Five
I noticed him, for the first time, in the middle of a noisy and drunken darkness. And till today is where we are.
Four
We drank together thirty-six times. And, yet, we know nothing about each other.
Three
He kissed me. Twice.
Two
I never saw him again.
One
Somewhere, somehow, there must be light.
Zero
Or not.
domingo, maio 29, 2016
quarta-feira, abril 27, 2016
Waiting
A cadeira faz um ruído esquisito quando me levanto para ir buscar mais cerveja na geladeira, um chiado estridente de metal desgastado se aliviando de um peso e um estalo de mola velha. Tem já uns cinco anos a cadeira. Ao longo do tempo perdeu três parafusos, que encontrei no chão e não sei de onde caíram. Qualquer que seja a estrutura que sustenta a cadeira, é evidente que está ruindo.
Cento e quarenta dias desde que tu partiste. Tuas cartas foram rareando semana após semana. Nunca sei ao certo se demoram ou se é minha ansiedade para ouvir de ti que amplifica todas as sensações de tempo.
Ainda não pintei as paredes, não consertei a pia quebrada do banheiro, não lixei os tacos, nem troquei as cortinas. Culpo a falta de dinheiro, mas sinto que são outros os motivos que me prendem nestas celas. Dia após dia as coisas vão se tornando mais velhas, tudo adquire um tom amarelado de espera e cansaço. As paredes, a pia, os tacos, as cortinas, meus cabelos, a pele fina dos meus dedos e o branco dos meus olhos.
Porque os dias não passam, fico relendo tuas cartas e teus devaneios. São muitos os contrastes entre o que dizes e o que pensas. Não sei se tu notas que consigo notar. Sei do teu desassossego e da tua da solidão, da falta de vontade de estar, da sensação de nunca fazer parte. Já faz muito tempo que compartilhamos das mesmas angústias neste "deserto de almas também desertas". É sintomático que ainda estejamos vagando errantes, quando parece tanto que somos, um do outro, o único refúgio.
A cerveja acaba cada vez mais rápido. Tudo ao meu redor vai se desintegrando como que para me dizer que eu não faço parte deste mundo, desta vida. Dentro de mim, só o que se renova é uma saudade estranha, uma urgência, um lamento pelo tempo que estamos perdendo, pelo tempo todo que já se perdeu.
A primeira imagem que tenho de ti é um quadro emoldurado na minha memória. Eu queria muito saber qual é a primeira imagem de mim de que tu te lembras. Mas somos silêncio, disfarce... A eterna possibilidade da possibilidade.
Sigo presa a essas engrenagens enferrujadas.
Porque os dias não passam, eu lamento o fato de que estejam passando.
Oi Va Voi - Waiting
Cento e quarenta dias desde que tu partiste. Tuas cartas foram rareando semana após semana. Nunca sei ao certo se demoram ou se é minha ansiedade para ouvir de ti que amplifica todas as sensações de tempo.
Ainda não pintei as paredes, não consertei a pia quebrada do banheiro, não lixei os tacos, nem troquei as cortinas. Culpo a falta de dinheiro, mas sinto que são outros os motivos que me prendem nestas celas. Dia após dia as coisas vão se tornando mais velhas, tudo adquire um tom amarelado de espera e cansaço. As paredes, a pia, os tacos, as cortinas, meus cabelos, a pele fina dos meus dedos e o branco dos meus olhos.
Porque os dias não passam, fico relendo tuas cartas e teus devaneios. São muitos os contrastes entre o que dizes e o que pensas. Não sei se tu notas que consigo notar. Sei do teu desassossego e da tua da solidão, da falta de vontade de estar, da sensação de nunca fazer parte. Já faz muito tempo que compartilhamos das mesmas angústias neste "deserto de almas também desertas". É sintomático que ainda estejamos vagando errantes, quando parece tanto que somos, um do outro, o único refúgio.
