque teu sorriso ficou bordô. Tínhamos a janela grande e o céu sem estrelas e o barulho da rua entrecortado pelo jazz antigo que tu colocaste na vitrola. Lembro da madrugada escura e da luz das velas e de todos os teus suspiros de saudade e de teres me feito supor que, desta vez, ficarias. Moço, não sei se já te disse, tu és a história que eu mais gosto de contar.
Fato que o que ficou mesmo daquela noite foi teu riso irônico antes de adormecer. E daqueles dias, os que se seguiram, tua inquietação e a fome de mudança que transparecia em teus olhos quando lias os jornais gringos de domingo e assistias aos teus documentários na televisão. Faz tempo, muito tempo, que sumiste novamente.
Não ficaste sabendo. Andei sem rumo por meses, tentando crer que fosse apenas mais uma turbação, daquelas de que tu costumavas te queixar. Esperei por toques de telefone e toques de campainha e toques de tua mão na minha testa em brasa. Um dia dei-me conta. Turbações daquele tipo nunca duram tantos dias. Acho então que enlouqueci...
Busquei-te, primeiro, nos meus deslizes. Minhas mãos trêmulas tateando teu lugar vazio na cama. Não, não havia deslizes desta vez. Acreditei, depois, que tua ausência fosse apenas um sonho ruim que eu sonhava acordada nas intermináveis noites de insônia que me vieram com tua partida. Procurei-te nos nossos bares, nas nossas praças. Havia sempre um vestígio de ti, mas tu nunca estavas e, numa tarde dessas chuvosas, desisti de tentar te encontrar.
Recobrei a sanidade, faz pouco. Minha embriaguez habitual ainda não me permitiu entender os teus motivos. Acho mesmo que não existem motivos. Há de ser só o teu não caber dentro de ti e o espaço que, por isso, me falta. Tua completude não te permite sempre estares. Há precisão nisso tudo e é mania tua estas idas e vindas...
Espero, então, que voltes em breve, que meu repertório dos teus devaneios já se esgotou e cansa um pouco a quem me ouve este discurso repetido sobre os teus atrasos. Eu continuo no mesmo lugar, tu sabes. Sobrou uma garrafa de vinho na adega. A rua anda mais silenciosa. Comprei discos novos. Sinto falta de ti e do desconcerto que me causavas.
...
Não lembro exatamente do dia em que tu voltaste. Não saberia dizer se aquele havia sido um dia triste ou um dia feliz ou um dia qualquer. Lembro, no entanto, de um palpitar estranho dentro de mim quando te notei e de quase tudo que veio depois do beijo morno e mudo que me deste.
Tu vieste sem avisar, com um brilho de lágrima nos olhos e um amontoado de palavras bonitas em frases que começavam com letras minúsculas. Contaste-me de tuas andanças pelas calçadas do mundo, disseste que era bom estar de volta e derramaste elogios sobre meus cabelos desalinhados e minhas unhas vermelhas e meus sapatos novos.
No dia em que chegaste, deixaste-me muda por horas, atordoada com tua presença vibrante. O que me escapou da boca depois foi puro delírio. E tu disseste que havia uma afinidade assombrosa entre nós, que meus pensamentos eram os teus e que valia à pena viver por essas coisas.
De uma certa maneira, eu esperava por ti, esperava que viesses. O que eu não esperava é que trouxesses contigo o pedaço de mim que carregaste da primeira vez em que partiste. E ele estava lá e tu o havia embrulhado para presente num papel espelhado e com um laço grande de fita vermelha. Bem sabes do quanto coisas assim me comovem...
Para comemorar teu retorno, bebemos vinho. Disso lembro-me bem porque teu sorriso ficou bordô. Tínhamos a janela grande e o céu sem estrelas e o barulho da rua entrecortado pelo jazz antigo que tu colocaste na vitrola. Lembro da madrugada escura e da luz das velas e de todos os teus suspiros de saudade e de teres me feito supor que, desta vez, ficarias. Moço, não sei se já te disse, tu és a história que eu mais gosto de contar.
Fato que o que ficou mesmo daquela noite foi teu riso irônico antes de adormecer. E daqueles dias, os que se seguiram, tua inquietação e a fome de mudança que transparecia em teus olhos quando lias os jornais gringos de domingo e assistias aos teus documentários na televisão. Faz tempo, muito tempo, que sumiste novamente.
Não ficaste sabendo. Andei sem rumo por meses, tentando crer que fosse apenas mais uma turbação, daquelas de que tu costumavas te queixar. Esperei por toques de telefone e toques de campainha e toques de tua mão na minha testa em brasa. Um dia dei-me conta. Turbações daquele tipo nunca duram tantos dias. Acho então que enlouqueci...
Busquei-te, primeiro, nos meus deslizes. Minhas mãos trêmulas tateando teu lugar vazio na cama. Não, não havia deslizes desta vez. Acreditei, depois, que tua ausência fosse apenas um sonho ruim que eu sonhava acordada nas intermináveis noites de insônia que me vieram com tua partida. Procurei-te nos nossos bares, nas nossas praças. Havia sempre um vestígio de ti, mas tu nunca estavas e, numa tarde dessas chuvosas, desisti de tentar te encontrar.
Recobrei a sanidade, faz pouco. Minha embriaguez habitual ainda não me permitiu entender os teus motivos. Acho mesmo que não existem motivos. Há de ser só o teu não caber dentro de ti e o espaço que, por isso, me falta. Tua completude não te permite sempre estares. Há precisão nisso tudo e é mania tua estas idas e vindas...
Espero, então, que voltes em breve, que meu repertório dos teus devaneios já se esgotou e cansa um pouco a quem me ouve este discurso repetido sobre os teus atrasos. Eu continuo no mesmo lugar, tu sabes. Sobrou uma garrafa de vinho na adega. A rua anda mais silenciosa. Comprei discos novos. Sinto falta de ti e do desconcerto que me causavas.
...
segunda-feira, maio 21, 2007
Das coisas que se foram...
Sentou-se no banco da praça como quem pretende nunca mais se levantar. Não fazia sol, também não chovia. O céu estava todo coberto por nuvens, o que fazia dele branco e não azul - estranhou a natural negação de uma coisa tão natural. Olhou no relógio, passava pouco das cinco da tarde, demoraria a escurecer por culpa do maldito horário de verão. Deixou-se ali, sentado no banco da praça. Os pombos ao redor, senhores de muletas, mulheres barrigudas, crianças ranhentas, o sino mudo da catedral, o estardalhaço dos biscates, a suspensão dos ônibus rangendo, falatório, cenas de cinema. Acendeu um cigarro. Desejou uma cerveja, mas estava doente demais para se levantar. A nicotina lhe tirou dos ombros um certo peso que não se sabia como havia surgido. O banco era grande e curiosamente ninguém se sentou ao lado dele. Ficou por ali, sozinho, no banco da praça, observando os pombos e as muletas e as barrigas e as crianças. As torres da catedral pareciam um tanto curvadas. As pessoas caminhavam um tanto curvadas, como as torres da catedral. Filosofou qualquer coisa em voz alta sobre as curvas da estrada e as curvas da vida e sobre não ter como saber o que vem depois das curvas. Uma senhora o fitava, de longe, parecia imaginar-lhe louco, talvez ele fosse, era quase certo que sim. Acendeu mais um cigarro, na brasa do que já havia chegado ao filtro. Observou a fumaça da tragada subindo em direção ao céu, que agora era de um branco mais azulado, e sumindo. Desejou ser fumaça. Desejou subir em direção ao céu e depois sumir. E continuou sentado no banco da praça.
sexta-feira, maio 18, 2007
Das coisas que você traz e das que já eram minhas...
Faltam teclas no meu teclado e então eu me obrigo a essa antiga relação com a caneta. No lugar dos vinte e tantos gigabytes de MP3, o rádio, sintonizado numa estação a dedo escolhida... sem o groove, somente o jazz. Ainda, os velhos hábitos: uma carteira inteira de cigarros, metade de uma caixa de cervejas, a luz de velas iluminando o papel.
De novo? Tem sim alguma coisa. De novo tem o teu rosto fino que se emoldura quando eu fecho os olhos; o som da tua voz repetindo um milhão de vezes as bobagens todas que você me diz; o teu cheiro impregnado na minha roupa, na minha pele. De novo tem o tempo que não passa e a hora de te encontrar que nunca chega. Tem essa ressaca que não me deixa e as olheiras dessa dezena de noites mal dormidas.
Mas essa vontade de largar tudo... essa já é antiga, moço. A diferença é que agora eu quero largar tudo e fugir pro México com você.
De novo? Tem sim alguma coisa. De novo tem o teu rosto fino que se emoldura quando eu fecho os olhos; o som da tua voz repetindo um milhão de vezes as bobagens todas que você me diz; o teu cheiro impregnado na minha roupa, na minha pele. De novo tem o tempo que não passa e a hora de te encontrar que nunca chega. Tem essa ressaca que não me deixa e as olheiras dessa dezena de noites mal dormidas.
