Você tem que me dizer como funciona porque eu não consigo assimilar sozinha.
Eu fico sempre tentando imaginar como vai ser e acaba que nunca consigo entender como tem sido, como é, de fato. Agora, que você me fez parar e avaliar, tenho a vaga impressão de que já não é mais, de que já foi, já era. Você parece nada ter percebido. É inconscientemente que me incita a estas reflexões.
Gosto de imaginar que você também não sabe de nada. Está tanto quanto ou mais perdido do que eu nessa realidade estranha. E eu gostaria mesmo de um dia te ver coçar o queixo com a junta do indicador e fazer uma cara de interrogação. Mas já percebi que você não quer entender. Pra você, as perguntas se bastam sem resposta. Não existem perguntas, melhor dizendo. Não há nada pra ser entendido.
Eu ando precisando me afogar, babe. Ouvir uns sons de trovões. Sentir a minha pele ardendo de um incêndio no meu colchão. Quero algo extremo. Me entende? Provável que não.
Às vezes eu entro nessa de te considerar um enigma. Gosto de pensar que você se esconde. Propositalmente me iludo, tentando buscar em você algo que transcenda essa imagem apagada que eu vejo todos os dias. Mas a verdade é que você não é nada além disso. Esse monte de obviedade sem importância, de gestos mecânicos, de frases feitas. Você não tem segredos, babe. Você não tem dilemas. Nenhuma dúvida existencial, nenhuma pulga atrás da orelha. Você não se apaixona, não sofre, nem dramatiza. Até as tuas lágrimas, quando surgem, ficam logicamente alinhadas no teu rosto inexpressivo. Você sistematiza, pra parecer que sente coisas que de fato nem conhece. E isso porque te basta esse nada que temos, te satisfaz essa ausência de explosão que somos.
A mim falta de tudo. Faltam assombros, surpresas, excentricidades. Faltam momentos únicos que me ficariam na memória quando você já não estivesse mais aqui. Acho mesmo que você nunca esteve. E eu me lamento por isso, vomito lástimas em cima de você que nem náuseas te causam. Eu brigo sozinha, babe. Luto violentamente contra a tua ausência invariável de sintomas. Me revolto, me debato. Depois me declaro e durmo em teus braços. Mas em nenhum momento você está de fato aqui.
Pra você tudo é apenas a ordem natural das coisas. E não há caos. Não há altos e baixos. Você é linear. E eu gostaria de saber quem te fez assim. Porque não é bem humana essa ausência de reação às coisas todas da vida. Você é sinistro, babe, como você mesmo disse outro dia. É sinistro.
domingo, julho 22, 2007
quinta-feira, julho 19, 2007
Só para constar
Pausas, vírgulas, reticências. Não dizer que diz tudo, silêncio que grita. Meias palavras, indiretas, enigmas. Adoro.
Pontos finais e travessões. Direto ao ponto, oito ou oitenta. Explicações, frases feitas, o óbvio ululante exposto em linhas claras e precisas. Detesto.
Gosto de ouvir o que não dizes. Dispenso tua determinação por te fazer entender.
Mas nem sempre, babe, nem sempre...
Pontos finais e travessões. Direto ao ponto, oito ou oitenta. Explicações, frases feitas, o óbvio ululante exposto em linhas claras e precisas. Detesto.
Gosto de ouvir o que não dizes. Dispenso tua determinação por te fazer entender.
Mas nem sempre, babe, nem sempre...
segunda-feira, julho 16, 2007
Let me sing my rock'n roll
Clichê dizer que a vida é feita de escolhas. Verdade, sim, eu sei. Mas de que importa a constatação? Frase feita que os que não entendem nada vivem repetindo pra te fazer pensar que eles entendem tudo.
Começa que os meus problemas são meus. Só meus. Se eu quebro um braço tentando fazer uma acrobacia impossível, sinto a dor, grito a raiva, lamento a estupidez. E é tudo meu. O braço, as lágrimas, o nó atado forte na garganta. Inclusive o gesso.
Não costumo me arrepender. Se o faço, faço longe dos outros. Ocorre que, às vezes, os outros me deduzem arrependida e me atiram clichês precedidos por reticências.
