sábado, novembro 24, 2012

Let me be your Clementine

Na primeira noite, o vento vinha de longe e espalhava as cinzas dos cigarros no cinzeiro pela casa toda. Eu bebia vinho, ouvia jazz e pensava em você.

Olhei para o céu e havia a lua. Ela apareceu por entre as nuvens negras movimentadas pelo mesmo vento que espalhava as cinzas. Então, súbita, a lembrança dos teus passos distantes, do barulho dos teus passos, que eu podia ouvir em meio a todo o trânsito, toda a gente, todo o horror e toda a pressa. Quando olhei de novo, a lua já não estava mais. Era tudo escuro e frio.

Na segunda noite, não havia vento, só lembrança. Dos teus passos, o meu medo, o teu beijo. Daí em diante, é como se eu houvesse flutuado ao teu lado por uma paisagem de nada. Lembrei apenas da janela, do sofá, das tuas mãos percorrendo meu corpo como se eu fosse feita de ar. Lembrei da tua voz, do teu sorriso, da minha teimosia, do teu desapego, de cada minuto que passou depressa demais. Demais.

Não me ficou quase nada e, ainda assim, tanto de ti.

A terceira noite, contrariando toda a lógica, foi a mais difícil. A música que vinha do bar em frente era um tango triste e aqui dentro só havia silêncio e escuridão. Lembrei da despedida, da realidade me agredindo de um jeito delicado e, ao mesmo tempo brutal. Lembro até que ri. Tudo é leve quando existe esperança.

Deitada no tapete da sala, o teto branco. Lamentei não ter percebido que havia adeus no teu último beijo, no teu último abraço. E me veio, então, a lembrança do teu cheiro, a mais cruel, a que mais perturba. Eu queria poder explicar o teu cheiro, a única coisa mais inexplicável do que todo o resto em ti.

E eu queria poder esquecer.

Não, não há tragédia. É só que dói, de um jeito que às vezes parece insuportável. É uma dor física. No peito, na garganta, nas pernas. É uma vontade de dormir, de viver nos sonhos. É, ao mesmo tempo, uma espécie de raiva... Por ter me permitido doer, pelo passado, por, simplesmente, falar sobre a dor. Me odeio tanto quanto ou mais do que sou capaz de odiar qualquer coisa só por estar aqui, falando sobre a dor. Rio de mim mesma, com os olhos marejados. Tu sabes o quanto detesto melodramas.

Vai passar. Comecei a enterrar estas lembranças todas nas primeiras horas que se seguiram ao que eu acho que posso chamar de fim. Sei bem que nada nunca teve início. Mas são só palavras.

Naquela primeira noite, a lua não apareceu mais. E foi assim também nas três noites que se seguiram... Ela agora há de estar lá, aí, aqui. A verdade é que não olhei mais para o céu. Hoje, o vento está, de novo, espalhando as cinzas dos cigarros no cinzeiro pela casa toda. Eu continuo bebendo vinho, ouvindo jazz e pensando em você.

Mas tudo vai se apagando, lentamente.

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