Ela chegou em uma tarde de domingo, carregando uns cinco ou seis sacos de batatas, porque ele havia lhe dito que gostava de batatas e porque ela, coincidentemente ou não, também gostava.
Foi ficando por ali, na casa dele, porque ele permitiu que ela ficasse, movido pela curiosidade, pela gula irracional e por uma inexplicável afeição pela moça das batatas.
Os dois passavam os dias cuidando das batatas, lavando-as, descascando-as, fatiando-as, ralando-as. Fizeram quichês de batatas, purês de batatas, sopas de batatas, batatas fritas, batatas assadas, batatas gratinadas, batatas sauté, espetinho de batatas, batatas recheadas, saladas de batatas...
Um dia, subitamente, sem dizer palavra, ele deu a entender que estava cansado de comer batatas e que queria que ela fosse embora.
Ela, então, colocou nas costas o último saco de batatas que havia sobrado. E foi.
sexta-feira, setembro 17, 2010
sábado, setembro 11, 2010
De mim, nos outros...
"Marla... the little scratch on the roof of your mouth that would heal if only you could stop tonguing it, but you can't."
Chuck Palahniuk: Fight Club
Chuck Palahniuk: Fight Club
sexta-feira, setembro 10, 2010
Fragmentos de cadernetas IV
Carregando o peso de um tudo nas costas.
"A fé remove montanhas, mas com dinamite é mais rápido". O caminhão carrega porcos e o cheiro é insuportável. Ele é lento. Quando a gente ultrapassa eu faço sinal com o braço e o motorista sorri e buzina. Ele não liga pro cheiro dos porcos. Ele sorri e buzina.
Dá pra dizer que eu estou acostumada. Mas quando pesa demais, eu sento e escrevo. E bebo uma cerveja. E fumo um cigarro. Eu sou dependente dessas circunstâncias, sou sim. De certa forma, isso tudo clarifica, me faz ver direito o que parece ser invisível.
Todo dia você descobre coisas novas. É bom ir de carona pra poder apreciar a estrada. O verde ressecado pelo sol contrastando com a fumaça das fábricas. No volante você perde tudo isso. Olhos fixos nas placas indicativas, nas luzes de freio na sua frente, nas possibilidades de ultrapassagem, nos buracos do asfalto que arrebentam rodas.
E eu não tenho conserto, não quero conserto. Eu quero pra sempre poder continuar dependendo da nicotina, do álcool e desses meus dedos tortos pra aliviar esse peso estranho, tentando transformar o que eu não entendo em algo belo.
A parte mais bonita da viagem é Campo do Tenente. Gosto de olhar as planícies sem fim, os pastos. O sol está sempre se pondo quando a gente passa por Campo do Tenente e é um espetáculo lindo, que eu me sinto privilegiada por poder assistir tantas vezes. Gosto do nome da cidade também, embora eu não saiba exatamente o porquê.
Porque nenhuma outra receita funcionou comigo. Como Caio, eu já li tudo, já tentei tudo (macrobiótica psicanálise drogas acupuntura yoga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé ecologia), menos boate gay e suicídio. Da mesma forma, sobrou só esse nó no peito e não há nada pra se fazer.
Acidente com morte hoje e ficamos uma hora paradas em um engarrafamento de curiosos. O ser humano é mórbido, não é? A gente achou que o acidente bloqueava a pista, mas não. Um carro capotou no acostamento, a perna do motorista esmagada pela lataria de um passat alemão, os pedaços do carona espalhados na grama. A gente também passou a dez por hora pra apreciar melhor o sofrimento alheio.
Então, lentamente, eu despejo pensamentos aleatórios no papel e o peso vai se aliviando. Eu concluo algumas coisas com pouca importância, outras importantes demais. Mas fica sempre uma sensação de que nada importa, de fato, de que o mundo vale cada vez menos a pena, de que a vida é uma sucessão de erros e não tem porque ficar insistindo em recomeços. Tentar cicatrizar ferida exposta se ferindo de novo é burrice, bobagem, ilusão. Só machuca mais.
É ruim quando atrasa. Eu e ela gostamos de chegar cedo e aproveitar a noite. Como é sexta-feira a gente não reclamou tanto porque as noites de sexta-feira são sempre mais longas.
Escrevendo, bebendo e fumando. Um blues também cai bem. É um exercício eterno. Eu gostaria de me convencer de que não é preciso carregar, gostaria de abandonar o fardo pelo caminho. Eu sei que é isso que eu deveria fazer mas, às vezes, a esperança é inevitável, a sensação de que vale a pena carregar o peso até que ele se torne leve. Eu sempre estou errada.
Eu disse a ela que era melhor a gente pegar o Contorno Sul por causa do horário. Ela preferia ir por Mandirituba, mas seguiu meu conselho. Foi péssimo. Mais uma hora paradas no trânsito de sexta-feira e dois encontros sendo cancelados. Mas ela riu. O bom de viajar com ela é que ela tem esse senso de humor único e é um tanto quanto louca. A loucura é essencial.
Eu tenho essas vozes na minha cabeça. "O amor é para idiotas. O máximo que você pode ter é companhia. No final, o príncipe encantado vai sempre se resumir a beijos de bom dia e frases feitas sendo repetidas sem vontade. Não existe nada além disso, meu bem, nada." (In)Sensatez? É uma pena que talvez seja mesmo assim.
A noite é uma sequência de luzes vermelhas que dariam uma bela foto, mas minha câmera quebrou. Ela se cansou de alternar os pés nos pedais e me pediu pra dirigir. Eu concordei, embora deteste não poder correr.
Eu queria que fosse mais rápido, mais fácil. Dói demais carregar esse peso. Eu quase desisto. Quase largo o fardo no caminho pra tentar viver como se ele nunca tivesse existido. O pior é saber que não dá. Se eu largo hoje, amanhã volto e busco, jogo nos ombros de novo e volto pro papel, pra cerveja e pro cigarro. Eu preciso aliviar a pressão e definir o meu rumo, de uma vez por todas.
