1
"E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro."
...
"De repente a gente se encontra numa esquina, num outro planeta, no meio duma festa ou duma fossa, a gente se encontra, tenho certeza."
...
"Penso às vezes que quando estiver pronto, um dia qualquer, um dia igual hoje, vou encontrar você claro e calmo sentado no Bar, à minha espera."
...
"Mas se a saudade bater, escreva uma carta que pode ser cheia de queixas, ou cheia de sol. Será bem vinda."
2
"Quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode."
...
"Fiquei ali parado, procurando alguma coisa que não estava nem esteve ou estaria jamais ali."
...
"Podia ter dado certo entre a gente, ou não. Eu nem sei o que é dar certo."
...
"Ele disse: Eu não vou me esquecer de você. Ela disse: Nem eu."
3
"Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais."
...
"Eu vou gostando, eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou… E continuo indo, assim, desse jeito."
...
"Boas e bobas, são as coisas que penso quando penso em você."
...
"Eu ando tomando o rumo certo agora, me deseje sorte."
4
"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."
quarta-feira, agosto 31, 2011
So what?
De repente um tempo que eu não tenho. E penso. Sinto na garganta algo que parece ser um coração prestes a escapar pela boca e me lembro do quanto odeio clichês e do quanto eles são reais, sometimes.
Minimizo.
É apenas um sentimento.
Não, são vários, centenas deles. Todos esses vitrais coloridos, todas essas paisagens nubladas. Minhas tantas saudades, minha vontade, meu amor, meu ódio.
Silêncio.
Duas madrugadas em claro e nesta noite o nada. Eu perco oportunidades demais. Arrependo-me. Entre tantos motivos que tenho pra me arrepender, escolho o mais banal. De fato, é o motivo que me escolhe. E me culpa, inocente que sou, por este silêncio de hoje, de agora.
É quase mentira. Tragédias que me fazem rir e lamentar. Enquanto isso, a chaleira apitando, rádio antiga sintonizada, meus pés descalços, doentes de tanto andar em círculos, se arrastando pelo piso frio da cela. Nenhum contato com o que há do lado de lá dessas paredes finas, desses muros altos, dessas distâncias invencíveis.
Espero. O guarda anuncia visitas que eu não quero receber. Não agora, não hoje. Meus desejos calados pela ausência de quem não pode vir. The last one... The last one?
Tenho três problemas que remédio nenhum trata. Ouço o tempo todo esse ruído, tilintar de taças. Algumas vezes elas se quebram. E a minha memória vai se perdendo um pouco em cada brinde. Vivo, pois, de surpresas. Para além do que parece ser bom, pesadelos tomam forma e eu queria poder explicar como tudo isso funciona.
Na vida burocrática dos dias ditos úteis há pouco ou quase nada. O mate, um sorriso, saltos altos, o dinheiro pro café que eu não bebo, as compras no supermercado. Na falta de disfarces decentes, me camuflo e deixo de fazer sentido.
Há sempre a noite, contudo. E a música.
Penso no moço da eletricidade e do desconcerto, nos dois ou três meses que já se passaram, no que eu quero muito, mas não preciso.
E aí, dez minutos atrás; planos efêmeros e todas as outras coisas que eu não consigo enxergar nesses momentos depressivos e sensatos.
Depois as broncas carinhosas no gato roedor de fios, o único abraço, meu próximo carro, a noite que nunca acabou, a voz de Brian Setzer, "your kiss of fire", a viagem pra Paris... Mesmo as contas pra pagar, o concerto do chuveiro, a louça suja na pia, os domingos tediosos.
Poucas coisas me fariam abdicar da minha sensatez. Poucas coisas.
Ordeno meus devaneios. Primeiro, apenas utopia. Por último, sensação de eternidade. Entre isso e aquilo, essa semi-realidade, nada normal, que me tira, cada vez mais e cada vez menos, o sono e a paz. Não posso me prender a tantas coisas. Faltam cordas, nós demais.
Eu oscilo. Ora delírio. Ora ilusão. Ora verdade. É fogo cruzado. Por não saber pra que lado correr, permaneço imóvel. Fantasio, sempre. Mas nada afasta a realidade das coisas, os dias frios e cinzas, essa inacreditável solidão...
