sábado, dezembro 05, 2009

Caio

"Não sei, deixo rolar. Vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo."

sábado, novembro 14, 2009

Caio

"Somos inocentes em pensar, que sentimentos são coisas passíveis de serem controladas. Eles simplesmente vêm e vão, não batem na porta, não pedem licença. Invadem, machucam, alegram. São imprevisíveis e sua única regra é a inconstância total."

quinta-feira, novembro 12, 2009

Novembros

Uma profusão imensa e tão abundante de pensamentos que me força a escancarar pleonasmos e redundâncias.

Mesmo a bagunça sempre teve de ser organizada. Gosto, sempre gostei, de todas as coisas em seu devido lugar, da lógica, da consistência, da coerência. Agora é tudo tão coerentemente inútil e desnecessário e triste que me questiono os princípios.

Você tenta encaixar as peças, tenta fazer as coisas valerem a pena, o sangue, o suor, as lágrimas. Não dá pra ser assim. Você demora pra perceber que não dá pra ser assim, que nem tudo vale a pena. Mas você não admite esforços vãos, você segue cegamente, arrastando correntes invisíveis atadas aos seus tornozelos por quilômetros intermináveis, quebrando e poluindo tudo o que há no seu caminho pra lugar qualquer que você nem sabe se existe.

Aí vem o baque. A vida é frustante, meu bem, é frustrante. E a merda toda reside no fato de que, ao invés de buscar diretamente a felicidade, você ficou o tempo todo buscando artifícios que te levassem a ela. E você nunca aproveitou as chances.

Só depois que tudo está perdido é que você percebe que a culpa é sua, que andou ferrando com tudo, o tempo todo, que foi você que fez as escolhas erradas e infelizes, seguiu caminhos contra a sua vontade, mesmo quando a sua vontade ainda tinha algum valor.

Quando chega o momento em que não é mais possível endireitar as coisas tortas, você começa a tentar. Você se afoga em metas, em planos e projetos, mesmo sabendo que já é tarde demais. Um novo emprego, um novo amor, um novo lar... A verdade é que será sempre mais do mesmo e só.

Envelhecer é difícil. Quanto mais longe você vai, mais longe você fica de tudo o que parece ser bom ou melhor. Então você deseja ficar cada dia mais burro, entender cada vez menos, pra deixar de visualizar tão claramente a falta de sentido de todas as coisas do mundo. Não dá. E essa é a sua desgraça, a minha desgraça, a desgraça geral.

Hoje, cada passo a frente que dou me arrasta por metros para trás. A verdade é que eu não quero ir, eu quero voltar. Mas o que passou, passou. E não importa o quanto eu tente retroceder, eu nunca vou chegar lá.

Acaba comigo essa repetição constante de todas as coisas, de todos os novembros, que são sempre iguais, ano após ano, sempre assustadores e trágicos e cansativos.

Minha alegria tem se resumido às raras ocasiões em que eu constato que ainda tem cerveja na geladeira. Do todo que eu já vivi, dos tempos mambembes, da sensação real de liberdade, não me sobrou nada além de lembranças e nostalgia.

Houve um tempo em que viver era bom e em que eu buscava sempre mais. Diante do hoje, do aqui, do agora, antes nunca tivesse sido assim... Porque o pior de toda essa loucura é ter como comparar e saber o bastante pra poder se arrepender.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Caio

"Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço."

terça-feira, outubro 20, 2009

Mentirinha

- Anna, me empresta esse livro depois que você terminar de ler?
- Putz, cara, empresto, mas antes de você tem a minha mãe e a minha avó na lista.
- Nossa! Sua mãe e sua avó leem Bukowski?
- Ahã. Louco, né?

