segunda-feira, março 22, 2010

Caio

"Porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como 'sempre' ou 'nunca'. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como 'não resistirei' por outras mais mansas, como 'sei que vai passar'. Esse é o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."

quarta-feira, março 17, 2010

Mais uma dose

Ele não entendeu. Eu expliquei três ou quatro vezes, pausadamente, depois escrevi tudo em letras grandes em um papel sulfite e fiz com que ele lesse. Como se não bastasse, ilustrei, dei exemplos, usei as metáforas de que ele tanto gosta. Tudo pra fazer ele entender, mas ele não entendeu. Então me veio como uma lufada de vento frio machucando até os ossos essa sensação quase certeza de que a verdade é que ele não pode e nem nunca vai poder entender. E ali eu desmoronei. Um pouco apenas, como quem descobre um câncer e tem esperança na medicina, na cura. Continuei explicando, explicando, explicando. Foi só quando ele me obrigou a começar tudo de novo pela quinta vez que eu acho que desisti. Aí pensei em deixar tudo aquilo de lado, convidá-lo pra beber umas cervejas, comemorar tolices, dar algumas risadas, mas... What's the point, right? Ele não entende e eu não esqueço. Fiquei parada na janela olhando a movimentação dos executivos no estacionamento em frente ao prédio e sentindo uma coisa estranha acontecendo dentro de mim, como um tumor crescendo, se expandindo. Ele perguntou o que foi. Expliquei, de novo, expliquei. E quanto mais eu explicava menos ele entendia. Dei um desconto porque nessa hora nem eu mesma estava me entendendo. Só que essa coisa dentro de mim que eu não sei o que era continuou crescendo e começou a me sufocar e me sufocando me dizia que esperança é coisa de gente fraca, que era óbvio que ele nunca iria entender, que era, sim, o fim e blá blá blá. Diabólica essa coisa, esse câncer, que crescia. Acho então que me conformei. Com o fim, acho, me conformei. E foi nesse exato momento que me decidi. E talvez ele tenha notado porque pude ouvir seus olhos me dizendo hey eu tenho me esforçado tanto. E eu quis gritar um eu sei mas já não adianta, mas desconfio que ele também não teria entendido isso. Ele não entende nada. Então, em resposta ao esforço dele eu sorri. Terminamos a noite bebendo cervejas, comemorando tolices, dando risadas. Só que ele não entendeu e eu não esqueci.

terça-feira, março 16, 2010

Galachão

Eu me lembro de esticar o corpo pra fora da janela pra tentar ver o movimento das rodas do Landau. Meu pai sempre me puxava pra dentro, que era perigoso, ele dizia, se debruçar assim pra fora do carro. Quando me deixava em casa, ele não entrava no carro pra partir até que eu estivesse pra dentro do portão de vidro jateado, sem poder vê-lo. Eu corria pra dentro do apartamento, no segundo andar, e esticava o corpo pra fora da janela do quarto pra, de novo, tentar ver o movimento das rodas do Landau. Minha mãe sempre me puxava pra dentro, que era perigoso, ela dizia, se debruçar assim pra fora do apartamento.
Me bateu hoje, violentamente, essa inexplicável aflição por nunca ter visto o movimento das rodas do Landau.

sábado, março 13, 2010

Not all pain is gain...

Essa semana um sujeito morreu de ataque cardíaco enquanto fazia um teste de aptidão física para um concurso da Polícia Militar da Bahia, outro simplesmente caiu duro no campo durante um jogo de futebol no Sudão, outro ainda foi dar um carrinho no adversário em um jogo de futsal e teve o intestino perfurado por uma tábua que se soltou do piso da quadra (qual era a probabilidade de uma coisa dessas acontecer?).

O gênio que vos escreve lesionou os dois tornozelos pulando corda e mal consegue andar há mais de uma semana.

Cada vez mais eu me convenço de que exercícios físicos não foram feitos para serem praticados e sim para serem temidos.