"Ééé... a vida é feita de escolhas". Soa como um "eu sabia que você ia se dar mal". Verborragia. Charlatanismo explícito em previsões do passado, vindo das mesmas criaturas que esquecem o guarda-chuva em dia de tempestade.
Eu pediria que me poupassem, mas sei que em horas como essa a voz só me sai em grito. Calo-me, pois.
Fato que eles têm tanta razão quanto um rato de laboratório. Minha felicidade aumenta a cada dia, em progressão geométrica. E quando choro, se choro, meus olhos ficam mais verdes. Longe de mim esse pessimismo batido. Fazer a escolha errada não é tão mal assim.
Começa que os meus problemas são meus. Só meus. Se eu quebro um braço tentando fazer uma acrobacia impossível, sinto a dor, grito a raiva, lamento a estupidez. E é tudo meu. O braço, as lágrimas, o nó atado forte na garganta. Inclusive o gesso.
Não costumo me arrepender. Se o faço, faço longe dos outros. Ocorre que, às vezes, os outros me deduzem arrependida e me atiram clichês precedidos por reticências.
"Ééé... a vida é feita de escolhas". Soa como um "eu sabia que você ia se dar mal". Verborragia. Charlatanismo explícito em previsões do passado, vindo das mesmas criaturas que esquecem o guarda-chuva em dia de tempestade.
Eu pediria que me poupassem, mas sei que em horas como essa a voz só me sai em grito. Calo-me, pois.
Fato que eles têm tanta razão quanto um rato de laboratório. Minha felicidade aumenta a cada dia, em progressão geométrica. E quando choro, se choro, meus olhos ficam mais verdes. Longe de mim esse pessimismo batido. Fazer a escolha errada não é tão mal assim.
domingo, julho 15, 2007
Estou
Eles me dizem que é aqui mesmo que tenho que estar. Nessa cidade. Eles não sabem... essa cidade só me fode.
Eu vou ficando. Faço que não ligo. Tento acreditar que me faltam opções. Ainda existe por aqui uma ou outra fonte de inspiração e sossego. Observo a total ausência de movimento pela janela, inspiro tragadas de ar puro e nicotina e, por alguns instantes, tudo parece ficar bem.
Parece certo. Coisas que se encaixam como peças de lego. Um aumento de salário. O teto branco do escritório em chamas quando me reclino na cadeira. Sacolas de supermercado com comida para o gato, sabonete, pasta de dente, macarrão instantâneo, molho de tomate, creme de leite, sabão em pó e amaciante. Os livros. Os mestres. Beijos demorados e risadas. Happy hours de sexta-feira. Tédio. Tudo é de mentira.
Aí eles me dizem pra aproveitar o momento. Que me falta riso e álcool. Acontece que estou sempre cansada demais. Telefone que toca insistente e minha voz emudecendo quando tento dizer não. Mas se quero me arriscar nuns goles a mais, acabo sempre rodeada por latas de cerveja no chão da sala do meu apartamento. Nunca há para onde ir. Amanhece rápido desse lado de cá. E todos dormem quando tenho insônia.
A cidade tem os parques e as praças que eu odeio. Tem os olhares tortos e os discursos baratos de província. Os jornais que lambem o próprio umbigo. Nada funciona quando você precisa. Ausência de perspectivas. Tudo meio morno. Tem ainda aquelas mesmas caras que estão por todo lado porque, de fato, esse mundinho cabe na palma da mão de uma criança de cinco anos. É tudo muito pequeno ou muito grande. Frio. Calor. As coisas por aqui sempre acontecem na hora errada.
Agora chega-se mais rápido a pé, na hora do rush. Ruas alagadas em dias de chuva forte. Pichações nas paredes dos prédios de apartamentos. Enormes filas pra tudo. Um perigo de faca e revólver que ronda as madrugadas. Sirenes constantes. De outros cantos, as más lembranças acabam sendo tudo o que eu tenho.
E me rotulam arrogante ou coisa assim. Por vezes desistem de tentar me convencer e me dizem pra ir pra longe, se é isso o que eu quero. Mas não é isso o que eu quero. Difícil explicar. O problema, eles não sabem, é que essa cidade só me fode...