Mas essa vontade de largar tudo... essa já é antiga, moço. A diferença é que agora eu quero largar tudo e fugir pro México com você.
domingo, maio 13, 2007
Felipe Wilson
Ele estava no balcão do bar e enquanto eu pedia uma cerveja ele chorava por gotas de tequila que transbordaram o copo. Hey, cara, me vê um canudinho. E ele bebeu do balcão. Me olhou de lado com um não dá pra desperdiçar estampado no fundo das pupilas dilatadas. Engasguei-me com o te conheço de algum lugar que não saiu. A minha cerveja chegou, o balcão já estava seco, quis roubar o canudinho, ali, esquecido. Ele sorriu. Engasguei-me de novo e voltei pra pista, sem arranhões.
Eu gritei pra Iaiá que tinha encontrado o homem da minha vida. Olhei pra um lado, pra outro: não, ele não estava logo atrás de mim. Ela, alerta, timidamente disse que também, como quem segreda o proibido. E nos rimos da coincidência. Retrô vazia, imaginei quem seria o outro menino perfeito que fazia os olhos de Iaiá lacrimejantes de emoção. É aquele ali! Eu não sabia se havia dito ou se havia ouvido. Ri de mim, de nós, quando descobri que sim, os dois. Um só, é de quem pegar primeiro.
Sim, eu o conhecia de algum lugar. Há tempos havia atribuído a ele, somente a ele, minha falta de concentração nas aulas da faculdade. Iaiá o admirava menos, que nunca o havia visto, mas talvez por isso, o desejasse mais. Trocamos tapas mentais. Iaiá, você perdeu o discurso dele contra a pena de morte. Ele nunca te pediu cola, Iaiá. Iaiá, você não sabe o que ele é capaz de fazer com um canudinho. Iaiá morria de inveja de mim. Eu morria de inveja dos cabelos ruivos de Iaiá.
Calor. Seguimos o moço até o lounge improvisado nas escadas. Ele brilhava, só ele brilhava. Nós, eu e Iaiá, sorríamos e fazíamos comentários obscenos, porém pertinentes. Você viu aquilo? Eu vi. Uau! “Keep on, with the force, don't stop”. Ele olhou em nossa direção. Duas vezes. Era pra Iaiá. Dei-lhe um tabefe mental. Nele. À ela lancei um olhar assassino que virou gargalhada assim que ela retribuiu. Ele olhou foi pra mim, segundo Iaiá. Ou não, quem sabe?
De repente, a moça. A moça calçava os sapatos mais divertidos do mundo. A moça era magra e tinha um quê blasé. A moça segurou na mão dele. A moça o beijou. Não, ele beijou a moça, singelamente. Ódio. Já chega, vamos embora. Eu pago, tu pagas, ele paga. Pagamos. Adeus? Ainda não. Surpresa: William! William? Eu ouvi, ela ouviu. Ah não, Felipe! Wilson? Que seja. Agora sim. Chama um táxi pra mim?
Eu gritei pra Iaiá que tinha encontrado o homem da minha vida. Olhei pra um lado, pra outro: não, ele não estava logo atrás de mim. Ela, alerta, timidamente disse que também, como quem segreda o proibido. E nos rimos da coincidência. Retrô vazia, imaginei quem seria o outro menino perfeito que fazia os olhos de Iaiá lacrimejantes de emoção. É aquele ali! Eu não sabia se havia dito ou se havia ouvido. Ri de mim, de nós, quando descobri que sim, os dois. Um só, é de quem pegar primeiro.
Sim, eu o conhecia de algum lugar. Há tempos havia atribuído a ele, somente a ele, minha falta de concentração nas aulas da faculdade. Iaiá o admirava menos, que nunca o havia visto, mas talvez por isso, o desejasse mais. Trocamos tapas mentais. Iaiá, você perdeu o discurso dele contra a pena de morte. Ele nunca te pediu cola, Iaiá. Iaiá, você não sabe o que ele é capaz de fazer com um canudinho. Iaiá morria de inveja de mim. Eu morria de inveja dos cabelos ruivos de Iaiá.
Calor. Seguimos o moço até o lounge improvisado nas escadas. Ele brilhava, só ele brilhava. Nós, eu e Iaiá, sorríamos e fazíamos comentários obscenos, porém pertinentes. Você viu aquilo? Eu vi. Uau! “Keep on, with the force, don't stop”. Ele olhou em nossa direção. Duas vezes. Era pra Iaiá. Dei-lhe um tabefe mental. Nele. À ela lancei um olhar assassino que virou gargalhada assim que ela retribuiu. Ele olhou foi pra mim, segundo Iaiá. Ou não, quem sabe?
De repente, a moça. A moça calçava os sapatos mais divertidos do mundo. A moça era magra e tinha um quê blasé. A moça segurou na mão dele. A moça o beijou. Não, ele beijou a moça, singelamente. Ódio. Já chega, vamos embora. Eu pago, tu pagas, ele paga. Pagamos. Adeus? Ainda não. Surpresa: William! William? Eu ouvi, ela ouviu. Ah não, Felipe! Wilson? Que seja. Agora sim. Chama um táxi pra mim?
segunda-feira, maio 07, 2007
Hoje
Hoje, meu alter ego vai bater à tua porta, com duas garrafas de conhaque equilibradas entre os dedos de uma das mãos, um baseado bem bolado na outra e dez maços de cigarros vagabundos na mochila. Ele vai te pedir pra tocar aquela tal música no teu velho violão e vocês vão gargalhar como crianças, sem saber direito do quê é que estão rindo. Vai haver o peso nas consciências, vai haver o desamor, o desalento, vai haver, até mesmo, inevitável, a despedida... mas isso não importa. Hoje, meu alter ego vai bater à tua porta.
sexta-feira, maio 04, 2007
Espera
Eu fico esperando pelo toque estridente do telefone e pela tua voz me acenando do outro lado da linha. Espero você me dizer que vem, que já descobriu meu endereço e que não vai mais dar atenção aos meus protestos, que não importa quantos "nãos" eu te diga, teu carro já está estacionado em frente ao prédio e você até já subiu o primeiro lance de degraus.
Eu fico esperando pelo som dos teus passos no hall, o barulho surdo da campainha, teu rosto como paisagem no olho mágico, teus gritos me ordenando abrir a porta, que você não tem a noite toda pra esperar e já se cansou de todas essas negativas. Espero pelo teu silêncio, pelos abraços todos que você me prometeu, pelo teu sorriso tímido, pelos teus lábios colados aos meus.
Espero pelo arrepio de medo que eu sei que vou sentir quando tuas mãos trêmulas tocarem as minhas, pelas dúvidas tão cheias de certeza que você desperta em mim, pela vontade de fazer o tempo parar, pelo desapego de todo o resto. Espero, ansiosa, por todas as verdades e mentiras que já deixamos de viver.
Espero ouvir você dizer baixinho que o mundo já não gira mais e que agora somos só nos dois e o som abafado da nossa respiração... e as nossas saudades se anulando na eternidade do teu olhar, ainda que saibamos que o que é eterno pode durar apenas o tempo de um só suspiro.
Espero-te, enfim, já sabes. Basta que venhas e me tome em teus braços. Mas vem logo, que ainda que eu não me canse de esperar, já não suporto mais essa distância, a tua ausência consentida e o meu desejo incontrolável de te ter aqui.
Eu fico esperando pelo som dos teus passos no hall, o barulho surdo da campainha, teu rosto como paisagem no olho mágico, teus gritos me ordenando abrir a porta, que você não tem a noite toda pra esperar e já se cansou de todas essas negativas. Espero pelo teu silêncio, pelos abraços todos que você me prometeu, pelo teu sorriso tímido, pelos teus lábios colados aos meus.
Espero pelo arrepio de medo que eu sei que vou sentir quando tuas mãos trêmulas tocarem as minhas, pelas dúvidas tão cheias de certeza que você desperta em mim, pela vontade de fazer o tempo parar, pelo desapego de todo o resto. Espero, ansiosa, por todas as verdades e mentiras que já deixamos de viver.
Espero ouvir você dizer baixinho que o mundo já não gira mais e que agora somos só nos dois e o som abafado da nossa respiração... e as nossas saudades se anulando na eternidade do teu olhar, ainda que saibamos que o que é eterno pode durar apenas o tempo de um só suspiro.
Espero-te, enfim, já sabes. Basta que venhas e me tome em teus braços. Mas vem logo, que ainda que eu não me canse de esperar, já não suporto mais essa distância, a tua ausência consentida e o meu desejo incontrolável de te ter aqui.
terça-feira, maio 01, 2007
"You're just too good to be true"...
"You're just too good to be true"...
Eu adoro o som da tua risada ao telefone e as histórias que você conta e o modo como você me diz pra aproveitar o momento e quase me convence... soubesse você de todas as minhas letras e invenções pra essa nossa história confusa. Acontece que você chegou de repente demais trazendo uma perfeição que me assusta e, acredite, moço, eu não esperava por isso, não esperava que você fosse assim, tão completo. Cada suspiro teu parece um pedaço do céu e a tua serenidade, o teu riso, o teu choro contido, nada parece real... é como um sonho, e eu ainda tenho aquele medo tolo de sonhar, ele é uma das coisas que ficou do nosso passado.
