domingo, fevereiro 28, 2010

Da tua iminente queda

São teus risinhos sarcásticos. Aqueles que te escapam na tentativa cruel de fazer com que eu me julgue incapaz quando digo que vou acordar cedo ou faxinar a casa. São tuas dúvidas enfáticas sobre a veracidade das minhas afirmações mais óbvias, buscando inutilmente crer que preciso inventar coisas para parecer mais inteligente. São tuas perguntas desnecessárias sobre a minha rotina diária, teu ar de desconfiança que só me permite presumir a tua culpa. É teu tique de sobrancelhas erguidas ou de testa franzida, aquele barulho bestial que você faz com a boca, teu olhar de desprezo.

São as mentiras que você conta sempre e sempre e a tua incapacidade para memorizar as versões dos teus devaneios, o que me fez concluir que eu nunca soube e tampouco irei saber quem de fato você é. A maneira como você, conscientemente ou não, me conduz a desistir para depois pedir desculpas hipócritas e fazer promessas que nunca sonhou cumprir.

É essa ilusão que tens de que és melhor que o resto do mundo, quando na verdade és, usando teus próprios conceitos, mais comum e desinteressante do que pensas. O modo como defende teorias patéticas e absurdas, manipulando e enfeitando argumentos que você lê nas páginas amarelas daquela revista escrota. É teu jeito pseudo-revolucionário, tua mania de querer ser do contra, do mal, do underground e blá blá blá, sem perceber que isso tudo é pobre e pequeno a ponto de dar pena. São, ainda, as justificativas que usa para defender (what a hell!) esse povinho preconceituoso e acéfalo no qual você se auto-afirma e com quem diz andar há mais de sei lá quantos anos mas que está cagando para os seus problemas.

Pior do que qualquer coisa é, na minha incontestável normalidade, me saber modesta e infinitamente superior a isso tudo e não conseguir revidar. Não que eu não saiba, meu bem... Você se surpreenderia com a quantidade de frases de impacto que sou capaz de formular em menos de três segundos e que me ficam entaladas na garganta em resposta ao teu pescoço erguido. Um só sopro meu e você iria ao chão por meses, quem sabe anos. Mas calo diante da tua boçalidade. Talvez eu seja boa demais, ou covarde demais, ou talvez eu te queira bem demais, apesar de todos os pesares. Enfim... Sou mesmo incapaz de jogar sal nas tuas feridas.

Acontece que me cansei de elaborar desenhos didáticos pra tentar enfiar o óbvio ululante na tua cabeça. E dentro de mim vem crescendo uma raiva incontrolável. Não minto quando digo que arduamente superei impulsos assassinos em nome da minha suposta sanidade. Tenho meditado, repetido mantras para não sair do controle, não bater mais portas, não quebrar mais copos, não esmurrar as paredes. Tenho me preparado. Quando o fim chegar será plácido. Te direi três ou quatro palavras, inventarei um motivo que não gere polêmica, te pedirei para não dramatizar e fecharei a porta atrás de mim, doendo por dentro, mas em paz.

E embora eu tenha te alertado nas entrelinhas o tempo todo, você nunca vai saber que o motivo do fim foi tua completa incapacidade de entender meu sentimento, de ser você mesmo, de falar a verdade e de perceber que nem tudo precisa ser enfeitado para ser interessante.

sábado, fevereiro 27, 2010

Caio

"Precisava inventar um dia inteiro ou dois, porque amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o quê."