Eu me sentei no sofá do bar e abri uma lata de cerveja.
Porque não havia mais nada a fazer passei a contar o tempo na velocidade em que os segundos passam.
E foi só por isso que percebi que, do momento em que me sentei no sofá do bar até o momento em que ele chegou e fez o mesmo, passaram-se exatos novecentos e vinte e três segundos.
Do sofá, da cerveja, dos atrasos, disso tudo... veio nada além do silêncio e de um certo constrangimento.
Lembrei-me, então, sabe-se lá porque, do moço das cartas, que escreve, às vezes, como se moça fosse.
Até que transbordou o silêncio e transbordou o constrangimento. Me levantei, paguei a conta e saí do bar.
Seria diferente se ele tivesse em si um pouco mais do moço que escreve, às vezes, como se moça fosse.
Seria diferente e melhor.
Mas foi o que foi e acabou não sendo nada.
quinta-feira, março 26, 2009
quinta-feira, março 19, 2009
Inútil
E organizar meus trezentos e cinco livros em ordem alfabética me deu essa nítida, mas absolutamente ilusória, sensação de que a minha vida finalmente entrou nos eixos?
quinta-feira, março 12, 2009
Excuse me, please, I'm lost
A ficha só caiu quando o moço da Agência de Viagens entregou nas mãos dela o e-ticket e soltou um "pronto, foi por esse pedaço de papel que você acabou de pagar essa fortuna".
Quando ela, dissimulada que só, disse que voltaria em vinte dias, eu, em um acesso de Poliana Feliz, sorri, fiz de conta que era verdade e depois sorri maior ainda.
Mas, obviamente, não é verdade, o bilhete de ida e volta foi só uma parte do plano de imigração ilegal, tal e qual o discurso de mochileiro, a entrada em Londres por terra, saindo de Paris, e os mil e tantos euros na conta-corrente pro tio da alfândega londrina não pensar que ela é só mais uma candidata latina a dish-washer na terra do Big Ben (o que, pelo menos a longo prazo, eu tenho certeza de que ela não é).
A verdade é que ela vai mesmo e é pra sempre. Lógico que é aquele "pra sempre" tangível, mas já basta pra aflorar a masoquista e antecipada pergunta:
- Puta merda, mulher, quando diabos eu vou te ver de novo?
Eu nem perguntei. Eu sou durona. Pelo menos eu garanto ser durona até que o avião com ela dentro decole da pista do Afonso Pena e suma do meu campo de visão. Aí, meus caros, vai doer. Pra isso, falta apenas pouco menos de um mês.
Lembro como se tivesse sido ontem. A fila das crianças de uniforme pra fazer uma cesta no basquete na aula de educação física. Na minha vez, ponto, voltei pro final da fila e, com ela (e com meu par de tênis le-petit), comemorei toscamente a cesta feita, como só as crianças de onze anos conseguem fazer. Daí pra frente tiveram as meninas mais populares do colégio, a amizade mais falsa do mundo, uns dez, quinze ou vinte homens, um "casamento", a chacina do Cajuru, as mudanças, as mortes tão doloridas.
As pessoas foram entrando e saindo da "nossa vida", foram passando. Nós trilhamos o caminho juntas... até agora.
Será estranho quando existir entre nós, eu e ela, uma distância de mais de dois trilhões de quilômetros. Definitivo, desse jeito, depois desses quatorze ou quinze anos, foram só uns quatrocentos e tantos... e, ainda assim, com uma semana de bar por mês, o que não curava a abstinência, mas matava a sede.
Agora vem um arrependimento pelos "nãos" que eu já disse, e uma promessa (que eu realmente pretendo cumprir) de "pouco menos de um mês" sem desculpas, por mais sinceras que sejam.
Agora vem essa mistura de "estou feliz pra caralho por você" e "por favor, não vá", que, por sinal, ainda vai acabar me matando.
O fato é que ela vai e não há nada que eu possa ou queira fazer pra impedir. Ela não foi feita pra ficar, ela foi feita pra partir.
Então, que ela encontre o melhor do lado de lá do oceano são meus mais sinceros votos... ops, não, ela odeia clichês (eu também), então... que, antes de tudo, ela me perdoe a sinceridade e o melodrama.