Enfim, a chegada. Os olhos vermelhos, o corpo dolorido. Descansar até a próxima semana.
Mas se a gente não chega a lugar algum, uma hora a gente tem que parar e deixar tudo pra depois.
Qualquer viagem, por melhor ou pior que seja, sempre acaba. Eu amo a estrada, o percurso. O final é sempre triste. Mas na semana que vem, ou no mês que vem, ou no ano que vem, ou daqui uma década, você tem que começar a trilhar o caminho todo de novo e vai ter que chegar em algum lugar, do qual provavelmente terá que voltar depois. Não dá pra não pensar que é tudo em vão, embora seja válido. Eu estou cansada. Queria mesmo era poder parar pra sempre em algum destino bom. Queria nunca mais ter que carregar pesos como esses que agora me arqueiam as costas.
"A fé remove montanhas, mas com dinamite é mais rápido". O caminhão carrega porcos e o cheiro é insuportável. Ele é lento. Quando a gente ultrapassa eu faço sinal com o braço e o motorista sorri e buzina. Ele não liga pro cheiro dos porcos. Ele sorri e buzina.
Dá pra dizer que eu estou acostumada. Mas quando pesa demais, eu sento e escrevo. E bebo uma cerveja. E fumo um cigarro. Eu sou dependente dessas circunstâncias, sou sim. De certa forma, isso tudo clarifica, me faz ver direito o que parece ser invisível.
Todo dia você descobre coisas novas. É bom ir de carona pra poder apreciar a estrada. O verde ressecado pelo sol contrastando com a fumaça das fábricas. No volante você perde tudo isso. Olhos fixos nas placas indicativas, nas luzes de freio na sua frente, nas possibilidades de ultrapassagem, nos buracos do asfalto que arrebentam rodas.
E eu não tenho conserto, não quero conserto. Eu quero pra sempre poder continuar dependendo da nicotina, do álcool e desses meus dedos tortos pra aliviar esse peso estranho, tentando transformar o que eu não entendo em algo belo.
A parte mais bonita da viagem é Campo do Tenente. Gosto de olhar as planícies sem fim, os pastos. O sol está sempre se pondo quando a gente passa por Campo do Tenente e é um espetáculo lindo, que eu me sinto privilegiada por poder assistir tantas vezes. Gosto do nome da cidade também, embora eu não saiba exatamente o porquê.
Porque nenhuma outra receita funcionou comigo. Como Caio, eu já li tudo, já tentei tudo (macrobiótica psicanálise drogas acupuntura yoga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé ecologia), menos boate gay e suicídio. Da mesma forma, sobrou só esse nó no peito e não há nada pra se fazer.
Acidente com morte hoje e ficamos uma hora paradas em um engarrafamento de curiosos. O ser humano é mórbido, não é? A gente achou que o acidente bloqueava a pista, mas não. Um carro capotou no acostamento, a perna do motorista esmagada pela lataria de um passat alemão, os pedaços do carona espalhados na grama. A gente também passou a dez por hora pra apreciar melhor o sofrimento alheio.
Então, lentamente, eu despejo pensamentos aleatórios no papel e o peso vai se aliviando. Eu concluo algumas coisas com pouca importância, outras importantes demais. Mas fica sempre uma sensação de que nada importa, de fato, de que o mundo vale cada vez menos a pena, de que a vida é uma sucessão de erros e não tem porque ficar insistindo em recomeços. Tentar cicatrizar ferida exposta se ferindo de novo é burrice, bobagem, ilusão. Só machuca mais.
É ruim quando atrasa. Eu e ela gostamos de chegar cedo e aproveitar a noite. Como é sexta-feira a gente não reclamou tanto porque as noites de sexta-feira são sempre mais longas.
Escrevendo, bebendo e fumando. Um blues também cai bem. É um exercício eterno. Eu gostaria de me convencer de que não é preciso carregar, gostaria de abandonar o fardo pelo caminho. Eu sei que é isso que eu deveria fazer mas, às vezes, a esperança é inevitável, a sensação de que vale a pena carregar o peso até que ele se torne leve. Eu sempre estou errada.
Eu disse a ela que era melhor a gente pegar o Contorno Sul por causa do horário. Ela preferia ir por Mandirituba, mas seguiu meu conselho. Foi péssimo. Mais uma hora paradas no trânsito de sexta-feira e dois encontros sendo cancelados. Mas ela riu. O bom de viajar com ela é que ela tem esse senso de humor único e é um tanto quanto louca. A loucura é essencial.
Eu tenho essas vozes na minha cabeça. "O amor é para idiotas. O máximo que você pode ter é companhia. No final, o príncipe encantado vai sempre se resumir a beijos de bom dia e frases feitas sendo repetidas sem vontade. Não existe nada além disso, meu bem, nada." (In)Sensatez? É uma pena que talvez seja mesmo assim.
A noite é uma sequência de luzes vermelhas que dariam uma bela foto, mas minha câmera quebrou. Ela se cansou de alternar os pés nos pedais e me pediu pra dirigir. Eu concordei, embora deteste não poder correr.
Eu queria que fosse mais rápido, mais fácil. Dói demais carregar esse peso. Eu quase desisto. Quase largo o fardo no caminho pra tentar viver como se ele nunca tivesse existido. O pior é saber que não dá. Se eu largo hoje, amanhã volto e busco, jogo nos ombros de novo e volto pro papel, pra cerveja e pro cigarro. Eu preciso aliviar a pressão e definir o meu rumo, de uma vez por todas.
Enfim, a chegada. Os olhos vermelhos, o corpo dolorido. Descansar até a próxima semana.
Mas se a gente não chega a lugar algum, uma hora a gente tem que parar e deixar tudo pra depois.