Minimizo.
É apenas um sentimento.
Não, são vários, centenas deles. Todos esses vitrais coloridos, todas essas paisagens nubladas. Minhas tantas saudades, minha vontade, meu amor, meu ódio.
Silêncio.
Duas madrugadas em claro e nesta noite o nada. Eu perco oportunidades demais. Arrependo-me. Entre tantos motivos que tenho pra me arrepender, escolho o mais banal. De fato, é o motivo que me escolhe. E me culpa, inocente que sou, por este silêncio de hoje, de agora.
É quase mentira. Tragédias que me fazem rir e lamentar. Enquanto isso, a chaleira apitando, rádio antiga sintonizada, meus pés descalços, doentes de tanto andar em círculos, se arrastando pelo piso frio da cela. Nenhum contato com o que há do lado de lá dessas paredes finas, desses muros altos, dessas distâncias invencíveis.
Espero. O guarda anuncia visitas que eu não quero receber. Não agora, não hoje. Meus desejos calados pela ausência de quem não pode vir. The last one... The last one?
Tenho três problemas que remédio nenhum trata. Ouço o tempo todo esse ruído, tilintar de taças. Algumas vezes elas se quebram. E a minha memória vai se perdendo um pouco em cada brinde. Vivo, pois, de surpresas. Para além do que parece ser bom, pesadelos tomam forma e eu queria poder explicar como tudo isso funciona.
Na vida burocrática dos dias ditos úteis há pouco ou quase nada. O mate, um sorriso, saltos altos, o dinheiro pro café que eu não bebo, as compras no supermercado. Na falta de disfarces decentes, me camuflo e deixo de fazer sentido.
Há sempre a noite, contudo. E a música.
Penso no moço da eletricidade e do desconcerto, nos dois ou três meses que já se passaram, no que eu quero muito, mas não preciso.
E aí, dez minutos atrás; planos efêmeros e todas as outras coisas que eu não consigo enxergar nesses momentos depressivos e sensatos.
Depois as broncas carinhosas no gato roedor de fios, o único abraço, meu próximo carro, a noite que nunca acabou, a voz de Brian Setzer, "your kiss of fire", a viagem pra Paris... Mesmo as contas pra pagar, o concerto do chuveiro, a louça suja na pia, os domingos tediosos.
Poucas coisas me fariam abdicar da minha sensatez. Poucas coisas.
Ordeno meus devaneios. Primeiro, apenas utopia. Por último, sensação de eternidade. Entre isso e aquilo, essa semi-realidade, nada normal, que me tira, cada vez mais e cada vez menos, o sono e a paz. Não posso me prender a tantas coisas. Faltam cordas, nós demais.
Eu oscilo. Ora delírio. Ora ilusão. Ora verdade. É fogo cruzado. Por não saber pra que lado correr, permaneço imóvel. Fantasio, sempre. Mas nada afasta a realidade das coisas, os dias frios e cinzas, essa inacreditável solidão...
terça-feira, agosto 30, 2011
Eternidade
É previsível, pra dizer o mínimo. Mas vai além disso. É tudo aleatório, normal e anormal ao mesmo tempo, o tempo todo.
Meu medo constante e esses impulsos de loucura. Meu mau humor e meu sorriso infinito. Momentos em que imploro por silêncio e solidão e a paz que só existe no seu abraço. Minhas súplicas ignoradas e meus desejos sempre atendidos. As coisas todas que você não entende e não tenta entender. A complicação que você deduz. Sua chatice infinita, sua falta de bom senso. Minha aprovação muda à sua sensatez quase burocrática.
De outro lado, sua sede por explicações. Sua maldade quase ingênua. Não, não quase, ingênua sim. O modo como você se irrita ou se emociona ou se... Sua exposição infinita de defeitos e qualidades. Meio tosco, meio erudito. O som das cordas que você dedilha e, incrível, consegue me irritar. Suas explanações, meus bocejos, meus aplausos. Os pontos finais que você não coloca. Seu cheiro, tão bom, de nada. Seus sonhos sem limites. O jeito como você prefere as coisas que quer e ignora as que precisa. Sua aversão a conselhos.
