sábado, fevereiro 26, 2011

No sábado

Bebeu tanto quanto pôde e escreveu cinco ou seis linhas em um guardanapo de papel. Depois chorou e adormeceu. Quando acordou, rodeado por garrafas de rum barato, leu e releu, mais e mais uma vez, tentando entender. Embora a caligrafia ébria fosse quase indecifrável, a letra era sua. Além do mais, exceto pelo gato, estava sozinho desde a quinta-feira. Sabia que era ele que havia escrito, mas não reconhecia aquilo tudo como seu. Pela primeira vez, espectador de si mesmo, percebeu que havia um certo encanto em seus desvarios, que a moça de vermelho era sincera e que as coisas todas podiam vir a ser. Tomou um banho, escovou os dentes, penteou os cabelos, vestiu sua melhor roupa, colocou Nina Simone pra tocar e escreveu-lhe dizendo que estava pronto e que esperava que ela viesse tirar dele as satisfações que merecia.

Par de dois

Há todo um esquema. Você me ignora. Eu insisto. Tudo depende de quem tem mais resistência. Você não admite: se eu ceder, você perde; se você ceder, ganhamos os dois. Você não cede. Nem eu. Give up, baby. Eu continuarei insistindo, indefinidamente, daqui até o infinito. Não me importa quanto tempo dure... Nesse jogo, eu quero empate.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Caio

"Talvez tudo, talvez nada. Porque era cedo demais e nunca tarde."

De mim, nos outros...

"Music has always been a matter of energy to me, a question of fuel. Sentimental people call it inspiration, but what they really mean is fuel. I have always needed fuel. I am a serious consumer. On some nights I still believe that a car with the gas needle on empty can run about fifty more miles if you have the right music very loud on the radio."

Hunter Thompson: Kingdom of Fear - Loathsome Secrets of a Star-crossed Child in the Final Days of the American Century

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

''Why do these eyes of mine cry?''

Que me pergunto se será sempre assim. Que temo que seja. Que vivo e sonho e oscilo constantemente. Que, às vezes, tenho a certeza de que as coisas, como são, não fazem sentido e, em outras, encontro sentido nas coisas como elas são. Que ele não se esforça. Que eu estou cansada. Que tu não és real. Que é mentira e é verdade. Que é sempre muito mais ou muito menos. Que é tarde e sinto sono, mas é impossível dormir. Que penso em ti. E que eu não sei, não sei... É o que eu te diria, se me restasse voz.

sábado, fevereiro 19, 2011

Correspondência Extraviada XII

R.,

Espero sentada sob a sombra de uma árvore na tua, na nossa, praça. O tempo passa e anoitece. Vejo ao longe a brasa do que suponho ser teu cigarro. Levanto-me. De certo modo, tudo me lembra o dia em que me contaste sobre a parede caiada, a boina verde-musgo do guarda e teu último palito de fósforo.

Desta vez são os teus passos que demoram. Os minutos se arrastam e tu não chegas. Por sorte, há o álcool e não sinto frio. Ensaio as palavras, esperando que o próximo círculo de fogo no horizonte traga junto teu corpo esguio, tua barba amarela, teu sorriso tímido... Mas tudo o que há são lembranças.

Chamas demais entre nós... E, longe de mim, vives dia após dia a única mentira que te permitiste contar, embora saibas toda a verdade. Os olhos dela não brilham, meu bem. Vivem, sim, fora do corpo que a carrega. O brilho que às vezes vês vem dos teus olhos. Tu sabes que ela nunca entendeu as perguntas e tampouco tem as respostas.

Ela é delicada. "Eu poderia rebentar-lhe a face apenas com um impulso da minha mão direita" e sem a ajuda de meus anéis. Não o faço e não é por pena ou por medo. É que ficou tão tarde... As luzes dos prédios ao redor da praça estão todas apagadas. Já não faz mais sentido lutar.

Tu não virás esta noite. Amanhã, talvez. Não desistirei de esperar. Não por ter esperança, mas por não ter nada mais, nada além. E porque sei. Sei de todas as coisas que não contaste a ela e não contaste a mim, mas que eu fui capaz de deduzir e ela não. Sei do cheiro de nicotina impregnado em tua pele, o cheiro que ela não pode suportar, mas eu posso. Sei que, embora admire, ela não entende, como eu entendo, tua poesia e teu torpor.