terça-feira, outubro 13, 2009

A franja

Eu não sei se a franja fez com que ela ficasse babaca ou se ela já era babaca antes da franja e eu é que não tinha percebido. O que eu quero dizer é que, depois da franja, a babaquice dela ficou insuportável. Aí que ela fica o dia inteiro mexendo na franja, até a franja ficar oleosa e você começar a sentir nojo de olhar. Veja, na verdade você começa a sentir nojo bem antes da franja ficar oleosa. Que ela tem um metro e setenta e cinco, pesa cinquenta quilos, usa calça branca, barriga de fora, e ainda diz que é gorda e que tem mais celulite que laranja podre. Que ela não para de falar de doença. Da sinusite, da bronquite, da pedra na vesícula, do cálculo renal, da hérnia de hiato, da úlcera, da dor na garganta, no baço, no fígado, na coluna, na omoplata, na dobra de trás do joelho esquerdo. Aí que ela se acha mais foda do que eu porque toma oitenta miligramas de cortisona por dia e eu tomo "só sessenta". Só. E todo dia ela diz que ela não entende como é que eu consigo desenvolver tão bem um raciocínio, como é que eu consigo falar tão bem, como é que eu posso ser tão inteligente e que abençoada que eu sou por, aos vinte e seis anos, ter uma casa própria. A verdade é que ela gosta de se fazer de vítima. Então ela é mais gorda do que eu, mais doente do que eu, mais burra do que eu e mais infeliz do que eu. Até mais pobre do que eu ela é, ainda que a porcaria da minha casa própria aos vinte e seis anos valha menos do que o carro que o pai dela comprou pra ela quando ela fez dezoito. Ela gasta só cinco mil por mês em procedimentos estéticos e já fez lipoaspiração, colocou silicone, aplicou botox e tudo mais. Até anal bleaching ela fez. Ui. E ela não para de falar de Deus e tem mil santinhos em cima da mesa e um terço pendurado no espelho do carro e vai à missa todo domingo e ao clube de swing com o marido todo sábado. E fala que fulana é vagabunda porque "mal divorciou já tá dando pra outro". E mente. Ela tem coragem de te dizer que foi assim, mesmo sabendo que você sabe que foi assado porque você estava lá e você viu. E ela manda chamar a copeira lá atrás pra buscar o chá gelado dela na porcaria do frigobar que fica a cinco míseros passos da cadeira onde ela senta sua bunda magra o dia todo pra ficar oleando a franja e reclamando de dor. E quando o chá gelado acaba ela manda a copeira na panificadora comprar mais e diz que não pode ir porque tá de salto e "as calçadas de Curitiba detonam com os taquinhos dos sapatos". E ela é real. O pior é que ela é real. Se me contassem...

quarta-feira, outubro 07, 2009

Correspondência extraviada X

R.,

Já é outubro e ainda venta muito e faz frio nessa cidade cinza. Lembro-me que foi em uma noite como a de hoje que tu vieste. Teus lábios estavam gelados quando me beijaste o rosto. Teus dedos arroxeados quando pegaste a chave do carro e me ofereceste a carona que eu, tola, não aceitei.

Dessa vez foi o vento que me trouxe a saudade.

Faz tempo, imprimi tuas letras. Deixo-te junto de DFW na estante. Escrevi teu nome no topo da primeira página, como que para não esquecer que são teus aqueles versos. Os papéis já estão amarelando. E toda vez que te leio me vem essa sensação de luto.

Fico imaginando os teus (ou meus, ou dela) movimentos circulares para levar o cigarro à boca. Tua história me passa pela cabeça como um filme.

Ando te repetindo na esperança de que tu me encontres procurando por ti mesmo, é fato. Nestes tempos de pura eletricidade, não é impossível que aconteça. Engraçado que eu não me canse jamais de me alimentar de sonhos e delírios. Essa estranha sensação de tangibilidade. Sei que, em algum lugar, tu pensas em mim. Assim não fosse e que sentido faria toda essa obsessão? Há de haver algum tipo de ligação inexplicável entre nós.

Espero-te ensaiando as palavras. Há tanto para ouvir de ti, sobre teus motivos, mas não acredito que tu vás falar. Além do mais, já imaginei todas as respostas possíveis para minhas perguntas, de modo que a verdade já não me importa mais. Então vou te falar das lembranças do teu primeiro retorno, da janela grande e do jazz e do teu sorriso bordô. Depois vou te falar do engano, da tolice que foi tua nova partida, do quanto me torturei, em todos esses anos, pelas coisas que te disse sem querer dizer. Por fim, vou te falar de mim e espero, então, que fales de ti. Preciso finalmente saber quem tu és.

...

quinta-feira, outubro 01, 2009

Planos

Amanhã eu vou gravar em um CD a minha suave voz delicadamente articulando o célebre discurso que consiste na repetição incessante da frase "vá tomar no meio do olho do seu digníssimo cu", pra te mandar pelo correio em um discman com o botão do repeat travado.

domingo, setembro 20, 2009

Caio

"E eu gostava dele, merda, sempre acabava gostando das malditas pessoas e todas as suas loucuras."

domingo, setembro 06, 2009

Enquanto isso, na fila do supermercado

- Ah, mas eu odeio quando me chamam de playboy...
- Porque?
- Porque isso é um rótulo, eu odeio rótulos.
- As pessoas geralmente gostam de rótulos, tipo, grunge, punk, emo, etc...
- Isso é porque são todos uns cuzões que precisam fazer parte de um grupo pra se auto afirmarem e se sentirem confortáveis na sociedade, precisam da sombra de um estilo, gangue, grupo para serem alguém. Playboy não precisa disso.
- Ah não?
- Não, playboy se auto afirma e se sente confortável quando veste o SEU Armani e sai dirigindo o SEU carro do ano, enquanto fala no SEU celular de última geração.
- Tudo presente do papai...
- ...
- ...
- Putz, essa moça do caixa é muito enrolada, meu.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Dos porquês

Primeiro era por causa da utopia, da distância e tudo mais. Cansei.