É essa falta de lógica que me encanta, embora às vezes me tire do sério. É sua pouca culpa, seu hálito sempre fresco, sua coragem, sua consciência pesada, suas manhãs de ressaca, sua covardia.
E, também, esse cotidiano chato e encantador. Minhas vezes de lavar a louça. Suas meias espalhadas pela casa. Nossos treinos de dança. A sua espera, a minha ausência. Nossos planos, nossas dores, nossos vínculos.
O que fica, de tudo, é bom de um jeito que eu não sei explicar. E é eterno, embora eternidade não exista.
Meu medo constante e esses impulsos de loucura. Meu mau humor e meu sorriso infinito. Momentos em que imploro por silêncio e solidão e a paz que só existe no seu abraço. Minhas súplicas ignoradas e meus desejos sempre atendidos. As coisas todas que você não entende e não tenta entender. A complicação que você deduz. Sua chatice infinita, sua falta de bom senso. Minha aprovação muda à sua sensatez quase burocrática.
De outro lado, sua sede por explicações. Sua maldade quase ingênua. Não, não quase, ingênua sim. O modo como você se irrita ou se emociona ou se... Sua exposição infinita de defeitos e qualidades. Meio tosco, meio erudito. O som das cordas que você dedilha e, incrível, consegue me irritar. Suas explanações, meus bocejos, meus aplausos. Os pontos finais que você não coloca. Seu cheiro, tão bom, de nada. Seus sonhos sem limites. O jeito como você prefere as coisas que quer e ignora as que precisa. Sua aversão a conselhos.
É essa falta de lógica que me encanta, embora às vezes me tire do sério. É sua pouca culpa, seu hálito sempre fresco, sua coragem, sua consciência pesada, suas manhãs de ressaca, sua covardia.
E, também, esse cotidiano chato e encantador. Minhas vezes de lavar a louça. Suas meias espalhadas pela casa. Nossos treinos de dança. A sua espera, a minha ausência. Nossos planos, nossas dores, nossos vínculos.
O que fica, de tudo, é bom de um jeito que eu não sei explicar. E é eterno, embora eternidade não exista.
segunda-feira, agosto 29, 2011
Ilusão
Apenas imagino... Mãos trêmulas e coração acelerado das nove xícaras de café. Bonita a voz dele ao telefone. Aguardo o tal técnico resolver o problema com a minha internet e divago. Ele define um destino e não me conta qual é. A lua está bonita; lamento não ter janelas. Me pede pra vestir vermelho e pra levar um chapéu. O menino da internet não sabe mexer com fios; eu ajudo, pensando no absurdo da situação. A despedida é em uma língua qualquer que eu não entendo. A mãe liga e diz que Domitila foi operada e passa bem; ouço Domtila latindo; sinto saudades. Eu sei tanto... e quase nada sobre ele. O moço da telefônica sai, prometendo, sem certeza, só mais meia hora de vazio e silêncio. Nós temos pouco tempo e muito do pouco que temos nos roubam. Abro uma cerveja. O mundo está cheio de ladrões. Acendo um cigarro. Espera longa e ele chega, todo de preto, sorrindo de um jeito que é só dele. Minha consciência pesa toneladas de exercícios físicos não sendo feitos. Caminhamos de mãos dadas, sob o sol. Prometo tudo pra próxima segunda-feira e pretendo cumprir. Não há rumo, ele confessa; meus olhos brilham confusos. Eu vivo, há meses, só de promessas. Ele me beija. Me pergunto quando é que vou criar resistência ao alcool, esse maldito. Velocidade demais nesse mundo estranho; um piscar de olhos e já passa das três da manhã. Meia hora e nada; eu apelo, mas "todos os nossos atendentes estão ocupados". Ele me diz que é tarde e que precisa ir. Penso em coisas aleatórias; tédio; maldigo o provedor de internet até sua oitava geração. Eu desejo um tempo que não passe, um lugar que não exista. Por breves segundos fico sem entender minha frustração e minha ansiedade. Não dá pra ter. Depois amaldiçoo, mais uma vez, toda a tecnologia. O adeus é lacônico; saudade antes da partida. Procuro ver as coisas por outro ângulo, mas há apenas um ângulo que me interessa. Tudo perfeito demais; horas em segundos, dias em minutos, semanas em suspiros mudos e falta de ar. Séculos depois, milênios talvez, desisto e ligo a televisão. Difícil definir se é realidade ou fantasia. Passa a novela. Parece novela.
domingo, agosto 28, 2011
Utopia
Essa espera, meu bem, me corrói. Acabo sendo, o tempo todo, ansiedade disfarçada em desapego. E há esse medo frágil de que tudo acabe assim, mais uma vez, sem nunca ter sido, de que me reste apenas tua imagem borrada, fosca, o som inconstante dos teus passos se afastando.
