Que queria as luzes apagadas pra escrever e que escrevia sem olhar o papel e que depois a letra garrancho, as vírgulas voando, o cedilha cortado no lugar errado, os pontos finais como reticências. Que ela não entendia. E que o escuro era proposital e que não queria entender e que escrevia pra esquecer, pra tirar da memória, do corpo, da ponta dos dedos saindo um raio de energia cósmica. O tudo em que não devia pensar guardado em um rascunho ininteligível e a lateral da mão dela manchada de tinta azul e delírio.
Que não adiantava. Que a mente desenhava o rosto dele e as mãos dele e a voz dele e o perfume dele e que tudo era ele, pra onde quer que ela olhasse e que havia silêncio e que não havia expectativa nem medo nem lágrima.
Assim era. Ela perambulando pelos cômodos vazios, alisando os cabelos, sentido o cheiro de café e tédio, o barulho da água correndo, do apito do guarda, da ilusão e da preguiça enroscada em almofadas de veludo e cetim. A casa como um porão de filme de horror, as lembranças gritando, os discos empoeirados, os brinquedos de corda começando a funcionar sozinhos, o sangue escorrendo pelas paredes de madeira, os espelhos refletindo o que não existia.
Embora o tempo fosse outro e passasse e embora houvesse cor e brilho, ela buscando cicatrizes e só feridas abertas, unhas mastigadas, olheiras profundas. Ela em todos os lugares tentando substituir o insubstituível e queria risadas e escalava montanhas e tocava violão e bebia cervejas italianas e ouvia jazz e tudo o que nunca foi ele se tornava ele e ele era o vento e o tato e o esôfago queimando e o piano de Mingus.
E que a angústia vinha da espera, do não saber, do nada a ser feito. E que já estava resolvido e por isso não havia solução. E que ela sabia que tinha que seguir, que só havia um modo de seguir, que era sozinha, escrevendo no escuro, caminhando devagar pelos cômodos, revirando as caixas no porão, doendo em segredo. E sorrisos e ganchos e pestanas e ressacas e silêncio.
E que passaria. Que tudo passa. Que "é melhor viver do que ser feliz".
The Cure - A Forest
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