Moço... e se eu te disser que o problema é que não tenho saída a não ser viver nesse meio termo entre meu desejo de ganhar o mundo e minha preguiça pra sair da cama de manhã?
quinta-feira, outubro 25, 2007
segunda-feira, outubro 15, 2007
Correspondência extraviada II
R.,
Triste precisar desse fundo negro para poder falar contigo. Sinto saudades da eletricidade de nossas conversas.
Hoje me veio uma provável resposta: o que te afastou de mim foi a mesma coisa que um dia te tornou possível. Ao menos foi a essa conclusão que cheguei depois de quase dezoito mil horas sem que nada mais me viesse de ti. Estou certa?
Eu sinto cada minuto, moço, e já são mais de dois anos. O tempo quase não passa, os dias se repetem. Eu anseio pelos fins de tarde, na esperança de encontrar algo teu na caixa de correio ou de te ver postado à minha porta, trazendo respostas ou mesmo só um silêncio, que eu suponho que teu silêncio me possa dizer muitas coisas. Mas tu não vens.
E é engraçado que a tua ausência seja capaz de deixar-me assim, tão ausente de mim mesma, porque a verdade é que eu nem sei ao certo quem tu és. Quero dizer, eu sei de tua rotina de anos atrás, sei de teus talentos e de tuas formas, mas nada além. E não entendo porque me perco tanto te buscando. Saio de casa todos os dias pronta pra te encontrar em alguma esquina. Visito tua praça, teus bares. Não há, em qualquer lugar, qualquer vestígio de ti.
Fato que a nossa história é por demais incerta e cheia de lacunas. E eu só sei que existiu uma história porque me pareceu muito real o teu rosto corado, teu amontoado de idéias, teus elogios exagerados, tuas despedidas espirituosas em francês e tudo mais. Mas depois, teu sumiço, minhas súplicas e um vazio foi tudo o que ficou.
E eu procuro no vácuo por explicações para o teu atraso. Já enredei-me em mais de cem hipóteses, assumi erros, deslizes, acreditei em coincidências, em destino, formulei teorias de conspirações, te vi com medo, te vi com nojo, te vi com raiva. E não me canso.
Talvez tu tenhas morrido. Quem sabe?
Sabe, moço, eu fico procurando palavras para não repetir as tuas, estas que esqueceste sobre o criado-mudo no dia em que resolveste partir, as últimas letras de ti que me ficaram e que parecem resumir minhas sensações sobre a tua chegada e sobre a tua partida. Bem sei que falavas ao acaso ou talvez sobre uma outra moça, de olhos mais verdes que os meus, mas me vejo nas entrelinhas e gosto de pensar que há mesmo um pouco de mim nas tuas angústias, naquelas angústias de quinta-feira, ao menos.
Fato que ficaram coisas demais por serem ditas, coisas demais...
O mundo é mosaico, moço, tu já me havias dito, somos ladrilhos errantes. Mas eu não tenho cores, te enganaste. Eu acho que sou a sobra de azulejo bege que só caberia em paisagem de areia. Mas todas as paisagens de areia estão completas e então eu fico por aqui... sendo sobra de azulejo bege... e só.
...
Triste precisar desse fundo negro para poder falar contigo. Sinto saudades da eletricidade de nossas conversas.
Hoje me veio uma provável resposta: o que te afastou de mim foi a mesma coisa que um dia te tornou possível. Ao menos foi a essa conclusão que cheguei depois de quase dezoito mil horas sem que nada mais me viesse de ti. Estou certa?
Eu sinto cada minuto, moço, e já são mais de dois anos. O tempo quase não passa, os dias se repetem. Eu anseio pelos fins de tarde, na esperança de encontrar algo teu na caixa de correio ou de te ver postado à minha porta, trazendo respostas ou mesmo só um silêncio, que eu suponho que teu silêncio me possa dizer muitas coisas. Mas tu não vens.
E é engraçado que a tua ausência seja capaz de deixar-me assim, tão ausente de mim mesma, porque a verdade é que eu nem sei ao certo quem tu és. Quero dizer, eu sei de tua rotina de anos atrás, sei de teus talentos e de tuas formas, mas nada além. E não entendo porque me perco tanto te buscando. Saio de casa todos os dias pronta pra te encontrar em alguma esquina. Visito tua praça, teus bares. Não há, em qualquer lugar, qualquer vestígio de ti.
