Entre um telefonema e outro, pergunto às paredes quem é que vai me salvar. Sete dívidas perdoadas, verba para o lar de idosos, remédios para câncer de garganta e de ossos. E você pode abrir sua boate, seu salão de beleza, seu mercadinho, seu aviário. Aqui é só vermelho, pele enrugada, voz que não sai, pouco cálcio. Uma cerveja, um vidro de esmalte, uma lata de atum e o gato.
Missa à distância. Caminho, de joelhos, tentando juntar os pedaços da vida que já foi inteira. Pouca areia e muita brita, muito sangue. Quando se medem os quilômetros em dias... São três dias daqui até lá, sem paradas para as balas de banana. Quatro dias, se houver engarrafamento. Dois e meio se houver encanto no pedal do acelerador. O tédio, os meninos que vendem casquinhas, as placas que a gente não pode ler. Uma coisa de cada vez.
Lembrança de cheiro, de gosto, de dor. Inexplicável. As árvores de natal, o bolo da avó, a falta de ar. A lenha queimando, os pedaços de papel de seda espalhados na cama, nossos braços nus abertos na neve. Nicotina na tua barba, nicotina na tua barba, nicotina na tua barba. Como um cisco no meu olho que eu te peço pra tirar, mas tu não vês.
Esse frio incomum e o teu silêncio. A cerveja que acabou e Edith Piaf, rouca, me dizendo que não se arrepende de nada. O sol virando lua pela janela minúscula desse lugar que eu chamo de casa. Uma imensa ladeira, o parque, o cemitério. Noite outra vez e ainda é ontem... oito ou dez anos atrás. Ainda tuas mãos em meus cabelos, tua voz macia me pedindo calma. Ainda meu erro e teus passos se afastando.
Então os sonhos. As moças, tolas, procurando significados. Elas não sabem que o mundo está cheio de referências. Eu consigo ligar tantos pontos. Não há nada sobrenatural ou misterioso. São só impressões, memórias, desejos.
E são ciclos, tu bem sabes. Depois, de novo, a dúvida, a distância, a lembrança, o frio e o silêncio. E os sonhos.
quinta-feira, novembro 17, 2011
quarta-feira, agosto 31, 2011
Caio
1
"E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro."
...
"De repente a gente se encontra numa esquina, num outro planeta, no meio duma festa ou duma fossa, a gente se encontra, tenho certeza."
...
"Penso às vezes que quando estiver pronto, um dia qualquer, um dia igual hoje, vou encontrar você claro e calmo sentado no Bar, à minha espera."
...
"Mas se a saudade bater, escreva uma carta que pode ser cheia de queixas, ou cheia de sol. Será bem vinda."
2
"Quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode."
...
"Fiquei ali parado, procurando alguma coisa que não estava nem esteve ou estaria jamais ali."
...
"Podia ter dado certo entre a gente, ou não. Eu nem sei o que é dar certo."
...
"Ele disse: Eu não vou me esquecer de você. Ela disse: Nem eu."
3
"Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais."
...
"Eu vou gostando, eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou… E continuo indo, assim, desse jeito."
...
"Boas e bobas, são as coisas que penso quando penso em você."
...
"Eu ando tomando o rumo certo agora, me deseje sorte."
4
"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."
"E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro."
...
"De repente a gente se encontra numa esquina, num outro planeta, no meio duma festa ou duma fossa, a gente se encontra, tenho certeza."
...
"Penso às vezes que quando estiver pronto, um dia qualquer, um dia igual hoje, vou encontrar você claro e calmo sentado no Bar, à minha espera."
...
"Mas se a saudade bater, escreva uma carta que pode ser cheia de queixas, ou cheia de sol. Será bem vinda."
2
"Quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode."
...
"Fiquei ali parado, procurando alguma coisa que não estava nem esteve ou estaria jamais ali."
...
"Podia ter dado certo entre a gente, ou não. Eu nem sei o que é dar certo."
...
"Ele disse: Eu não vou me esquecer de você. Ela disse: Nem eu."
3
"Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais."
...
"Eu vou gostando, eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou… E continuo indo, assim, desse jeito."
...
"Boas e bobas, são as coisas que penso quando penso em você."
...
"Eu ando tomando o rumo certo agora, me deseje sorte."
4
"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."
So what?
De repente um tempo que eu não tenho. E penso. Sinto na garganta algo que parece ser um coração prestes a escapar pela boca e me lembro do quanto odeio clichês e do quanto eles são reais, sometimes.
Minimizo.
É apenas um sentimento.
Não, são vários, centenas deles. Todos esses vitrais coloridos, todas essas paisagens nubladas. Minhas tantas saudades, minha vontade, meu amor, meu ódio.
Silêncio.
Duas madrugadas em claro e nesta noite o nada. Eu perco oportunidades demais. Arrependo-me. Entre tantos motivos que tenho pra me arrepender, escolho o mais banal. De fato, é o motivo que me escolhe. E me culpa, inocente que sou, por este silêncio de hoje, de agora.
É quase mentira. Tragédias que me fazem rir e lamentar. Enquanto isso, a chaleira apitando, rádio antiga sintonizada, meus pés descalços, doentes de tanto andar em círculos, se arrastando pelo piso frio da cela. Nenhum contato com o que há do lado de lá dessas paredes finas, desses muros altos, dessas distâncias invencíveis.
Espero. O guarda anuncia visitas que eu não quero receber. Não agora, não hoje. Meus desejos calados pela ausência de quem não pode vir. The last one... The last one?
