"Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: "Ou você aprende ou morre". Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.
Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.
Na terceira noite, o navio afundou."
segunda-feira, maio 31, 2010
segunda-feira, maio 24, 2010
De mim, nos outros...
"Me contradigo? Pois bem, me contradigo. Sou vasto, contenho multidões."
Walt Whitman
Walt Whitman
Sobre Lost
Só valeu o ingresso pela primeira cena da primeira temporada e pela última cena da última. Aliás, poderia ter sido só isso: o olho do Jack abrindo, seis temporadas de tela preta, o olho do Jack fechando.
O importante é saber que "everyone dies sometime, kiddo"!
Blé!
O importante é saber que "everyone dies sometime, kiddo"!
Blé!
segunda-feira, maio 03, 2010
A véspera
Ele, na véspera, a chave errante no buraco da fechadura, entrando em casa afoito, como que louco para deixar a rua, o barulho da rua, o movimento da rua, que o persegue entre as paredes do apartamento no quinto andar, mas com menos intensidade, mais distante. Ele, sem saber porque o alvoroço da rua o deixa tão aflito, sem saber nem mesmo se o que o deixa aflito é o alvoroço da rua ou a semi calma do lar destruído, as paredes manchadas, os tacos de madeira esfarelando sob os pés, as caixas da mudança ainda amontoadas no quarto do gato, a pia cheia de louça, a cafeteira cheirando a mofo, toda a estrutura da sua vida ruindo em meio a móveis de grife, almofadas novas e lençóis de cetim. Ele acendendo um cigarro e impregnando com nicotina a barba espessa e amarela, observando, por longos minutos, o rumo da fumaça ao vazio, abrindo uma garrafa de cerveja com os dentes, "quase nunca pra comemorar, quase sempre pra esquecer". Ele, aflito, se perguntando quantos copos serão necessários dessa vez, repetindo a si mesmo que está ficando tarde, que não dará tempo, questionando suas escolhas, tentando fingir que de nada se arrepende. Ele, olhando-se no espelho, a pele pálida, as rugas no canto da boca, os cabelos caindo, o corpo fora de forma. Ele, procurando em Cortazár ou Wallace citações para expressar isso que ele não sabe se é só cansaço, ou se é angústia ou se é mesmo um desespero ou se é... Ele, maldizendo as reticências e a falta de certeza. Ele, entre Charles Mingus e Billie Holiday, optando pela segunda, incoscientemente obrigando-se a pensar na moça de cabelos vermelhos, unhas vermelhas, roupa vermelha, mas que ele só é capaz de enxergar em preto e branco. Ele, sentindo saudades do que apenas poderia ter sido. Ele, os cigarros, a cerveja, Cortázar, Wallace, Billie Holiday, escrevendo sobre o que ela, a moça, talvez possa estar fazendo hoje, na véspera, lamentando o desacerto, o desencontro, o desapego, se perguntando se é ela o que falta para tudo fazer sentido ou se tudo, nada, nunca fará sentido.
Máxima suicida
Você percebe que a sua vida não vale mais a pena quando a segunda-feira passa a ser o dia mais esperado da semana e, mesmo assim, é um dia de merda.
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