sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Súbito

Harry Callahan apontando uma arma para a minha cabeça e dizendo "Go ahead, make my day". Eu me rendo.

Uma maquininha de apagar memórias e nada de morcego entrando pela janela, nada de taça de morangos com creme e minha irmã imitando Amelie, nenhuma despedida chorosa na porta do elevador, nenhum penteado novo, sem notícias da morte de Jeremias ou dos filhotes de Domitilla, não mais o fuso horário inconveniente, nem o encontro marcado pra daqui poucas horas, nada de teatro com os dedos dos pés e refeições no chão da sala e nada de desilusão ou desencanto.

A pior e a melhor parte. Só silêncio. E vinho barato.

Ela liga lá do outro lado do mundo em plena tarde de sexta-feira e eu sorrio ao ver o número estranho e longo no identificador de chamadas. Aí que nada mudou a não ser pra pior. O telefone de novo no gancho e uma lágrima estúpida. Maldigo a vida, o cheiro do ralo da cozinha e a cor cinza amarelada do meu sofá.

Fora daqui tem futuro, tem dia amanhecendo com jazz no despertador, tem a barba amarela daquele moço cheirando a cigarro. Fora daqui tem pouca realidade e uma estrada longa entre o agora ou nunca, sem pressão.

Aqui é só muito sono, muitos sonhos. E essa solidão de minutos marcados que eu às vezes desejo que dure pra sempre.

domingo, fevereiro 12, 2012

Dimensões

Encantador o silêncio. A tua, a minha, a nossa voz calando em dois dedos simetricamente alinhados sobre meus lábios. O ruído dos carros em alta velocidade na madrugada lá fora. Dá pra ouvir o som da lua, tu dizes, e esticas teu braço nu pra alcançar o maço de cigarros sobre a banqueta azul que serve de criado-mudo.

Do lado de cá um ruído incessante de marteladas e os miados do gato me tirando a concentração.

De novo o Jardim das Delícias, de Bosch, e eu, timidamente, confessando que preciso de mais metáforas para estas tuas tragadas profundas. Tu notas que é tarde e que as putas e viciados da rua já não estão mais ali. Depois me oferece o cigarro e ri da nossa mania de dividir todas as coisas.

O tempo, aqui, é só meu. Tenho música, cerveja e solidão. A realidade, mais uma vez, dorme.

A janela. É piegas, mas a verdade é que teu perfil está emoldurado pelo luar de um modo que só me permite ver tua sombra e a brasa de teu segundo cigarro queimando na escuridão fajuta. Penso na foto que essa imagem daria com uma daquelas câmeras dos rapazes do sul. Lembro da nossa última viagem sem rumo. Um sorriso.

Para amanhã, mil planos. E só.

É efêmero. A mariposa rodeando a lâmpada já acesa e teu olhar perdido no horizonte de concreto e fotografia. Algumas horas velozes e não teremos mais cigarros, nem silêncio, nem luar. Aí tu me observas, pensativo, como quem dá mais importância às lembranças do que aos momentos, eu te mato, secreta e cruelmente, te cobro o silêncio que há minutos atrás teus dedos me impuseram, apago novamente a luz e adormeço.

Aqui, um breu que brilha, a música no volume mais alto possível, minhas veias abertas jorrando sangue... E um pesar pelo amanhã de ontem, que se tornou hoje rápido demais.