Tenho três problemas que remédio nenhum trata. Ouço o tempo todo esse ruído, tilintar de taças. Algumas vezes elas se quebram. E a minha memória vai se perdendo um pouco em cada brinde. Vivo, pois, de surpresas. Para além do que parece ser bom, pesadelos tomam forma e eu queria poder explicar como tudo isso funciona.
Na vida burocrática dos dias ditos úteis há pouco ou quase nada. O mate, um sorriso, saltos altos, o dinheiro pro café que eu não bebo, as compras no supermercado. Na falta de disfarces decentes, me camuflo e deixo de fazer sentido.
Há sempre a noite, contudo. E a música.
Penso no moço da eletricidade e do desconcerto, nos dois ou três meses que já se passaram, no que eu quero muito, mas não preciso.
E aí, dez minutos atrás; planos efêmeros e todas as outras coisas que eu não consigo enxergar nesses momentos depressivos e sensatos.
Depois as broncas carinhosas no gato roedor de fios, o único abraço, meu próximo carro, a noite que nunca acabou, a voz de Brian Setzer, "your kiss of fire", a viagem pra Paris... Mesmo as contas pra pagar, o concerto do chuveiro, a louça suja na pia, os domingos tediosos.
Poucas coisas me fariam abdicar da minha sensatez. Poucas coisas.
Ordeno meus devaneios. Primeiro, apenas utopia. Por último, sensação de eternidade. Entre isso e aquilo, essa semi-realidade, nada normal, que me tira, cada vez mais e cada vez menos, o sono e a paz. Não posso me prender a tantas coisas. Faltam cordas, nós demais.
Eu oscilo. Ora delírio. Ora ilusão. Ora verdade. É fogo cruzado. Por não saber pra que lado correr, permaneço imóvel. Fantasio, sempre. Mas nada afasta a realidade das coisas, os dias frios e cinzas, essa inacreditável solidão...
Minimizo.
É apenas um sentimento.
Não, são vários, centenas deles. Todos esses vitrais coloridos, todas essas paisagens nubladas. Minhas tantas saudades, minha vontade, meu amor, meu ódio.
Silêncio.
Duas madrugadas em claro e nesta noite o nada. Eu perco oportunidades demais. Arrependo-me. Entre tantos motivos que tenho pra me arrepender, escolho o mais banal. De fato, é o motivo que me escolhe. E me culpa, inocente que sou, por este silêncio de hoje, de agora.
É quase mentira. Tragédias que me fazem rir e lamentar. Enquanto isso, a chaleira apitando, rádio antiga sintonizada, meus pés descalços, doentes de tanto andar em círculos, se arrastando pelo piso frio da cela. Nenhum contato com o que há do lado de lá dessas paredes finas, desses muros altos, dessas distâncias invencíveis.
Espero. O guarda anuncia visitas que eu não quero receber. Não agora, não hoje. Meus desejos calados pela ausência de quem não pode vir. The last one... The last one?
Tenho três problemas que remédio nenhum trata. Ouço o tempo todo esse ruído, tilintar de taças. Algumas vezes elas se quebram. E a minha memória vai se perdendo um pouco em cada brinde. Vivo, pois, de surpresas. Para além do que parece ser bom, pesadelos tomam forma e eu queria poder explicar como tudo isso funciona.
Na vida burocrática dos dias ditos úteis há pouco ou quase nada. O mate, um sorriso, saltos altos, o dinheiro pro café que eu não bebo, as compras no supermercado. Na falta de disfarces decentes, me camuflo e deixo de fazer sentido.
Há sempre a noite, contudo. E a música.
Penso no moço da eletricidade e do desconcerto, nos dois ou três meses que já se passaram, no que eu quero muito, mas não preciso.
E aí, dez minutos atrás; planos efêmeros e todas as outras coisas que eu não consigo enxergar nesses momentos depressivos e sensatos.
Depois as broncas carinhosas no gato roedor de fios, o único abraço, meu próximo carro, a noite que nunca acabou, a voz de Brian Setzer, "your kiss of fire", a viagem pra Paris... Mesmo as contas pra pagar, o concerto do chuveiro, a louça suja na pia, os domingos tediosos.
Poucas coisas me fariam abdicar da minha sensatez. Poucas coisas.
Ordeno meus devaneios. Primeiro, apenas utopia. Por último, sensação de eternidade. Entre isso e aquilo, essa semi-realidade, nada normal, que me tira, cada vez mais e cada vez menos, o sono e a paz. Não posso me prender a tantas coisas. Faltam cordas, nós demais.
Eu oscilo. Ora delírio. Ora ilusão. Ora verdade. É fogo cruzado. Por não saber pra que lado correr, permaneço imóvel. Fantasio, sempre. Mas nada afasta a realidade das coisas, os dias frios e cinzas, essa inacreditável solidão...
terça-feira, agosto 30, 2011
Eternidade
É previsível, pra dizer o mínimo. Mas vai além disso. É tudo aleatório, normal e anormal ao mesmo tempo, o tempo todo.
Meu medo constante e esses impulsos de loucura. Meu mau humor e meu sorriso infinito. Momentos em que imploro por silêncio e solidão e a paz que só existe no seu abraço. Minhas súplicas ignoradas e meus desejos sempre atendidos. As coisas todas que você não entende e não tenta entender. A complicação que você deduz. Sua chatice infinita, sua falta de bom senso. Minha aprovação muda à sua sensatez quase burocrática.
De outro lado, sua sede por explicações. Sua maldade quase ingênua. Não, não quase, ingênua sim. O modo como você se irrita ou se emociona ou se... Sua exposição infinita de defeitos e qualidades. Meio tosco, meio erudito. O som das cordas que você dedilha e, incrível, consegue me irritar. Suas explanações, meus bocejos, meus aplausos. Os pontos finais que você não coloca. Seu cheiro, tão bom, de nada. Seus sonhos sem limites. O jeito como você prefere as coisas que quer e ignora as que precisa. Sua aversão a conselhos.