Qualquer viagem, por melhor ou pior que seja, sempre acaba. Eu amo a estrada, o percurso. O final é sempre triste. Mas na semana que vem, ou no mês que vem, ou no ano que vem, ou daqui uma década, você tem que começar a trilhar o caminho todo de novo e vai ter que chegar em algum lugar, do qual provavelmente terá que voltar depois. Não dá pra não pensar que é tudo em vão, embora seja válido. Eu estou cansada. Queria mesmo era poder parar pra sempre em algum destino bom. Queria nunca mais ter que carregar pesos como esses que agora me arqueiam as costas.
quarta-feira, setembro 08, 2010
Caio
"(...) deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, (...)."
domingo, setembro 05, 2010
About me
I'm 27 years old. Sometimes I feel like if I was 80. Some other times, like just 5. Right now, 15 is a good number.
I'm ponctual and I hate delays. I hate some laws and some habits. I hate someone, intentionally or not, telling me what to do. I hate the sound of the chalk on a blackboard. I hate my feet. I hate TV (not the shows, but the device). I hate telephone. I hate pills, but I need it. I hate the fact that life doesn't have a soundtrack. I hate monothematic people. I hate people with no sense of humor. I hate people. I hate sundays and mondays. I hate so many things but I never wondered about why and some people tell me that I'm a pointless hater. It's true, probably. Right now, I hate this fact and I hate even more the fact that some of my best friends are out of town, because I really need them today. That I can hate in peace, no needs of explanation.
I love some things, too. I love cats and dogs. I love the winter, the wind and the rain. I love september. I love my family. I love chocolate and strawberry. I love beer. I really love martini. I love jokes and irony. I love travel, more the road than the arrival. I love learning languages. I love driving, but I never got a car. I love art. I love comic books and all the other kinds of books, sci-fi movies, zombie movies and all the other kinds of movies. I love good music. I do not have unchangeable parameters for what is good. I love fridays. I love people (yeah, I contradict myself often). I love being alive. I love Caio Fernando Abreu and David Foster Wallace. I love the Davids, Fincher and Lynch and I love Charlie Kaufman. I love Billie Holiday and Nina Simone. The list goes on and on... I love so many things. I love more than I hate. Maybe I'm a pointless lover too, but I don't care. I love the fact that you love some of the things that I love and I love this glow in your eyes.
I was born and raised in Curitiba, so I am a cold person, not a cool one. I am totally systematic, insane about organization, and all my things have their own spot. The first thing I notice about any person is the hands and, after that, the shoes. I like your hands and I like your shoes. I drink about ten bottles of water per day. I don't believe in God. I'm learning french by myself. I'm thinking about get back to theater class. I'm a crap singer but I like to sing and some people like to hear. I laugh at myself, a lot. I like to play poker online. I cook very well, but I'm lazy. I have a serious rejection complex. I have problems to say no and troubles to sleep. I am a incurable postponer. My hands get wet when I am nervous and I can feel my heart. It is a funny thing: feeling your heart. You always know that it is there, but feeling it is another story. Right now, I'm feeling my heart, although not as much as yesterday.
I never travelled for out of the country. I never broke a bone, I never needed surgery, but I sure had my share of stitches. I never defied gravity. I never won the lottery. Nobody never wrote me a song. I played "I never" once and got drunk. I never thought that I'd meet somebody like you. I always keep secrets. I always cry my heart out when I watch drama movies. I'm always ready to drink a beer, or twelve. I already planted a tree and wrote a book. I already quitted smoking and got back to it, twice. I already ate a meal good enough to be my last.
I fear the death. I don't know how to deal with death, at all. I have this room in my place, where the cat, Jeremias, used to sleep. The cat died, two years ago, but I still refer to the room as Jeje's room. I fear the other's death and my own, too. Specially when I realize that I will not have time to do all the things that I wanna do, know all the places that I wanna know, meet all the people that I wanna meet, read all the books that I wanna read, watch all the movies that I wanna watch... I fear the scientists and their predictions of the world's end in 2012. I have this really crazy fear of cockroaches (just the word creeps me out). I fear hate and I fear love. I fear the "looking back" moment thirty, forty years from now. I fear you sometimes. I fear the fact that I don't know what I want and I will probably end up with a lot I don't.
But the things that I hate, the things that I love, what I'm, what I fear... All these things can change. I'm always changing. And I'm always confused, honey. About everything. Even about the things that I'm supposed to know for sure. Right now, I guess I know, but I'm afraid to be wrong. And I'm afraid, even more or a little less, to be right. In either ways, I don't know what to do... And that's all.
I'm ponctual and I hate delays. I hate some laws and some habits. I hate someone, intentionally or not, telling me what to do. I hate the sound of the chalk on a blackboard. I hate my feet. I hate TV (not the shows, but the device). I hate telephone. I hate pills, but I need it. I hate the fact that life doesn't have a soundtrack. I hate monothematic people. I hate people with no sense of humor. I hate people. I hate sundays and mondays. I hate so many things but I never wondered about why and some people tell me that I'm a pointless hater. It's true, probably. Right now, I hate this fact and I hate even more the fact that some of my best friends are out of town, because I really need them today. That I can hate in peace, no needs of explanation.
I love some things, too. I love cats and dogs. I love the winter, the wind and the rain. I love september. I love my family. I love chocolate and strawberry. I love beer. I really love martini. I love jokes and irony. I love travel, more the road than the arrival. I love learning languages. I love driving, but I never got a car. I love art. I love comic books and all the other kinds of books, sci-fi movies, zombie movies and all the other kinds of movies. I love good music. I do not have unchangeable parameters for what is good. I love fridays. I love people (yeah, I contradict myself often). I love being alive. I love Caio Fernando Abreu and David Foster Wallace. I love the Davids, Fincher and Lynch and I love Charlie Kaufman. I love Billie Holiday and Nina Simone. The list goes on and on... I love so many things. I love more than I hate. Maybe I'm a pointless lover too, but I don't care. I love the fact that you love some of the things that I love and I love this glow in your eyes.
