sexta-feira, março 25, 2011

Caio

"Foi numa dessas manhãs sem sol que percebi o quanto já estava dentro do que não suspeitava. E a tal ponto que tive a certeza súbita que não conseguiria mais sair. Não sabia até que ponto isso seria bom ou mau — mas de qualquer forma não conseguia definir o que se fez quando comecei a perceber as lembranças espatifadas pelo quarto. Não que houvesse fotografias ou qualquer coisa de muito concreto — certamente havia o concreto em algumas roupas, uma escova de dentes, alguns discos, um livro: as miudezas se amontoavam pelos cantos. Mas o que marcava e pesava mais era o intangível."

segunda-feira, março 14, 2011

Gerônimo

Tosse, tosse. Os batimentos cardíacos sendo sentidos na garganta. Visão turva. Uma dor latejante na parte de trás da cabeça. Cigarro. O silêncio do papel queimando em câmera lenta. A tragada profunda dilacerando a faringe, a laringe e tudo o mais que há. Chá. Tosse. Água. Mais um cigarro. As veias roxas. Comprimidos do tamanho de bolas de gude. Olhos fundos, cabelos sujos e despenteados. Música. Mais tosse. E outro cigarro. Pequenos canivetes perfurando o caminho todo até o pulmão. Bosch, o jardim, as delícias. Os gritos mudos ecoando pelos quatro cantos do quarto sem janelas. Saudades do gato. Tosse e cigarro. Pequenos pesos imaginários arqueando-lhe as costas. Insistência masoquista. O gosto de nicotina nos lábios rachados de frio e ansiedade. A tosse em uma mão e o cigarro na outra e não há um segundo sequer de dúvida. O cheiro de fósforo sorrindo amarelo, sarcástico, ensurdecendo-lhe os dedos manchados. Os olhos fechados, a falta de ar, um desejo infantil. Que fosse impulso, que fosse fácil, que fosse simples. Simples como tosse e cigarro.