É essa falta de lógica que me encanta, embora às vezes me tire do sério. É sua pouca culpa, seu hálito sempre fresco, sua coragem, sua consciência pesada, suas manhãs de ressaca, sua covardia.
E, também, esse cotidiano chato e encantador. Minhas vezes de lavar a louça. Suas meias espalhadas pela casa. Nossos treinos de dança. A sua espera, a minha ausência. Nossos planos, nossas dores, nossos vínculos.
O que fica, de tudo, é bom de um jeito que eu não sei explicar. E é eterno, embora eternidade não exista.
Meu medo constante e esses impulsos de loucura. Meu mau humor e meu sorriso infinito. Momentos em que imploro por silêncio e solidão e a paz que só existe no seu abraço. Minhas súplicas ignoradas e meus desejos sempre atendidos. As coisas todas que você não entende e não tenta entender. A complicação que você deduz. Sua chatice infinita, sua falta de bom senso. Minha aprovação muda à sua sensatez quase burocrática.
De outro lado, sua sede por explicações. Sua maldade quase ingênua. Não, não quase, ingênua sim. O modo como você se irrita ou se emociona ou se... Sua exposição infinita de defeitos e qualidades. Meio tosco, meio erudito. O som das cordas que você dedilha e, incrível, consegue me irritar. Suas explanações, meus bocejos, meus aplausos. Os pontos finais que você não coloca. Seu cheiro, tão bom, de nada. Seus sonhos sem limites. O jeito como você prefere as coisas que quer e ignora as que precisa. Sua aversão a conselhos.
É essa falta de lógica que me encanta, embora às vezes me tire do sério. É sua pouca culpa, seu hálito sempre fresco, sua coragem, sua consciência pesada, suas manhãs de ressaca, sua covardia.
E, também, esse cotidiano chato e encantador. Minhas vezes de lavar a louça. Suas meias espalhadas pela casa. Nossos treinos de dança. A sua espera, a minha ausência. Nossos planos, nossas dores, nossos vínculos.
O que fica, de tudo, é bom de um jeito que eu não sei explicar. E é eterno, embora eternidade não exista.
segunda-feira, agosto 29, 2011
Ilusão
Apenas imagino... Mãos trêmulas e coração acelerado das nove xícaras de café. Bonita a voz dele ao telefone. Aguardo o tal técnico resolver o problema com a minha internet e divago. Ele define um destino e não me conta qual é. A lua está bonita; lamento não ter janelas. Me pede pra vestir vermelho e pra levar um chapéu. O menino da internet não sabe mexer com fios; eu ajudo, pensando no absurdo da situação. A despedida é em uma língua qualquer que eu não entendo. A mãe liga e diz que Domitila foi operada e passa bem; ouço Domtila latindo; sinto saudades. Eu sei tanto... e quase nada sobre ele. O moço da telefônica sai, prometendo, sem certeza, só mais meia hora de vazio e silêncio. Nós temos pouco tempo e muito do pouco que temos nos roubam. Abro uma cerveja. O mundo está cheio de ladrões. Acendo um cigarro. Espera longa e ele chega, todo de preto, sorrindo de um jeito que é só dele. Minha consciência pesa toneladas de exercícios físicos não sendo feitos. Caminhamos de mãos dadas, sob o sol. Prometo tudo pra próxima segunda-feira e pretendo cumprir. Não há rumo, ele confessa; meus olhos brilham confusos. Eu vivo, há meses, só de promessas. Ele me beija. Me pergunto quando é que vou criar resistência ao alcool, esse maldito. Velocidade demais nesse mundo estranho; um piscar de olhos e já passa das três da manhã. Meia hora e nada; eu apelo, mas "todos os nossos atendentes estão ocupados". Ele me diz que é tarde e que precisa ir. Penso em coisas aleatórias; tédio; maldigo o provedor de internet até sua oitava geração. Eu desejo um tempo que não passe, um lugar que não exista. Por breves segundos fico sem entender minha frustração e minha ansiedade. Não dá pra ter. Depois amaldiçoo, mais uma vez, toda a tecnologia. O adeus é lacônico; saudade antes da partida. Procuro ver as coisas por outro ângulo, mas há apenas um ângulo que me interessa. Tudo perfeito demais; horas em segundos, dias em minutos, semanas em suspiros mudos e falta de ar. Séculos depois, milênios talvez, desisto e ligo a televisão. Difícil definir se é realidade ou fantasia. Passa a novela. Parece novela.
domingo, agosto 28, 2011
Utopia
Essa espera, meu bem, me corrói. Acabo sendo, o tempo todo, ansiedade disfarçada em desapego. E há esse medo frágil de que tudo acabe assim, mais uma vez, sem nunca ter sido, de que me reste apenas tua imagem borrada, fosca, o som inconstante dos teus passos se afastando.
Já são dois meses e nada me veio de ti. Ainda assim, espero. Já te disse que vivo de esperar. Mas tenho pressa.
Tenho pressa pelo que eu fui, pelo que tu fostes. E tenho pressa pelo que somos agora. Meu novo corte de cabelo, a nova cor do meu esmalte, minha última descoberta literária, a tinta fresca do quadro na minha sala de estar. Essas coisas todas sobre mim que tu ainda não sabes. E as coisas sobre mim que nem eu mesma sei. Tu és incógnita, tanto quanto.
Posso apostar que tens pressa também.