Depois... que ela se divirta pra caralho e ganhe muito muito dinheiro (o suficiente, ao menos, para pagar por centenas de ligações internacionais) e que seja feliz até doer é o que eu, de verdade, desejo.
Que, pra poder aguentar a saudade, ela superficialmente me esqueça, nos esqueça, mas tenha de mim, de nós, as melhores memórias. Desejo que, se apegando a essas memórias, ela nunca se sinta sozinha, porque, ainda que longe, eu vou continuar do lado de dentro e versa-vice. Que ela saiba que pode contar comigo ao ponto extremo de eu vender tudo que tenho e comprar uma passagem pra Paris.
Um sorriso em todas as manhãs e um sono profundo ou muita cerveja gringa nas madrugadas frias do velho continente é o que eu desejo.
Que ela se foda tantas vezes quantas forem necessárias pra criar carcaça e que sempre supere os tapas na cara que a vida der. Que todas as velhas experiências sirvam pra fazer das novas as melhores. Que ela se vire, que ela se encaixe ou se desencaixe. E nada de perfeição, nada de sutileza, que isso enjoa que só. Que tudo pra ela seja, mais do que nunca, real.
E que eu aqui aguente o que parece ser o maior de todos os trancos que eu já tomei, sabendo que, por mais difícil que seja, a verdade é que a vida não teria graça nenhuma se Londres fosse logo ali...
Quando ela, dissimulada que só, disse que voltaria em vinte dias, eu, em um acesso de Poliana Feliz, sorri, fiz de conta que era verdade e depois sorri maior ainda.
Mas, obviamente, não é verdade, o bilhete de ida e volta foi só uma parte do plano de imigração ilegal, tal e qual o discurso de mochileiro, a entrada em Londres por terra, saindo de Paris, e os mil e tantos euros na conta-corrente pro tio da alfândega londrina não pensar que ela é só mais uma candidata latina a dish-washer na terra do Big Ben (o que, pelo menos a longo prazo, eu tenho certeza de que ela não é).
A verdade é que ela vai mesmo e é pra sempre. Lógico que é aquele "pra sempre" tangível, mas já basta pra aflorar a masoquista e antecipada pergunta:
- Puta merda, mulher, quando diabos eu vou te ver de novo?
Eu nem perguntei. Eu sou durona. Pelo menos eu garanto ser durona até que o avião com ela dentro decole da pista do Afonso Pena e suma do meu campo de visão. Aí, meus caros, vai doer. Pra isso, falta apenas pouco menos de um mês.
Lembro como se tivesse sido ontem. A fila das crianças de uniforme pra fazer uma cesta no basquete na aula de educação física. Na minha vez, ponto, voltei pro final da fila e, com ela (e com meu par de tênis le-petit), comemorei toscamente a cesta feita, como só as crianças de onze anos conseguem fazer. Daí pra frente tiveram as meninas mais populares do colégio, a amizade mais falsa do mundo, uns dez, quinze ou vinte homens, um "casamento", a chacina do Cajuru, as mudanças, as mortes tão doloridas.
As pessoas foram entrando e saindo da "nossa vida", foram passando. Nós trilhamos o caminho juntas... até agora.
Será estranho quando existir entre nós, eu e ela, uma distância de mais de dois trilhões de quilômetros. Definitivo, desse jeito, depois desses quatorze ou quinze anos, foram só uns quatrocentos e tantos... e, ainda assim, com uma semana de bar por mês, o que não curava a abstinência, mas matava a sede.
Agora vem um arrependimento pelos "nãos" que eu já disse, e uma promessa (que eu realmente pretendo cumprir) de "pouco menos de um mês" sem desculpas, por mais sinceras que sejam.
Agora vem essa mistura de "estou feliz pra caralho por você" e "por favor, não vá", que, por sinal, ainda vai acabar me matando.
O fato é que ela vai e não há nada que eu possa ou queira fazer pra impedir. Ela não foi feita pra ficar, ela foi feita pra partir.
Então, que ela encontre o melhor do lado de lá do oceano são meus mais sinceros votos... ops, não, ela odeia clichês (eu também), então... que, antes de tudo, ela me perdoe a sinceridade e o melodrama.