Agora as coisas parecem estar se tornando reais e se o silêncio continua é por culpa dessa raiva, dessa mágoa, por saber de ti somente pelos outros, por esse falar de mim constante, pelo blá blá blá de não quero perder contato que eu sempre vi impresso junto com tuas letras. Pro inferno com essas amenidades. Tudo sempre foi muito mais intenso do que isso. Não?

Tem também o fato de que não há nada de bom para ser dito. Mas isso não tem importância.

Além do mais, e isso começou quando havia só a utopia e a distância, não quero mais saber de todas essas cartas embrulhadas em papel carbono. Não que eu vá escancarar nossos problemas, nossos segredos, em manchetes de imprensa marrom. Será só aqui mesmo, o fundo cinza, e serei o mais indireta que puder. Só não tolero mais essas manchas negras nos meus dedos, a ansiedade, a sensação de que reside um crime bárbaro em cada tecla da máquina de escrever. Cansei de viver na clandestinidade. Não que eu não possa mudar de idéia. É mesmo uma forma auto-destrutiva de te punir.

Então, as primeiras coisas que tu precisas saber é que sinto raiva, que estou pouco me lixando pro fato de que a raiva que sinto pode parecer injustificada e que não vou gastar meu dinheiro com selos.

Aliás, essas são as únicas coisas que tu precisas saber.

Me disseram que talvez tu venhas e eu sei que eu vou continuar por aqui. Isso me assusta. Isso me estampa um sorriso idiota no rosto. Agora parece que não há mais distância. Há utopia?

Só escreva se for pra fazer um compêndio dessa tua vidinha misteriosa. Esse negócio de estou-com-saudades-manda-notícias já me encheu. É muito fácil não dizer mais nada e esperar. E eu bem sei que tu és mesmo capaz de fazer isso pra sempre.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Voltando...

Que vez ou outra vem uma tempestade destelhar as casas da vila e que precisa mês ou mais de mutirão pra cobrir tudo de novo, pra não mais deixar a água entrar.
Que quando chove fica feio o dia e que em dia de dia feio, as pessoas ficam feias também.
Que nesses dias de chuva as meninas não saem na rua com suas saias rodadas e sandalinhas de couro.
Que a chuva afasta também os moleques da vila que quase sempre estão na rua e só fazem jogar botão valendo dinheiro pra comprar doces na mercearia do Seu Moreira.
Que o Seu Moreira abre a mercearia mesmo quando chove, mesmo sem telhado, mesmos sem o dinheiro do jogo de botão dos moleques, porque ela, a mercearia, funciona vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, exceto aos domingos, das sete às oito, que é hora de missa.
Que a missa fica vazia quando chove.
Que quando chove, a água lava o petit-pavé da calçada e que as botas dos homens que têm que trabalhar com ou sem chuva sujam de barro o petit-pavé recém lavado.
Que Dona Anna morre de medo dos trovões, mas se faz de durona e sorri.
Que o cheiro da chuva só a chuva tem e que é bom adormecer com o ruído das gotas d'água espatifando nas poças que se formam entre os paralelepípedos.
Que mais cedo ou mais tarde a tempestade para e volta a brilhar aquele sol de primavera que deixa o céu alaranjado.
Que a noite, com ou sem chuva, é sempre bonita.
Que alguém uma vez disse que vale a pena viver por essas coisas.

quarta-feira, setembro 02, 2009

De mim, nos outros...

"(...) Creio que a explicação é a seguinte: Acontece frequentemente que as verdadeiras tragédias da vida ocorrem de maneira tão pouco artística, que nos ferem com sua crua violência, sua absoluta incoerência, sua absurda falta de sentido, sua total ausência de estilo. Afetam-nos exatamente como nos afeta a vulgaridade. Dão-nos uma impressão de mera força bruta e contra isto nos revoltamos."

Oscar Wilde: O Retrato de Dorian Gray

domingo, agosto 23, 2009

Caio

"Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa."

quinta-feira, agosto 13, 2009

Correspondência extraviada IX

R.,

Pra te dizer que ando deserta, moço. Das idéias, dos sentidos, dos sonhos. Por isso, o silêncio.