"I can't take my mind off of you"...
As coisas todas que você me disse se repetem minuto a minuto e eu não consigo esquecer. E é engraçado porque, de um certo modo, não era pra ser assim. Nossos risos sem graça e o nosso silêncio parecem um remake daquele conto de amor adolescente... e eu me rio da nossa tolice, mas dentro de mim há uma melancolia e uma saudade estranha que nada abranda. Busco-te nas minhas memórias mais antigas, em um passado do qual eu já quase nem me lembro, e nas linhas recentes que você desperdiçou comigo... te encontro em tantas brechas que o todo que sou fica distante de mim. E acaba que eu não me reconheço, não me encontro mais nesse espaço que antes era meu e que agora parece tão vazio sem você...
"You'd be like heaven to touch, I wanna hold you so much"...
Chega sempre o dia em que a gente se cansa de todos os dias sempre tão iguais. Ontem caminhei pelas mesmas ruas desses últimos dez anos... mas elas estavam tão diferentes. Foi uma noite quente e não havia o ar condensado da minha respiração se misturando à fumaça do meu cigarro; também não havia o barulho do trânsito e o tal perigo que dizem que nos espreita por aí. Eu sei, tudo estava lá, mas por tua causa eu já não noto mais as habituais intempéries. E parece bobo, mas está tudo tão cheio de cor. Eu tenho um sorriso nos lábios que não se esvai nem se algo me dói e meus olhos andam brilhando, moço... e é tudo culpa tua.
"But if you feel like I feel, please let me know that it's real"...
Aí eu desejo não ter te encontrado. E no minuto seguinte, pareço não saber o que seria de mim sem isso. Mas tudo aconteceu numa fração tão pequena de tempo, que quase não dá pra acreditar na intensidade dessas coisas todas que você diz que sente, no conteúdo das tuas frases feitas pra mim, nas fantasias que teu silêncio me segreda. E eu quase te proponho me convencer de que nada disso é mentira, mas ainda nem sei se realmente quero que não seja. E então eu oscilo, sou ora tristeza, ora euforia... pelos teus lábios distantes e pelas imagens que faço do que poderia ser de nós dois.
"I need you baby, and if it's quite, all right, I need you baby to warm a lonely night"...
Eu te quero aqui, pra conferir a cor dos teus olhos e sentir de novo o teu cheiro de maracujá; pra cumprir todas as promessas não feitas e as juras de amor que nunca trocamos... nem que seja só por algumas horas, nem que seja apenas uma vez. Mas aí, moço, vem toda essa vida que eu levei anos e anos pra construir, vem a minha incapacidade de mentir a não ser que seja pra mim mesma, vem um medo sem tamanho de não querer mais sair dos teus braços... que eu não concordo com essa tua filosofia barata de que a vida é feita de momentos; a vida, meu bem, é um tanto quanto mais complicada do que eu sou capaz de explicar nessas poucas linhas... se ao menos não houvesse todas as outras coisas.
“Trust in me when I say: it’s ok”...
E eu me obrigo a me despedir sem um abraço, talvez porque eu não queira a despedida assim, tão próxima do reencontro. Nem sempre a gente pode escolher o caminho que quer seguir. Meus planos mudam a cada dez segundos. Os outros dizem que sou indecisa demais, inconstante demais. Mas eles não sabem... eu sou livre, moço, eu posso voar. Um dia eu volto voando e vou bater à tua porta. Agora eu quero ficar sozinha com meus fantasmas. Ainda que, sozinha, eu queira estar com você.
Eu adoro o som da tua risada ao telefone e as histórias que você conta e o modo como você me diz pra aproveitar o momento e quase me convence... soubesse você de todas as minhas letras e invenções pra essa nossa história confusa. Acontece que você chegou de repente demais trazendo uma perfeição que me assusta e, acredite, moço, eu não esperava por isso, não esperava que você fosse assim, tão completo. Cada suspiro teu parece um pedaço do céu e a tua serenidade, o teu riso, o teu choro contido, nada parece real... é como um sonho, e eu ainda tenho aquele medo tolo de sonhar, ele é uma das coisas que ficou do nosso passado.
"I can't take my mind off of you"...
As coisas todas que você me disse se repetem minuto a minuto e eu não consigo esquecer. E é engraçado porque, de um certo modo, não era pra ser assim. Nossos risos sem graça e o nosso silêncio parecem um remake daquele conto de amor adolescente... e eu me rio da nossa tolice, mas dentro de mim há uma melancolia e uma saudade estranha que nada abranda. Busco-te nas minhas memórias mais antigas, em um passado do qual eu já quase nem me lembro, e nas linhas recentes que você desperdiçou comigo... te encontro em tantas brechas que o todo que sou fica distante de mim. E acaba que eu não me reconheço, não me encontro mais nesse espaço que antes era meu e que agora parece tão vazio sem você...
"You'd be like heaven to touch, I wanna hold you so much"...
Chega sempre o dia em que a gente se cansa de todos os dias sempre tão iguais. Ontem caminhei pelas mesmas ruas desses últimos dez anos... mas elas estavam tão diferentes. Foi uma noite quente e não havia o ar condensado da minha respiração se misturando à fumaça do meu cigarro; também não havia o barulho do trânsito e o tal perigo que dizem que nos espreita por aí. Eu sei, tudo estava lá, mas por tua causa eu já não noto mais as habituais intempéries. E parece bobo, mas está tudo tão cheio de cor. Eu tenho um sorriso nos lábios que não se esvai nem se algo me dói e meus olhos andam brilhando, moço... e é tudo culpa tua.
"But if you feel like I feel, please let me know that it's real"...
Aí eu desejo não ter te encontrado. E no minuto seguinte, pareço não saber o que seria de mim sem isso. Mas tudo aconteceu numa fração tão pequena de tempo, que quase não dá pra acreditar na intensidade dessas coisas todas que você diz que sente, no conteúdo das tuas frases feitas pra mim, nas fantasias que teu silêncio me segreda. E eu quase te proponho me convencer de que nada disso é mentira, mas ainda nem sei se realmente quero que não seja. E então eu oscilo, sou ora tristeza, ora euforia... pelos teus lábios distantes e pelas imagens que faço do que poderia ser de nós dois.
"I need you baby, and if it's quite, all right, I need you baby to warm a lonely night"...
Eu te quero aqui, pra conferir a cor dos teus olhos e sentir de novo o teu cheiro de maracujá; pra cumprir todas as promessas não feitas e as juras de amor que nunca trocamos... nem que seja só por algumas horas, nem que seja apenas uma vez. Mas aí, moço, vem toda essa vida que eu levei anos e anos pra construir, vem a minha incapacidade de mentir a não ser que seja pra mim mesma, vem um medo sem tamanho de não querer mais sair dos teus braços... que eu não concordo com essa tua filosofia barata de que a vida é feita de momentos; a vida, meu bem, é um tanto quanto mais complicada do que eu sou capaz de explicar nessas poucas linhas... se ao menos não houvesse todas as outras coisas.
“Trust in me when I say: it’s ok”...
E eu me obrigo a me despedir sem um abraço, talvez porque eu não queira a despedida assim, tão próxima do reencontro. Nem sempre a gente pode escolher o caminho que quer seguir. Meus planos mudam a cada dez segundos. Os outros dizem que sou indecisa demais, inconstante demais. Mas eles não sabem... eu sou livre, moço, eu posso voar. Um dia eu volto voando e vou bater à tua porta. Agora eu quero ficar sozinha com meus fantasmas. Ainda que, sozinha, eu queira estar com você.
sexta-feira, abril 27, 2007
Diferenças
Não, não venha me dizer que a arte imita a vida e vice-versa usando como argumento as novelas insuportáveis que você assiste. A vida, meu bem, não tem nada a ver com as suas novelinhas. Na vida real, o mocinho não passa todos os capítulos quebrando a cara pra só se dar bem no final; na vida real, é muito pelo contrário. Você vai aprender, amargamente, que na vida os vilões não morrem e tampouco se regeneram; que na vida nem sempre aparece um extra se você for acabar sozinha; que não dá pra eliminar os personagens quando eles perdem sua razão de ser; que na vida real quase nunca tem uma pessoa tão empenhada em te destruir como nas novelas, na vida real quase todas as pessoas te destroem, ainda que não queiram. Você sabe, meu bem, a vida não tem um roteiro pré-elaborado com soluções para todos os problemas, na vida quase nada se encaixa perfeitamente, a vida não tem intervalo nos momentos cruciais e nem trilha sonora. A vida não te dá um tempo pra digerir o capítulo anterior, não te permite refazer as cenas, decorar as falas, escolher o melhor ângulo de aparição. A vida, meu bem, é um grande improviso, não tem reprise e continua depois do seu último capítulo, sem palmas do elenco ou festa de encerramento.
terça-feira, abril 24, 2007
Opostos
I
Vestia todos os dias a mesma roupa, prendia os cabelos da mesma maneira e não usava maquiagem. Nunca se sobressaía, pouco falava, apenas caminhava rumo ao nada acompanhada, apenas, pela sua insegurança. Todos os seus dias eram vazios e iguais e ela sentia um medo enorme de perder-se em si mesma, tornar-se um vulto negro que passa despercebido e, de uma hora para outra, cair no esquecimento. Por isso, lutava por se fazer notar através de pensamentos precisos e atitudes nobres. Acabou ficando conhecida, apesar de todo seu esforço, por sua quase vulgar neutralidade, por nunca na vida ter feito a mínima diferença...
