quarta-feira, abril 27, 2016

Waiting

A cadeira faz um ruído esquisito quando me levanto para ir buscar mais cerveja na geladeira, um chiado estridente de metal desgastado se aliviando de um peso e um estalo de mola velha. Tem já uns cinco anos a cadeira. Ao longo do tempo perdeu três parafusos, que encontrei no chão e não sei de onde caíram. Qualquer que seja a estrutura que sustenta a cadeira, é evidente que está ruindo.

Cento e quarenta dias desde que tu partiste. Tuas cartas foram rareando semana após semana. Nunca sei ao certo se demoram ou se é minha ansiedade para ouvir de ti que amplifica todas as sensações de tempo.

Ainda não pintei as paredes, não consertei a pia quebrada do banheiro, não lixei os tacos, nem troquei as cortinas. Culpo a falta de dinheiro, mas sinto que são outros os motivos que me prendem nestas celas. Dia após dia as coisas vão se tornando mais velhas, tudo adquire um tom amarelado de espera e cansaço. As paredes, a pia, os tacos, as cortinas, meus cabelos, a pele fina dos meus dedos e o branco dos meus olhos.

Porque os dias não passam, fico relendo tuas cartas e teus devaneios. São muitos os contrastes entre o que dizes e o que pensas. Não sei se tu notas que consigo notar. Sei do teu desassossego e da tua da solidão, da falta de vontade de estar, da sensação de nunca fazer parte. Já faz muito tempo que compartilhamos das mesmas angústias neste "deserto de almas também desertas". É sintomático que ainda estejamos vagando errantes, quando parece tanto que somos, um do outro, o único refúgio.

A cerveja acaba cada vez mais rápido. Tudo ao meu redor vai se desintegrando como que para me dizer que eu não faço parte deste mundo, desta vida. Dentro de mim, só o que se renova é uma saudade estranha, uma urgência, um lamento pelo tempo que estamos perdendo, pelo tempo todo que já se perdeu.

A primeira imagem que tenho de ti é um quadro emoldurado na minha memória. Eu queria muito saber qual é a primeira imagem de mim de que tu te lembras. Mas somos silêncio, disfarce... A eterna possibilidade da possibilidade.

Sigo presa a essas engrenagens enferrujadas.

Porque os dias não passam, eu lamento o fato de que estejam passando.


Oi Va Voi - Waiting