Nossa mania de contar os dias riscando as paredes com giz. Nossa insônia. Os "colchões cheirando a mofo", os "lençóis rotos". O jazz. Odessa. DFW, Hopper, Kieslowski, je t'aime tant. Espero, pacientemente, admitindo o inadmissível: "é ridículo, mas acaba sendo amor."

...

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Ao vento

Matando-me aos poucos e eu nem sei porque é que te ouço. Como se a idade pudesse te ensinar mais do que me ensinaram os tantos anos de estrada e dor. Tu não sabes nada da vida, querido. Talvez por isso teus conselhos sejam tão cheios de inveja e rancor. Alertas te escapam da boca como palavrões, tuas mãos inquietas invariavelmente denunciam tua ignorância, teu desespero e, sem querer, incitam meu desapego.

Mal sabes que a imagem é sempre ilusão e que é preciso muito mais do que teu ar de superioridade e um punhado de frases feitas para que o nada se torne real. E nem sempre acontece... É quase certo que irás acordar ferido pelos espinhos das rosas que carregavas no sonho. Mas ela, ela, não estará lá.

Pra ti, bem sei, não importa se é ou não real... Ela, perfeita em teu sonho, tua fantasia. Submissa, indefesa, infeliz. E o brilho dos teus olhos trazendo esperança e conforto. Teu corpo esguio, teu cavalo branco, teus longos cabelos ao vento, como em um conto de fadas.

Open your eyes e nada mais faz sentido. Deste lado tu és frágil, pequeno... Resignado, percebe que a realidade vai muito mais além e que sequer chega perto. Revolta.

Eu sei. Ver-me bem e maior te corrói como um câncer. Mascarando tuas pseudo-maldades com um sorriso tu me beijas a mão e espera que eu compre teu veneno ácido como se fosse mel. Faço-me de tola e te pago em moedas, por mais caro que seja. Eu nunca hesito, interpretar é o meu papel.

Mas há todo um futuro lá fora, meu bem, e eu não posso perder tempo. Estou indo buscar o que é meu. Ignoro teus sonhos, tua insegurança, teu desejo inconsciente por menos, teu medo disfarçado em sinais de preocupação e cuidado... E sinto pena. Tu deverias saber que as coisas mudam e que justamente quando tudo parece igual ao que sempre foi é que tudo está diferente como nunca.

Tu bem sabes, somos incompatíveis. Porque minha loucura é bipolar e vai além do teu desejo normalista, além dos teus gestos de censura não direcionada, da tua anarquia sem propósito... Teus discursos burocráticos não podem me frear.

Eu quero mais, quem diria. Menos, às vezes... Quero mensagens subliminares escondidas em despretensiosos beijos de despedida. Quero a declaração implícita de amor ou ódio. Quero um sarcasmo inocente, quase infantil, que me faça perder a voz. Quero a sinceridade que me tira do sério, do rumo. Quero um tanto de alegria e um tanto de desgraça...

Só não quero o meio-termo, qualquer corpo em cima de qualquer muro, o lugar comum.

Então, poupa-me. Guarda pra ti tua sanidade e me deixa arriscar. Ainda que desta vez eu não saiba se é cedo demais pra ir em frente ou tarde demais pra desistir.

sábado, fevereiro 05, 2011

Talvez?

Não quero fazer sentido. Ainda que quisesse, bebi o suficiente para não conseguir. De qualquer forma, não me preocupa. Nada me preocupa.

Essa coisa que me fez voltar, escancarar minhas fórmulas secretas. Evil. Páginas de passado guardadas na gaveta. Me confunde perceber que nada mudou, que escondo algumas palavras mas acabo sempre expondo a essência de toda essa loucura. E é tudo sempre igual.

Um pouco tonta, erro o teclado. Sorte a minha ser sempre possível apagar o que não deve ser escrito, embora não seja possível desdizer o que não deveria ter sido dito.