Eu vou ficando. Faço que não ligo. Tento acreditar que me faltam opções. Ainda existe por aqui uma ou outra fonte de inspiração e sossego. Observo a total ausência de movimento pela janela, inspiro tragadas de ar puro e nicotina e, por alguns instantes, tudo parece ficar bem.
Parece certo. Coisas que se encaixam como peças de lego. Um aumento de salário. O teto branco do escritório em chamas quando me reclino na cadeira. Sacolas de supermercado com comida para o gato, sabonete, pasta de dente, macarrão instantâneo, molho de tomate, creme de leite, sabão em pó e amaciante. Os livros. Os mestres. Beijos demorados e risadas. Happy hours de sexta-feira. Tédio. Tudo é de mentira.
Aí eles me dizem pra aproveitar o momento. Que me falta riso e álcool. Acontece que estou sempre cansada demais. Telefone que toca insistente e minha voz emudecendo quando tento dizer não. Mas se quero me arriscar nuns goles a mais, acabo sempre rodeada por latas de cerveja no chão da sala do meu apartamento. Nunca há para onde ir. Amanhece rápido desse lado de cá. E todos dormem quando tenho insônia.
A cidade tem os parques e as praças que eu odeio. Tem os olhares tortos e os discursos baratos de província. Os jornais que lambem o próprio umbigo. Nada funciona quando você precisa. Ausência de perspectivas. Tudo meio morno. Tem ainda aquelas mesmas caras que estão por todo lado porque, de fato, esse mundinho cabe na palma da mão de uma criança de cinco anos. É tudo muito pequeno ou muito grande. Frio. Calor. As coisas por aqui sempre acontecem na hora errada.
Agora chega-se mais rápido a pé, na hora do rush. Ruas alagadas em dias de chuva forte. Pichações nas paredes dos prédios de apartamentos. Enormes filas pra tudo. Um perigo de faca e revólver que ronda as madrugadas. Sirenes constantes. De outros cantos, as más lembranças acabam sendo tudo o que eu tenho.
E me rotulam arrogante ou coisa assim. Por vezes desistem de tentar me convencer e me dizem pra ir pra longe, se é isso o que eu quero. Mas não é isso o que eu quero. Difícil explicar. O problema, eles não sabem, é que essa cidade só me fode...
sábado, julho 14, 2007
3,2,1...
Você sente que é um sonho. Nightmare. A noite de ontem não aconteceu. Nada aconteceu desde a noite de ontem. A pontada nas costas te faz lembrar da necessidade de comprar um novo colchão. Você sai da cama com o pé esquerdo, sem perceber. A porta da sua casa amanheceu aberta mas, aparentemente, ninguém entrou e ninguém saiu. O gato dorme no sofá. São oito da manhã. Seu jejum já dura trinta horas.
Cerveja. Parece idéia fixa e seus amigos já te chamam de alcoólatra. Ontem ela te motivou a se enfiar em uma roupa apresentável e descer para o bar. Ela e a sua falta de paciência para as lágrimas ácidas que corroíam seu rosto.
Você sempre chega na hora certa por mais que se atrase. O chão como tabuleiro de xadrez. Há duas horas atrás você era o rei. Agora dois cavalos ameaçadores e dois bispos moralistas te obrigam a assumir sua posição de peão.
Pale Ale. Primeiros acordes. Seus cotovelos apoiados no balcão molhado do bar. A Lucky Strike tem uma publicidade agressiva. Calor. Todos têm o mesmo corte de cabelo. Você fuma, mas a fumaça dos cigarros alheios te incomoda. Sono. Você sente que precisa de um café amargo, ainda que você não goste de café.
Não dá exatamente pra saber em que hora do dia ou da noite passada começou o pesadelo que, agora, oito da manhã, você se esforça pra esquecer. Teve o sorriso hipócrita daquele moço. Eram sete e qualquer coisa da noite. Antes ainda uma espera que você não sabe se começou na tarde de ontem ou numa tarde qualquer de mais ou menos um ano atrás. Fato que foi ficando pior. O gosto das suas verdades ainda não saiu da sua boca. Agridoce.