Eu tento entender teu atraso, tua demora. E a verdade é que eu consigo. Sei dos teus percalços, tão iguais aos meus. Sei de tua agenda lotada, de tua preguiça, das culpas todas que te atribuem, como fazem comigo, das noites em claro buscando soluções para problemas alheios. Compartilhamos dessa fuga forçada do que seria ideal em nome do todo insondável que não nos pertence.
Ainda assim, me permito devaneios. Desejo qualquer coisa que possa te trazer pra mais perto de mim, me levar pra mais perto de ti, anular essas distâncias inventadas, manhãs solitárias, tardes vazias, noites ébrias...
Os raios de um sol invisível refletindo em teus cabelos loiros e me cegando. Costuma ser assim, nos sonhos. Tua cabeça cheia de diamantes, teus dedos longos em gestos incompreensíveis, tua voz sem movimento me dizendo que ainda é cedo, pra eu me acalmar, que o tempo passa devagar e rápido demais.
Destas noites em que durmo, fica esse tanto de coisas que tu dizes e que parece não fazer sentido. Das noites de insônia, fica teu silêncio. Do que é real, fica um gosto ruim de ironia. E sempre essa saudade estranha, esse desejo mudo...
É tudo o que há.
Já são dois meses e nada me veio de ti. Ainda assim, espero. Já te disse que vivo de esperar. Mas tenho pressa.
Tenho pressa pelo que eu fui, pelo que tu fostes. E tenho pressa pelo que somos agora. Meu novo corte de cabelo, a nova cor do meu esmalte, minha última descoberta literária, a tinta fresca do quadro na minha sala de estar. Essas coisas todas sobre mim que tu ainda não sabes. E as coisas sobre mim que nem eu mesma sei. Tu és incógnita, tanto quanto.
Posso apostar que tens pressa também.
Eu tento entender teu atraso, tua demora. E a verdade é que eu consigo. Sei dos teus percalços, tão iguais aos meus. Sei de tua agenda lotada, de tua preguiça, das culpas todas que te atribuem, como fazem comigo, das noites em claro buscando soluções para problemas alheios. Compartilhamos dessa fuga forçada do que seria ideal em nome do todo insondável que não nos pertence.
Ainda assim, me permito devaneios. Desejo qualquer coisa que possa te trazer pra mais perto de mim, me levar pra mais perto de ti, anular essas distâncias inventadas, manhãs solitárias, tardes vazias, noites ébrias...
Os raios de um sol invisível refletindo em teus cabelos loiros e me cegando. Costuma ser assim, nos sonhos. Tua cabeça cheia de diamantes, teus dedos longos em gestos incompreensíveis, tua voz sem movimento me dizendo que ainda é cedo, pra eu me acalmar, que o tempo passa devagar e rápido demais.
Destas noites em que durmo, fica esse tanto de coisas que tu dizes e que parece não fazer sentido. Das noites de insônia, fica teu silêncio. Do que é real, fica um gosto ruim de ironia. E sempre essa saudade estranha, esse desejo mudo...
É tudo o que há.
quarta-feira, julho 06, 2011
Caio
"(...) Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais - por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia – qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, do que com a certeza de ter acabado em dor (...)".
sexta-feira, julho 01, 2011
Exortação aos Crocodilos
Ele, de novo, e real. Não houve, contudo, qualquer intenção. Puro acaso. Não fosse a briga de dois senhores aleatórios, interesses escusos, a política, o problema dos fumilcutores e minha paciência para discursos intermináveis, talvez nunca nos tivéssemos reencontrado.
Como se as ausências não tivessem estado presentes durante todos esses anos, comentamos sobre o sol e sobre a chuva e sobre a vida nos fins de mundo em que vivemos.
Essas cidades aqui são só ladeiras. Acordo todos os dias às seis, desço uma ladeira a caminho do trabalho. Trabalho. Subo a mesma ladeira a caminho desse lugar, quatro paredes e pouco espaço, que alguns chamam de "minha casa" e eu chamo de "solitária" (ainda que eu tenha a vantagem de ver, pela única janela do único cômodo, o sol nascendo quadrado nesses dias frios).
Pra ele, a culpa que lhe atribuem por todos os problemas do mundo, um certo tédio escondido, e a moça, tímida, disfarçada em uma entrelinha.
Naquele momento, de fato, nada importava. O modo como ele me disse que era bom me ver, a mocinha do almoxarifado da Assembléia nos emprestando uma caneta, minhas mãos trêmulas anotando no canto de uma bula de remédio um número de telefone, um vice-versa em um pedaço de papel amassado.
E, depois, a promessa de que ele ligaria, cumprida, dessa vez. E notícias chegando pelo correio mais tarde, falando do tempo que a gente modela, dos tropeços da vida e dos vinhos argentinos e chilenos que salvam outonos.
Demorei a responder e, faz já um mês, a tréplica ainda não veio. Me acalma, contudo, a quase certeza de que as correspondências não irão mais se extraviar. Se encerra um ciclo. Pode ser que nada mais me venha, mas é boa a sensação de dar fim a uma agonia e de perceber que o real é melhor do que o imaginado.
De fato, nunca houve dor. Apenas aquilo que sempre vinha ao longo do tempo, saudades de eloquências informais, de vida inteligente, da "medicina indicada". Meu talento para dramatizar supera qualquer capacidade de criação que, dizem por aí, eu tenha ou possa ter.
Foi, até agora, apenas isso. Dramatização. O que será, daqui para frente... Incógnita irrelevante no meio de tantas outras.
Muito estranhamente, torço para que Antonio Lobo Antunes morra logo.
...
Como se as ausências não tivessem estado presentes durante todos esses anos, comentamos sobre o sol e sobre a chuva e sobre a vida nos fins de mundo em que vivemos.
