terça-feira, junho 15, 2010
Na livraria...
Nossa! Oi! Sim, sim, tudo indo, tranquilo, e com você? Que bom, que bom. Não. Sei lá. Já que você tocou no assunto... Sério, porque é que você não vem mais aqui? Ah... Vai começar com isso de novo. Quer saber? Eu não me importo. Nem vou perder meu tempo ouvindo suas desculpas eloquentes. Boba. Eu sou boba? Não, não, você é que é, baby. Aliás, nem bobo você é, mas eu não quero descer o nível da conversa. Nem queira saber. Não insiste porque se eu falar o que eu tenho pra falar você não vai gostar nem um pouco. É mesmo? Ok, então. A verdade é que você nunca fez parte de nada. Você foi uma mentira que eu me contei pra ter a frágil sensação de que a vida era, de algum jeito, diferente, divertida. Não que ela não seja. Mas na tua época... É isso, baby, você passou da época, caiu do pé e apodreceu no chão... O que eu ia dizendo? Ah, sim, não que a vida não seja divertida, mas na tua época eu era bem menina e queria me aventurar, ir além. Tem também o fato de que histórias como a nossa eram moda e eu me preocupava em estar "na moda", se é que você me entende. Sim, sim, eu sei que eu sempre fui do contra. É isso! Calma... O nosso tipo de história era moda. O que eu queria era fazer dar certo porque histórias como a nossa nunca davam certo. Eu queria ter um lance meio maluco pra contar pros amigos anos depois, quando a gente já tivesse casado e com filhos e tudo mais... Agora eu não quero, mas naquela época eu queria. Eu queria tanta coisa naquela época. Eu sonhava em entrar na igreja de véu e grinalda com você. Não, não com você, eu sonhava em entrar na igreja de véu e grinalda. Você nunca esteve lá, nos meus sonhos.... Ah, porque você sempre foi... Como é mesmo que a Nina diz? Ah, sim, uma falácia! Você sempre foi uma falácia. Enfim. E eu queria ter filhos naquela época. Eu demorei pra perceber que isso é uma tremenda estupidez. Não, não é porque eu não posso, eu acho estupidez, sim. Vem cá, você vai me deixar terminar de dizer o que eu quero dizer? Ok. Então, eu queria ter uma história pra contar pros amigos e queria que eles dissessem "Nossa! Sério? Foi assim que vocês se conheceram?" e contassem que nunca tinham ouvido falar de uma história como a nossa com final feliz. É. Eu queria ser diferente, só isso! Agora eu sei que isso era besta e tudo mais. A verdade é que na primeira vez que eu te vi... Não, deixa quieto, também não quero te ofender. Ai, esquece... Eu ia só dizer que, bom, você é inteligente e tudo, mas... Ah, esquece, sério. Presta atenção! Minha crueldade tem limite. É mesmo? Novidade. Bom, to me lixando, baby. Agora eu tenho pena de você, porque você seguiu aquele único caminho que existe pra gente limitada que nem você. Isso me dá muita pena. De você com seu trabalho burocrático e engravatado que te paga mal e da sua esposa gorda, dona de casa, cujo único sonho é engravidar e ganhar uma geladeira nova. E você é tão incompetente... Você é tão limitado que não é nem capaz de ganhar dinheiro suficiente pra comprar a geladeira nova que ela te pede todo santo dia, a coitada. Nem vou falar do resto... Eu to muito bem, sim. To indo em frente, pelo menos, não parei no tempo. E daí que eu to sozinha e não to fazendo nada do que eu gostaria? Olha, baby, a minha vida é uma merda mesmo, mas pelo menos eu tenho futuro, pelo menos eu vou sair dessa. Você não, você tá amarrado nessa sua vidinha miserável e cheia de responsabilidades. É por isso, né? É por isso que você não vem mais aqui. As suas responsabilidades. Não te cobro mais nada, prometo. A vida já tá mesmo te cobrando muito. Ok, pode ir, tchau. Já está mesmo na hora de fechar e eu ainda preciso finalizar aquele relatório que a Nina pediu. Não, não promete nada... Cara, eu te disse tanta coisa. Você não se ofende? Não, cala a boca, não quero ouvir. Volta lá pro teu trabalho burocrático e pra tua mulher gorda. Tenta, pelo menos, comprar a porcaria da geladeira pra ela. Sim, sim, amigos. Te desejo tudo de bom. Mesmo. Se afasta que eu preciso fechar a porta. Até. Tchau.
terça-feira, junho 08, 2010
Caio
"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."
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