A língua. Você falava uma língua que ninguém mais entendia. Sua mania de inventar palavras. Sempre foi assim. E quando você diz que acabou é porque está apenas começando. Seus delírios de opostos que se atraem. Ontem você chorou o impossível e hoje é impossível chorar. Você já nem faz mais questão de concordar o sujeito com o verbo. Seu adeus. Todo adeus que sai da sua boca sai tímido e dissonante. Os outros escutam um até logo.
Ontem não teve adeus. Passos trôpegos pra casa. Alguém gritou que você morreu. Tragicômico. Socos na parede. Você dormiu esperando. São oito da manhã e você ainda está esperando. Toda a humanidade está ocupada no momento, aguarde um minuto e sua chamada já será atendida. Há seis meses nada acontece. É um sonho. Serão precisos dez baldes de água fria pra te acordar. Mas alguém muito mau acabou com a conveniência dessa história, trancou a porta da sua casa e jogou a chave fora.
Cerveja. Parece idéia fixa e seus amigos já te chamam de alcoólatra. Ontem ela te motivou a se enfiar em uma roupa apresentável e descer para o bar. Ela e a sua falta de paciência para as lágrimas ácidas que corroíam seu rosto.
Você sempre chega na hora certa por mais que se atrase. O chão como tabuleiro de xadrez. Há duas horas atrás você era o rei. Agora dois cavalos ameaçadores e dois bispos moralistas te obrigam a assumir sua posição de peão.
Pale Ale. Primeiros acordes. Seus cotovelos apoiados no balcão molhado do bar. A Lucky Strike tem uma publicidade agressiva. Calor. Todos têm o mesmo corte de cabelo. Você fuma, mas a fumaça dos cigarros alheios te incomoda. Sono. Você sente que precisa de um café amargo, ainda que você não goste de café.
Não dá exatamente pra saber em que hora do dia ou da noite passada começou o pesadelo que, agora, oito da manhã, você se esforça pra esquecer. Teve o sorriso hipócrita daquele moço. Eram sete e qualquer coisa da noite. Antes ainda uma espera que você não sabe se começou na tarde de ontem ou numa tarde qualquer de mais ou menos um ano atrás. Fato que foi ficando pior. O gosto das suas verdades ainda não saiu da sua boca. Agridoce.
A língua. Você falava uma língua que ninguém mais entendia. Sua mania de inventar palavras. Sempre foi assim. E quando você diz que acabou é porque está apenas começando. Seus delírios de opostos que se atraem. Ontem você chorou o impossível e hoje é impossível chorar. Você já nem faz mais questão de concordar o sujeito com o verbo. Seu adeus. Todo adeus que sai da sua boca sai tímido e dissonante. Os outros escutam um até logo.
Ontem não teve adeus. Passos trôpegos pra casa. Alguém gritou que você morreu. Tragicômico. Socos na parede. Você dormiu esperando. São oito da manhã e você ainda está esperando. Toda a humanidade está ocupada no momento, aguarde um minuto e sua chamada já será atendida. Há seis meses nada acontece. É um sonho. Serão precisos dez baldes de água fria pra te acordar. Mas alguém muito mau acabou com a conveniência dessa história, trancou a porta da sua casa e jogou a chave fora.
quarta-feira, julho 04, 2007
Oui, bien sûr
Eis que me pisam o calo. Um estranho, rua qualquer da cidade, bermuda de sarja e boina cor de caqui. Pedido apressado de desculpas. Digo que não foi nada. Meus próximos passos são trôpegos, a testa franzida, o canto dos lábios repuxado de dor. E o outro segue despreocupado.
Fui centenas de vezes. Voltei outras tantas. Pintei o cabelo de loiro e as unhas de vermelho. Emprestei livros queridos que nunca mais me voltaram. Deixei de fumar. Decorei a cozinha com peixes. Vendi a cadeira velha que atravancava a sala. Trabalhei até mais tarde em incontáveis sextas-feiras. Comi buchada de bode e bebi caldinho de mocotó. Sim, pois não, é claro, em um minuto.
Perdi no trajeto uns mil dinheiros, alguns suspiros tristes e uma infinidade de vontades próprias. Resignei-me. E ainda hoje, se digo que fico, é sempre para o bem de todos e felicidade geral da nação.
