sábado, junho 27, 2009

Correspondência extraviada VIII

R.,

Têm me atormentado estas noites de insônia e por algum motivo que eu desconheço ou que me nego a enxergar, tu tens estado presente.

Hediondo. É o que tu és. Quase te vejo em uma das entrevistas de DFW.

Concluí que não há motivo, que não há desculpa, que as coisas simplesmente não poderiam ter acontecido da forma como aconteceram. É cruel, é injusto, é triste. Mais triste ainda é saber que tens nas mãos o poder de reparar os danos, mas não o fazes. Mais triste ainda é não conseguir te convencer, é ver todas essas cartas voltando, sabendo da tua amizade com o carteiro e da tua técnica pra abrir os envelopes sem violá-los e do teu sorriso dúbio quando assinala o quadrado do "mudou-se" para que as cartas retornem às minhas mãos e às minhas lágrimas.

Hediondo.

No momento estou tonta de cerveja e cigarros. A realidade dorme. Penso em ti. Sinto raiva. Sinto raiva porque sei, de alguma forma, que também pensas em mim e que lamenta o tempo perdido e que imaginas, contrariado, que ele não pode ser recuperado. Sei que ensaias meu número no teclado do telefone, mas desistes antes mesmo de completar o prefixo. Sinto mais raiva por tua fraqueza de agora do que por meus deslizes passados. No momento, maior que a saudade, que a vontade, que o desejo, somente a raiva.

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