I was born and raised in Curitiba, so I am a cold person, not a cool one. I am totally systematic, insane about organization, and all my things have their own spot. The first thing I notice about any person is the hands and, after that, the shoes. I like your hands and I like your shoes. I drink about ten bottles of water per day. I don't believe in God. I'm learning french by myself. I'm thinking about get back to theater class. I'm a crap singer but I like to sing and some people like to hear. I laugh at myself, a lot. I like to play poker online. I cook very well, but I'm lazy. I have a serious rejection complex. I have problems to say no and troubles to sleep. I am a incurable postponer. My hands get wet when I am nervous and I can feel my heart. It is a funny thing: feeling your heart. You always know that it is there, but feeling it is another story. Right now, I'm feeling my heart, although not as much as yesterday.
I never travelled for out of the country. I never broke a bone, I never needed surgery, but I sure had my share of stitches. I never defied gravity. I never won the lottery. Nobody never wrote me a song. I played "I never" once and got drunk. I never thought that I'd meet somebody like you. I always keep secrets. I always cry my heart out when I watch drama movies. I'm always ready to drink a beer, or twelve. I already planted a tree and wrote a book. I already quitted smoking and got back to it, twice. I already ate a meal good enough to be my last.
I fear the death. I don't know how to deal with death, at all. I have this room in my place, where the cat, Jeremias, used to sleep. The cat died, two years ago, but I still refer to the room as Jeje's room. I fear the other's death and my own, too. Specially when I realize that I will not have time to do all the things that I wanna do, know all the places that I wanna know, meet all the people that I wanna meet, read all the books that I wanna read, watch all the movies that I wanna watch... I fear the scientists and their predictions of the world's end in 2012. I have this really crazy fear of cockroaches (just the word creeps me out). I fear hate and I fear love. I fear the "looking back" moment thirty, forty years from now. I fear you sometimes. I fear the fact that I don't know what I want and I will probably end up with a lot I don't.
But the things that I hate, the things that I love, what I'm, what I fear... All these things can change. I'm always changing. And I'm always confused, honey. About everything. Even about the things that I'm supposed to know for sure. Right now, I guess I know, but I'm afraid to be wrong. And I'm afraid, even more or a little less, to be right. In either ways, I don't know what to do... And that's all.
terça-feira, agosto 31, 2010
Caio
-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também, mas queria ter uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também, mas queria ter uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.
sexta-feira, agosto 27, 2010
Desatenção
- Oi, você vem sempre aqui?
- Na verdade, não, é a primeira vez. Sabe como é, né? É meio longe do centro.
- Hum... Qual o seu nome?
- ...
- Hey! Qual o seu nome?
- ...
- O que foi, garota?
- Nada não. Só to tentando entender porque diabos eu respondi a sua pergunta.
- Na verdade, não, é a primeira vez. Sabe como é, né? É meio longe do centro.
- Hum... Qual o seu nome?
- ...
- Hey! Qual o seu nome?
- ...
- O que foi, garota?
- Nada não. Só to tentando entender porque diabos eu respondi a sua pergunta.
domingo, agosto 22, 2010
De mim, nos outros...
"Como, diabos, pode um homem gostar de ser acordado às 6h30 da manhã por um despertador, sair da cama, vestir-se, alimentar-se a força, cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego para chegar a lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro os bolsos de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber essa oportunidade?"
Charles Bukowski
Charles Bukowski
sexta-feira, julho 30, 2010
Correspondência Extraviada XI
R.,
Um pouco, somente um pouco. Um pouco no brilho dos teus olhos, na tua barba espessa, nas tuas mãos geladas. Um pouco nas histórias que tu contavas, nos elogios que me fazias, no teu riso contido. Um pouco na nossa afinidade, no desconcerto e na eletricidade de nossas conversas...
Outro pouco, então, nas coisas que eu não sei de ti e que tu não sabes de mim, nos quadradinhos de petit-pavé das calçadas. Um pouco nos livros de Cortázar e DFW que me escaparam das mãos naquela tarde imaginária em que tu estavas lá, na voz melodiosa de Nina Simone, no dedilhado calmo de Charles Mingus...
Um pouco quase muito nas tuas respostas mudas, nas minha perguntas vãs, no tempo que corre e que não passa, na fumaça proibida dos meus cigarros, na minha memória apagada, no que sobrou de ti, nas alopatias que me trazem o sono...
O resto, quase todo ele, um pouco em cada outubro, nas coisas que não fizemos, na tua ausência não consentida, nesse mosaico sem sentido que se formou com a tua partida sem volta. Um tanto imenso, por fim, em todas estas cartas e nessa saudade bandida...
De mim, baby, do pouco em pouco que foi ficando, sobrou quase nada.
...
Um pouco, somente um pouco. Um pouco no brilho dos teus olhos, na tua barba espessa, nas tuas mãos geladas. Um pouco nas histórias que tu contavas, nos elogios que me fazias, no teu riso contido. Um pouco na nossa afinidade, no desconcerto e na eletricidade de nossas conversas...
Outro pouco, então, nas coisas que eu não sei de ti e que tu não sabes de mim, nos quadradinhos de petit-pavé das calçadas. Um pouco nos livros de Cortázar e DFW que me escaparam das mãos naquela tarde imaginária em que tu estavas lá, na voz melodiosa de Nina Simone, no dedilhado calmo de Charles Mingus...
Um pouco quase muito nas tuas respostas mudas, nas minha perguntas vãs, no tempo que corre e que não passa, na fumaça proibida dos meus cigarros, na minha memória apagada, no que sobrou de ti, nas alopatias que me trazem o sono...
