sexta-feira, setembro 17, 2010

"I am Jack's rejection complex"

Ela chegou em uma tarde de domingo, carregando uns cinco ou seis sacos de batatas, porque ele havia lhe dito que gostava de batatas e porque ela, coincidentemente ou não, também gostava.

Foi ficando por ali, na casa dele, porque ele permitiu que ela ficasse, movido pela curiosidade, pela gula irracional e por uma inexplicável afeição pela moça das batatas.

Os dois passavam os dias cuidando das batatas, lavando-as, descascando-as, fatiando-as, ralando-as. Fizeram quichês de batatas, purês de batatas, sopas de batatas, batatas fritas, batatas assadas, batatas gratinadas, batatas sauté, espetinho de batatas, batatas recheadas, saladas de batatas...

Um dia, subitamente, sem dizer palavra, ele deu a entender que estava cansado de comer batatas e que queria que ela fosse embora.

Ela, então, colocou nas costas o último saco de batatas que havia sobrado. E foi.

sábado, setembro 11, 2010

De mim, nos outros...

"Marla... the little scratch on the roof of your mouth that would heal if only you could stop tonguing it, but you can't."

Chuck Palahniuk: Fight Club

sexta-feira, setembro 10, 2010

Fragmentos de cadernetas IV

Carregando o peso de um tudo nas costas.

"A fé remove montanhas, mas com dinamite é mais rápido". O caminhão carrega porcos e o cheiro é insuportável. Ele é lento. Quando a gente ultrapassa eu faço sinal com o braço e o motorista sorri e buzina. Ele não liga pro cheiro dos porcos. Ele sorri e buzina.

Dá pra dizer que eu estou acostumada. Mas quando pesa demais, eu sento e escrevo. E bebo uma cerveja. E fumo um cigarro. Eu sou dependente dessas circunstâncias, sou sim. De certa forma, isso tudo clarifica, me faz ver direito o que parece ser invisível.

Todo dia você descobre coisas novas. É bom ir de carona pra poder apreciar a estrada. O verde ressecado pelo sol contrastando com a fumaça das fábricas. No volante você perde tudo isso. Olhos fixos nas placas indicativas, nas luzes de freio na sua frente, nas possibilidades de ultrapassagem, nos buracos do asfalto que arrebentam rodas.

E eu não tenho conserto, não quero conserto. Eu quero pra sempre poder continuar dependendo da nicotina, do álcool e desses meus dedos tortos pra aliviar esse peso estranho, tentando transformar o que eu não entendo em algo belo.

A parte mais bonita da viagem é Campo do Tenente. Gosto de olhar as planícies sem fim, os pastos. O sol está sempre se pondo quando a gente passa por Campo do Tenente e é um espetáculo lindo, que eu me sinto privilegiada por poder assistir tantas vezes. Gosto do nome da cidade também, embora eu não saiba exatamente o porquê.

Porque nenhuma outra receita funcionou comigo. Como Caio, eu já li tudo, já tentei tudo (macrobiótica psicanálise drogas acupuntura yoga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé ecologia), menos boate gay e suicídio. Da mesma forma, sobrou só esse nó no peito e não há nada pra se fazer.

Acidente com morte hoje e ficamos uma hora paradas em um engarrafamento de curiosos. O ser humano é mórbido, não é? A gente achou que o acidente bloqueava a pista, mas não. Um carro capotou no acostamento, a perna do motorista esmagada pela lataria de um passat alemão, os pedaços do carona espalhados na grama. A gente também passou a dez por hora pra apreciar melhor o sofrimento alheio.

Então, lentamente, eu despejo pensamentos aleatórios no papel e o peso vai se aliviando. Eu concluo algumas coisas com pouca importância, outras importantes demais. Mas fica sempre uma sensação de que nada importa, de fato, de que o mundo vale cada vez menos a pena, de que a vida é uma sucessão de erros e não tem porque ficar insistindo em recomeços. Tentar cicatrizar ferida exposta se ferindo de novo é burrice, bobagem, ilusão. Só machuca mais.

É ruim quando atrasa. Eu e ela gostamos de chegar cedo e aproveitar a noite. Como é sexta-feira a gente não reclamou tanto porque as noites de sexta-feira são sempre mais longas.

Escrevendo, bebendo e fumando. Um blues também cai bem. É um exercício eterno. Eu gostaria de me convencer de que não é preciso carregar, gostaria de abandonar o fardo pelo caminho. Eu sei que é isso que eu deveria fazer mas, às vezes, a esperança é inevitável, a sensação de que vale a pena carregar o peso até que ele se torne leve. Eu sempre estou errada.

Eu disse a ela que era melhor a gente pegar o Contorno Sul por causa do horário. Ela preferia ir por Mandirituba, mas seguiu meu conselho. Foi péssimo. Mais uma hora paradas no trânsito de sexta-feira e dois encontros sendo cancelados. Mas ela riu. O bom de viajar com ela é que ela tem esse senso de humor único e é um tanto quanto louca. A loucura é essencial.

Eu tenho essas vozes na minha cabeça. "O amor é para idiotas. O máximo que você pode ter é companhia. No final, o príncipe encantado vai sempre se resumir a beijos de bom dia e frases feitas sendo repetidas sem vontade. Não existe nada além disso, meu bem, nada." (In)Sensatez? É uma pena que talvez seja mesmo assim.

