quinta-feira, setembro 13, 2007

A outra

Existe essa, que me espreita. Uma irmã gêmea. Veste as mesmas roupas que eu e penteia os cabelos do mesmo jeito. Faz pouco mais de um mês, dois talvez, que ela começou a aparecer. Eu pintava os olhos em frente ao espelho e a vi sentada no umbral da janela, fitando-me, com cara de nada. Susto. Gritei por socorro. Corri porta afora. Depois voltei, crendo ter tido uma alucinação. Ela ainda estava lá. Perguntei quem era ela e ela apontou um dedo torto na direção de meu reflexo no espelho. Mandei que saísse e ela deu de ombros. Perguntei o que diabos ela fazia ali e ela deu de ombros mais uma vez. Ela não fala. Até agora não disse palavra.

Houve uma vez. Eu assistia a um programa besta na televisão e ela apareceu. Sentou-se à mesa, apoiou os cotovelos no tampo de vidro e ficou me olhando. Eu questionei de novo a sua presença, a sua cara de nada. Mas, dessa vez, ao invés de simplesmente dar de ombros, como na primeira, como em todas as outras vezes, ela me fulminou com um olhar diabólico. Senti medo. Um medo ainda mais aterrorizante do que o que eu costumava sentir sempre que ela surgia. Saí de casa, como quem foge. Passei ao lado dela, medindo os passos, como se temesse que ela fosse se levantar da cadeira e lutar comigo até que meu corpo exausto despencasse da janela. Quinto andar.

No começo, ela aparecia apenas quando não havia outras pessoas por perto. Então, eu me sentia segura, lá fora, na rua. Fiquei dias perambulando pelos bares, parques, shoppings, dormindo em casas de amigos. Mas existe esse negócio de morar e eu precisei voltar. Quando entrei em casa, ela não estava. Senti-me aliviada, mas tensa. Ela esteve ausente por mais de uma semana. Depois voltou. Surgiu do nada, encostada na parede do corredor, uma mão na cintura, mordendo as cutículas da outra com seus dentes brancos como cal, iguais aos meus.

A presença dela me incomodava. Meu coração acelerava cada vez que ela fazia um movimento. Eu deixava escapar um putaqueopariu ou algo do gênero. Pânico. Fazia cara de espanto. Sei que fazia cara de espanto porque ela tem essa mania estúpida de reproduzir meus gestos do mesmo jeito que as crianças costumam fazer quando querem zombar de você. Aí ela me olhava, com aquela expressão diabólica e ria. Gargalhadas silenciosas.

O gato tinha medo dela. No dia em que ela surgiu, ele se escondeu na despensa e não saiu mais de lá. Quando eu ia lhe fazer um agrado ele soltava grunhidos, eriçava os pêlos, fugia de mim. Eu lhe dizia que estava tudo bem, que era eu, não a outra, e então ele me mostrava as garras. Acho que passou a ter medo de mim também. Somos iguais, eu e a outra. Um dia a porta do apartamento amanheceu aberta e o gato não estava mais.

Há algumas semanas, recomendaram-me um psiquiatra. É engraçado ver como as pessoas reagem quando você lhes conta coisas fantásticas. Primeiro elas se surpreendem. Depois compartilham da sua loucura e te contam causos sobre fantasmas e vozes do além. Finalmente, quando elas concluem que você perdeu completamente a noção da realidade, elas te recomendam um psiquiatra.

A coisa fica diferente quando você conta a sua história para o psiquiatra. Ele não pode demonstrar surpresa. Ele não pode dividir com você as histórias bizarras sobre os fenômenos estranhos que ele já presenciou. Ele também não pode te recomendar um psiquiatra. Então ele te fala sobre um transtorno assim assado, sobre frenias e manias e te dá uma receita. Tarja preta. Isso há de resolver, volte daqui uma semana.

Eu sempre soube que ela é apenas coisa da minha cabeça, que é só a minha imaginação. Mas você se sente um tanto perturbado quando a sua imaginação toma forma humana e passa a perambular pelos cômodos da sua casa, te seguindo, te julgando, te fazendo sentir medo da própria sombra.

Comprei o remédio. Tomei o remédio. Não adiantou. Ela continuou por perto. Ela suspirava e fazia cara de deboche quando eu tirava um comprimido da cartela.

Voltei ao psiquiatra depois de uma semana. Ela foi comigo. Acho que foi a primeira vez que saiu de casa. Contei a ele que o remédio não estava resolvendo, que a coisa havia piorado, disse-lhe que a outra estava ali, no consultório, parada em pé ao meu lado. Imaginei que ele ficaria preocupado, falaria comigo, confirmaria minha tese de que ela era apenas a minha imaginação, me faria entender alguma coisa. Ao invés disso ele concordou, disse que sabia que ela estava ali, que também podia vê-la. Eu a fitei com o canto dos olhos e ela fez que não com a cabeça. O doutor sugeriu internação. Falou sobre uma clínica, um lugar no qual a outra estaria proibida de entrar, e sobre um tratamento, que eu estava muito abalada, e sobre outras coisas nas quais eu não prestei muita atenção. Acho que falou também sobre o quanto era horrível ter a cabeça esmagada por uma enciclopédia médica. Eu não quero me internar.

Isso foi ontem. Hoje, quando acordei pela manhã, a outra estava sentada ao pé da cama, tamborilando os dedos na madeira do estrado. Não sei exatamente o porquê, mas eu não sinto mais medo dela, ainda que a sua presença não seja exatamente agradável.

Ela tem feições, essa moça, essa coisa. Olha-me com pena quando eu choro. Franze a testa e faz biquinho quando eu acendo um cigarro ou quando abro uma lata de cerveja. Ela arregala os olhos enquanto eu praguejo em voz alta, tapa os ouvidos enquanto eu canto em russo, lambe os beiços enquanto eu preparo uma omelete. Ela me irrita, é fato.

Resolvi que vou pintar as paredes da casa. Algo me diz que talvez eu só esteja precisando renovar o ambiente para me ver livre dessas insanidades. Ela suspira e faz cara de deboche quando eu digo em voz alta coisas como essa.

Um comentário:

Di' stante Enfim disse...

Estou impressionado senhorita. De onde vens esta despretensão deliciosa com que escreves?FANTABULOSO é um adjetivo oportuno para descrever este texto. Ah, a respeito do meu blog:fico deveras lisonjeado com a oferta. Pode"linká-lo"(não entendo muito bem como funcionam estas coisas, mas parecestes-me lisonjeira a oferta)Agora com relação a uma sequência para Nah Chuva, sinto desapontá-la:não tenciono escrever"Depois da Chuva"=\Apenas brinquei com a possibilidade. Estou trabalhando num poema e tenho pelo menos três contos prontinhos para postagem. Ainda farei algumas revisões antes de postá-los(sou meio paranóico - absurdamente metódico e perfeccionista¬¬)Parece que minha busca por vida inteligente na web teve êxito outra vez=)