Essa espera, meu bem, me corrói. Acabo sendo, o tempo todo, ansiedade disfarçada em desapego. E há esse medo frágil de que tudo acabe assim, mais uma vez, sem nunca ter sido, de que me reste apenas tua imagem borrada, fosca, o som inconstante dos teus passos se afastando.
Já são dois meses e nada me veio de ti. Ainda assim, espero. Já te disse que vivo de esperar. Mas tenho pressa.
Tenho pressa pelo que eu fui, pelo que tu fostes. E tenho pressa pelo que somos agora. Meu novo corte de cabelo, a nova cor do meu esmalte, minha última descoberta literária, a tinta fresca do quadro na minha sala de estar. Essas coisas todas sobre mim que tu ainda não sabes. E as coisas sobre mim que nem eu mesma sei. Tu és incógnita, tanto quanto.
Posso apostar que tens pressa também.
Eu tento entender teu atraso, tua demora. E a verdade é que eu consigo. Sei dos teus percalços, tão iguais aos meus. Sei de tua agenda lotada, de tua preguiça, das culpas todas que te atribuem, como fazem comigo, das noites em claro buscando soluções para problemas alheios. Compartilhamos dessa fuga forçada do que seria ideal em nome do todo insondável que não nos pertence.
Ainda assim, me permito devaneios. Desejo qualquer coisa que possa te trazer pra mais perto de mim, me levar pra mais perto de ti, anular essas distâncias inventadas, manhãs solitárias, tardes vazias, noites ébrias...
Os raios de um sol invisível refletindo em teus cabelos loiros e me cegando. Costuma ser assim, nos sonhos. Tua cabeça cheia de diamantes, teus dedos longos em gestos incompreensíveis, tua voz sem movimento me dizendo que ainda é cedo, pra eu me acalmar, que o tempo passa devagar e rápido demais.
Destas noites em que durmo, fica esse tanto de coisas que tu dizes e que parece não fazer sentido. Das noites de insônia, fica teu silêncio. Do que é real, fica um gosto ruim de ironia. E sempre essa saudade estranha, esse desejo mudo...
É tudo o que há.
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