Essas cidades aqui são só ladeiras. Acordo todos os dias às seis, desço uma ladeira a caminho do trabalho. Trabalho. Subo a mesma ladeira a caminho desse lugar, quatro paredes e pouco espaço, que alguns chamam de "minha casa" e eu chamo de "solitária" (ainda que eu tenha a vantagem de ver, pela única janela do único cômodo, o sol nascendo quadrado nesses dias frios).
Pra ele, a culpa que lhe atribuem por todos os problemas do mundo, um certo tédio escondido, e a moça, tímida, disfarçada em uma entrelinha.
Naquele momento, de fato, nada importava. O modo como ele me disse que era bom me ver, a mocinha do almoxarifado da Assembléia nos emprestando uma caneta, minhas mãos trêmulas anotando no canto de uma bula de remédio um número de telefone, um vice-versa em um pedaço de papel amassado.
E, depois, a promessa de que ele ligaria, cumprida, dessa vez. E notícias chegando pelo correio mais tarde, falando do tempo que a gente modela, dos tropeços da vida e dos vinhos argentinos e chilenos que salvam outonos.
Demorei a responder e, faz já um mês, a tréplica ainda não veio. Me acalma, contudo, a quase certeza de que as correspondências não irão mais se extraviar. Se encerra um ciclo. Pode ser que nada mais me venha, mas é boa a sensação de dar fim a uma agonia e de perceber que o real é melhor do que o imaginado.
De fato, nunca houve dor. Apenas aquilo que sempre vinha ao longo do tempo, saudades de eloquências informais, de vida inteligente, da "medicina indicada". Meu talento para dramatizar supera qualquer capacidade de criação que, dizem por aí, eu tenha ou possa ter.
Foi, até agora, apenas isso. Dramatização. O que será, daqui para frente... Incógnita irrelevante no meio de tantas outras.
Muito estranhamente, torço para que Antonio Lobo Antunes morra logo.
...
sexta-feira, março 25, 2011
Caio
"Foi numa dessas manhãs sem sol que percebi o quanto já estava dentro do que não suspeitava. E a tal ponto que tive a certeza súbita que não conseguiria mais sair. Não sabia até que ponto isso seria bom ou mau — mas de qualquer forma não conseguia definir o que se fez quando comecei a perceber as lembranças espatifadas pelo quarto. Não que houvesse fotografias ou qualquer coisa de muito concreto — certamente havia o concreto em algumas roupas, uma escova de dentes, alguns discos, um livro: as miudezas se amontoavam pelos cantos. Mas o que marcava e pesava mais era o intangível."
segunda-feira, março 14, 2011
Gerônimo
Tosse, tosse. Os batimentos cardíacos sendo sentidos na garganta. Visão turva. Uma dor latejante na parte de trás da cabeça. Cigarro. O silêncio do papel queimando em câmera lenta. A tragada profunda dilacerando a faringe, a laringe e tudo o mais que há. Chá. Tosse. Água. Mais um cigarro. As veias roxas. Comprimidos do tamanho de bolas de gude. Olhos fundos, cabelos sujos e despenteados. Música. Mais tosse. E outro cigarro. Pequenos canivetes perfurando o caminho todo até o pulmão. Bosch, o jardim, as delícias. Os gritos mudos ecoando pelos quatro cantos do quarto sem janelas. Saudades do gato. Tosse e cigarro. Pequenos pesos imaginários arqueando-lhe as costas. Insistência masoquista. O gosto de nicotina nos lábios rachados de frio e ansiedade. A tosse em uma mão e o cigarro na outra e não há um segundo sequer de dúvida. O cheiro de fósforo sorrindo amarelo, sarcástico, ensurdecendo-lhe os dedos manchados. Os olhos fechados, a falta de ar, um desejo infantil. Que fosse impulso, que fosse fácil, que fosse simples. Simples como tosse e cigarro.
sábado, fevereiro 26, 2011
No sábado
Bebeu tanto quanto pôde e escreveu cinco ou seis linhas em um guardanapo de papel. Depois chorou e adormeceu. Quando acordou, rodeado por garrafas de rum barato, leu e releu, mais e mais uma vez, tentando entender. Embora a caligrafia ébria fosse quase indecifrável, a letra era sua. Além do mais, exceto pelo gato, estava sozinho desde a quinta-feira. Sabia que era ele que havia escrito, mas não reconhecia aquilo tudo como seu. Pela primeira vez, espectador de si mesmo, percebeu que havia um certo encanto em seus desvarios, que a moça de vermelho era sincera e que as coisas todas podiam vir a ser. Tomou um banho, escovou os dentes, penteou os cabelos, vestiu sua melhor roupa, colocou Nina Simone pra tocar e escreveu-lhe dizendo que estava pronto e que esperava que ela viesse tirar dele as satisfações que merecia.
Par de dois
Há todo um esquema. Você me ignora. Eu insisto. Tudo depende de quem tem mais resistência. Você não admite: se eu ceder, você perde; se você ceder, ganhamos os dois. Você não cede. Nem eu. Give up, baby. Eu continuarei insistindo, indefinidamente, daqui até o infinito. Não me importa quanto tempo dure... Nesse jogo, eu quero empate.
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
De mim, nos outros...
"Music has always been a matter of energy to me, a question of fuel. Sentimental people call it inspiration, but what they really mean is fuel. I have always needed fuel. I am a serious consumer. On some nights I still believe that a car with the gas needle on empty can run about fifty more miles if you have the right music very loud on the radio."