II
Ele era um cientista e falava demais. Dizia-se cético e sempre tinha na ponta da língua uma explicação lógica para todas as coisas. A vida era toda feita de probabilidades, regidas pelas leis naturais, oriundas do poder cósmico do Universo e todos os problemas poderiam ser matematicamente resolvidos. Sua racionalidade o fez chato, sua inteligência o fez único, sua dedicação à ciência o fez famoso. Mas, apesar de sua imensa sabedoria, nem por um dia deixou de ser humano. Morreria, antes tarde do que nunca e, de uma vez por todas, teria que se calar. Para a morte não havia solução...
III
No que dizia respeito aos sentimentos, ela era adepta do preto no branco, falava tudo que lhe vinha à mente, nunca media as palavras, transformava todo e qualquer sentimento em frases claras e inteligíveis. Ele era o dono do silêncio, revelava-se, quando o fazia, por gestos dúbios e complicados. Para todas as certezas dela ele emitia um talvez. Para todas as dúvidas, ela criava uma tentativa e ele, reticências. Eram pólos opostos e, apesar disso (ou talvez por isso mesmo), viram-se enredados em uma trama que ela, apaixonadamente, chamava destino e ele, por rebeldia, chamava coincidência...
Vestia todos os dias a mesma roupa, prendia os cabelos da mesma maneira e não usava maquiagem. Nunca se sobressaía, pouco falava, apenas caminhava rumo ao nada acompanhada, apenas, pela sua insegurança. Todos os seus dias eram vazios e iguais e ela sentia um medo enorme de perder-se em si mesma, tornar-se um vulto negro que passa despercebido e, de uma hora para outra, cair no esquecimento. Por isso, lutava por se fazer notar através de pensamentos precisos e atitudes nobres. Acabou ficando conhecida, apesar de todo seu esforço, por sua quase vulgar neutralidade, por nunca na vida ter feito a mínima diferença...
II
Ele era um cientista e falava demais. Dizia-se cético e sempre tinha na ponta da língua uma explicação lógica para todas as coisas. A vida era toda feita de probabilidades, regidas pelas leis naturais, oriundas do poder cósmico do Universo e todos os problemas poderiam ser matematicamente resolvidos. Sua racionalidade o fez chato, sua inteligência o fez único, sua dedicação à ciência o fez famoso. Mas, apesar de sua imensa sabedoria, nem por um dia deixou de ser humano. Morreria, antes tarde do que nunca e, de uma vez por todas, teria que se calar. Para a morte não havia solução...
III
No que dizia respeito aos sentimentos, ela era adepta do preto no branco, falava tudo que lhe vinha à mente, nunca media as palavras, transformava todo e qualquer sentimento em frases claras e inteligíveis. Ele era o dono do silêncio, revelava-se, quando o fazia, por gestos dúbios e complicados. Para todas as certezas dela ele emitia um talvez. Para todas as dúvidas, ela criava uma tentativa e ele, reticências. Eram pólos opostos e, apesar disso (ou talvez por isso mesmo), viram-se enredados em uma trama que ela, apaixonadamente, chamava destino e ele, por rebeldia, chamava coincidência...
sábado, abril 21, 2007
Malabares
Você tinha que dizer umas verdades praquela moça petulante que se diz sua amiga, quem sabe até dar umas bofetadas na cara dela, com a mão bem aberta, pra marcar os cinco dedos e acabar logo com essa amizade de mentira. Você também tinha que abrir o jogo com aquele cara, falar pra ele o que você sente, parar de esconder dele essas coisas erradas que você teima em fazer. E devia aproveitar pra contar a verdade praquele outro, vai lá, diz pra ele que você não é nada disso que ele pensa que você é, diz pra ele que você é normal, que a sua rotina é um saco, que você não tem coragem de sair da casa da sua mãe por causa da comida, da roupa lavada e essas coisas. E já que é pra entrar num lance de sinceridade, conta logo pros seus pais que você fuma escondida e que está namorando um jogador de futebol. Ah, querida, essa vida que você vive debaixo dos holofotes é uma farsa. Já faz tempo que você se perdeu no meio de tanta filosofia, de tanta parafernália psicológica, de tanto sentimento sem sentido. E agora você fica tentando enganar esse público enorme que te aplaude e não percebe que só está enganando a si mesma. Porque a gente sabe. A gente sabe que você já fez um aborto, que já tentou suicídio e que já tem passagem na polícia. A gente sabe que uma vez você gastou o salário de um mês inteiro jogando na loteria. A gente também sabe que você virou a casaca praquele time chinfrim do seu primeiro namorado. A gente conhece bem todos os seus pequenos e grandes defeitos. Todo mundo conhece, todo mundo sabe. Então pára de se esconder atrás dessa maquiagem, pára de pensar que você pode se livrar de todos os seus erros toda vez que muda a cor do cabelo. Você vai ser sempre assim, vai ser sempre você, não importa onde, nem como e nem quando. Desiste logo desse disfarce idiota. Tira essa roupa e admite, de uma vez por todas, que quando está nua você deixa de existir.
segunda-feira, abril 16, 2007
Tempo
No escuro de um quarto qualquer, o relógio pisca 22:30. No terraço de um prédio o homem planeja minuciosamente seu suicídio. Ela dança entorpecida pelo álcool em uma boate do outro lado da cidade.O senhor muito idoso dá seu último suspiro numa cama de hospital. Continentes adiante uma bomba explode, ensurdecendo a população. Apaga-se a vela do bolo de aniversário, os cachorros latem nervosos. Numa lata de lixo, uma nota de cem reais é encontrada pelo mendigo. Em um bar distante o jogador experiente encaçapa uma bola de bilhar. O casal de namorados se despede em frente ao terminal rodoviário. Soa o terceiro alarme no teatro lotado. Na portaria o vigia dorme profundo. Um homem ferido sangra na esquina. Dois carros se chocam. A garota cega lê um cardápio em braile de um restaurante famoso. As formigas terminam seu trabalho. Alunos de uma faculdade descem as escadarias. O padre vai se deitar. Cai uma lágrima, começa a chuva. Ele acende o cigarro na chama do fogão. A prostituta se insinua para os motoristas no sinaleiro. O PM persegue um ladrão. O mar se agita, o vento derruba uma árvore. A música começa a tocar. Um corpo cai. E no mesmo quarto, agora iluminado pela luz de um velho abajur, o relógio pisca 22:31.
terça-feira, abril 10, 2007
Delírios
Morro um pouco por dia. De saudades. De inveja. De vontade. Aos sábados, cada raio do sol que brilha lá fora me faz lamentar ainda estar aqui dentro, na cama, quando já são mais de três horas da tarde. Vejo as moças na TV desfilando de biquíni no calçadão da minha praia. E sempre me vem lembranças de olhos verdes abruptamente revelados, beijos de motocicleta, caminhadas noturnas em ruas sem postes de iluminação, brisa do mar e filosofia em troncos de árvore, longas jornadas atrás de uma Coca-Cola em uma noite quente...
É um tipo de raiva, se é que me entendem. Essa angústia toda vai além do verão. Ando sendo o que eu não gostaria de ser em lugares nos quais eu não gostaria de estar. Me chegam uns sorrisos de compaixão seguidos de tapas com a mão aberta na minha face mais frágil. Pedras no caminho que vou guardando pra um dia construir o meu castelo de Pessoa.
O ano que se foi se foi depressa demais. Este veio como alguém que se arrasta por um caminho que não gostaria de trilhar. Em comum: todos os dias iguais, os fins de tarde com a mesma cor, o mesmo sopro noturno a despentear meus cabelos. Uma certa tontura que não se sabe se do álcool ou de alguma outra coisa qualquer. Sono. E tudo gira muito rápido. E não é possível dormir. Alertas, meus dedos errantes entregam todas as minhas verdades.
É um tipo de raiva, se é que me entendem. Essa angústia toda vai além do verão. Ando sendo o que eu não gostaria de ser em lugares nos quais eu não gostaria de estar. Me chegam uns sorrisos de compaixão seguidos de tapas com a mão aberta na minha face mais frágil. Pedras no caminho que vou guardando pra um dia construir o meu castelo de Pessoa.
O ano que se foi se foi depressa demais. Este veio como alguém que se arrasta por um caminho que não gostaria de trilhar. Em comum: todos os dias iguais, os fins de tarde com a mesma cor, o mesmo sopro noturno a despentear meus cabelos. Uma certa tontura que não se sabe se do álcool ou de alguma outra coisa qualquer. Sono. E tudo gira muito rápido. E não é possível dormir. Alertas, meus dedos errantes entregam todas as minhas verdades.
sábado, abril 07, 2007
Pleonasmos, hipérboles, calor e hardcore...
