Que queria as luzes apagadas pra escrever e que escrevia sem olhar o papel e que depois a letra garrancho, as vírgulas voando, o cedilha cortado no lugar errado, os pontos finais como reticências. Que ela não entendia. E que o escuro era proposital e que não queria entender e que escrevia pra esquecer, pra tirar da memória, do corpo, da ponta dos dedos saindo um raio de energia cósmica. O tudo em que não devia pensar guardado em um rascunho ininteligível e a lateral da mão dela manchada de tinta azul e delírio.
Que não adiantava. Que a mente desenhava o rosto dele e as mãos dele e a voz dele e o perfume dele e que tudo era ele, pra onde quer que ela olhasse e que havia silêncio e que não havia expectativa nem medo nem lágrima.
Assim era. Ela perambulando pelos cômodos vazios, alisando os cabelos, sentido o cheiro de café e tédio, o barulho da água correndo, do apito do guarda, da ilusão e da preguiça enroscada em almofadas de veludo e cetim. A casa como um porão de filme de horror, as lembranças gritando, os discos empoeirados, os brinquedos de corda começando a funcionar sozinhos, o sangue escorrendo pelas paredes de madeira, os espelhos refletindo o que não existia.
Embora o tempo fosse outro e passasse e embora houvesse cor e brilho, ela buscando cicatrizes e só feridas abertas, unhas mastigadas, olheiras profundas. Ela em todos os lugares tentando substituir o insubstituível e queria risadas e escalava montanhas e tocava violão e bebia cervejas italianas e ouvia jazz e tudo o que nunca foi ele se tornava ele e ele era o vento e o tato e o esôfago queimando e o piano de Mingus.
E que a angústia vinha da espera, do não saber, do nada a ser feito. E que já estava resolvido e por isso não havia solução. E que ela sabia que tinha que seguir, que só havia um modo de seguir, que era sozinha, escrevendo no escuro, caminhando devagar pelos cômodos, revirando as caixas no porão, doendo em segredo. E sorrisos e ganchos e pestanas e ressacas e silêncio.
E que passaria. Que tudo passa. Que "é melhor viver do que ser feliz".
The Cure - A Forest
quarta-feira, abril 10, 2013
Caio
Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas agüenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo – é difícil de acreditar, eu sei – vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou. Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. “É melhor viver do que ser feliz”. Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demaais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.
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