Pequena, é como me sinto, embora seja grande. Frágil como um monstro gigante desprotegido. E louca. Pelas coisas que desejo, pelos medos que não tenho. Às vezes acho a vida cômica demais e trágica de menos. Talvez porque seja mais fácil dar um passo à frente quando te faltam opções. Se tudo, ou quase tudo, e todos, ou quase todos, deixassem de existir...

Eu sempre arrisquei. É só quando você começa a envelhecer que vê que é hora de parar. Eu sei, eu sei, meus vinte e poucos não são tantos... Mas me parecem muitos. E embora nada seja o que parece, eu vivo de batalhas imaginárias. E meu lado pessimista sempre vence.

O que me perturba, e justifica toda a falta de sentido, é essa sensação estranha de que me faria bem viver de novo uma história que já vivi, embora não possa dizer como, quando ou onde... Essas premissas sobrenaturais desafiando meu ceticismo.

Não me canso de dizer que nada adianta. Tento me convencer e quase consigo. Mas acabo sempre perdendo tempo em divagações.

A verdade é que é tudo muito mais simples ou muito mais complicado do que eu sou capaz de imaginar... E o sentido das coisas depende do ponto de vista do observador. Eu observo e me infiltro e, tarde demais, percebo, desapontada, que já faz tempo... E que agora, ironicamente, talvez seja tarde demais pra voltar atrás.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

2011

Te dizer que tem sido uma merda. Olho o relógio digital na tela do computador, os segundos regridem. Como se fogos no céu houvessem causado um incêndio. A casa queimada, as fotos queimadas, nossos esconderijos, nosso medo, nosso torpor... Tudo queimado. O disco travado na mesma música. "Is a loosing game". Eu minto. Minto para Luana e para Maria, minto para Eduardo, minto. Engano ninguém, bem sei, mas é mais fácil assim. Prefiro conviver com as caras de dúvida e preocupação do que ter que me submeter a conselhos e consolos que confortam mas não curam. Tudo aleatório agora, mil coisas. "Why do I wish I never played?" Eu deveria usar pijamas, só pra ter a sensação de não sair deles durante o dia todo em plena segunda-feira. Tudo diferente e não se sabe quando foi que mudou. Os fogos, os fogos. Algumas coisas, porém, continuam igualmente boas, mas talvez apenas porque não sejam, não existam. Não se sabe. "Oh, what a mess we made". Ela, ela, ela. Ela faz falta demais e isso dói e eu quase penso em entrar na loucura e ir embora de vez. Trocar de marca de cigarro me dá dores de cabeça ou ao menos justifica minhas dores de cabeça inexplicáveis. Amanhã testarei um paraguaio que há de me deixar rouca também e terei explicação para a voz que me falta. Preciso ainda de algo que me justifique os dedos tortos das mãos voltando a expressar coisas obscuras. Ou não. De um jeito ou de outro, você entra em casa e espera encontrar. A planta viva, o gato alimentado, a cama feita, o teto do banheiro descascando, a louça suja na pia, as marcas de pés nas paredes. De um jeito ou de outro. Eu não deveria ter voltado. Nothing "is more that I could stand". Engraçado que tenha sido hoje. Não. Trágico. Tragicômico, logo hoje, logo hoje. Eu sou o ponto de interrogação desenhado sobre a cabeça de Jack. A felicidade consiste em poder desistir de tudo o que não aliena. Não leia, não ouça, não pense. Liberdade é poder não sentir. Não sinta, não sinta, não sinta. "Memories mar my mind". Eu caminho para o abismo e estou longe de tudo. Da verdade, do sorriso, do que existe em comum e não teve chance de existir, do soco inglês que ele usava como fivela, dos pedaços de banana que ele dava aos cachorros, dos bilhetes espalhados pela casa, do sonho adolescente, do teatrinho que ele fazia com os dedos dos pés, dos pombos da praça, do abismo em si, de tudo. Ficou por perto só esse não saber, insegurança, esse sentir que se anula porque não tem contraponto, essa certeza cruel. Ainda é quarta-feira e o sábado só chega daqui a trinta dias. Te dizer que tem sido uma merda.