sábado, novembro 24, 2007

De mim, nos outros...

"Fora de você não passa tempo nenhum. É incrível. O balé da tarde lá embaixo é em câmera lenta, os movimentos lá em cima de mímicos em geléia azul. Se quisesse você poderia facilmente ficar ali pra sempre, vibrando por dentro tão depressa que flutuaria imóvel no tempo, como uma abelha sobre alguma coisa doce.

(...)

Onde você está agora é calmo e quieto. Vento rádio gritos água esguichando aqui não. Sem tempo e sem som real a não ser seu sangue latejando dentro da sua cabeça.

(...)

Olhe só. Você pode ver a complicação toda, azul, branca, marrom e branca, mergulhada num brilho aquoso de vermelho profundo. Todo mundo. Isso é o que as pessoas chamam de vista. E você sabia que de baixo você não olharia assim tão alto lá em cima. Você agora vê o quanto você está lá em cima. Você sabia que lá de baixo não dava pra dizer.

(...)

O tempo existiu esse tempo todo. Não dá pra matar o tempo com seu coração. Tudo toma tempo. As abelhas têm de se mexer muito depressa pra ficarem paradas.

(...)

Flores de metal se abrem na sua língua. Nenhum tempo mais para pensar. Agora que existe tempo você não tem tempo.

(...)

A mentira é que é uma ou outra. Uma abelha parada, flutuando, está se mexendo mais depressa do que se pode pensar. Lá em cima a doçura a deixa louca.

(...)

Isso é para sempre. Pise na pele e desapareça.
Olá."

David Foster Wallace: Para sempre em cima

quinta-feira, novembro 22, 2007

Piada interna

- Ai! Minha cabeça!
- É, hoje é o dia! Faz pouco uma moça bateu o queixo aí...
- É... hoje é o dia...

segunda-feira, novembro 19, 2007

Correspondência extraviada III

R.,

Primeiro eu preciso explicar uma coisa. Veja... as últimas cartas foram dramáticas. É óbvio que não é nada daquilo. Bom... quase nada daquilo. Eu só estava sem idéias, então, fantasiei um pouco aquele nosso lance pra, você sabe, escrever alguma coisa agradável e romântica e blá, blá, blá. Enfim, eu já fiz isso milhões de vezes. Não é grande coisa.

Feito.

Ok. Então eu acendo um cigarro logo depois de ter esmagado uma bituca no cinzeiro e lamento por não ter mais cervejas na geladeira. E essa música... "je t'aime tant, je t'aime tant" - certo, isso não tem nada a ver com você, mas é o que a música diz e eu não consigo parar de ouvi-la.

Você... bem, você sumiu. Odessa?

Enfim...

O problema, moço, é que não sabemos de nada.

Eu não sei nada sobre você a não ser que você lê David Foster Wallace.
Você não sabe nada sobre mim a não ser que eu admiro a arte de Edward Hopper.
Além daquelas outras coisas... todas irrelevantes.

Mas eu sei que você sabe que eu não sei mais quem eu sou.
Ok. Eu não sei se você sabe, mas eu não sei mais quem eu sou.

E você sabe que eu sei que você não sabe mais quem você é.
Ok. Eu não sei se você sabe que eu sei. Na verdade, eu nem sei se você não sabe mais quem você é.

Tiros no escuro.

O fato é que temos algo em comum. Você gosta de jazz. Eu tenho insônia. E vice-versa.

Acredita que outro dia fui comprar um Kieslowski pela internet e encontrei um comentário seu sobre o filme no site? Você gostou. Eu também. Pois é...

Então, será que você poderia aparecer, qualquer dia desses, pra me tirar dessa rotina cigarros-cervejas-je t'aime tant? Ou, quem sabe, juntar-se a mim nesses vícios e bobagens e tudo mais? Me ajudar a descobrir alguma coisa? Hã?

Não?

Ok. Certo. Então... será que você poderia, pelo menos, deixar um bilhete em baixo da minha porta, ou mandar um e-mail, ou qualquer coisa assim, dizendo algo do tipo: "Foi bem bom este começo de te conhecer, mas...adeus.". Já está bom pra mim.

Não totalmente bom, na verdade. Assim... eu realmente apreciaria se você justificasse o "adeus". Você sabe... algo como: "Você é feia, boba, chata e tem cara de mamão!" ou "I'm really sorry, lady, but you sucks!".

Obrigada!

...