Eram os dedos dela alisando os cabelos dele que me incomodavam. E aquela chama de isqueiro constantemente tremulando enquanto ele levava o cigarro aos lábios. E o silêncio que se fazia entre os dois em alguns momentos e que não constrangia, acalentava. E a maneira como ela o olhava, enquanto ele fingia distração e cantarolava uma canção antiga em uma língua morta.
Era embaraçoso, baby, ver os dois assim. Ele, ingênuo, bebericando doses de gim que lhe queimavam as bochechas pálidas, o olhar apaixonado consumindo as pupilas dela como ácido. Ela, confiante, tragadas profundas num cigarro de cravo, jogando os cabelos pra trás e rindo e articulando frases de duplo sentido para aguçar os sentidos dele.
Ele empostava a voz pra dizer que estava com frio, que estava com sede, que estava com fome, que queria fumar um baseado e dormir até tarde no dia seguinte... e ela não dizia nada, mas seus dedos hesitantes bagunçando os cabelos dele gritavam que ela, só ela, tinha as cobertas e a cerveja e uma geladeira cheia de guloseimas proibidas e seda importada e nenhum despertador no quarto.
Ah, baby, eu sabia, lá no fundo da minha alma cansada e conhecedora das peripécias fantasiosas daquele moço, que ele já era um pouco dela muito antes... muito antes que ela enrolasse aqueles dedos tortos nos cachos ruivos dos cabelos dele, muito antes dessa mania que ela tem de sacar o zippo toda vez que ele pega um cigarro, muito antes de todos esses silêncios e de todos esses olhares e de todos esses suspiros, muito antes que os dois começassem a se esbarrar por aí, pelos bares, pela vida.
Não foi ciúme, baby, acredita... foi só esse ódio que eu tenho dos tais romantismos injustificados. Era por saber dessa posse dele que ela tinha que meu estômago ardia em chamas, e me doía aqui dentro alguma coisa, toda vez que ele lançava a ela um daqueles sorrisinhos idiotas, como que se dando sem saber, o tolo, que ela já estava quase esgotada de tanto o ter.
Era embaraçoso, baby, ver os dois assim. Ele, ingênuo, bebericando doses de gim que lhe queimavam as bochechas pálidas, o olhar apaixonado consumindo as pupilas dela como ácido. Ela, confiante, tragadas profundas num cigarro de cravo, jogando os cabelos pra trás e rindo e articulando frases de duplo sentido para aguçar os sentidos dele.
Ele empostava a voz pra dizer que estava com frio, que estava com sede, que estava com fome, que queria fumar um baseado e dormir até tarde no dia seguinte... e ela não dizia nada, mas seus dedos hesitantes bagunçando os cabelos dele gritavam que ela, só ela, tinha as cobertas e a cerveja e uma geladeira cheia de guloseimas proibidas e seda importada e nenhum despertador no quarto.
Ah, baby, eu sabia, lá no fundo da minha alma cansada e conhecedora das peripécias fantasiosas daquele moço, que ele já era um pouco dela muito antes... muito antes que ela enrolasse aqueles dedos tortos nos cachos ruivos dos cabelos dele, muito antes dessa mania que ela tem de sacar o zippo toda vez que ele pega um cigarro, muito antes de todos esses silêncios e de todos esses olhares e de todos esses suspiros, muito antes que os dois começassem a se esbarrar por aí, pelos bares, pela vida.
Não foi ciúme, baby, acredita... foi só esse ódio que eu tenho dos tais romantismos injustificados. Era por saber dessa posse dele que ela tinha que meu estômago ardia em chamas, e me doía aqui dentro alguma coisa, toda vez que ele lançava a ela um daqueles sorrisinhos idiotas, como que se dando sem saber, o tolo, que ela já estava quase esgotada de tanto o ter.
quinta-feira, abril 05, 2007
Uma hora, pouco mais... ou isso que chamam de eternidade
Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das nove. O moço nunca chegava no horário.
Goles de cerveja que ela não deveria beber. Tragadas num cigarro que não deveriam ser tão freqüentes e tão profundas. Sono. Tosse. Falta de apetite pro risoto de anteontem guardado na geladeira. Todos os dias eram assim. Acordar quando estava quase anoitecendo. Voltar a dormir quando já havia amanhecido. Entre os resmungos e os bocejos: cervejas, cigarros, uma ou outra alopatia, música, alguns rabiscos, banhos, maquiagem, filmes cheios de sentido, sexo, risadas. Valiam, às vezes, caminhadas, um ou outro compromisso riscado na agenda, visitas à mãe doente, compras no supermercado, reuniões com os amigos. Sempre um desejo contido de algo mais, algo maior. Sempre uma culpa por não estar nos lugares certos, fazendo as coisas certas, pelas mentiras, pela falta de sentido e pela filosofia barata e desmotivada de auto-destruição.
Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das dez. O moço nunca chegava no horário.
Goles de cerveja que ela não deveria beber. Tragadas num cigarro que não deveriam ser tão freqüentes e tão profundas. Sono. Tosse. Falta de apetite pro risoto de anteontem guardado na geladeira. Todos os dias eram assim. Acordar quando estava quase anoitecendo. Voltar a dormir quando já havia amanhecido. Entre os resmungos e os bocejos: cervejas, cigarros, uma ou outra alopatia, música, alguns rabiscos, banhos, maquiagem, filmes cheios de sentido, sexo, risadas. Valiam, às vezes, caminhadas, um ou outro compromisso riscado na agenda, visitas à mãe doente, compras no supermercado, reuniões com os amigos. Sempre um desejo contido de algo mais, algo maior. Sempre uma culpa por não estar nos lugares certos, fazendo as coisas certas, pelas mentiras, pela falta de sentido e pela filosofia barata e desmotivada de auto-destruição.
Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das dez. O moço nunca chegava no horário.
terça-feira, abril 03, 2007
"One for my baby (and one more for the road)"...
Outubro mal começou, chove há dias nessa cidade cinza e tenho visto tudo em preto e branco. Não há muito que se fazer por aqui. Ontem bebi, de um só gole, aquele resto de whisky que sobrou da tua última noite de insônia, e fumei quase todos os teus cigarros.
Desde que me aprisionei nas tuas memórias, o tempo parou de passar. Foram semanas... eu deitada no tapete felpudo da sala, ouvindo teus discos de vinil e tentando definir a nossa história. Demorei a dar-me conta de que sequer tínhamos uma.
Fato que vivemos todos esses longos anos numa busca insana um do outro. Eu me buscava, noite após noite, na opacidade dos teus olhos verdes, e tu te buscavas no meu rosto amassado de todas as manhãs. Nossos corpos quase se fundiam, mas nunca nos soubemos assim, tão próximos. E acabou que não tivemos uma história... fomos, juntos, apenas o teu sorriso torto, o teu sarcasmo, um tapa de mão aberta no meu rosto molhado de lágrima. E nosso nada ficou guardado numa pequena caixa de lembranças...
Ainda não desfiz as malas de nossa última viagem pelo infinito... lembro das inúmeras vezes em que a tua voz teimosa repetiu que seriam só alguns dias e que aquilo tudo não era necessário: as alopatias, os panos quentes. Eu carregava frio para os dias de verão, tu dizias. Mas, antes que eu pudesse consentir, teus braços magros amarrotavam minhas compressas no porta-malas do nosso carro. Era sempre assim. E, no fim, nós éramos só estrada. O carro, as malas, aqueles placebos todos ficavam sempre pra trás... flutuávamos nus. Eu curava tua gripe com beijos molhados na tua testa febril, minhas dores de cabeça eram quase irrelevantes.
Mas acontecia que nossos destinos eram por demais incertos e nossas idas nunca terminavam. A insistência era vã. Carregávamos nas costas o peso de quem nunca chega. E sempre voltávamos pro mesmo lugar: o apartamento, no quinto andar do prédio sem vizinhos, na viela mais barulhenta daquela cidade quase fantasma... os paralelepípedos molhados da rua lá embaixo ainda me ferem os ouvidos quando os carros passam.
Então, tu te cansaste de todas estas viagens sem rumo e sem rima, e do estar constante nesta cidade fria, e compraste, com o meu dinheiro, uma passagem só de ida pra algum lugar do qual nunca ouvi falar. E eu fiquei aqui, ouvindo tua música, fumando teu velho estoque de cigarros, buscando teus lábios nos gargalos vazios espalhados pela casa...
Pouca coisa mudou desde que tu partiste. Nossos amigos sempre aparecem, trazem flores pra colorir a nossa sala e me perguntam de ti... digo que de ti não sei há tempos, oculto a minha dor num grande gole de um destilado qualquer e sorrio um riso sincero e lateral. Fingir acaba sendo fácil porque a minha dor é discreta, tu bem sabes. Meu sofrimento não grita desesperos aos ouvidos dos outros, no máximo me despenteia os cabelos e amplia discretamente as minhas olheiras... e eles percebem, há piedade nas respostas mudas que me dão, mostram-me dentes cheios de condolências, mas dá para viver bem assim.
