sábado, outubro 25, 2008

Na veia

Precisando de uma presença que me inspire pieguices... ou, ao menos, de uma ausência que me inspire um clichê de lágrima que vira letra. Mas tudo o que há é esse maldito meio-termo me anulando.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Tanto faz

Já não é mais nada. Não é mais a insatisfação do não ter pra onde ir, não é mais a saudade do trânsito caótico ou a vontade de um por do sol invisível da fumaça no horizonte. Não há mais aquela inquietação por outros ares, por outros rumos. Não há mais nada.

Agora, aqui mesmo onde estou, me acomodei. Durmo cedo, acordo tarde, vou a pé, observo sem ânimo o céu alaranjado nos fins de tarde.

Não que me baste. Um pedaço de mim quer ir além das paredes sujas do apartamento e das ruas vazias da cidade. Não, não me basta. Mas que seja...

É como se tudo estivesse se tornando cada vez mais mecanicamente chato e, ainda que eu deseje mais, melhor, acabo me rendendo à trivialidade e deixo que as coisas sejam do jeito que são ou não são. Não importa. Contra-argumentar tem me dado sono. Ainda existem mil Annas, mas pra essa de hoje, de agora, nada importa.

As quinhentas calorias de uma pizza ou três dias sem comer. Preto ou vermelho. Cor? Pfff... Um blues amargo ou um jazz melancólico. Desde que seja triste. Ou não. Lá ou aqui. Hoje ou amanhã. Tanto faz. Existir, só por existir.

Essa Anna de agora é tangível como eu nunca achei que qualquer uma das Annas fosse capaz de ser.

Preguiça de sair da cama, de escovar os dentes, de se vestir ao menos razoavelmente bem, de arrumar os cabelos, de se perfumar.

Trabalho demais e uso isso como desculpa pra não fazer mais nada. Quando há tempo livre, me apego a idiotices pra não ter que lavar a louça, descongelar a geladeira, arrumar a casa, desfazer as malas das minhas viagens de bate e volta, esvaziar as caixas da mudança há dois anos empilhadas na despensa, ler um livro, falar sobre o que sinto pra algum amigo antigo em uma mesa de bar.

Quanto a isso... A verdade é que o que eu sinto agora não é interessante ou relevante. Não, a verdade é que não estou bem certa sobre realmente sentir alguma coisa. É que existe essa história de precisar de reciprocidade, de precisar sentir no outro pra depois sentir em si mesmo. E eu não sinto mais nada nos outros. Em ninguém. O mundo todo anda tão vazio quanto eu.

Então, já não é mais nada, não há mais nada. Nem precisa haver conclusão pra esse esboço inútil de raciocínio.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Destino?

O vidente falou que ele morreria em algum momento dos próximos três dias. Atordoado, sacou no banco todas as economias que fizera durante dez anos para pagar os estudos de um filho que ele nunca chegaria a ter e comprou uma passagem para Paris, imaginando a Torre Eiffel como derradeira visão.
Horas depois, o vidente, estupefato, ouvia pelo rádio que seu mais recente cliente estava na lista de mortos na queda de um avião comercial.

quinta-feira, outubro 02, 2008

(Not) Busy

Não há tempo. Não há tempo pois tenho tido essa obrigação: de ter idéias mirabolantes, de executá-las perfeitamente, de ser dez em uma e de fazer em oito míseras horas o que, normalmente, me tomaria oitocentas e tantas.

Sim, as palavras continuam vindo como sempre vieram e acho até que tenho uns dois ou três livros de mais de mil páginas guardados em algum canto do meu subconsciente.

Quero dizer, ainda há tempo para divagar, só não há mais tempo para transformar a divagação em letras escritas, bem ou mal alinhadas sobre o papel. E isso... isso costuma doer.

Então, de repente, alguns minutos de silêncio, o telefone desligado e a casa vazia. Mas ao invés de um redemoinho de coisas pra dizer, me vem o nada. Quando, finalmente, parece haver tempo, descubro que me fugiram todas as epifanias, as coisas boas ou ruins que pensei, guardei e pretendia reproduzir.

