quinta-feira, março 12, 2009

Excuse me, please, I'm lost

A ficha só caiu quando o moço da Agência de Viagens entregou nas mãos dela o e-ticket e soltou um "pronto, foi por esse pedaço de papel que você acabou de pagar essa fortuna".

Quando ela, dissimulada que só, disse que voltaria em vinte dias, eu, em um acesso de Poliana Feliz, sorri, fiz de conta que era verdade e depois sorri maior ainda.

Mas, obviamente, não é verdade, o bilhete de ida e volta foi só uma parte do plano de imigração ilegal, tal e qual o discurso de mochileiro, a entrada em Londres por terra, saindo de Paris, e os mil e tantos euros na conta-corrente pro tio da alfândega londrina não pensar que ela é só mais uma candidata latina a dish-washer na terra do Big Ben (o que, pelo menos a longo prazo, eu tenho certeza de que ela não é).

A verdade é que ela vai mesmo e é pra sempre. Lógico que é aquele "pra sempre" tangível, mas já basta pra aflorar a masoquista e antecipada pergunta:

- Puta merda, mulher, quando diabos eu vou te ver de novo?

Eu nem perguntei. Eu sou durona. Pelo menos eu garanto ser durona até que o avião com ela dentro decole da pista do Afonso Pena e suma do meu campo de visão. Aí, meus caros, vai doer. Pra isso, falta apenas pouco menos de um mês.

Lembro como se tivesse sido ontem. A fila das crianças de uniforme pra fazer uma cesta no basquete na aula de educação física. Na minha vez, ponto, voltei pro final da fila e, com ela (e com meu par de tênis le-petit), comemorei toscamente a cesta feita, como só as crianças de onze anos conseguem fazer. Daí pra frente tiveram as meninas mais populares do colégio, a amizade mais falsa do mundo, uns dez, quinze ou vinte homens, um "casamento", a chacina do Cajuru, as mudanças, as mortes tão doloridas.

As pessoas foram entrando e saindo da "nossa vida", foram passando. Nós trilhamos o caminho juntas... até agora.

Será estranho quando existir entre nós, eu e ela, uma distância de mais de dois trilhões de quilômetros. Definitivo, desse jeito, depois desses quatorze ou quinze anos, foram só uns quatrocentos e tantos... e, ainda assim, com uma semana de bar por mês, o que não curava a abstinência, mas matava a sede.

Agora vem um arrependimento pelos "nãos" que eu já disse, e uma promessa (que eu realmente pretendo cumprir) de "pouco menos de um mês" sem desculpas, por mais sinceras que sejam.

Agora vem essa mistura de "estou feliz pra caralho por você" e "por favor, não vá", que, por sinal, ainda vai acabar me matando.

O fato é que ela vai e não há nada que eu possa ou queira fazer pra impedir. Ela não foi feita pra ficar, ela foi feita pra partir.

Então, que ela encontre o melhor do lado de lá do oceano são meus mais sinceros votos... ops, não, ela odeia clichês (eu também), então... que, antes de tudo, ela me perdoe a sinceridade e o melodrama.

Depois... que ela se divirta pra caralho e ganhe muito muito dinheiro (o suficiente, ao menos, para pagar por centenas de ligações internacionais) e que seja feliz até doer é o que eu, de verdade, desejo.

Que, pra poder aguentar a saudade, ela superficialmente me esqueça, nos esqueça, mas tenha de mim, de nós, as melhores memórias. Desejo que, se apegando a essas memórias, ela nunca se sinta sozinha, porque, ainda que longe, eu vou continuar do lado de dentro e versa-vice. Que ela saiba que pode contar comigo ao ponto extremo de eu vender tudo que tenho e comprar uma passagem pra Paris.

Um sorriso em todas as manhãs e um sono profundo ou muita cerveja gringa nas madrugadas frias do velho continente é o que eu desejo.

Que ela se foda tantas vezes quantas forem necessárias pra criar carcaça e que sempre supere os tapas na cara que a vida der. Que todas as velhas experiências sirvam pra fazer das novas as melhores. Que ela se vire, que ela se encaixe ou se desencaixe. E nada de perfeição, nada de sutileza, que isso enjoa que só. Que tudo pra ela seja, mais do que nunca, real.

E que eu aqui aguente o que parece ser o maior de todos os trancos que eu já tomei, sabendo que, por mais difícil que seja, a verdade é que a vida não teria graça nenhuma se Londres fosse logo ali...

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