A casa agora está mais clara porque mandei que pintassem as paredes e trocassem o piso. As tábuas novas têm o brilho de uma cor marfim que me cega quando acordo sem sono no meio da madrugada. Teus bonsais, pode parecer que minto, estão fortes como nunca... tenho lhes dado pouca água e teus conselhos absurdos sobre as cinzas de cigarro, agora, diante das folhas verdes, me parecem acertados.
As meninas da rua têm aparecido com mais freqüência, ficam prostradas nas esquinas, seminuas, à espera de amantes que lhe encham os estômagos de vento e os corações de mágoas. Não passam mais os velhos ricos que perguntavam por elas enquanto elas se divertiam com outros velhos ricos nos hotéis afastados do centro... eu durmo quando me canso e acordo sempre com seus gritos de miséria e frio. Alguns bares fecharam, novos surgiram. A polícia ainda faz a ronda todas às sextas-feiras, mas não ouço mais as sirenes. Aos domingos, por causa da feira, a rua tem ficado abarrotada de carros... fico debruçada na janela, observando os passantes felizes com suas sacolinhas cheias de estatuetas e incensos e vestidinhos de boneca.
E o tempo parou de passar, já disse, desde que me aprisionei nas tuas memórias...
Correm boatos tristes de que tu vais voltar, somente pra dizer adeus... bem sei das reticências que teu adeus traz escondidas. Então, sugiro que venhas tarde da noite, durante o meu sono pesado, traga-me um buquê de rosas tristes e puxes rápido o gatilho, num bilhete morno, quase sem palavras... leves tudo de ti que ainda me cerca, dê-me um beijo rápido na testa e vá, pra nunca mais. A estrada te espera e já tenho angústias que me bastam, não quero ouvir-te balbuciar as tuas longas despedidas. Se o teu adeus é assim tão preciso, não permitas que eu te espere acordada... não me deixa mais uma vez o vínculo destes teus olhos sem brilho, que eu já não sei se posso suportar.
Desde que me aprisionei nas tuas memórias, o tempo parou de passar. Foram semanas... eu deitada no tapete felpudo da sala, ouvindo teus discos de vinil e tentando definir a nossa história. Demorei a dar-me conta de que sequer tínhamos uma.
Fato que vivemos todos esses longos anos numa busca insana um do outro. Eu me buscava, noite após noite, na opacidade dos teus olhos verdes, e tu te buscavas no meu rosto amassado de todas as manhãs. Nossos corpos quase se fundiam, mas nunca nos soubemos assim, tão próximos. E acabou que não tivemos uma história... fomos, juntos, apenas o teu sorriso torto, o teu sarcasmo, um tapa de mão aberta no meu rosto molhado de lágrima. E nosso nada ficou guardado numa pequena caixa de lembranças...
Ainda não desfiz as malas de nossa última viagem pelo infinito... lembro das inúmeras vezes em que a tua voz teimosa repetiu que seriam só alguns dias e que aquilo tudo não era necessário: as alopatias, os panos quentes. Eu carregava frio para os dias de verão, tu dizias. Mas, antes que eu pudesse consentir, teus braços magros amarrotavam minhas compressas no porta-malas do nosso carro. Era sempre assim. E, no fim, nós éramos só estrada. O carro, as malas, aqueles placebos todos ficavam sempre pra trás... flutuávamos nus. Eu curava tua gripe com beijos molhados na tua testa febril, minhas dores de cabeça eram quase irrelevantes.
Mas acontecia que nossos destinos eram por demais incertos e nossas idas nunca terminavam. A insistência era vã. Carregávamos nas costas o peso de quem nunca chega. E sempre voltávamos pro mesmo lugar: o apartamento, no quinto andar do prédio sem vizinhos, na viela mais barulhenta daquela cidade quase fantasma... os paralelepípedos molhados da rua lá embaixo ainda me ferem os ouvidos quando os carros passam.
Então, tu te cansaste de todas estas viagens sem rumo e sem rima, e do estar constante nesta cidade fria, e compraste, com o meu dinheiro, uma passagem só de ida pra algum lugar do qual nunca ouvi falar. E eu fiquei aqui, ouvindo tua música, fumando teu velho estoque de cigarros, buscando teus lábios nos gargalos vazios espalhados pela casa...
Pouca coisa mudou desde que tu partiste. Nossos amigos sempre aparecem, trazem flores pra colorir a nossa sala e me perguntam de ti... digo que de ti não sei há tempos, oculto a minha dor num grande gole de um destilado qualquer e sorrio um riso sincero e lateral. Fingir acaba sendo fácil porque a minha dor é discreta, tu bem sabes. Meu sofrimento não grita desesperos aos ouvidos dos outros, no máximo me despenteia os cabelos e amplia discretamente as minhas olheiras... e eles percebem, há piedade nas respostas mudas que me dão, mostram-me dentes cheios de condolências, mas dá para viver bem assim.
A casa agora está mais clara porque mandei que pintassem as paredes e trocassem o piso. As tábuas novas têm o brilho de uma cor marfim que me cega quando acordo sem sono no meio da madrugada. Teus bonsais, pode parecer que minto, estão fortes como nunca... tenho lhes dado pouca água e teus conselhos absurdos sobre as cinzas de cigarro, agora, diante das folhas verdes, me parecem acertados.
As meninas da rua têm aparecido com mais freqüência, ficam prostradas nas esquinas, seminuas, à espera de amantes que lhe encham os estômagos de vento e os corações de mágoas. Não passam mais os velhos ricos que perguntavam por elas enquanto elas se divertiam com outros velhos ricos nos hotéis afastados do centro... eu durmo quando me canso e acordo sempre com seus gritos de miséria e frio. Alguns bares fecharam, novos surgiram. A polícia ainda faz a ronda todas às sextas-feiras, mas não ouço mais as sirenes. Aos domingos, por causa da feira, a rua tem ficado abarrotada de carros... fico debruçada na janela, observando os passantes felizes com suas sacolinhas cheias de estatuetas e incensos e vestidinhos de boneca.
E o tempo parou de passar, já disse, desde que me aprisionei nas tuas memórias...
Correm boatos tristes de que tu vais voltar, somente pra dizer adeus... bem sei das reticências que teu adeus traz escondidas. Então, sugiro que venhas tarde da noite, durante o meu sono pesado, traga-me um buquê de rosas tristes e puxes rápido o gatilho, num bilhete morno, quase sem palavras... leves tudo de ti que ainda me cerca, dê-me um beijo rápido na testa e vá, pra nunca mais. A estrada te espera e já tenho angústias que me bastam, não quero ouvir-te balbuciar as tuas longas despedidas. Se o teu adeus é assim tão preciso, não permitas que eu te espere acordada... não me deixa mais uma vez o vínculo destes teus olhos sem brilho, que eu já não sei se posso suportar.
sexta-feira, março 30, 2007
Sobre todas as coisas e sobre o nada...
Agora dá pra sentir a distância ao telefone. Ficamos naquela de como estamos, se tudo bem ou se pior, as banalidades, as boas e as más notícias... e a conversa termina com um "a gente se fala" que, desconfia-se, é dito quase que só por força da expressão.
Aí eu atiro o fone no gancho, com desdém, e ensaio aquela lágrima tímida que sou obrigada a engolir porque o homem do gás está tocando a campainha.
A verdade é que a gente sempre questiona as nossas grandes escolhas e nunca dá pra saber, de imediato, se vai haver arrependimento. Tudo o que eu sei, por enquanto, é que a saudade dói... dói como uma farpa de madeira presa debaixo da unha.
E aquela cerveja vai ter que ficar pro mês que vem...
Aí eu atiro o fone no gancho, com desdém, e ensaio aquela lágrima tímida que sou obrigada a engolir porque o homem do gás está tocando a campainha.
A verdade é que a gente sempre questiona as nossas grandes escolhas e nunca dá pra saber, de imediato, se vai haver arrependimento. Tudo o que eu sei, por enquanto, é que a saudade dói... dói como uma farpa de madeira presa debaixo da unha.
E aquela cerveja vai ter que ficar pro mês que vem...
domingo, março 25, 2007
Por um pouco mais de coerência
Hoje eles me falaram sobre a saudade que sentem do tempo em que eu me vestia de lantejoulas e dançava pelo salão até que meus pés parassem de me obedecer. Disseram que dói um pouco não ter mais por perto os meus sorrisos exaltados e os meus olhos vermelhos de tanta cerveja e frisson. Sufocaram-me com nostalgias e soluços e lamentos.
E eu calei, baby. Calei porque não quis revelar que a minha ausência nas madrugadas boêmias em que eles ainda se divertem como nunca, mesmo que sem a minha dança e sem o meu riso e sem o meu olhar inflamado, é culpa sua.
Ah, baby, a verdade é que você nunca soube dançar o meu samba. Eu sei que nunca fui, assim, totalmente fugaz, mas a minha eternidade antes de você era breve e eu era tão mais feliz. E era assim porque, de fato, não me importavam todas as linhas retas e paralelas que hoje você me diz que devemos traçar. Até você chegar, o futuro era algo tão distante que eu nunca havia feito um brinde sequer ao que quer que estivesse por vir.
Ah, não havia censura, meu amor, teus olhares de reprovação não me espreitavam. Eu era a mentira mais bela, a manchete de todas as primeiras páginas. Agora sou essa verdade desinteressante, esse anúncio em letras minúsculas, meio apagado, logo abaixo do obituário semanal.