Subconsciente inacessível. O jeito é voltar para o trabalho...

quarta-feira, setembro 03, 2008

Correspondência extraviada VI

R.,

Preciso te contar, ainda que tu nunca venhas a saber...
É um sonho recorrente. Um prédio largo, não muito alto. Parece o Congresso Nacional, mas não é. Uma vez que espero Luana sair, creio que seja um museu de arte moderna ou algo do gênero. Venta muito. Estou sentada à beira de uma fonte, um chafariz, no meio de uma praça. Impaciente, Luana não sai, decido caminhar sem rumo. Carrego livros, livros demais. Dois ou três passos e um esbarrão. Meus livros vão ao chão. Posso ver Cortázar, DFW e, depois, teu rosto, teus lábios se movendo em um pedido de desculpas. Então, a pressa, "preciso ir, preciso ir". Eu, sonhando, penso que não posso perder a oportunidade e quase imploro por dez minutos do teu tempo para um café. Tu cedes. Caminhamos pela praça. As coisas, então, ficam em câmera lenta. Nossas cabeças baixas, meus cabelos esvoaçantes, teu sorriso nervoso. Acordo, de repente, no meio da noite... com gosto de café na boca e a saudade de você um tanto quanto menor.

...

segunda-feira, julho 28, 2008

Ditados

Eu tenho essa coisa de respirar fundo, contar até dez, fumar um ou dois cigarros e então simplesmente fazer o fim do mundo parecer cinco mililitros de leite derramado, pelos quais, definitivamente, não vale a pena chorar.

Mas às vezes eu prendo a respiração, conto até cem mil, fumo um maço inteiro de cigarros e, ainda assim, a coisa mais simples do mundo parece mais complicada do que convencer um camelo jurássico a passar pelo buraco de uma agulha no palheiro.

sábado, julho 26, 2008

Rotina

Contemplar a ferida. Chorar por meia hora. Depois olhar o rosto molhado no espelho do banheiro e parar de sentir. Não exatamente, literalmente. Parar de sentir apenas por um instante, apenas o suficiente para perceber como seria bom não sentir. Então jogar todo o foco nisso. Secar as lágrimas, escovar os dentes, disfarçar as olheiras com pó de arroz, abrir a porta e dizer "cansei, agora chega". De uma vez por todas. Pra não precisar mais repetir essa sequência estúpida em todos os malditos dias.

terça-feira, julho 15, 2008

Correspondência extraviada V

R.,

Eu sei. Não há mais nada a ser dito.

Existe ainda, contudo, aqueles dias em que é você e mais nada. Começo a julgar-me louca.

Ah, a fumaça espessa do cigarro, o armário do banheiro lotado de remédios, essa minha obsessão pelo leste europeu, quintas-feiras sem sentido. Já não sei mais se as coisas sempre foram assim, ou se passaram a ser assim somente depois de você.

Hoje um farol vermelho e meu pé fundo no acelerador. Nos dez segundos que antecederam a constatação de que eu ainda estava viva, tua imagem foi plano de fundo para os meus delírios de adeus mundo cruel. Aquela história de "toda a sua vida" é lenda. Dez segundos. Você e mais nada. E eu já vivi tanta coisa, meu bem.

Eu quis definir esse esquema. Li Freud e Jung e Reich e Lacan. Até entendi, mas ainda não aceitei.

Fato que tenho tentado esquecer. Mas há sempre uma brasa queimando no escuro, minha necessidade de pílulas para dormir, as histórias de meus antepassados, o tédio e tuas cartas gritando meu nome de dentro das gavetas, como se quisessem me impor a tua existência.

A verdade é que tudo me leva à lembrança de coisas que nunca existiram. Passo os dias maldizendo minha estupidez e lamentando a sensatez de outros tempos, mesmo sabendo que, provavelmente, seria tudo igual agora ainda que houvesse sido diferente antes.

Como eu disse, não há mais nada a ser dito, eu sei. Cansei-me de cartas que voltam. Dessa vez, não espero resposta. Dessa vez vou atirar meus devaneios sem envelope e sem selo na caixa de correio mais distante que encontrar.

...

De mim, nos outros...

A stranger has come
To share my room in the house not right in the head,
A girl mad as birds

Bolting the night of the door with her arm her plume.
Strait in the mazed bed
She deludes the heaven-proof house with entering clouds

Yet she deludes with walking the nightmarish room,
At large as the dead,
Or rides the imagined oceans of the male wards.