Fato que a nossa história é por demais incerta e cheia de lacunas. E eu só sei que existiu uma história porque me pareceu muito real o teu rosto corado, teu amontoado de idéias, teus elogios exagerados, tuas despedidas espirituosas em francês e tudo mais. Mas depois, teu sumiço, minhas súplicas e um vazio foi tudo o que ficou.
E eu procuro no vácuo por explicações para o teu atraso. Já enredei-me em mais de cem hipóteses, assumi erros, deslizes, acreditei em coincidências, em destino, formulei teorias de conspirações, te vi com medo, te vi com nojo, te vi com raiva. E não me canso.
Talvez tu tenhas morrido. Quem sabe?
Sabe, moço, eu fico procurando palavras para não repetir as tuas, estas que esqueceste sobre o criado-mudo no dia em que resolveste partir, as últimas letras de ti que me ficaram e que parecem resumir minhas sensações sobre a tua chegada e sobre a tua partida. Bem sei que falavas ao acaso ou talvez sobre uma outra moça, de olhos mais verdes que os meus, mas me vejo nas entrelinhas e gosto de pensar que há mesmo um pouco de mim nas tuas angústias, naquelas angústias de quinta-feira, ao menos.
Fato que ficaram coisas demais por serem ditas, coisas demais...
O mundo é mosaico, moço, tu já me havias dito, somos ladrilhos errantes. Mas eu não tenho cores, te enganaste. Eu acho que sou a sobra de azulejo bege que só caberia em paisagem de areia. Mas todas as paisagens de areia estão completas e então eu fico por aqui... sendo sobra de azulejo bege... e só.
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domingo, outubro 07, 2007
Sutileza
Ah, eu sou delicada? Você sabe tanto sobre mim! É, eu sou simpática, eu sou companheira, uma ótima companhia e o escambau. Eu sou compreensiva, dou bons conselhos, entendo a essência da alma humana e digo coisas, assim, liiiindas sobre os sentimentos e blá blá blá. Eu sou tão competente e inteligente que meu pai deveria ter me mandado para um colégio de superdotados na França quando eu era pequena. Claro, claro. Eu sou guerreira, batalhadora, vencedora, amiga e todos os outros substantivos adjetivados bregas que você conseguir imaginar.
O que você não sabe, darling, é que eu sofro horrores dessa vontade absurda de puxar o gatilho toda vez que você abre a sua maldita boca!
O que você não sabe, darling, é que eu sofro horrores dessa vontade absurda de puxar o gatilho toda vez que você abre a sua maldita boca!
sexta-feira, outubro 05, 2007
I CAN'T go with the flow
Eu vou descobrindo coisas pelo caminho. Todos os dias me chegam notícias aos ouvidos. Algumas ruins, outras boas. Nenhuma mesmo péssima ou sensacional. O mundo anda meio morno. Essa cidade, na verdade, essas paredes andam meio mornas. O mundo eu não sei.
Eu sinto que estou me repetindo indefinidamente e não consigo parar. A verdade é que tenho tido mais de mil idéias por minuto, por segundo. E meus dedos não acompanham meu cérebro e falta tinta nas canetas e acaba sobrando só a mesmice, essas reclamações redondas, esses suicídios nas entrelinhas, esses homicídios escancarados, essa vontade batida de jogar uma mochila nas costas, deixar de pagar as contas, gastar todo meu dinheiro em uma passagem pra Europa, pra África, pra Oceania ou para o Maldito Cafundó Onde Judas Esqueceu Suas Famosas Botas e perder o vôo de volta.
Que seja! Cerveja, cigarros e Queens Of The Stone Age no player. Bah!
Eu sinto que estou me repetindo indefinidamente e não consigo parar. A verdade é que tenho tido mais de mil idéias por minuto, por segundo. E meus dedos não acompanham meu cérebro e falta tinta nas canetas e acaba sobrando só a mesmice, essas reclamações redondas, esses suicídios nas entrelinhas, esses homicídios escancarados, essa vontade batida de jogar uma mochila nas costas, deixar de pagar as contas, gastar todo meu dinheiro em uma passagem pra Europa, pra África, pra Oceania ou para o Maldito Cafundó Onde Judas Esqueceu Suas Famosas Botas e perder o vôo de volta.