E então eu me apego a essa tua imagem incontestável porque sei que mesmo que quisesse eu já não conseguiria mais brilhar como antes. Você me fala sobre retrocessos, mas você não sabe que, na verdade, eu tenho vivido uma longa e entediante pausa.
Você me roubou o ar, baby, tirou de mim a embriaguez que me mantinha sóbria, violou minhas noites de insônia e pesadelo. Foi você quem criou esse "talvez" que eu agora repito dia após dia, quando escurece e o vento frio desse inverno que nunca acaba me convida pra caminhar e ver estrelas. Você apagou as letras tortas que eu, durante anos, rabisquei pelas paredes da casa e pelos muros da cidade. Foram as suas constantes súplicas por silêncio que me fizeram calar pra sempre as loucuras todas que gritavam dentro de mim.
Depois de tudo, acaba que eu também não sei mais sambar. Não sei onde foram parar as lantejoulas e nem em que parte do caminho eu perdi o rebolado. Restou buscar consolo nessa valsa lenta, de passos arrastados, que, por mais que eu relute, você teima em tentar me ensinar...
E eu calei, baby. Calei porque não quis revelar que a minha ausência nas madrugadas boêmias em que eles ainda se divertem como nunca, mesmo que sem a minha dança e sem o meu riso e sem o meu olhar inflamado, é culpa sua.
Ah, baby, a verdade é que você nunca soube dançar o meu samba. Eu sei que nunca fui, assim, totalmente fugaz, mas a minha eternidade antes de você era breve e eu era tão mais feliz. E era assim porque, de fato, não me importavam todas as linhas retas e paralelas que hoje você me diz que devemos traçar. Até você chegar, o futuro era algo tão distante que eu nunca havia feito um brinde sequer ao que quer que estivesse por vir.
Ah, não havia censura, meu amor, teus olhares de reprovação não me espreitavam. Eu era a mentira mais bela, a manchete de todas as primeiras páginas. Agora sou essa verdade desinteressante, esse anúncio em letras minúsculas, meio apagado, logo abaixo do obituário semanal.
E então eu me apego a essa tua imagem incontestável porque sei que mesmo que quisesse eu já não conseguiria mais brilhar como antes. Você me fala sobre retrocessos, mas você não sabe que, na verdade, eu tenho vivido uma longa e entediante pausa.
Você me roubou o ar, baby, tirou de mim a embriaguez que me mantinha sóbria, violou minhas noites de insônia e pesadelo. Foi você quem criou esse "talvez" que eu agora repito dia após dia, quando escurece e o vento frio desse inverno que nunca acaba me convida pra caminhar e ver estrelas. Você apagou as letras tortas que eu, durante anos, rabisquei pelas paredes da casa e pelos muros da cidade. Foram as suas constantes súplicas por silêncio que me fizeram calar pra sempre as loucuras todas que gritavam dentro de mim.
Depois de tudo, acaba que eu também não sei mais sambar. Não sei onde foram parar as lantejoulas e nem em que parte do caminho eu perdi o rebolado. Restou buscar consolo nessa valsa lenta, de passos arrastados, que, por mais que eu relute, você teima em tentar me ensinar...
quinta-feira, março 22, 2007
Maria
Ela sorriu amarelo e acendeu um cigarro. Eu disse que aquilo matava aos poucos. Ela deu de ombros, respondeu que não tinha pressa e me jogou na cara todos os meus anos de vício abandonado.
Unhas feitas, lábios pintados, passos firmes no salto alto, dava para dizer que era uma grande mulher. Mas eu conhecia todos os seus defeitos e sabia que, apesar de forte, era pequena. Fez-se pequena através dos anos, não muitos, mas significativos.
Fazia pouco mais de um mês que eu não a via e ela parecia ter envelhecido anos. Talvez pelo tempo distante eu não houvesse reparado no cinza de seus olhos e na expressão cansada de seu rosto. Ela estava mais magra, seus longos cabelos negros haviam perdido o volume, seu sorriso já não tinha o brilho de outros tempos.
Ela disse que sentia minha falta, que era mais fácil segurar a barra quando eu estava por perto, me pediu para voltar, o olhar marejado, eu disse que não podia, ela sabia que não. Fugiu do assunto e se pôs a reclamar. Reclamou das contas para pagar, da falta de tempo, disse que já não suportava mais essa vida de cão, que queria dormir e nunca mais acordar.
Eu disse a ela que parasse de repetir bobagens, mas compreendi. Compreendi porque conhecia bem o seu sofrimento, sabia que vivia presa a uma vida que o destino a impôs, refém de todos os seus sonhos não realizados, curiosa pelas coisas que não pôde ou não quis conhecer, carregando uma culpa que nunca teve, arrependida por todo o passado que jogou fora.
De súbito, me ofereceu um café:
- Acabei de passar.
- Não, obrigada, eu preciso ir.
- Mas já? Ora, fica mais um pouco, você nunca vem me visitar.
- Eu gostaria, mas tenho mesmo que ir.
- Sei... quer um casaco emprestado? Esfriou um pouco.
- Não, obrigada...
- Tem certeza, eu vou pegar...
- Não precisa. Sério.
- Tá bem, vai com Deus. Eu te amo.
- Também te amo, mãe.
Ela me beijou a testa e disse para eu me cuidar. Quando olhei para trás, já longe, pude ver que chorava. Na verdade, parecia toda feita de lágrimas, as mãos trêmulas aludindo um adeus. Caminhei depressa até o ponto de ônibus, o vento frio congelando-me o corpo. Eu deveria ter aceitado o casaco.
Unhas feitas, lábios pintados, passos firmes no salto alto, dava para dizer que era uma grande mulher. Mas eu conhecia todos os seus defeitos e sabia que, apesar de forte, era pequena. Fez-se pequena através dos anos, não muitos, mas significativos.
Fazia pouco mais de um mês que eu não a via e ela parecia ter envelhecido anos. Talvez pelo tempo distante eu não houvesse reparado no cinza de seus olhos e na expressão cansada de seu rosto. Ela estava mais magra, seus longos cabelos negros haviam perdido o volume, seu sorriso já não tinha o brilho de outros tempos.
Ela disse que sentia minha falta, que era mais fácil segurar a barra quando eu estava por perto, me pediu para voltar, o olhar marejado, eu disse que não podia, ela sabia que não. Fugiu do assunto e se pôs a reclamar. Reclamou das contas para pagar, da falta de tempo, disse que já não suportava mais essa vida de cão, que queria dormir e nunca mais acordar.
Eu disse a ela que parasse de repetir bobagens, mas compreendi. Compreendi porque conhecia bem o seu sofrimento, sabia que vivia presa a uma vida que o destino a impôs, refém de todos os seus sonhos não realizados, curiosa pelas coisas que não pôde ou não quis conhecer, carregando uma culpa que nunca teve, arrependida por todo o passado que jogou fora.
De súbito, me ofereceu um café:
- Acabei de passar.
- Não, obrigada, eu preciso ir.
- Mas já? Ora, fica mais um pouco, você nunca vem me visitar.
- Eu gostaria, mas tenho mesmo que ir.
- Sei... quer um casaco emprestado? Esfriou um pouco.
- Não, obrigada...
- Tem certeza, eu vou pegar...
- Não precisa. Sério.
- Tá bem, vai com Deus. Eu te amo.
- Também te amo, mãe.
Ela me beijou a testa e disse para eu me cuidar. Quando olhei para trás, já longe, pude ver que chorava. Na verdade, parecia toda feita de lágrimas, as mãos trêmulas aludindo um adeus. Caminhei depressa até o ponto de ônibus, o vento frio congelando-me o corpo. Eu deveria ter aceitado o casaco.
segunda-feira, março 19, 2007
Metrópole
Gente demais, ela pensou. Gente demais, por todos os lados, andando pra lá e pra cá com pressa, sem pressa. Gente sentada nos bancos brancos, gente parada de pé, horas à espera do ônibus que nunca chega e não vai a lugar nenhum. Gente conversando, brigando, gritando, se impondo, se expondo, surgindo e sumindo em frações minúsculas de tempo. Era gente demais.
E então o menino segurou seu braço e pediu um dinheirinho por favor, que o seu irmão menor está doente e sua mãe está de cama e seu pai morreu assassinado pelos donos da favela porque não pagou uma dívida, moça por favor me dá um trocado. Cinquenta centavos pro pirralho mentiroso ir cheirar cola e ele desce correndo as escadas pro metrô.
E a barulheira dos vendedores ambulantes por todos os lados, olha o boneco de farinha, oito pilhas é só um real, régua mágica quem vai querer, é uma pechincha, é uma pechincha. O homem espancando o gato escondido dentro da caixa de papelão, criançada chorando, a madame do vestido preto, sapato e bolsa de couro de zebra, cara de terror, mão na boca, ai meu deus. Susto, mais um, mais um.
E o automóvel, o bonde elétrico, a lotação. Túneis, passarelas, pontes, avenidas. Poeira, poeira, gases tóxicos, tosse, tosse. A cidade está podre, sim, está. E ainda é abril, a eternidade pro fim do ano ou apenas um segundo.