A noite é uma sequência de luzes vermelhas que dariam uma bela foto, mas minha câmera quebrou. Ela se cansou de alternar os pés nos pedais e me pediu pra dirigir. Eu concordei, embora deteste não poder correr.

Eu queria que fosse mais rápido, mais fácil. Dói demais carregar esse peso. Eu quase desisto. Quase largo o fardo no caminho pra tentar viver como se ele nunca tivesse existido. O pior é saber que não dá. Se eu largo hoje, amanhã volto e busco, jogo nos ombros de novo e volto pro papel, pra cerveja e pro cigarro. Eu preciso aliviar a pressão e definir o meu rumo, de uma vez por todas.

Enfim, a chegada. Os olhos vermelhos, o corpo dolorido. Descansar até a próxima semana.

Mas se a gente não chega a lugar algum, uma hora a gente tem que parar e deixar tudo pra depois.

Qualquer viagem, por melhor ou pior que seja, sempre acaba. Eu amo a estrada, o percurso. O final é sempre triste. Mas na semana que vem, ou no mês que vem, ou no ano que vem, ou daqui uma década, você tem que começar a trilhar o caminho todo de novo e vai ter que chegar em algum lugar, do qual provavelmente terá que voltar depois. Não dá pra não pensar que é tudo em vão, embora seja válido. Eu estou cansada. Queria mesmo era poder parar pra sempre em algum destino bom. Queria nunca mais ter que carregar pesos como esses que agora me arqueiam as costas.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Caio

"(...) deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, (...)."

domingo, setembro 05, 2010

About me

I'm 27 years old. Sometimes I feel like if I was 80. Some other times, like just 5. Right now, 15 is a good number.

I'm ponctual and I hate delays. I hate some laws and some habits. I hate someone, intentionally or not, telling me what to do. I hate the sound of the chalk on a blackboard. I hate my feet. I hate TV (not the shows, but the device). I hate telephone. I hate pills, but I need it. I hate the fact that life doesn't have a soundtrack. I hate monothematic people. I hate people with no sense of humor. I hate people. I hate sundays and mondays. I hate so many things but I never wondered about why and some people tell me that I'm a pointless hater. It's true, probably. Right now, I hate this fact and I hate even more the fact that some of my best friends are out of town, because I really need them today. That I can hate in peace, no needs of explanation.

I love some things, too. I love cats and dogs. I love the winter, the wind and the rain. I love september. I love my family. I love chocolate and strawberry. I love beer. I really love martini. I love jokes and irony. I love travel, more the road than the arrival. I love learning languages. I love driving, but I never got a car. I love art. I love comic books and all the other kinds of books, sci-fi movies, zombie movies and all the other kinds of movies. I love good music. I do not have unchangeable parameters for what is good. I love fridays. I love people (yeah, I contradict myself often). I love being alive. I love Caio Fernando Abreu and David Foster Wallace. I love the Davids, Fincher and Lynch and I love Charlie Kaufman. I love Billie Holiday and Nina Simone. The list goes on and on... I love so many things. I love more than I hate. Maybe I'm a pointless lover too, but I don't care. I love the fact that you love some of the things that I love and I love this glow in your eyes.

I was born and raised in Curitiba, so I am a cold person, not a cool one. I am totally systematic, insane about organization, and all my things have their own spot. The first thing I notice about any person is the hands and, after that, the shoes. I like your hands and I like your shoes. I drink about ten bottles of water per day. I don't believe in God. I'm learning french by myself. I'm thinking about get back to theater class. I'm a crap singer but I like to sing and some people like to hear. I laugh at myself, a lot. I like to play poker online. I cook very well, but I'm lazy. I have a serious rejection complex. I have problems to say no and troubles to sleep. I am a incurable postponer. My hands get wet when I am nervous and I can feel my heart. It is a funny thing: feeling your heart. You always know that it is there, but feeling it is another story. Right now, I'm feeling my heart, although not as much as yesterday.

I never travelled for out of the country. I never broke a bone, I never needed surgery, but I sure had my share of stitches. I never defied gravity. I never won the lottery. Nobody never wrote me a song. I played "I never" once and got drunk. I never thought that I'd meet somebody like you. I always keep secrets. I always cry my heart out when I watch drama movies. I'm always ready to drink a beer, or twelve. I already planted a tree and wrote a book. I already quitted smoking and got back to it, twice. I already ate a meal good enough to be my last.

I fear the death. I don't know how to deal with death, at all. I have this room in my place, where the cat, Jeremias, used to sleep. The cat died, two years ago, but I still refer to the room as Jeje's room. I fear the other's death and my own, too. Specially when I realize that I will not have time to do all the things that I wanna do, know all the places that I wanna know, meet all the people that I wanna meet, read all the books that I wanna read, watch all the movies that I wanna watch... I fear the scientists and their predictions of the world's end in 2012. I have this really crazy fear of cockroaches (just the word creeps me out). I fear hate and I fear love. I fear the "looking back" moment thirty, forty years from now. I fear you sometimes. I fear the fact that I don't know what I want and I will probably end up with a lot I don't.

But the things that I hate, the things that I love, what I'm, what I fear... All these things can change. I'm always changing. And I'm always confused, honey. About everything. Even about the things that I'm supposed to know for sure. Right now, I guess I know, but I'm afraid to be wrong. And I'm afraid, even more or a little less, to be right. In either ways, I don't know what to do... And that's all.