Perdi a conta do tempo. Quantos anos, mesmo? Melhor esquecer. A verdade é que poderiam ser cinquenta, esse gosto amargo há de ficar pra sempre.

Tenho largado pensamentos demais pelos papéis e guardanapos. Nada se encaixa, é fato, mas tu entendes, eu sei que tu entendes.

Essa coisa de te querer mas não te precisar. Te fantasio pra aliviar a loucura que é não te ter por perto. Quase funciona. Tenho as cartas, as poucas, do tempo em que tuas respostas tardavam mas vinham, tenho meus delírios, vinho frisante na geladeira, Charles Mingus, ele, no player (ouço, sem cessar, "há pelo menos 163 anos"). E é tudo o que tenho.

Somos mesmo feitos de eletricidade. Éramos, antes, lâmpadas em corrente contínua (embora a alta voltagem, embora as mudanças de rumo). Agora, eu aqui e tu sabe-se lá onde... luminárias solitárias mas ainda acesas.

Eu sei que há de chegar o dia. Te vejo próximo, cada vez mais. Esperar atormenta. A ansiedade é quase outro ser em mim. Busco calma e já não sei mais onde encontrar. Me desligo, pois. Tento, ao menos. Deixo de sentir os cheiros e os gostos, deixo de escutar poesia e música. Tenho perdido tantas coisas da vida, meu bem, por culpa dessa ausência tua, violenta e cruel e com a qual eu jamais consenti, nem mesmo nos meus momentos de profunda ira - a verdade, é que a minha ira, meus olhos vermelhos, o sangue me latejando forte nas veias, tudo isso também vem da tua ausência. Dá pra resumir dizendo que todas as coisas vêm, ou deixam de vir, dessa tua maldita ausência. Mas o que atormenta mesmo é a consciência desse sentimento sem sentido, é não conseguir entender porque, como ou quando. Essa minha falta de memória de nós que me atira imagens de coisas que nunca existiram. Dói, meu bem, dói.

Tu, que antes era a história que eu mais gostava de contar, te tornastes uma lenda. Não falo mais sobre ti porque julgam-me louca, é bem verdade. Eu mesma questiono tua existência, vez ou outra, especialmente quando da melancolia. Quando penso em tudo que poderia ter sido e não foi digo a mim mesma que não, não poderia ter sido e nunca será, porque tu és apenas uma lenda, um fruto da minha esquisofrenia não diagnosticada, a mentira que inventei pra tentar crer que existem outros como eu, que se inspiram espalhando nicotina pelos bairros dessa cidade cinza e fria, cientes da utopia que há em todas as coisas. De fato, esse tanto de coincidências entre nós reforça a idéia de que tu não existes. E é nela que me forço a acreditar quando sinto essa saudade sufocante de ti.

Tenho oscilado mais do que nunca. Ora desejo que tu voltes pra poder te dizer todas as coisas boas que precisam ser ditas. Ora desejo que tu voltes pra te impor, dissimuladamente, minha independência, essa falsa hipótese de que tu não me faz falta, te fazer sofrer por todo o sofrimento que tua partida sem volta me causou. De um jeito ou de outro, desejo sempre que tu voltes. E nós dois sabemos que, no fim, as coisas boas serão ditas, pois, ainda que haja, de fato, uma certa independência, o que impera é esse meu desejo de viver contigo as coisas que não tivemos tempo de viver.

Espero que essa seja a última carta sem resposta. Espero que entendas a mensagem. Mas tu bem sabes que eu vivo de esperar, meu bem. E que uma decepção a mais não pode me derrubar.

...

quinta-feira, julho 16, 2009

Dessas epifanias

Um mês ou pouco menos, não sei bem ao certo. Alguma coisa que antes acontecia parou, de repente, de acontecer. Sabe-se lá porque, preciso desesperadamente do estímulo que antes precisava de mim.

Ontem caminhei, espalhando nicotina, pelas ruas do Centro. Hoje comprei caderneta nova e uma caixa de cervejas. Agora procuro uma música que toque, revejo fotos, releio cartas. Nada adianta.

É como se o manobrista do estacionamento tivesse girado a chave geral do Opala que eu não tenho. Tudo parou, o manobrista foi despedido e eu não sei onde fica a alavanca pra fazer as coisas voltarem a funcionar - o que me obriga a usar metáforas estúpidas pra explicar esse vazio de idéias, o que faz com que esse vazio de idéias se torne um amontoado de coisas desnecessariamente ditas.