Hunter Thompson: Kingdom of Fear - Loathsome Secrets of a Star-crossed Child in the Final Days of the American Century
Hunter Thompson: Kingdom of Fear - Loathsome Secrets of a Star-crossed Child in the Final Days of the American Century
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
''Why do these eyes of mine cry?''
Que me pergunto se será sempre assim. Que temo que seja. Que vivo e sonho e oscilo constantemente. Que, às vezes, tenho a certeza de que as coisas, como são, não fazem sentido e, em outras, encontro sentido nas coisas como elas são. Que ele não se esforça. Que eu estou cansada. Que tu não és real. Que é mentira e é verdade. Que é sempre muito mais ou muito menos. Que é tarde e sinto sono, mas é impossível dormir. Que penso em ti. E que eu não sei, não sei... É o que eu te diria, se me restasse voz.
sábado, fevereiro 19, 2011
Correspondência Extraviada XII
R.,
Espero sentada sob a sombra de uma árvore na tua, na nossa, praça. O tempo passa e anoitece. Vejo ao longe a brasa do que suponho ser teu cigarro. Levanto-me. De certo modo, tudo me lembra o dia em que me contaste sobre a parede caiada, a boina verde-musgo do guarda e teu último palito de fósforo.
Desta vez são os teus passos que demoram. Os minutos se arrastam e tu não chegas. Por sorte, há o álcool e não sinto frio. Ensaio as palavras, esperando que o próximo círculo de fogo no horizonte traga junto teu corpo esguio, tua barba amarela, teu sorriso tímido... Mas tudo o que há são lembranças.
Chamas demais entre nós... E, longe de mim, vives dia após dia a única mentira que te permitiste contar, embora saibas toda a verdade. Os olhos dela não brilham, meu bem. Vivem, sim, fora do corpo que a carrega. O brilho que às vezes vês vem dos teus olhos. Tu sabes que ela nunca entendeu as perguntas e tampouco tem as respostas.
Ela é delicada. "Eu poderia rebentar-lhe a face apenas com um impulso da minha mão direita" e sem a ajuda de meus anéis. Não o faço e não é por pena ou por medo. É que ficou tão tarde... As luzes dos prédios ao redor da praça estão todas apagadas. Já não faz mais sentido lutar.
Tu não virás esta noite. Amanhã, talvez. Não desistirei de esperar. Não por ter esperança, mas por não ter nada mais, nada além. E porque sei. Sei de todas as coisas que não contaste a ela e não contaste a mim, mas que eu fui capaz de deduzir e ela não. Sei do cheiro de nicotina impregnado em tua pele, o cheiro que ela não pode suportar, mas eu posso. Sei que, embora admire, ela não entende, como eu entendo, tua poesia e teu torpor.
Nossa mania de contar os dias riscando as paredes com giz. Nossa insônia. Os "colchões cheirando a mofo", os "lençóis rotos". O jazz. Odessa. DFW, Hopper, Kieslowski, je t'aime tant. Espero, pacientemente, admitindo o inadmissível: "é ridículo, mas acaba sendo amor."
...
Espero sentada sob a sombra de uma árvore na tua, na nossa, praça. O tempo passa e anoitece. Vejo ao longe a brasa do que suponho ser teu cigarro. Levanto-me. De certo modo, tudo me lembra o dia em que me contaste sobre a parede caiada, a boina verde-musgo do guarda e teu último palito de fósforo.
Desta vez são os teus passos que demoram. Os minutos se arrastam e tu não chegas. Por sorte, há o álcool e não sinto frio. Ensaio as palavras, esperando que o próximo círculo de fogo no horizonte traga junto teu corpo esguio, tua barba amarela, teu sorriso tímido... Mas tudo o que há são lembranças.
Chamas demais entre nós... E, longe de mim, vives dia após dia a única mentira que te permitiste contar, embora saibas toda a verdade. Os olhos dela não brilham, meu bem. Vivem, sim, fora do corpo que a carrega. O brilho que às vezes vês vem dos teus olhos. Tu sabes que ela nunca entendeu as perguntas e tampouco tem as respostas.
Ela é delicada. "Eu poderia rebentar-lhe a face apenas com um impulso da minha mão direita" e sem a ajuda de meus anéis. Não o faço e não é por pena ou por medo. É que ficou tão tarde... As luzes dos prédios ao redor da praça estão todas apagadas. Já não faz mais sentido lutar.
Tu não virás esta noite. Amanhã, talvez. Não desistirei de esperar. Não por ter esperança, mas por não ter nada mais, nada além. E porque sei. Sei de todas as coisas que não contaste a ela e não contaste a mim, mas que eu fui capaz de deduzir e ela não. Sei do cheiro de nicotina impregnado em tua pele, o cheiro que ela não pode suportar, mas eu posso. Sei que, embora admire, ela não entende, como eu entendo, tua poesia e teu torpor.
Nossa mania de contar os dias riscando as paredes com giz. Nossa insônia. Os "colchões cheirando a mofo", os "lençóis rotos". O jazz. Odessa. DFW, Hopper, Kieslowski, je t'aime tant. Espero, pacientemente, admitindo o inadmissível: "é ridículo, mas acaba sendo amor."
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sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Ao vento
Matando-me aos poucos e eu nem sei porque é que te ouço. Como se a idade pudesse te ensinar mais do que me ensinaram os tantos anos de estrada e dor. Tu não sabes nada da vida, querido. Talvez por isso teus conselhos sejam tão cheios de inveja e rancor. Alertas te escapam da boca como palavrões, tuas mãos inquietas invariavelmente denunciam tua ignorância, teu desespero e, sem querer, incitam meu desapego.