O resto, quase todo ele, um pouco em cada outubro, nas coisas que não fizemos, na tua ausência não consentida, nesse mosaico sem sentido que se formou com a tua partida sem volta. Um tanto imenso, por fim, em todas estas cartas e nessa saudade bandida...
De mim, baby, do pouco em pouco que foi ficando, sobrou quase nada.
...
segunda-feira, julho 26, 2010
Caio
"O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo – taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: it’s all right man, I’m just bleeding. Tá limpo. Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar."
terça-feira, junho 15, 2010
Na livraria...
Nossa! Oi! Sim, sim, tudo indo, tranquilo, e com você? Que bom, que bom. Não. Sei lá. Já que você tocou no assunto... Sério, porque é que você não vem mais aqui? Ah... Vai começar com isso de novo. Quer saber? Eu não me importo. Nem vou perder meu tempo ouvindo suas desculpas eloquentes. Boba. Eu sou boba? Não, não, você é que é, baby. Aliás, nem bobo você é, mas eu não quero descer o nível da conversa. Nem queira saber. Não insiste porque se eu falar o que eu tenho pra falar você não vai gostar nem um pouco. É mesmo? Ok, então. A verdade é que você nunca fez parte de nada. Você foi uma mentira que eu me contei pra ter a frágil sensação de que a vida era, de algum jeito, diferente, divertida. Não que ela não seja. Mas na tua época... É isso, baby, você passou da época, caiu do pé e apodreceu no chão... O que eu ia dizendo? Ah, sim, não que a vida não seja divertida, mas na tua época eu era bem menina e queria me aventurar, ir além. Tem também o fato de que histórias como a nossa eram moda e eu me preocupava em estar "na moda", se é que você me entende. Sim, sim, eu sei que eu sempre fui do contra. É isso! Calma... O nosso tipo de história era moda. O que eu queria era fazer dar certo porque histórias como a nossa nunca davam certo. Eu queria ter um lance meio maluco pra contar pros amigos anos depois, quando a gente já tivesse casado e com filhos e tudo mais... Agora eu não quero, mas naquela época eu queria. Eu queria tanta coisa naquela época. Eu sonhava em entrar na igreja de véu e grinalda com você. Não, não com você, eu sonhava em entrar na igreja de véu e grinalda. Você nunca esteve lá, nos meus sonhos.... Ah, porque você sempre foi... Como é mesmo que a Nina diz? Ah, sim, uma falácia! Você sempre foi uma falácia. Enfim. E eu queria ter filhos naquela época. Eu demorei pra perceber que isso é uma tremenda estupidez. Não, não é porque eu não posso, eu acho estupidez, sim. Vem cá, você vai me deixar terminar de dizer o que eu quero dizer? Ok. Então, eu queria ter uma história pra contar pros amigos e queria que eles dissessem "Nossa! Sério? Foi assim que vocês se conheceram?" e contassem que nunca tinham ouvido falar de uma história como a nossa com final feliz. É. Eu queria ser diferente, só isso! Agora eu sei que isso era besta e tudo mais. A verdade é que na primeira vez que eu te vi... Não, deixa quieto, também não quero te ofender. Ai, esquece... Eu ia só dizer que, bom, você é inteligente e tudo, mas... Ah, esquece, sério. Presta atenção! Minha crueldade tem limite. É mesmo? Novidade. Bom, to me lixando, baby. Agora eu tenho pena de você, porque você seguiu aquele único caminho que existe pra gente limitada que nem você. Isso me dá muita pena. De você com seu trabalho burocrático e engravatado que te paga mal e da sua esposa gorda, dona de casa, cujo único sonho é engravidar e ganhar uma geladeira nova. E você é tão incompetente... Você é tão limitado que não é nem capaz de ganhar dinheiro suficiente pra comprar a geladeira nova que ela te pede todo santo dia, a coitada. Nem vou falar do resto... Eu to muito bem, sim. To indo em frente, pelo menos, não parei no tempo. E daí que eu to sozinha e não to fazendo nada do que eu gostaria? Olha, baby, a minha vida é uma merda mesmo, mas pelo menos eu tenho futuro, pelo menos eu vou sair dessa. Você não, você tá amarrado nessa sua vidinha miserável e cheia de responsabilidades. É por isso, né? É por isso que você não vem mais aqui. As suas responsabilidades. Não te cobro mais nada, prometo. A vida já tá mesmo te cobrando muito. Ok, pode ir, tchau. Já está mesmo na hora de fechar e eu ainda preciso finalizar aquele relatório que a Nina pediu. Não, não promete nada... Cara, eu te disse tanta coisa. Você não se ofende? Não, cala a boca, não quero ouvir. Volta lá pro teu trabalho burocrático e pra tua mulher gorda. Tenta, pelo menos, comprar a porcaria da geladeira pra ela. Sim, sim, amigos. Te desejo tudo de bom. Mesmo. Se afasta que eu preciso fechar a porta. Até. Tchau.
terça-feira, junho 08, 2010
Caio
"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."
segunda-feira, maio 31, 2010
Caio
"Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: "Ou você aprende ou morre". Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.
Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.
Na terceira noite, o navio afundou."
Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.
Na terceira noite, o navio afundou."
segunda-feira, maio 24, 2010
De mim, nos outros...
"Me contradigo? Pois bem, me contradigo. Sou vasto, contenho multidões."
Walt Whitman
Walt Whitman
Sobre Lost
Só valeu o ingresso pela primeira cena da primeira temporada e pela última cena da última. Aliás, poderia ter sido só isso: o olho do Jack abrindo, seis temporadas de tela preta, o olho do Jack fechando.
O importante é saber que "everyone dies sometime, kiddo"!
Blé!
O importante é saber que "everyone dies sometime, kiddo"!