Depois... que ela se divirta pra caralho e ganhe muito muito dinheiro (o suficiente, ao menos, para pagar por centenas de ligações internacionais) e que seja feliz até doer é o que eu, de verdade, desejo.
Que, pra poder aguentar a saudade, ela superficialmente me esqueça, nos esqueça, mas tenha de mim, de nós, as melhores memórias. Desejo que, se apegando a essas memórias, ela nunca se sinta sozinha, porque, ainda que longe, eu vou continuar do lado de dentro e versa-vice. Que ela saiba que pode contar comigo ao ponto extremo de eu vender tudo que tenho e comprar uma passagem pra Paris.
Um sorriso em todas as manhãs e um sono profundo ou muita cerveja gringa nas madrugadas frias do velho continente é o que eu desejo.
Que ela se foda tantas vezes quantas forem necessárias pra criar carcaça e que sempre supere os tapas na cara que a vida der. Que todas as velhas experiências sirvam pra fazer das novas as melhores. Que ela se vire, que ela se encaixe ou se desencaixe. E nada de perfeição, nada de sutileza, que isso enjoa que só. Que tudo pra ela seja, mais do que nunca, real.
E que eu aqui aguente o que parece ser o maior de todos os trancos que eu já tomei, sabendo que, por mais difícil que seja, a verdade é que a vida não teria graça nenhuma se Londres fosse logo ali...
quarta-feira, março 11, 2009
A máxima da máxima
Ela era tão foda que os cinco segundos em que ela ficou no ar fazendo figuração cara de espanto no filme B de um diretor chinfrim a tornaram famosa.
segunda-feira, março 09, 2009
Caio
"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair assim num poço de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
domingo, março 08, 2009
Insight
O pior é o inesperado. Porque você não sabia, ninguém te avisou, que de um minuto para o outro tudo ficaria assim, tão diferente.
Cada quadradinho do petit-pavé da calçada. Ninguém te falou da sensação estranha que você sentiria ao passar sobre as grades de respiro das linhas do metrô. Cada um dos carros importados que passam pela rua. Você não sabia que olhar pro alto poderia ser surpreendente. Cada uma das putas, cada um dos bêbados, cada um dos loucos. Você nota a diferença entre os bolivianos gêmeos que sempre estão no bar da esquina. As madames passeando na rua com seus cachorros, todas elas, têm uma história de vida, interessante ou não, que você, subitamente, parece conhecer.
Você não imaginava sentir o vento dessa forma, agressiva, como que tentando te ajudar a soprar pra bem longe, como você sempre desejou, querendo te obrigar a ser o que você sempre quis ser, mas nunca teve coragem pra assumir.
A um par de horas atrás, nada fazia sentido. Às vinte e uma horas e cinco minutos do dia oito de março de dois mil e nove as coisas continuavam sem fazer sentido, mas foi nesse quase exato momento que isso passou a te incomodar.
Você, parado, perdido, sozinho, no meio da rua, então, se pergunta "e agora?". E uma brasa interna te queima as entranhas quando você deduz "agora nada".
Agora você volta pra sua casa, vai dormir na sua cama, acorda cedo amanhã e vai trabalhar, indefinidamente, até o nunca. Você não pode parar em uma bar e tomar uma cerveja, você não pode sentar pra conversar com o hippie sujo que vende artesanato na rua, você não pode ir passear no parque porque já passa das dez, é perigoso e, além disso, você tem que acordar cedo amanhã. Então você segue com sua vida medíocre, ganhando dinheiro pra poder gastar, porque você é apenas um animal assustado. Você continua a suportar pessoas e situações que você não merece porque, no raso, você pensa que é tarde demais pra tentar mudar alguma coisa.
No fundo, você quer sacar suas economias e comprar uma arma pra matar alguém sem importância. Ou uma passagem pro Zaire. Ou um curso de fotografia. Ou uma roupa de astronauta. No fundo, não importa o quê, desde que não seja o mesmo.
Mas você sabe, e lamenta, que nada vai mudar. Porque não dá, porque não pode, porque não deve.
E, no fim das contas, aquele seu momento único de minutos atrás acaba não valendo porcaria nenhuma.