Fui centenas de vezes. Voltei outras tantas. Pintei o cabelo de loiro e as unhas de vermelho. Emprestei livros queridos que nunca mais me voltaram. Deixei de fumar. Decorei a cozinha com peixes. Vendi a cadeira velha que atravancava a sala. Trabalhei até mais tarde em incontáveis sextas-feiras. Comi buchada de bode e bebi caldinho de mocotó. Sim, pois não, é claro, em um minuto.
Perdi no trajeto uns mil dinheiros, alguns suspiros tristes e uma infinidade de vontades próprias. Resignei-me. E ainda hoje, se digo que fico, é sempre para o bem de todos e felicidade geral da nação.
terça-feira, julho 03, 2007
Monólogo
- Pô, Guto, você por aqui! Tá fazendo o quê por essas bandas?
- Betão! Você viu se já passou o Clínicas?
- Xi, cara, não vi, não. Mas faz só uns cinco minutos que eu to aqui. Mas me conta, conseguiu aquele emprego? Você tinha dito que ia numa entrevista essa semana.
- To pensando em comprar um carro. Eu tenho um investimento que andou rendendo, acho que vou sacar e comprar um carro.
- Ah, faz bem, esse negócio de andar de ônibus é dose. Você viu que botaram fogo em mais um ontem?
- Amanhã eu vou no banco conversar com o gerente. To pensando num Corsa, mas quero ver se acho um em conta.
- Hum. Vai na concessionária onde meu irmão trabalha, diz que você é meu amigo e pede um descontinho pra ele. É ali na Pompéia. Sabe a estação da Vila Madalena?
- O duro é que os juros nesse país estão de matar e eu acho que não vou ter dinheiro suficiente pra comprar à vista.
- É verdade, eu mesmo estou devendo uma fortuna no cheque especial. Se eu te disser o valor você se assusta...
- Só sei que o meu carro precisa ter ar-condicionado porque esse calor anda insuportável. Olha aqui, eu to suando em baldes.
- Pois é, e não vem nem uma chuvinha pra refrescar. Tá bom pra ir pra praia. Seu tio ainda tem aquela casa em Maresias?
- To em dúvida entre preto ou prata.
- Hein?
- Vou conversar com a Marília e ver qual cor ela prefere.
- Hum, você e a Marília ainda estão juntos? Eu ouvi falar que ela voltou pra casa da mãe.
- Olha lá o Clínicas! Vou nessa, Betão! Foi bom conversar com você!
- ...
- Betão! Você viu se já passou o Clínicas?
- Xi, cara, não vi, não. Mas faz só uns cinco minutos que eu to aqui. Mas me conta, conseguiu aquele emprego? Você tinha dito que ia numa entrevista essa semana.
- To pensando em comprar um carro. Eu tenho um investimento que andou rendendo, acho que vou sacar e comprar um carro.
- Ah, faz bem, esse negócio de andar de ônibus é dose. Você viu que botaram fogo em mais um ontem?
- Amanhã eu vou no banco conversar com o gerente. To pensando num Corsa, mas quero ver se acho um em conta.
- Hum. Vai na concessionária onde meu irmão trabalha, diz que você é meu amigo e pede um descontinho pra ele. É ali na Pompéia. Sabe a estação da Vila Madalena?
- O duro é que os juros nesse país estão de matar e eu acho que não vou ter dinheiro suficiente pra comprar à vista.
- É verdade, eu mesmo estou devendo uma fortuna no cheque especial. Se eu te disser o valor você se assusta...
- Só sei que o meu carro precisa ter ar-condicionado porque esse calor anda insuportável. Olha aqui, eu to suando em baldes.
- Pois é, e não vem nem uma chuvinha pra refrescar. Tá bom pra ir pra praia. Seu tio ainda tem aquela casa em Maresias?
- To em dúvida entre preto ou prata.
- Hein?
- Vou conversar com a Marília e ver qual cor ela prefere.
- Hum, você e a Marília ainda estão juntos? Eu ouvi falar que ela voltou pra casa da mãe.
- Olha lá o Clínicas! Vou nessa, Betão! Foi bom conversar com você!
- ...
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