Blé!
segunda-feira, maio 03, 2010
A véspera
Ele, na véspera, a chave errante no buraco da fechadura, entrando em casa afoito, como que louco para deixar a rua, o barulho da rua, o movimento da rua, que o persegue entre as paredes do apartamento no quinto andar, mas com menos intensidade, mais distante. Ele, sem saber porque o alvoroço da rua o deixa tão aflito, sem saber nem mesmo se o que o deixa aflito é o alvoroço da rua ou a semi calma do lar destruído, as paredes manchadas, os tacos de madeira esfarelando sob os pés, as caixas da mudança ainda amontoadas no quarto do gato, a pia cheia de louça, a cafeteira cheirando a mofo, toda a estrutura da sua vida ruindo em meio a móveis de grife, almofadas novas e lençóis de cetim. Ele acendendo um cigarro e impregnando com nicotina a barba espessa e amarela, observando, por longos minutos, o rumo da fumaça ao vazio, abrindo uma garrafa de cerveja com os dentes, "quase nunca pra comemorar, quase sempre pra esquecer". Ele, aflito, se perguntando quantos copos serão necessários dessa vez, repetindo a si mesmo que está ficando tarde, que não dará tempo, questionando suas escolhas, tentando fingir que de nada se arrepende. Ele, olhando-se no espelho, a pele pálida, as rugas no canto da boca, os cabelos caindo, o corpo fora de forma. Ele, procurando em Cortazár ou Wallace citações para expressar isso que ele não sabe se é só cansaço, ou se é angústia ou se é mesmo um desespero ou se é... Ele, maldizendo as reticências e a falta de certeza. Ele, entre Charles Mingus e Billie Holiday, optando pela segunda, incoscientemente obrigando-se a pensar na moça de cabelos vermelhos, unhas vermelhas, roupa vermelha, mas que ele só é capaz de enxergar em preto e branco. Ele, sentindo saudades do que apenas poderia ter sido. Ele, os cigarros, a cerveja, Cortázar, Wallace, Billie Holiday, escrevendo sobre o que ela, a moça, talvez possa estar fazendo hoje, na véspera, lamentando o desacerto, o desencontro, o desapego, se perguntando se é ela o que falta para tudo fazer sentido ou se tudo, nada, nunca fará sentido.
Máxima suicida
Você percebe que a sua vida não vale mais a pena quando a segunda-feira passa a ser o dia mais esperado da semana e, mesmo assim, é um dia de merda.
domingo, abril 25, 2010
Caio
"Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte."
segunda-feira, abril 12, 2010
Needles and pins
Do nosso tempo eu perdi a conta. Sei, devido à noção que meu rosto no espelho me dá, que são vários, longos anos. Mas parece mesmo que são só alguns meses, às vezes parece até que foi ainda ontem.
Eu só tenho lembranças bestas de ti, moço, e isso é bom. É como se sempre tivéssemos sido leves. Tanto naquelas longas noites quanto naqueles poucos dias. Sempre fomos leves.
De fato, não nos aprofundamos. Nunca. Mas estivemos o tempo todo à beira do abismo. Meu medo de pular, tua insistência para que eu me jogasse de uma vez por todas. A distância, os planos. Acho que nunca te disse que a culpa foi toda dos meus planos. Sequer te contei quais eram meus planos. Eu tinha uma impressão borrada de que tu não entederias e a minha revelação definiria o quanto éramos diferentes e impossíveis um para o outro. Hoje admito que fui fraca. As dúvidas de antes não me freariam agora que freiam a ti. Nesses dias frios como o de hoje, sinto uma vontade tardia de finalmente me jogar, mas no lugar do abismo há agora uma muralha.
Depois de ti, moço, segui incontáveis caminhos errados, tu bem sabes. Sorte a minha que não sou de me arrepender, mas lamento um pouco. Lamento menos quando observo de longe a tua vida. Talvez o medo de pular fosse um sinal. Eu não me encaixo no teu mundo ideal, jamais me encaixaria. Mas talvez teu ideal de mundo fosse diferente se eu houvesse cedido ao teu apelo. E isso me confunde e me atormenta um pouco.
Pode ser que em alguma outra dimensão estejamos juntos, levando uma vida quase perfeita. Eu seguindo meus planos antigos e tu deixando tuas raízes pelo caminho para me acompanhar nos comboios da vida.
A ironia é que nesta dimensão eu acabei abandonando tudo que nos separava, que nos tornava diferente um do outro. Nesta dimensão, tu agora és um tanto quanto itinerante e eu vou ficando por aqui mesmo, presa a uma porção de coisas que detesto, esquecendo aos poucos o conceito de liberdade.
Enfim, não sei bem ao certo porque comecei aqui esse compêndio de melancolias. O que eu queria dizer é que nesses dias frios como o de hoje, sinto sua falta. Sinto falta de esquentar meus pés com as tuas meias e dos pratos enormes de sopa ou qualquer outra coisa que tu sempre me trazias, por nunca saber o tamanho da minha fome. Lembranças bestas. Leves. Só isso.
Eu só tenho lembranças bestas de ti, moço, e isso é bom. É como se sempre tivéssemos sido leves. Tanto naquelas longas noites quanto naqueles poucos dias. Sempre fomos leves.
De fato, não nos aprofundamos. Nunca. Mas estivemos o tempo todo à beira do abismo. Meu medo de pular, tua insistência para que eu me jogasse de uma vez por todas. A distância, os planos. Acho que nunca te disse que a culpa foi toda dos meus planos. Sequer te contei quais eram meus planos. Eu tinha uma impressão borrada de que tu não entederias e a minha revelação definiria o quanto éramos diferentes e impossíveis um para o outro. Hoje admito que fui fraca. As dúvidas de antes não me freariam agora que freiam a ti. Nesses dias frios como o de hoje, sinto uma vontade tardia de finalmente me jogar, mas no lugar do abismo há agora uma muralha.