Cada quadradinho do petit-pavé da calçada. Ninguém te falou da sensação estranha que você sentiria ao passar sobre as grades de respiro das linhas do metrô. Cada um dos carros importados que passam pela rua. Você não sabia que olhar pro alto poderia ser surpreendente. Cada uma das putas, cada um dos bêbados, cada um dos loucos. Você nota a diferença entre os bolivianos gêmeos que sempre estão no bar da esquina. As madames passeando na rua com seus cachorros, todas elas, têm uma história de vida, interessante ou não, que você, subitamente, parece conhecer.
Você não imaginava sentir o vento dessa forma, agressiva, como que tentando te ajudar a soprar pra bem longe, como você sempre desejou, querendo te obrigar a ser o que você sempre quis ser, mas nunca teve coragem pra assumir.
A um par de horas atrás, nada fazia sentido. Às vinte e uma horas e cinco minutos do dia oito de março de dois mil e nove as coisas continuavam sem fazer sentido, mas foi nesse quase exato momento que isso passou a te incomodar.
Você, parado, perdido, sozinho, no meio da rua, então, se pergunta "e agora?". E uma brasa interna te queima as entranhas quando você deduz "agora nada".
Agora você volta pra sua casa, vai dormir na sua cama, acorda cedo amanhã e vai trabalhar, indefinidamente, até o nunca. Você não pode parar em uma bar e tomar uma cerveja, você não pode sentar pra conversar com o hippie sujo que vende artesanato na rua, você não pode ir passear no parque porque já passa das dez, é perigoso e, além disso, você tem que acordar cedo amanhã. Então você segue com sua vida medíocre, ganhando dinheiro pra poder gastar, porque você é apenas um animal assustado. Você continua a suportar pessoas e situações que você não merece porque, no raso, você pensa que é tarde demais pra tentar mudar alguma coisa.
No fundo, você quer sacar suas economias e comprar uma arma pra matar alguém sem importância. Ou uma passagem pro Zaire. Ou um curso de fotografia. Ou uma roupa de astronauta. No fundo, não importa o quê, desde que não seja o mesmo.
Mas você sabe, e lamenta, que nada vai mudar. Porque não dá, porque não pode, porque não deve.
E, no fim das contas, aquele seu momento único de minutos atrás acaba não valendo porcaria nenhuma.
sábado, março 07, 2009
Correspondência extraviada VII
R.,
Insanidade, talvez... passei a me perguntar se ainda pensas em mim.
A inútil verdade é que cá estava eu, sentada em minha cadeira, quando acendi um cigarro e subitamente tu me veio, como uma lembrança, memória ou desejo, não sei... E essa tua chegada repentina nada me trouxe senão uma certa agonia, um estalar de dedos de quem tenta exorcizar demônios inexistentes, nicotina de tragada profunda queimando os pulmões.
Queria te dizer que é como mágica. De repente me deparei com um DFW empoeirado na velha estante (sempre ele nessas minhas cartas perdidas) e um só conto bastou pra trazer esse gosto acre, corrosivo, à minha boca. Lembrei de ti e nem sei porque.
O que me mata são essas interrupções. Porque quando essa coisa surge ela vem como uma tempestade de verão que serve pra te pegar desprevenido no meio da rua, sem guarda-chuva. E se te avisam "olha, vai chover", você acaba indo pra debaixo da marquise e a chuva não tem o mesmo efeito. Essas interrupções me matam.
Tratemos isso como um interlúdio.
Eu ia dizendo que é como mágica. Às vezes tua presença é tão forte que me imagino louca ou obcecada. De fato é o que devo ser, estar. Porque um milhão de anos deveriam ser suficientes pra te apagar de vez, mas passados dois milhões deles, cá estou eu, a te escrever de novo essas linhas tortas e sem propósito.
A partida sem volta de Luana, além de todas as outras coisas, me faz perder a esperança de sonhos que se tornam realidade.
Já te disse que muito antes de que tu surgisse, tu me veio em sonho. Sonho que não posso contar, porque não lembro, mas sei que foi sonho e que depois se tornou realidade. Ficou em mim essa esperança de repetição da história. Ingenuidade a minha, bem sei.
Ainda não há nada a ser dito.