Essa ausência de extremos e de surpresas. Isso tudo mata alguma coisa em mim. Me questiono se será sempre esse acordar com beijo de bom dia, tomar banho, escovar os dentes, caminhar para o trabalho, trabalhar, controlar as gírias e os palavrões, ouvir os mesmos comentários dos chefes sobre a excelência do meu trabalho e dos estagiários, sobre a loucura que eu, aparentemente, aparento ter, voltar pra casa, pra tela, pra cama. Me pergunto se será sempre essa coisa, esse isso.

Tenho mil respostas, mas todas acabam sempre nos meios, no nada, naquela cara de, grande coisa, eu já sabia.

Prefiro, pois, um atropelo non sense a contar até o fim uma história sem graça nenhuma.

quarta-feira, julho 15, 2009

Chega!

- Ô, põe um Michael Jackson pra tocar aí!
- Ai, não! Eu não aguento mais ouvi falar do Michael Jackson.
- Você não gosta?
- Independe. Só tode saco cheio de ouvir falar dele e da morte dele e da mumificação dele e do complexo de Peter Pan dele e da máscara cirúrgica que ele usava e da dívida de vinte e quatro milhões de dólares que ele deixou. Só se fala nisso!
- Pô, Anna, mas o que você queria? Ele morreu subitamente! Foi, tipo, uma surpresa.
- Ah, claro, sendo normal como ele era, eu diria que iria viver até os noventa...

quarta-feira, julho 08, 2009

terça-feira, junho 30, 2009

sábado, junho 27, 2009

Correspondência extraviada VIII

R.,

Têm me atormentado estas noites de insônia e por algum motivo que eu desconheço ou que me nego a enxergar, tu tens estado presente.

Hediondo. É o que tu és. Quase te vejo em uma das entrevistas de DFW.

Concluí que não há motivo, que não há desculpa, que as coisas simplesmente não poderiam ter acontecido da forma como aconteceram. É cruel, é injusto, é triste. Mais triste ainda é saber que tens nas mãos o poder de reparar os danos, mas não o fazes. Mais triste ainda é não conseguir te convencer, é ver todas essas cartas voltando, sabendo da tua amizade com o carteiro e da tua técnica pra abrir os envelopes sem violá-los e do teu sorriso dúbio quando assinala o quadrado do "mudou-se" para que as cartas retornem às minhas mãos e às minhas lágrimas.

Hediondo.

No momento estou tonta de cerveja e cigarros. A realidade dorme. Penso em ti. Sinto raiva. Sinto raiva porque sei, de alguma forma, que também pensas em mim e que lamenta o tempo perdido e que imaginas, contrariado, que ele não pode ser recuperado. Sei que ensaias meu número no teclado do telefone, mas desistes antes mesmo de completar o prefixo. Sinto mais raiva por tua fraqueza de agora do que por meus deslizes passados. No momento, maior que a saudade, que a vontade, que o desejo, somente a raiva.

...

sábado, junho 20, 2009

Da falta que você faz

Hoje é um daqueles dias em que você faz falta. Estaríamos, agora mesmo, naquele bar no meio do caminho, se a sua mudança não tivesse feito com que esse bar fosse parar no meio do Atlântico.

Na verdade, você faz falta em todos os dias. Faz falta aquela certeza de que bastava um telefonema e, em meia hora, estaríamos no Durva ou em outro lugar qualquer vomitando mazelas e dando risadas.

No dia em que você ligou bateu em mim a ilusória esperança do "putz, mulher, voltei!". Depois passou, é claro, e fico feliz com o fato de que as coisas estejam dando certo por essas bandas.

Mas você faz falta. Especial e egoisticamente hoje. Um dia cinza, frio, triste. É... você faz mesmo muita falta.

quinta-feira, maio 07, 2009

Caio

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

terça-feira, maio 05, 2009

Pegadinha

- Cara, parece mentira...
- Mas é!
- Sério???
- Não. Brincadeira. Desculpa aí.
- Ahn...

domingo, abril 19, 2009

Divãneando

Há de ser o tempo, o passar do tempo. As coisas tendem a se dissipar. As verdades despropositadas de antes dão lugar a mentiras propositalmente malignas. As promessas tolas cumpridas à risca dão lugar a desculpas esfarrapadas.

Parece que quanto mais você sabe, menos você entende. Quanto mais você conhece, menos você aprova. Você se obriga a acreditar que não sabe e não conhece e só pode ser por isso que não entende e não aprova. Mas a verdade, ainda que não seja pior do que a ilusão, é que você já viu tudo e tudo é aquilo ali mesmo e não adianta tentar se enganar.