Que seja! Cerveja, cigarros e Queens Of The Stone Age no player. Bah!
quarta-feira, outubro 03, 2007
C
C é uma pessoa única e é várias pessoas, por assim dizer. É um camaleão serelepe que se disfarça de si mesmo em diferentes formas e diversas vezes, mas é sempre igual. C tem sempre aquele sorriso que aprova ou desaprova alguma besteira que a gente diz ou uma ou outra grande idéia que a gente tem. C quase nunca chora e procura se manter acima dessa tristeza infundada que os outros costumam sentir. C é mulher dona de seu próprio nariz e costuma não reparar e nem se importar com o tamanho ou a forma do nariz dos outros.
C é um poço de mistérios que eu julgo ter revelados, é paradoxal: ora dona do silêncio, ora rainha do dinamismo.
C é artística, em todos os sentidos, mas insiste, não sei se por vaidade ou por descrença, em não admitir seus muitos talentos. Não gosta de elogios exagerados e aceita bem as críticas. Cá entre nós, C não se sabe tanto quanto é.
C esteve sempre presente, desde os tempos da minha timidez até para perguntar as horas. C não se lembra, mas nos conhecemos jogando basquete no colégio, quando eu ainda usava tênis cor-de-rosa e calças saint tropez. C sabe de todas as minhas paixões e já se riu de mim inúmeras vezes, sem nenhuma cerimônia. Cresceu junto comigo e, apesar de sermos totalmente diferentes, somos, no fundo, quase idênticas.
C está em um grupo de poucos amigos. Daqueles que a gente não esquece nem que se esforce, daqueles cujo número do telefone está sempre rabiscado num cantinho da memória, ainda que demore meses para ser discado.
C mistura tons de cor-de-rosa-choque e preto. Um preto noite, cheio de segredos, onde brilham estrelas que a gente pode ver perfeitamente mas que, na verdade, estão mais longe do que dá pra imaginar.
C é um poço de mistérios que eu julgo ter revelados, é paradoxal: ora dona do silêncio, ora rainha do dinamismo.
C é artística, em todos os sentidos, mas insiste, não sei se por vaidade ou por descrença, em não admitir seus muitos talentos. Não gosta de elogios exagerados e aceita bem as críticas. Cá entre nós, C não se sabe tanto quanto é.
C esteve sempre presente, desde os tempos da minha timidez até para perguntar as horas. C não se lembra, mas nos conhecemos jogando basquete no colégio, quando eu ainda usava tênis cor-de-rosa e calças saint tropez. C sabe de todas as minhas paixões e já se riu de mim inúmeras vezes, sem nenhuma cerimônia. Cresceu junto comigo e, apesar de sermos totalmente diferentes, somos, no fundo, quase idênticas.
C está em um grupo de poucos amigos. Daqueles que a gente não esquece nem que se esforce, daqueles cujo número do telefone está sempre rabiscado num cantinho da memória, ainda que demore meses para ser discado.
C mistura tons de cor-de-rosa-choque e preto. Um preto noite, cheio de segredos, onde brilham estrelas que a gente pode ver perfeitamente mas que, na verdade, estão mais longe do que dá pra imaginar.
segunda-feira, outubro 01, 2007
Hífens
- Di-a pri-mei-ro de ou-tu-bro. Se-gun-da fei-ra.
Ela falou assim, separando as sílabas, riscando hífens no ar com o indicador da mão direita. Depois contou que gosta de dias primeiros que caem em segundas-feiras. Dá vontade de recomeçar, ela disse.
- Recomeçar o que?
- Ah, sei lá, qualquer coisa... a dieta?
- Hum...
- Ai, mas que desânimo, Anna! Cruz-credo!
Ela falou assim, separando as sílabas, riscando hífens no ar com o indicador da mão direita. Depois contou que gosta de dias primeiros que caem em segundas-feiras. Dá vontade de recomeçar, ela disse.
- Recomeçar o que?
- Ah, sei lá, qualquer coisa... a dieta?
- Hum...
- Ai, mas que desânimo, Anna! Cruz-credo!
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