Eu tenho te procurado nas referências, entende? Uma carta anônima, um telefonema mudo. No fundo sei que são só os moleques, aqueles, a me pregar peças. Mas te procuro mesmo assim e de certa forma acredito que posso, um dia, talvez, te encontrar.
Enchendo a cabeça de ruído eu abafo o som de Chico Buarque que vem do bar em frente ao prédio. E quando me falta idéia, coloco Fiona Apple pra tocar.
Eu só não aceito que seja assim, sem ser. E é por isso que acredito firmemente em algo mais, em algo além. Eu diria que imagino. Não, não é isso que me mantém viva, mas é isso que me embala o sono. E a hora incerta de dormir acaba sendo a melhor hora do dia.
Sei sequer onde é que tu estás, se na Capital, se logo ali, espalhando nicotina pelo Bigorrilho. E esse não saber de ti dói, ainda que não seja o que mais dói.
O que mais dói, de fato, é o arrependimento pela minha pobreza de espírito de outras épocas, é não saber porque diabos não mais sei de ti, onde estás, o que fazes, quando voltas, se é que voltas. Essas minhas mensagens tendo que ser atiradas ao mar em velhas garrafas de vinho barato - isso dói mais do que tudo.
...
Insanidade, talvez... passei a me perguntar se ainda pensas em mim.
A inútil verdade é que cá estava eu, sentada em minha cadeira, quando acendi um cigarro e subitamente tu me veio, como uma lembrança, memória ou desejo, não sei... E essa tua chegada repentina nada me trouxe senão uma certa agonia, um estalar de dedos de quem tenta exorcizar demônios inexistentes, nicotina de tragada profunda queimando os pulmões.
Queria te dizer que é como mágica. De repente me deparei com um DFW empoeirado na velha estante (sempre ele nessas minhas cartas perdidas) e um só conto bastou pra trazer esse gosto acre, corrosivo, à minha boca. Lembrei de ti e nem sei porque.
O que me mata são essas interrupções. Porque quando essa coisa surge ela vem como uma tempestade de verão que serve pra te pegar desprevenido no meio da rua, sem guarda-chuva. E se te avisam "olha, vai chover", você acaba indo pra debaixo da marquise e a chuva não tem o mesmo efeito. Essas interrupções me matam.
Tratemos isso como um interlúdio.
Eu ia dizendo que é como mágica. Às vezes tua presença é tão forte que me imagino louca ou obcecada. De fato é o que devo ser, estar. Porque um milhão de anos deveriam ser suficientes pra te apagar de vez, mas passados dois milhões deles, cá estou eu, a te escrever de novo essas linhas tortas e sem propósito.
A partida sem volta de Luana, além de todas as outras coisas, me faz perder a esperança de sonhos que se tornam realidade.
Já te disse que muito antes de que tu surgisse, tu me veio em sonho. Sonho que não posso contar, porque não lembro, mas sei que foi sonho e que depois se tornou realidade. Ficou em mim essa esperança de repetição da história. Ingenuidade a minha, bem sei.
Ainda não há nada a ser dito.
Eu tenho te procurado nas referências, entende? Uma carta anônima, um telefonema mudo. No fundo sei que são só os moleques, aqueles, a me pregar peças. Mas te procuro mesmo assim e de certa forma acredito que posso, um dia, talvez, te encontrar.
Enchendo a cabeça de ruído eu abafo o som de Chico Buarque que vem do bar em frente ao prédio. E quando me falta idéia, coloco Fiona Apple pra tocar.
Eu só não aceito que seja assim, sem ser. E é por isso que acredito firmemente em algo mais, em algo além. Eu diria que imagino. Não, não é isso que me mantém viva, mas é isso que me embala o sono. E a hora incerta de dormir acaba sendo a melhor hora do dia.
Sei sequer onde é que tu estás, se na Capital, se logo ali, espalhando nicotina pelo Bigorrilho. E esse não saber de ti dói, ainda que não seja o que mais dói.
O que mais dói, de fato, é o arrependimento pela minha pobreza de espírito de outras épocas, é não saber porque diabos não mais sei de ti, onde estás, o que fazes, quando voltas, se é que voltas. Essas minhas mensagens tendo que ser atiradas ao mar em velhas garrafas de vinho barato - isso dói mais do que tudo.
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