As coisas acabam se tornando estranhas, distantes. E nunca é da noite pro dia, como alguns por aí dizem. O mais lamentável é perceber a coisa toda indo embora lentamente. Por fim, o momento estarrecedor do "eu já fiz tudo o que podia ter feito e já disse tudo o que podia ter dito".

Todo mundo se atrasa. Uns se atrasam mais e sabe-se lá como chegam sempre na hora exata. Outros se atrasam menos e chegam na hora errada ou não chegam nunca onde deveriam, de fato, chegar. O problema reside em quando acaba sendo bom estar sozinha quando você deveria estar acompanhada e em quando o oposto disso te incomoda. Aí é o fim. E pro fim não há remédio...

sexta-feira, abril 17, 2009

No elevador

- Oi, tudo bem com a senhora?
- Olha, podia estar melhor, viu? Minha melhor amiga tá morrendo no hospital, minha sogra foi enterrada ontem, meu irmão tá internado no Pinel porque ficou maluco da cabeça. Pinel, né? Pinel!
- ...
- Pra ajudar, meu filho é gay e quer me apresentar o namorado. Vê se isso é hora pra me apresentar namorado. Vê se isso é hora pra ser gay! Olha, eu vou te contar... essa vida não é fácil!
- ...
- E minha amiga lá, fazendo cocô naquelas bolsas... como é que chama?
- Colostomia.
- É, colostomia! Ui, só o nome já me dá nojo.
- ...
- Eu até fui no salão fazer um coque pra ver se pelo menos o cabelo não me atrapalha!
- ...

sexta-feira, abril 10, 2009

Caio

"No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio."

quinta-feira, março 26, 2009

Do moço que escreve, às vezes, como se moça fosse...

Eu me sentei no sofá do bar e abri uma lata de cerveja.

Porque não havia mais nada a fazer passei a contar o tempo na velocidade em que os segundos passam.

E foi só por isso que percebi que, do momento em que me sentei no sofá do bar até o momento em que ele chegou e fez o mesmo, passaram-se exatos novecentos e vinte e três segundos.

Do sofá, da cerveja, dos atrasos, disso tudo... veio nada além do silêncio e de um certo constrangimento.

Lembrei-me, então, sabe-se lá porque, do moço das cartas, que escreve, às vezes, como se moça fosse.

Até que transbordou o silêncio e transbordou o constrangimento. Me levantei, paguei a conta e saí do bar.

Seria diferente se ele tivesse em si um pouco mais do moço que escreve, às vezes, como se moça fosse.

Seria diferente e melhor.

Mas foi o que foi e acabou não sendo nada.

quinta-feira, março 19, 2009

Inútil

E organizar meus trezentos e cinco livros em ordem alfabética me deu essa nítida, mas absolutamente ilusória, sensação de que a minha vida finalmente entrou nos eixos?

quinta-feira, março 12, 2009

Excuse me, please, I'm lost

A ficha só caiu quando o moço da Agência de Viagens entregou nas mãos dela o e-ticket e soltou um "pronto, foi por esse pedaço de papel que você acabou de pagar essa fortuna".

Quando ela, dissimulada que só, disse que voltaria em vinte dias, eu, em um acesso de Poliana Feliz, sorri, fiz de conta que era verdade e depois sorri maior ainda.

Mas, obviamente, não é verdade, o bilhete de ida e volta foi só uma parte do plano de imigração ilegal, tal e qual o discurso de mochileiro, a entrada em Londres por terra, saindo de Paris, e os mil e tantos euros na conta-corrente pro tio da alfândega londrina não pensar que ela é só mais uma candidata latina a dish-washer na terra do Big Ben (o que, pelo menos a longo prazo, eu tenho certeza de que ela não é).

A verdade é que ela vai mesmo e é pra sempre. Lógico que é aquele "pra sempre" tangível, mas já basta pra aflorar a masoquista e antecipada pergunta:

- Puta merda, mulher, quando diabos eu vou te ver de novo?

Eu nem perguntei. Eu sou durona. Pelo menos eu garanto ser durona até que o avião com ela dentro decole da pista do Afonso Pena e suma do meu campo de visão. Aí, meus caros, vai doer. Pra isso, falta apenas pouco menos de um mês.

Lembro como se tivesse sido ontem. A fila das crianças de uniforme pra fazer uma cesta no basquete na aula de educação física. Na minha vez, ponto, voltei pro final da fila e, com ela (e com meu par de tênis le-petit), comemorei toscamente a cesta feita, como só as crianças de onze anos conseguem fazer. Daí pra frente tiveram as meninas mais populares do colégio, a amizade mais falsa do mundo, uns dez, quinze ou vinte homens, um "casamento", a chacina do Cajuru, as mudanças, as mortes tão doloridas.

