sexta-feira, julho 30, 2010

Correspondência Extraviada XI

R.,

Um pouco, somente um pouco. Um pouco no brilho dos teus olhos, na tua barba espessa, nas tuas mãos geladas. Um pouco nas histórias que tu contavas, nos elogios que me fazias, no teu riso contido. Um pouco na nossa afinidade, no desconcerto e na eletricidade de nossas conversas...

Outro pouco, então, nas coisas que eu não sei de ti e que tu não sabes de mim, nos quadradinhos de petit-pavé das calçadas. Um pouco nos livros de Cortázar e DFW que me escaparam das mãos naquela tarde imaginária em que tu estavas lá, na voz melodiosa de Nina Simone, no dedilhado calmo de Charles Mingus...

Um pouco quase muito nas tuas respostas mudas, nas minha perguntas vãs, no tempo que corre e que não passa, na fumaça proibida dos meus cigarros, na minha memória apagada, no que sobrou de ti, nas alopatias que me trazem o sono...

O resto, quase todo ele, um pouco em cada outubro, nas coisas que não fizemos, na tua ausência não consentida, nesse mosaico sem sentido que se formou com a tua partida sem volta. Um tanto imenso, por fim, em todas estas cartas e nessa saudade bandida...

De mim, baby, do pouco em pouco que foi ficando, sobrou quase nada.

...

segunda-feira, julho 26, 2010

Caio

"O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo – taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: it’s all right man, I’m just bleeding. Tá limpo. Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar."