Na primeira noite, o vento vinha de longe e espalhava as cinzas dos cigarros no cinzeiro pela casa toda. Eu bebia vinho, ouvia jazz e pensava em você.
Olhei para o céu e havia a lua. Ela apareceu por entre as nuvens negras movimentadas pelo mesmo vento que espalhava as cinzas. Então, súbita, a lembrança dos teus passos distantes, do barulho dos teus passos, que eu podia ouvir em meio a todo o trânsito, toda a gente, todo o horror e toda a pressa. Quando olhei de novo, a lua já não estava mais. Era tudo escuro e frio.
Na segunda noite, não havia vento, só lembrança. Dos teus passos, o meu medo, o teu beijo. Daí em diante, é como se eu houvesse flutuado ao teu lado por uma paisagem de nada. Lembrei apenas da janela, do sofá, das tuas mãos percorrendo meu corpo como se eu fosse feita de ar. Lembrei da tua voz, do teu sorriso, da minha teimosia, do teu desapego, de cada minuto que passou depressa demais. Demais.
Não me ficou quase nada e, ainda assim, tanto de ti.
A terceira noite, contrariando toda a lógica, foi a mais difícil. A música que vinha do bar em frente era um tango triste e aqui dentro só havia silêncio e escuridão. Lembrei da despedida, da realidade me agredindo de um jeito delicado e, ao mesmo tempo brutal. Lembro até que ri. Tudo é leve quando existe esperança.
Deitada no tapete da sala, o teto branco. Lamentei não ter percebido que havia adeus no teu último beijo, no teu último abraço. E me veio, então, a lembrança do teu cheiro, a mais cruel, a que mais perturba. Eu queria poder explicar o teu cheiro, a única coisa mais inexplicável do que todo o resto em ti.
E eu queria poder esquecer.
Não, não há tragédia. É só que dói, de um jeito que às vezes parece insuportável. É uma dor física. No peito, na garganta, nas pernas. É uma vontade de dormir, de viver nos sonhos. É, ao mesmo tempo, uma espécie de raiva... Por ter me permitido doer, pelo passado, por, simplesmente, falar sobre a dor. Me odeio tanto quanto ou mais do que sou capaz de odiar qualquer coisa só por estar aqui, falando sobre a dor. Rio de mim mesma, com os olhos marejados. Tu sabes o quanto detesto melodramas.
Vai passar. Comecei a enterrar estas lembranças todas nas primeiras horas que se seguiram ao que eu acho que posso chamar de fim. Sei bem que nada nunca teve início. Mas são só palavras.
Naquela primeira noite, a lua não apareceu mais. E foi assim também nas três noites que se seguiram... Ela agora há de estar lá, aí, aqui. A verdade é que não olhei mais para o céu. Hoje, o vento está, de novo, espalhando as cinzas dos cigarros no cinzeiro pela casa toda. Eu continuo bebendo vinho, ouvindo jazz e pensando em você.
Mas tudo vai se apagando, lentamente.
sábado, novembro 24, 2012
quinta-feira, novembro 01, 2012
Diferenças
Começou quando discordamos sobre um quadro qualquer de Dali.
Um mês antes do fim. Caminhávamos de mãos dadas pelos corredores do museu. Ele fazia aspas no ar, com os dedos, quando falava a palavra arte. E era Dali, ali, diante de nós. E foi surreal, de um jeito ruim... Mas eu perdoei.
Eram três ou quatro meses e concordávamos em quase todas as coisas. Discordávamos rara e elegantemente. Nenhuma discussão era inflamada. Acabava tudo, sempre, em nada, em vinho, em riso, em paz.
Até a tarde de Dali.
Três semanas antes do fim era um filme de Almodóvar que ele nunca havia visto. Era cinema sobre o coma e ele dormiu na metade. Depois, sem que eu pedisse, justificou. Chamou Almodóvar de cineasta esquisito. Aspas no ar pra cineasta e me vi à beira de um ataque de nervos.
Marco dizendo que o amor é a coisa mais triste do mundo quando acaba, como na canção de Jobim... E eu perdoei.
Duas semanas antes do fim, no bar, entre amigos, Stormy Weather tocando no fim da noite, ele confessou que não gostava de jazz. Falou algo sobre intelectuais, fez de novo as tais aspas no ar. Eu já não ouvia nada além da voz de Billie Holiday.
"Life is bare, gloom and misery everywhere."
Mas ele tinha os olhos mais azuis do mundo e mãos de pianista e planos tão parecidos com os meus, de estrada e sossego e velhice... Então, de novo, eu perdoei.
Uma semana antes do fim ele fez críticas a David Foster Wallace, disse algo sobre não haver sentido e lunático, suicida, chato. As aspas imaginárias no escritor.
Antes que eu pudesse percebê-lo como homem hediondo, calou meus protestos com um beijo seco... E mais uma vez, meu perdão.
"He was, after all, just a little boy."
Aí, ontem, o fim. Ele me dizendo que gostava de sorvete de milho e que passas ao rum era um sabor horroroso. Com meu indicador sobre os lábios, dei-lhe as costas e saí. Passas ao rum. Sabor com aspas. Imperdoável.
Um mês antes do fim. Caminhávamos de mãos dadas pelos corredores do museu. Ele fazia aspas no ar, com os dedos, quando falava a palavra arte. E era Dali, ali, diante de nós. E foi surreal, de um jeito ruim... Mas eu perdoei.
Eram três ou quatro meses e concordávamos em quase todas as coisas. Discordávamos rara e elegantemente. Nenhuma discussão era inflamada. Acabava tudo, sempre, em nada, em vinho, em riso, em paz.
Até a tarde de Dali.
Três semanas antes do fim era um filme de Almodóvar que ele nunca havia visto. Era cinema sobre o coma e ele dormiu na metade. Depois, sem que eu pedisse, justificou. Chamou Almodóvar de cineasta esquisito. Aspas no ar pra cineasta e me vi à beira de um ataque de nervos.
Marco dizendo que o amor é a coisa mais triste do mundo quando acaba, como na canção de Jobim... E eu perdoei.
Duas semanas antes do fim, no bar, entre amigos, Stormy Weather tocando no fim da noite, ele confessou que não gostava de jazz. Falou algo sobre intelectuais, fez de novo as tais aspas no ar. Eu já não ouvia nada além da voz de Billie Holiday.
"Life is bare, gloom and misery everywhere."
Mas ele tinha os olhos mais azuis do mundo e mãos de pianista e planos tão parecidos com os meus, de estrada e sossego e velhice... Então, de novo, eu perdoei.
Uma semana antes do fim ele fez críticas a David Foster Wallace, disse algo sobre não haver sentido e lunático, suicida, chato. As aspas imaginárias no escritor.
Antes que eu pudesse percebê-lo como homem hediondo, calou meus protestos com um beijo seco... E mais uma vez, meu perdão.
"He was, after all, just a little boy."
Aí, ontem, o fim. Ele me dizendo que gostava de sorvete de milho e que passas ao rum era um sabor horroroso. Com meu indicador sobre os lábios, dei-lhe as costas e saí. Passas ao rum. Sabor com aspas. Imperdoável.
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