As pessoas foram entrando e saindo da "nossa vida", foram passando. Nós trilhamos o caminho juntas... até agora.

Será estranho quando existir entre nós, eu e ela, uma distância de mais de dois trilhões de quilômetros. Definitivo, desse jeito, depois desses quatorze ou quinze anos, foram só uns quatrocentos e tantos... e, ainda assim, com uma semana de bar por mês, o que não curava a abstinência, mas matava a sede.

Agora vem um arrependimento pelos "nãos" que eu já disse, e uma promessa (que eu realmente pretendo cumprir) de "pouco menos de um mês" sem desculpas, por mais sinceras que sejam.

Agora vem essa mistura de "estou feliz pra caralho por você" e "por favor, não vá", que, por sinal, ainda vai acabar me matando.

O fato é que ela vai e não há nada que eu possa ou queira fazer pra impedir. Ela não foi feita pra ficar, ela foi feita pra partir.

Então, que ela encontre o melhor do lado de lá do oceano são meus mais sinceros votos... ops, não, ela odeia clichês (eu também), então... que, antes de tudo, ela me perdoe a sinceridade e o melodrama.

Depois... que ela se divirta pra caralho e ganhe muito muito dinheiro (o suficiente, ao menos, para pagar por centenas de ligações internacionais) e que seja feliz até doer é o que eu, de verdade, desejo.

Que, pra poder aguentar a saudade, ela superficialmente me esqueça, nos esqueça, mas tenha de mim, de nós, as melhores memórias. Desejo que, se apegando a essas memórias, ela nunca se sinta sozinha, porque, ainda que longe, eu vou continuar do lado de dentro e versa-vice. Que ela saiba que pode contar comigo ao ponto extremo de eu vender tudo que tenho e comprar uma passagem pra Paris.

Um sorriso em todas as manhãs e um sono profundo ou muita cerveja gringa nas madrugadas frias do velho continente é o que eu desejo.

Que ela se foda tantas vezes quantas forem necessárias pra criar carcaça e que sempre supere os tapas na cara que a vida der. Que todas as velhas experiências sirvam pra fazer das novas as melhores. Que ela se vire, que ela se encaixe ou se desencaixe. E nada de perfeição, nada de sutileza, que isso enjoa que só. Que tudo pra ela seja, mais do que nunca, real.

E que eu aqui aguente o que parece ser o maior de todos os trancos que eu já tomei, sabendo que, por mais difícil que seja, a verdade é que a vida não teria graça nenhuma se Londres fosse logo ali...

quarta-feira, março 11, 2009

A máxima da máxima

Ela era tão foda que os cinco segundos em que ela ficou no ar fazendo figuração cara de espanto no filme B de um diretor chinfrim a tornaram famosa.

segunda-feira, março 09, 2009

Caio

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair assim num poço de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."

domingo, março 08, 2009

Insight

O pior é o inesperado. Porque você não sabia, ninguém te avisou, que de um minuto para o outro tudo ficaria assim, tão diferente.

Cada quadradinho do petit-pavé da calçada. Ninguém te falou da sensação estranha que você sentiria ao passar sobre as grades de respiro das linhas do metrô. Cada um dos carros importados que passam pela rua. Você não sabia que olhar pro alto poderia ser surpreendente. Cada uma das putas, cada um dos bêbados, cada um dos loucos. Você nota a diferença entre os bolivianos gêmeos que sempre estão no bar da esquina. As madames passeando na rua com seus cachorros, todas elas, têm uma história de vida, interessante ou não, que você, subitamente, parece conhecer.

Você não imaginava sentir o vento dessa forma, agressiva, como que tentando te ajudar a soprar pra bem longe, como você sempre desejou, querendo te obrigar a ser o que você sempre quis ser, mas nunca teve coragem pra assumir.

A um par de horas atrás, nada fazia sentido. Às vinte e uma horas e cinco minutos do dia oito de março de dois mil e nove as coisas continuavam sem fazer sentido, mas foi nesse quase exato momento que isso passou a te incomodar.

Você, parado, perdido, sozinho, no meio da rua, então, se pergunta "e agora?". E uma brasa interna te queima as entranhas quando você deduz "agora nada".

Agora você volta pra sua casa, vai dormir na sua cama, acorda cedo amanhã e vai trabalhar, indefinidamente, até o nunca. Você não pode parar em uma bar e tomar uma cerveja, você não pode sentar pra conversar com o hippie sujo que vende artesanato na rua, você não pode ir passear no parque porque já passa das dez, é perigoso e, além disso, você tem que acordar cedo amanhã. Então você segue com sua vida medíocre, ganhando dinheiro pra poder gastar, porque você é apenas um animal assustado. Você continua a suportar pessoas e situações que você não merece porque, no raso, você pensa que é tarde demais pra tentar mudar alguma coisa.