Depois de ti, moço, segui incontáveis caminhos errados, tu bem sabes. Sorte a minha que não sou de me arrepender, mas lamento um pouco. Lamento menos quando observo de longe a tua vida. Talvez o medo de pular fosse um sinal. Eu não me encaixo no teu mundo ideal, jamais me encaixaria. Mas talvez teu ideal de mundo fosse diferente se eu houvesse cedido ao teu apelo. E isso me confunde e me atormenta um pouco.
Pode ser que em alguma outra dimensão estejamos juntos, levando uma vida quase perfeita. Eu seguindo meus planos antigos e tu deixando tuas raízes pelo caminho para me acompanhar nos comboios da vida.
A ironia é que nesta dimensão eu acabei abandonando tudo que nos separava, que nos tornava diferente um do outro. Nesta dimensão, tu agora és um tanto quanto itinerante e eu vou ficando por aqui mesmo, presa a uma porção de coisas que detesto, esquecendo aos poucos o conceito de liberdade.
Enfim, não sei bem ao certo porque comecei aqui esse compêndio de melancolias. O que eu queria dizer é que nesses dias frios como o de hoje, sinto sua falta. Sinto falta de esquentar meus pés com as tuas meias e dos pratos enormes de sopa ou qualquer outra coisa que tu sempre me trazias, por nunca saber o tamanho da minha fome. Lembranças bestas. Leves. Só isso.
segunda-feira, março 22, 2010
Caio
"Porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como 'sempre' ou 'nunca'. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como 'não resistirei' por outras mais mansas, como 'sei que vai passar'. Esse é o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."
quarta-feira, março 17, 2010
Mais uma dose
Ele não entendeu. Eu expliquei três ou quatro vezes, pausadamente, depois escrevi tudo em letras grandes em um papel sulfite e fiz com que ele lesse. Como se não bastasse, ilustrei, dei exemplos, usei as metáforas de que ele tanto gosta. Tudo pra fazer ele entender, mas ele não entendeu. Então me veio como uma lufada de vento frio machucando até os ossos essa sensação quase certeza de que a verdade é que ele não pode e nem nunca vai poder entender. E ali eu desmoronei. Um pouco apenas, como quem descobre um câncer e tem esperança na medicina, na cura. Continuei explicando, explicando, explicando. Foi só quando ele me obrigou a começar tudo de novo pela quinta vez que eu acho que desisti. Aí pensei em deixar tudo aquilo de lado, convidá-lo pra beber umas cervejas, comemorar tolices, dar algumas risadas, mas... What's the point, right? Ele não entende e eu não esqueço. Fiquei parada na janela olhando a movimentação dos executivos no estacionamento em frente ao prédio e sentindo uma coisa estranha acontecendo dentro de mim, como um tumor crescendo, se expandindo. Ele perguntou o que foi. Expliquei, de novo, expliquei. E quanto mais eu explicava menos ele entendia. Dei um desconto porque nessa hora nem eu mesma estava me entendendo. Só que essa coisa dentro de mim que eu não sei o que era continuou crescendo e começou a me sufocar e me sufocando me dizia que esperança é coisa de gente fraca, que era óbvio que ele nunca iria entender, que era, sim, o fim e blá blá blá. Diabólica essa coisa, esse câncer, que crescia. Acho então que me conformei. Com o fim, acho, me conformei. E foi nesse exato momento que me decidi. E talvez ele tenha notado porque pude ouvir seus olhos me dizendo hey eu tenho me esforçado tanto. E eu quis gritar um eu sei mas já não adianta, mas desconfio que ele também não teria entendido isso. Ele não entende nada. Então, em resposta ao esforço dele eu sorri. Terminamos a noite bebendo cervejas, comemorando tolices, dando risadas. Só que ele não entendeu e eu não esqueci.
terça-feira, março 16, 2010
Galachão
Eu me lembro de esticar o corpo pra fora da janela pra tentar ver o movimento das rodas do Landau. Meu pai sempre me puxava pra dentro, que era perigoso, ele dizia, se debruçar assim pra fora do carro. Quando me deixava em casa, ele não entrava no carro pra partir até que eu estivesse pra dentro do portão de vidro jateado, sem poder vê-lo. Eu corria pra dentro do apartamento, no segundo andar, e esticava o corpo pra fora da janela do quarto pra, de novo, tentar ver o movimento das rodas do Landau. Minha mãe sempre me puxava pra dentro, que era perigoso, ela dizia, se debruçar assim pra fora do apartamento.
Me bateu hoje, violentamente, essa inexplicável aflição por nunca ter visto o movimento das rodas do Landau.
Me bateu hoje, violentamente, essa inexplicável aflição por nunca ter visto o movimento das rodas do Landau.
sábado, março 13, 2010
Not all pain is gain...
Essa semana um sujeito morreu de ataque cardíaco enquanto fazia um teste de aptidão física para um concurso da Polícia Militar da Bahia, outro simplesmente caiu duro no campo durante um jogo de futebol no Sudão, outro ainda foi dar um carrinho no adversário em um jogo de futsal e teve o intestino perfurado por uma tábua que se soltou do piso da quadra (qual era a probabilidade de uma coisa dessas acontecer?).
O gênio que vos escreve lesionou os dois tornozelos pulando corda e mal consegue andar há mais de uma semana.
Cada vez mais eu me convenço de que exercícios físicos não foram feitos para serem praticados e sim para serem temidos.
O gênio que vos escreve lesionou os dois tornozelos pulando corda e mal consegue andar há mais de uma semana.