Já são dois meses e nada me veio de ti. Ainda assim, espero. Já te disse que vivo de esperar. Mas tenho pressa.
Tenho pressa pelo que eu fui, pelo que tu fostes. E tenho pressa pelo que somos agora. Meu novo corte de cabelo, a nova cor do meu esmalte, minha última descoberta literária, a tinta fresca do quadro na minha sala de estar. Essas coisas todas sobre mim que tu ainda não sabes. E as coisas sobre mim que nem eu mesma sei. Tu és incógnita, tanto quanto.
Posso apostar que tens pressa também.
Eu tento entender teu atraso, tua demora. E a verdade é que eu consigo. Sei dos teus percalços, tão iguais aos meus. Sei de tua agenda lotada, de tua preguiça, das culpas todas que te atribuem, como fazem comigo, das noites em claro buscando soluções para problemas alheios. Compartilhamos dessa fuga forçada do que seria ideal em nome do todo insondável que não nos pertence.
Ainda assim, me permito devaneios. Desejo qualquer coisa que possa te trazer pra mais perto de mim, me levar pra mais perto de ti, anular essas distâncias inventadas, manhãs solitárias, tardes vazias, noites ébrias...
Os raios de um sol invisível refletindo em teus cabelos loiros e me cegando. Costuma ser assim, nos sonhos. Tua cabeça cheia de diamantes, teus dedos longos em gestos incompreensíveis, tua voz sem movimento me dizendo que ainda é cedo, pra eu me acalmar, que o tempo passa devagar e rápido demais.
Destas noites em que durmo, fica esse tanto de coisas que tu dizes e que parece não fazer sentido. Das noites de insônia, fica teu silêncio. Do que é real, fica um gosto ruim de ironia. E sempre essa saudade estranha, esse desejo mudo...
É tudo o que há.
Já são dois meses e nada me veio de ti. Ainda assim, espero. Já te disse que vivo de esperar. Mas tenho pressa.
Tenho pressa pelo que eu fui, pelo que tu fostes. E tenho pressa pelo que somos agora. Meu novo corte de cabelo, a nova cor do meu esmalte, minha última descoberta literária, a tinta fresca do quadro na minha sala de estar. Essas coisas todas sobre mim que tu ainda não sabes. E as coisas sobre mim que nem eu mesma sei. Tu és incógnita, tanto quanto.
Posso apostar que tens pressa também.
Eu tento entender teu atraso, tua demora. E a verdade é que eu consigo. Sei dos teus percalços, tão iguais aos meus. Sei de tua agenda lotada, de tua preguiça, das culpas todas que te atribuem, como fazem comigo, das noites em claro buscando soluções para problemas alheios. Compartilhamos dessa fuga forçada do que seria ideal em nome do todo insondável que não nos pertence.
Ainda assim, me permito devaneios. Desejo qualquer coisa que possa te trazer pra mais perto de mim, me levar pra mais perto de ti, anular essas distâncias inventadas, manhãs solitárias, tardes vazias, noites ébrias...
Os raios de um sol invisível refletindo em teus cabelos loiros e me cegando. Costuma ser assim, nos sonhos. Tua cabeça cheia de diamantes, teus dedos longos em gestos incompreensíveis, tua voz sem movimento me dizendo que ainda é cedo, pra eu me acalmar, que o tempo passa devagar e rápido demais.
Destas noites em que durmo, fica esse tanto de coisas que tu dizes e que parece não fazer sentido. Das noites de insônia, fica teu silêncio. Do que é real, fica um gosto ruim de ironia. E sempre essa saudade estranha, esse desejo mudo...
É tudo o que há.
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