Um segundo, ela pensou, valeria a pena pelo silêncio. Parou sobre o viaduto. Hesitou. Desistiu. Clichê demais para um fim de vida, clichê demais, não seria assim. Passeou com o olhar sobre a cidade. Teria sorrido, não fosse todo aquele cinza, o congestionamento, o fim de tarde sem sol. E o viaduto era cartão postal da cidade, e a cidade era cartão postal do país. E no céu já se podia ver a lua. Era quase noite na metrópole que jamais dormia.
E então o menino segurou seu braço e pediu um dinheirinho por favor, que o seu irmão menor está doente e sua mãe está de cama e seu pai morreu assassinado pelos donos da favela porque não pagou uma dívida, moça por favor me dá um trocado. Cinquenta centavos pro pirralho mentiroso ir cheirar cola e ele desce correndo as escadas pro metrô.
E a barulheira dos vendedores ambulantes por todos os lados, olha o boneco de farinha, oito pilhas é só um real, régua mágica quem vai querer, é uma pechincha, é uma pechincha. O homem espancando o gato escondido dentro da caixa de papelão, criançada chorando, a madame do vestido preto, sapato e bolsa de couro de zebra, cara de terror, mão na boca, ai meu deus. Susto, mais um, mais um.
E o automóvel, o bonde elétrico, a lotação. Túneis, passarelas, pontes, avenidas. Poeira, poeira, gases tóxicos, tosse, tosse. A cidade está podre, sim, está. E ainda é abril, a eternidade pro fim do ano ou apenas um segundo.
Um segundo, ela pensou, valeria a pena pelo silêncio. Parou sobre o viaduto. Hesitou. Desistiu. Clichê demais para um fim de vida, clichê demais, não seria assim. Passeou com o olhar sobre a cidade. Teria sorrido, não fosse todo aquele cinza, o congestionamento, o fim de tarde sem sol. E o viaduto era cartão postal da cidade, e a cidade era cartão postal do país. E no céu já se podia ver a lua. Era quase noite na metrópole que jamais dormia.
sábado, março 17, 2007
Preguiça
Sábado. Já é meio-dia. A gente discute sobre a minha preguiça. Dèjá vu. Então eu ponho pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras, do disco que nunca sai do aparelho de som... e você se identifica e me beija e já não importa se eu durmo demais.
Eu sei, o dia lá fora está lindo e eu ainda nem tomei banho. Meu café da manhã é um pouco culpado, que eu vivo de iogurtes e frutinhas que você me traz pra comer na cama e é por isso, você diz, que me falta energia. Aí vem todo o discurso sobre o meu excesso de trabalho e os meus sanduíches no almoço e o meu sacrifício e os prejuízos à minha saúde... lhe calo a boca com um pedaço da pizza de ontem. Por sorte, temos o canal de esportes e a tua paciência pra esperar.
Meu sono é sagrado, sabe? Eu gosto de acordar tarde no sábado, ficar na cama o dia todo, assistindo televisão, lendo revistas antigas ou um clássico da literatura russa. Você quer correr no Ibirapuera. Parece vantagem ser vizinho do parque. Você não percebe que aos domingos não se pode estacionar na frente de casa. Você nem dirige, e esse seu corpo pequeno cabe em qualquer vaga.
E, em todos os sábados, você me arrasta pra dentro das grades daquela prisão esverdeada. Mas eu me canso fácil demais, não consigo acompanhar seu passo, me rendo à grama e observo sua silhueta passar veloz uma, duas, três vezes... a rapidez dos seus batimentos cardíacos faz meu coração parar. Enquanto você transpira o seu cotidiano na pista de cooper, eu escrevo linhas que nunca lhe permito ler.
Depois tem feijoada na casa dos amigos, na Coronel Lisboa, e meus passatempos preferidos: comida, cerveja, baralho, risadas. Eu vejo que você se diverte. Seu sorriso enquanto segura as cartas e o copo é mais agradável que sua cara vermelha e seu corpo suado de horas atrás. Está bem, admito que seus sacolejos de atleta têm um certo charme.
O que pesa entre a gente, e nos distancia, é essa paixão incontrolável que eu tenho pela noite... eu toparia caminhadas noturnas, mas você está sempre cansado demais e a cidade é muito violenta. Você prefere o sol, que ativa as ditas vitaminas nos seus ossos. Eu não tenho ossos, me equilibro sobre meus pés cartilaginosos, que estão sempre mais firmes quando o céu escurece e a gente pode ver estrelas.
Eu costumava caminhar à noite, fumava um maço inteiro de cigarros em breves instantes... e pensava. Eram sempre frutíferos os meus passeios pelo centro da cidade. Foi você quem me fez largar o cigarro. É, eu larguei... mas ainda me mordo de inveja das tragadas profundas que vejo sempre por aí. Está certo que ganhei esse fôlego inimaginável e quase curei minha asma, mas trocaria fácil essa suposta saúde pelo prazer constante da nicotina. Não troco e nem é por você... acredita que o cheiro me incomoda?
Enfim, acaba que você é uma coisa eu sou essa coisa ao avesso. E, não fossem as escovas de dente dividindo espaço na pia do banheiro, não daria pra dizer que somos, no fundo, um só. Vantagem a gente sempre conseguir rir das linhas paralelas que traçamos... e se as gargalhadas não vêm, eu coloco pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras. Aí a gente se beija, eu lhe acompanho, com caneta e papel a tiracolo, nas suas corridas pelo Ibirapuera, você me acompanha, com pesos leves na consciência, nas feijoadas da Coronel Lisboa. E, no fim do dia, seu corpo exausto e a minha ressaca, a nossa cama sempre acaba ficando grande demais pra nós dois...
Eu sei, o dia lá fora está lindo e eu ainda nem tomei banho. Meu café da manhã é um pouco culpado, que eu vivo de iogurtes e frutinhas que você me traz pra comer na cama e é por isso, você diz, que me falta energia. Aí vem todo o discurso sobre o meu excesso de trabalho e os meus sanduíches no almoço e o meu sacrifício e os prejuízos à minha saúde... lhe calo a boca com um pedaço da pizza de ontem. Por sorte, temos o canal de esportes e a tua paciência pra esperar.
Meu sono é sagrado, sabe? Eu gosto de acordar tarde no sábado, ficar na cama o dia todo, assistindo televisão, lendo revistas antigas ou um clássico da literatura russa. Você quer correr no Ibirapuera. Parece vantagem ser vizinho do parque. Você não percebe que aos domingos não se pode estacionar na frente de casa. Você nem dirige, e esse seu corpo pequeno cabe em qualquer vaga.
E, em todos os sábados, você me arrasta pra dentro das grades daquela prisão esverdeada. Mas eu me canso fácil demais, não consigo acompanhar seu passo, me rendo à grama e observo sua silhueta passar veloz uma, duas, três vezes... a rapidez dos seus batimentos cardíacos faz meu coração parar. Enquanto você transpira o seu cotidiano na pista de cooper, eu escrevo linhas que nunca lhe permito ler.
Depois tem feijoada na casa dos amigos, na Coronel Lisboa, e meus passatempos preferidos: comida, cerveja, baralho, risadas. Eu vejo que você se diverte. Seu sorriso enquanto segura as cartas e o copo é mais agradável que sua cara vermelha e seu corpo suado de horas atrás. Está bem, admito que seus sacolejos de atleta têm um certo charme.
O que pesa entre a gente, e nos distancia, é essa paixão incontrolável que eu tenho pela noite... eu toparia caminhadas noturnas, mas você está sempre cansado demais e a cidade é muito violenta. Você prefere o sol, que ativa as ditas vitaminas nos seus ossos. Eu não tenho ossos, me equilibro sobre meus pés cartilaginosos, que estão sempre mais firmes quando o céu escurece e a gente pode ver estrelas.
Eu costumava caminhar à noite, fumava um maço inteiro de cigarros em breves instantes... e pensava. Eram sempre frutíferos os meus passeios pelo centro da cidade. Foi você quem me fez largar o cigarro. É, eu larguei... mas ainda me mordo de inveja das tragadas profundas que vejo sempre por aí. Está certo que ganhei esse fôlego inimaginável e quase curei minha asma, mas trocaria fácil essa suposta saúde pelo prazer constante da nicotina. Não troco e nem é por você... acredita que o cheiro me incomoda?
Enfim, acaba que você é uma coisa eu sou essa coisa ao avesso. E, não fossem as escovas de dente dividindo espaço na pia do banheiro, não daria pra dizer que somos, no fundo, um só. Vantagem a gente sempre conseguir rir das linhas paralelas que traçamos... e se as gargalhadas não vêm, eu coloco pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras. Aí a gente se beija, eu lhe acompanho, com caneta e papel a tiracolo, nas suas corridas pelo Ibirapuera, você me acompanha, com pesos leves na consciência, nas feijoadas da Coronel Lisboa. E, no fim do dia, seu corpo exausto e a minha ressaca, a nossa cama sempre acaba ficando grande demais pra nós dois...
Assinar:
Postagens (Atom)