Cada vez mais eu me convenço de que exercícios físicos não foram feitos para serem praticados e sim para serem temidos.
domingo, fevereiro 28, 2010
Da tua iminente queda
São teus risinhos sarcásticos. Aqueles que te escapam na tentativa cruel de fazer com que eu me julgue incapaz quando digo que vou acordar cedo ou faxinar a casa. São tuas dúvidas enfáticas sobre a veracidade das minhas afirmações mais óbvias, buscando inutilmente crer que preciso inventar coisas para parecer mais inteligente. São tuas perguntas desnecessárias sobre a minha rotina diária, teu ar de desconfiança que só me permite presumir a tua culpa. É teu tique de sobrancelhas erguidas ou de testa franzida, aquele barulho bestial que você faz com a boca, teu olhar de desprezo.
São as mentiras que você conta sempre e sempre e a tua incapacidade para memorizar as versões dos teus devaneios, o que me fez concluir que eu nunca soube e tampouco irei saber quem de fato você é. A maneira como você, conscientemente ou não, me conduz a desistir para depois pedir desculpas hipócritas e fazer promessas que nunca sonhou cumprir.
É essa ilusão que tens de que és melhor que o resto do mundo, quando na verdade és, usando teus próprios conceitos, mais comum e desinteressante do que pensas. O modo como defende teorias patéticas e absurdas, manipulando e enfeitando argumentos que você lê nas páginas amarelas daquela revista escrota. É teu jeito pseudo-revolucionário, tua mania de querer ser do contra, do mal, do underground e blá blá blá, sem perceber que isso tudo é pobre e pequeno a ponto de dar pena. São, ainda, as justificativas que usa para defender (what a hell!) esse povinho preconceituoso e acéfalo no qual você se auto-afirma e com quem diz andar há mais de sei lá quantos anos mas que está cagando para os seus problemas.
Pior do que qualquer coisa é, na minha incontestável normalidade, me saber modesta e infinitamente superior a isso tudo e não conseguir revidar. Não que eu não saiba, meu bem... Você se surpreenderia com a quantidade de frases de impacto que sou capaz de formular em menos de três segundos e que me ficam entaladas na garganta em resposta ao teu pescoço erguido. Um só sopro meu e você iria ao chão por meses, quem sabe anos. Mas calo diante da tua boçalidade. Talvez eu seja boa demais, ou covarde demais, ou talvez eu te queira bem demais, apesar de todos os pesares. Enfim... Sou mesmo incapaz de jogar sal nas tuas feridas.
Acontece que me cansei de elaborar desenhos didáticos pra tentar enfiar o óbvio ululante na tua cabeça. E dentro de mim vem crescendo uma raiva incontrolável. Não minto quando digo que arduamente superei impulsos assassinos em nome da minha suposta sanidade. Tenho meditado, repetido mantras para não sair do controle, não bater mais portas, não quebrar mais copos, não esmurrar as paredes. Tenho me preparado. Quando o fim chegar será plácido. Te direi três ou quatro palavras, inventarei um motivo que não gere polêmica, te pedirei para não dramatizar e fecharei a porta atrás de mim, doendo por dentro, mas em paz.
E embora eu tenha te alertado nas entrelinhas o tempo todo, você nunca vai saber que o motivo do fim foi tua completa incapacidade de entender meu sentimento, de ser você mesmo, de falar a verdade e de perceber que nem tudo precisa ser enfeitado para ser interessante.
São as mentiras que você conta sempre e sempre e a tua incapacidade para memorizar as versões dos teus devaneios, o que me fez concluir que eu nunca soube e tampouco irei saber quem de fato você é. A maneira como você, conscientemente ou não, me conduz a desistir para depois pedir desculpas hipócritas e fazer promessas que nunca sonhou cumprir.
É essa ilusão que tens de que és melhor que o resto do mundo, quando na verdade és, usando teus próprios conceitos, mais comum e desinteressante do que pensas. O modo como defende teorias patéticas e absurdas, manipulando e enfeitando argumentos que você lê nas páginas amarelas daquela revista escrota. É teu jeito pseudo-revolucionário, tua mania de querer ser do contra, do mal, do underground e blá blá blá, sem perceber que isso tudo é pobre e pequeno a ponto de dar pena. São, ainda, as justificativas que usa para defender (what a hell!) esse povinho preconceituoso e acéfalo no qual você se auto-afirma e com quem diz andar há mais de sei lá quantos anos mas que está cagando para os seus problemas.
Pior do que qualquer coisa é, na minha incontestável normalidade, me saber modesta e infinitamente superior a isso tudo e não conseguir revidar. Não que eu não saiba, meu bem... Você se surpreenderia com a quantidade de frases de impacto que sou capaz de formular em menos de três segundos e que me ficam entaladas na garganta em resposta ao teu pescoço erguido. Um só sopro meu e você iria ao chão por meses, quem sabe anos. Mas calo diante da tua boçalidade. Talvez eu seja boa demais, ou covarde demais, ou talvez eu te queira bem demais, apesar de todos os pesares. Enfim... Sou mesmo incapaz de jogar sal nas tuas feridas.
Acontece que me cansei de elaborar desenhos didáticos pra tentar enfiar o óbvio ululante na tua cabeça. E dentro de mim vem crescendo uma raiva incontrolável. Não minto quando digo que arduamente superei impulsos assassinos em nome da minha suposta sanidade. Tenho meditado, repetido mantras para não sair do controle, não bater mais portas, não quebrar mais copos, não esmurrar as paredes. Tenho me preparado. Quando o fim chegar será plácido. Te direi três ou quatro palavras, inventarei um motivo que não gere polêmica, te pedirei para não dramatizar e fecharei a porta atrás de mim, doendo por dentro, mas em paz.
E embora eu tenha te alertado nas entrelinhas o tempo todo, você nunca vai saber que o motivo do fim foi tua completa incapacidade de entender meu sentimento, de ser você mesmo, de falar a verdade e de perceber que nem tudo precisa ser enfeitado para ser interessante.
sábado, fevereiro 27, 2010
Caio
"Precisava inventar um dia inteiro ou dois, porque amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o quê."
sexta-feira, janeiro 01, 2010
Caio
"Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza."
Assinar:
Postagens (Atom)