No fundo, você quer sacar suas economias e comprar uma arma pra matar alguém sem importância. Ou uma passagem pro Zaire. Ou um curso de fotografia. Ou uma roupa de astronauta. No fundo, não importa o quê, desde que não seja o mesmo.

Mas você sabe, e lamenta, que nada vai mudar. Porque não dá, porque não pode, porque não deve.

E, no fim das contas, aquele seu momento único de minutos atrás acaba não valendo porcaria nenhuma.

sábado, março 07, 2009

Correspondência extraviada VII

R.,

Insanidade, talvez... passei a me perguntar se ainda pensas em mim.

A inútil verdade é que cá estava eu, sentada em minha cadeira, quando acendi um cigarro e subitamente tu me veio, como uma lembrança, memória ou desejo, não sei... E essa tua chegada repentina nada me trouxe senão uma certa agonia, um estalar de dedos de quem tenta exorcizar demônios inexistentes, nicotina de tragada profunda queimando os pulmões.

Queria te dizer que é como mágica. De repente me deparei com um DFW empoeirado na velha estante (sempre ele nessas minhas cartas perdidas) e um só conto bastou pra trazer esse gosto acre, corrosivo, à minha boca. Lembrei de ti e nem sei porque.

O que me mata são essas interrupções. Porque quando essa coisa surge ela vem como uma tempestade de verão que serve pra te pegar desprevenido no meio da rua, sem guarda-chuva. E se te avisam "olha, vai chover", você acaba indo pra debaixo da marquise e a chuva não tem o mesmo efeito. Essas interrupções me matam.

Tratemos isso como um interlúdio.

Eu ia dizendo que é como mágica. Às vezes tua presença é tão forte que me imagino louca ou obcecada. De fato é o que devo ser, estar. Porque um milhão de anos deveriam ser suficientes pra te apagar de vez, mas passados dois milhões deles, cá estou eu, a te escrever de novo essas linhas tortas e sem propósito.

A partida sem volta de Luana, além de todas as outras coisas, me faz perder a esperança de sonhos que se tornam realidade.

Já te disse que muito antes de que tu surgisse, tu me veio em sonho. Sonho que não posso contar, porque não lembro, mas sei que foi sonho e que depois se tornou realidade. Ficou em mim essa esperança de repetição da história. Ingenuidade a minha, bem sei.

Ainda não há nada a ser dito.

Eu tenho te procurado nas referências, entende? Uma carta anônima, um telefonema mudo. No fundo sei que são só os moleques, aqueles, a me pregar peças. Mas te procuro mesmo assim e de certa forma acredito que posso, um dia, talvez, te encontrar.

Enchendo a cabeça de ruído eu abafo o som de Chico Buarque que vem do bar em frente ao prédio. E quando me falta idéia, coloco Fiona Apple pra tocar.

Eu só não aceito que seja assim, sem ser. E é por isso que acredito firmemente em algo mais, em algo além. Eu diria que imagino. Não, não é isso que me mantém viva, mas é isso que me embala o sono. E a hora incerta de dormir acaba sendo a melhor hora do dia.

Sei sequer onde é que tu estás, se na Capital, se logo ali, espalhando nicotina pelo Bigorrilho. E esse não saber de ti dói, ainda que não seja o que mais dói.

O que mais dói, de fato, é o arrependimento pela minha pobreza de espírito de outras épocas, é não saber porque diabos não mais sei de ti, onde estás, o que fazes, quando voltas, se é que voltas. Essas minhas mensagens tendo que ser atiradas ao mar em velhas garrafas de vinho barato - isso dói mais do que tudo.

...

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Caio

"O que tem me mantido vivo hoje é a ilusão ou a esperança dessa coisa, 'esse lugar confuso', o Amor um dia. E de repente te proíbem isso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida."

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Caio

"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros."

sábado, janeiro 24, 2009

Regrets

- Esse gosto amargo é da derrota, Anna. Toma aqui um refrigerante que passa.
- Eu não bebo refrigerante.
- Não, é? Desde quando?
- Promessa de ano novo.
- Hum... que cor você usou no ano novo?
- Preto e branco. Tipo... equilíbrio, sabe?
- Sei. Devia ter usado vermelho.
- Ah, eu nem acredito nessas coisas...
- ...
- É. Eu devia ter usado vermelho.