Mal sabes que a imagem é sempre ilusão e que é preciso muito mais do que teu ar de superioridade e um punhado de frases feitas para que o nada se torne real. E nem sempre acontece... É quase certo que irás acordar ferido pelos espinhos das rosas que carregavas no sonho. Mas ela, ela, não estará lá.
Pra ti, bem sei, não importa se é ou não real... Ela, perfeita em teu sonho, tua fantasia. Submissa, indefesa, infeliz. E o brilho dos teus olhos trazendo esperança e conforto. Teu corpo esguio, teu cavalo branco, teus longos cabelos ao vento, como em um conto de fadas.
Open your eyes e nada mais faz sentido. Deste lado tu és frágil, pequeno... Resignado, percebe que a realidade vai muito mais além e que sequer chega perto. Revolta.
Eu sei. Ver-me bem e maior te corrói como um câncer. Mascarando tuas pseudo-maldades com um sorriso tu me beijas a mão e espera que eu compre teu veneno ácido como se fosse mel. Faço-me de tola e te pago em moedas, por mais caro que seja. Eu nunca hesito, interpretar é o meu papel.
Mas há todo um futuro lá fora, meu bem, e eu não posso perder tempo. Estou indo buscar o que é meu. Ignoro teus sonhos, tua insegurança, teu desejo inconsciente por menos, teu medo disfarçado em sinais de preocupação e cuidado... E sinto pena. Tu deverias saber que as coisas mudam e que justamente quando tudo parece igual ao que sempre foi é que tudo está diferente como nunca.
Tu bem sabes, somos incompatíveis. Porque minha loucura é bipolar e vai além do teu desejo normalista, além dos teus gestos de censura não direcionada, da tua anarquia sem propósito... Teus discursos burocráticos não podem me frear.
Eu quero mais, quem diria. Menos, às vezes... Quero mensagens subliminares escondidas em despretensiosos beijos de despedida. Quero a declaração implícita de amor ou ódio. Quero um sarcasmo inocente, quase infantil, que me faça perder a voz. Quero a sinceridade que me tira do sério, do rumo. Quero um tanto de alegria e um tanto de desgraça...
Só não quero o meio-termo, qualquer corpo em cima de qualquer muro, o lugar comum.
Então, poupa-me. Guarda pra ti tua sanidade e me deixa arriscar. Ainda que desta vez eu não saiba se é cedo demais pra ir em frente ou tarde demais pra desistir.
Mal sabes que a imagem é sempre ilusão e que é preciso muito mais do que teu ar de superioridade e um punhado de frases feitas para que o nada se torne real. E nem sempre acontece... É quase certo que irás acordar ferido pelos espinhos das rosas que carregavas no sonho. Mas ela, ela, não estará lá.
Pra ti, bem sei, não importa se é ou não real... Ela, perfeita em teu sonho, tua fantasia. Submissa, indefesa, infeliz. E o brilho dos teus olhos trazendo esperança e conforto. Teu corpo esguio, teu cavalo branco, teus longos cabelos ao vento, como em um conto de fadas.
Open your eyes e nada mais faz sentido. Deste lado tu és frágil, pequeno... Resignado, percebe que a realidade vai muito mais além e que sequer chega perto. Revolta.
Eu sei. Ver-me bem e maior te corrói como um câncer. Mascarando tuas pseudo-maldades com um sorriso tu me beijas a mão e espera que eu compre teu veneno ácido como se fosse mel. Faço-me de tola e te pago em moedas, por mais caro que seja. Eu nunca hesito, interpretar é o meu papel.
Mas há todo um futuro lá fora, meu bem, e eu não posso perder tempo. Estou indo buscar o que é meu. Ignoro teus sonhos, tua insegurança, teu desejo inconsciente por menos, teu medo disfarçado em sinais de preocupação e cuidado... E sinto pena. Tu deverias saber que as coisas mudam e que justamente quando tudo parece igual ao que sempre foi é que tudo está diferente como nunca.
Tu bem sabes, somos incompatíveis. Porque minha loucura é bipolar e vai além do teu desejo normalista, além dos teus gestos de censura não direcionada, da tua anarquia sem propósito... Teus discursos burocráticos não podem me frear.
Eu quero mais, quem diria. Menos, às vezes... Quero mensagens subliminares escondidas em despretensiosos beijos de despedida. Quero a declaração implícita de amor ou ódio. Quero um sarcasmo inocente, quase infantil, que me faça perder a voz. Quero a sinceridade que me tira do sério, do rumo. Quero um tanto de alegria e um tanto de desgraça...
Só não quero o meio-termo, qualquer corpo em cima de qualquer muro, o lugar comum.
Então, poupa-me. Guarda pra ti tua sanidade e me deixa arriscar. Ainda que desta vez eu não saiba se é cedo demais pra ir em frente ou tarde demais pra desistir.
sábado, fevereiro 05, 2011
Talvez?
Não quero fazer sentido. Ainda que quisesse, bebi o suficiente para não conseguir. De qualquer forma, não me preocupa. Nada me preocupa.
Essa coisa que me fez voltar, escancarar minhas fórmulas secretas. Evil. Páginas de passado guardadas na gaveta. Me confunde perceber que nada mudou, que escondo algumas palavras mas acabo sempre expondo a essência de toda essa loucura. E é tudo sempre igual.
Um pouco tonta, erro o teclado. Sorte a minha ser sempre possível apagar o que não deve ser escrito, embora não seja possível desdizer o que não deveria ter sido dito.
Pequena, é como me sinto, embora seja grande. Frágil como um monstro gigante desprotegido. E louca. Pelas coisas que desejo, pelos medos que não tenho. Às vezes acho a vida cômica demais e trágica de menos. Talvez porque seja mais fácil dar um passo à frente quando te faltam opções. Se tudo, ou quase tudo, e todos, ou quase todos, deixassem de existir...