A cerveja acaba cada vez mais rápido. Tudo ao meu redor vai se desintegrando como que para me dizer que eu não faço parte deste mundo, desta vida. Dentro de mim, só o que se renova é uma saudade estranha, uma urgência, um lamento pelo tempo que estamos perdendo, pelo tempo todo que já se perdeu.
A primeira imagem que tenho de ti é um quadro emoldurado na minha memória. Eu queria muito saber qual é a primeira imagem de mim de que tu te lembras. Mas somos silêncio, disfarce... A eterna possibilidade da possibilidade.
Sigo presa a essas engrenagens enferrujadas.
Porque os dias não passam, eu lamento o fato de que estejam passando.
Oi Va Voi - Waiting
terça-feira, março 29, 2016
Talvez
E as coisas todas que ficaram caladas me roubam o ar. Lamento o fato de não sabermos fluir, de nos despencarmos pela correnteza agarrados a pedaços frágeis de lucidez quando deveríamos ser só a loucura.
Fato é que nunca nos soubemos por inteiro. Talvez sejamos apenas reflexos um do outro, sonhos vivos, moldados pela pouca realidade que a gente espera encontrar nas coisas todas da vida. Talvez teu silêncio seja só uma imagem do meu medo. Talvez eu me esquive refletindo tua insegurança. Chego a pensar que nunca existimos, que somos apenas projeções de desejos incertos.
Por outro lado, tu me parece tão real e me imagino parecendo real pra ti e penso que talvez seja esse excesso de verdade a causa de estarmos tão distantes e tão próximos. Eu nunca vou saber. E pra ti, talvez, saber nem importe.
Talvez o grande amor seja apenas isso: um ou dois momentos, constantes efemeridades, dúvidas e entrelinhas pra uma vida toda. Minha consciência de que fomos feitos um pro outro e a resignação diante do nunca.
Talvez, talvez, talvez.
Lucia - Silence
Fato é que nunca nos soubemos por inteiro. Talvez sejamos apenas reflexos um do outro, sonhos vivos, moldados pela pouca realidade que a gente espera encontrar nas coisas todas da vida. Talvez teu silêncio seja só uma imagem do meu medo. Talvez eu me esquive refletindo tua insegurança. Chego a pensar que nunca existimos, que somos apenas projeções de desejos incertos.
Por outro lado, tu me parece tão real e me imagino parecendo real pra ti e penso que talvez seja esse excesso de verdade a causa de estarmos tão distantes e tão próximos. Eu nunca vou saber. E pra ti, talvez, saber nem importe.
Talvez o grande amor seja apenas isso: um ou dois momentos, constantes efemeridades, dúvidas e entrelinhas pra uma vida toda. Minha consciência de que fomos feitos um pro outro e a resignação diante do nunca.
Talvez, talvez, talvez.
Lucia - Silence
sábado, março 12, 2016
Sobre poréns
Que tu já não me cabe mais e vice-versa. Que passaremos um pelo outro somente ao largo. Que as coisas que agora dizes jamais me refletiriam. Que os lugares por onde andei tu terias odiado. Que esse nosso tanto de vida desviou a trajetória.
Ou não.
Se tu te tornastes, de novo, alguma espécie de mentira. Ou se eu me tornei, enfim, uma verdade indiscutível. Se não são mais os mesmos teus motivos. Ou se eu seria capaz de compreender as tuas razões.
Nossa tortura diária. Nossas noites de insônia. A saudade.
Entre os quilos e cabelos que perdemos, as olheiras profundas que ganhamos, resta somente a dúvida.
Ella Fitzgerald & Louis Armstrong - Dream A Little Dream Of Me
Ou não.
Se tu te tornastes, de novo, alguma espécie de mentira. Ou se eu me tornei, enfim, uma verdade indiscutível. Se não são mais os mesmos teus motivos. Ou se eu seria capaz de compreender as tuas razões.
Nossa tortura diária. Nossas noites de insônia. A saudade.
Entre os quilos e cabelos que perdemos, as olheiras profundas que ganhamos, resta somente a dúvida.
Ella Fitzgerald & Louis Armstrong - Dream A Little Dream Of Me
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