Eu sempre arrisquei. É só quando você começa a envelhecer que vê que é hora de parar. Eu sei, eu sei, meus vinte e poucos não são tantos... Mas me parecem muitos. E embora nada seja o que parece, eu vivo de batalhas imaginárias. E meu lado pessimista sempre vence.
O que me perturba, e justifica toda a falta de sentido, é essa sensação estranha de que me faria bem viver de novo uma história que já vivi, embora não possa dizer como, quando ou onde... Essas premissas sobrenaturais desafiando meu ceticismo.
Não me canso de dizer que nada adianta. Tento me convencer e quase consigo. Mas acabo sempre perdendo tempo em divagações.
A verdade é que é tudo muito mais simples ou muito mais complicado do que eu sou capaz de imaginar... E o sentido das coisas depende do ponto de vista do observador. Eu observo e me infiltro e, tarde demais, percebo, desapontada, que já faz tempo... E que agora, ironicamente, talvez seja tarde demais pra voltar atrás.
Essa coisa que me fez voltar, escancarar minhas fórmulas secretas. Evil. Páginas de passado guardadas na gaveta. Me confunde perceber que nada mudou, que escondo algumas palavras mas acabo sempre expondo a essência de toda essa loucura. E é tudo sempre igual.
Um pouco tonta, erro o teclado. Sorte a minha ser sempre possível apagar o que não deve ser escrito, embora não seja possível desdizer o que não deveria ter sido dito.
Pequena, é como me sinto, embora seja grande. Frágil como um monstro gigante desprotegido. E louca. Pelas coisas que desejo, pelos medos que não tenho. Às vezes acho a vida cômica demais e trágica de menos. Talvez porque seja mais fácil dar um passo à frente quando te faltam opções. Se tudo, ou quase tudo, e todos, ou quase todos, deixassem de existir...
Eu sempre arrisquei. É só quando você começa a envelhecer que vê que é hora de parar. Eu sei, eu sei, meus vinte e poucos não são tantos... Mas me parecem muitos. E embora nada seja o que parece, eu vivo de batalhas imaginárias. E meu lado pessimista sempre vence.
O que me perturba, e justifica toda a falta de sentido, é essa sensação estranha de que me faria bem viver de novo uma história que já vivi, embora não possa dizer como, quando ou onde... Essas premissas sobrenaturais desafiando meu ceticismo.
Não me canso de dizer que nada adianta. Tento me convencer e quase consigo. Mas acabo sempre perdendo tempo em divagações.
A verdade é que é tudo muito mais simples ou muito mais complicado do que eu sou capaz de imaginar... E o sentido das coisas depende do ponto de vista do observador. Eu observo e me infiltro e, tarde demais, percebo, desapontada, que já faz tempo... E que agora, ironicamente, talvez seja tarde demais pra voltar atrás.
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
2011
Te dizer que tem sido uma merda. Olho o relógio digital na tela do computador, os segundos regridem. Como se fogos no céu houvessem causado um incêndio. A casa queimada, as fotos queimadas, nossos esconderijos, nosso medo, nosso torpor... Tudo queimado. O disco travado na mesma música. "Is a loosing game". Eu minto. Minto para Luana e para Maria, minto para Eduardo, minto. Engano ninguém, bem sei, mas é mais fácil assim. Prefiro conviver com as caras de dúvida e preocupação do que ter que me submeter a conselhos e consolos que confortam mas não curam. Tudo aleatório agora, mil coisas. "Why do I wish I never played?" Eu deveria usar pijamas, só pra ter a sensação de não sair deles durante o dia todo em plena segunda-feira. Tudo diferente e não se sabe quando foi que mudou. Os fogos, os fogos. Algumas coisas, porém, continuam igualmente boas, mas talvez apenas porque não sejam, não existam. Não se sabe. "Oh, what a mess we made". Ela, ela, ela. Ela faz falta demais e isso dói e eu quase penso em entrar na loucura e ir embora de vez. Trocar de marca de cigarro me dá dores de cabeça ou ao menos justifica minhas dores de cabeça inexplicáveis. Amanhã testarei um paraguaio que há de me deixar rouca também e terei explicação para a voz que me falta. Preciso ainda de algo que me justifique os dedos tortos das mãos voltando a expressar coisas obscuras. Ou não. De um jeito ou de outro, você entra em casa e espera encontrar. A planta viva, o gato alimentado, a cama feita, o teto do banheiro descascando, a louça suja na pia, as marcas de pés nas paredes. De um jeito ou de outro. Eu não deveria ter voltado. Nothing "is more that I could stand". Engraçado que tenha sido hoje. Não. Trágico. Tragicômico, logo hoje, logo hoje. Eu sou o ponto de interrogação desenhado sobre a cabeça de Jack. A felicidade consiste em poder desistir de tudo o que não aliena. Não leia, não ouça, não pense. Liberdade é poder não sentir. Não sinta, não sinta, não sinta. "Memories mar my mind". Eu caminho para o abismo e estou longe de tudo. Da verdade, do sorriso, do que existe em comum e não teve chance de existir, do soco inglês que ele usava como fivela, dos pedaços de banana que ele dava aos cachorros, dos bilhetes espalhados pela casa, do sonho adolescente, do teatrinho que ele fazia com os dedos dos pés, dos pombos da praça, do abismo em si, de tudo. Ficou por perto só esse não saber, insegurança, esse sentir que se anula porque não tem contraponto, essa certeza cruel. Ainda é quarta-feira e o sábado só chega daqui a trinta dias. Te dizer que tem sido uma merda.
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