She has come possessed
Who admits the delusive light through the bouncing wall,
Possessed by the skies

She sleeps in the narrow trough yet she walks the dust
Yet raves at her will
On the madhouse boards worn thin by my walking tears.

And taken by light in her arms at long and dear last
I may without fail
Suffer the first vision that set fire to the stars.

Dylan Thomas: Love In The Asylum

segunda-feira, julho 07, 2008

quinta-feira, junho 12, 2008

Caio

"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?

(...)

Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. Rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dez anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein?

(...)

A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.

Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê.

Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente.

Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela - você?

(...)

Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém.

(...)

Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.

Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."


* In Dama da Noite, o conto mais fodástico de todos.

quinta-feira, junho 05, 2008

Humano?

Essa coisa de vestir um sorriso incerto e fazer de conta que sim, quando na verdade existe um não gigante entalado na tua garganta.

sábado, maio 31, 2008

Caio

"Sem sentir, você calcula mal alguma coisa no passo e, em vez do vôo, vem a queda. O ridículo é que só no chão você percebe que caiu."

sexta-feira, abril 18, 2008

Caio

"Hoje, existir me dói feito uma bofetada."

Longe...

Sete anos. Sete anos contemplando as mesmas paredes camurça sujas de cera perto dos rodapés, os tacos de madeira comidos pelos cupins, as portas que apodrecem, os batentes enferrujados das janelas.

Pelo menos uma vez por mês, alguma coisa quebra, queima, estraga ou se perde. Tantas lâmpadas, tantas tomadas, tantos chuveiros, tantos copos e pratos, parafernália eletrônica, recordações de família.

Os azulejos vão se desfazendo aos poucos. No chão da cozinha, cinco ou seis lajotas aos pedaços, montadas como um quebra-cabeças, ameaçam ferir meus pés em alguma dessas madrugadas de ressaca e sede.

Não sei porque me veio falar dessas perdas todas, dessas coisas velhas e sujas. Como se eu precisasse registrar a constatação de que tudo que é meu, até mesmo o piso da cozinha, está perdido.

Hoje, quase três da manhã, um mal estar aqui dentro. A casa, de repente, grande demais, assombrada. E posso ouvir estalos, coisas que estilhaçam, crepitar de chama, matéria diluindo.

Lembrei dos tempos de casa cheia, banheiro emporcalhado, latas de cerveja e cinzeiros atulhados espalhados pelo chão, colchões estendidos em todos os cômodos (ainda guardo, no armário, cobertas alheias e, na memória, imagens distorcidas desse tempo junkie). Muitas coisas se quebraram naquela época. Muitas outras se perderam depois que ela passou.

Mas ontem... Ontem havia presença, havia sentido, como nunca tinha havido antes. Havia você me preparando comidinhas e acendendo meus cigarros. Havia o seu toque, o seu olhar, o seu sorriso, nossos planos...

Pessoas. Pessoas também se quebram ou se perdem.

Durante esses sete anos, pessoas foram entrando e saindo da casa, indefinidamente. Algumas ainda aparecem às vezes, quebradas. Outras saíram e nunca mais voltaram, perdidas. Outras ainda, ficam por aqui, em vozes que ecoam, em cheiros e gostos, em imagens insistentes que me vêm, sempre que fecho os olhos.

De tudo, de todos, de ti, ficou essa angústia e esse grito mudo que não cala.

Talvez eu precise da casa cheia novamente. Talvez eu precise só de você. Ou talvez eu precise apenas recuperar esse enorme pedaço de mim que você carregou, sem querer, quando foi embora.

quarta-feira, abril 16, 2008

0 x 1

Um daqueles dias em que surge a dúvida entre beber um chá de camomila ou evaporar como a água da chaleira apitando no fogão.

Vigilância

Não há silêncio. Quando não a cantoria alucinada, buzinadas nervosas, gritos estridentes de miséria, sempre os passos bêbados, chacoalhar de chaves, lágrimas pesadas tocando o chão. Ou a voz embargada que ouço repetindo meu nome quando escondo a cabeça sob o travesseiro. Não há silêncio.

E também não há escuridão. Se não os holofotes e letreiros luminosos, a luz dos postes ou os raios de sol que rabiscam as paredes do quarto. Se fecho os olhos, me vem esse brilho. Antes cegasse, me ilumina. E não há mesmo jeito de haver escuridão.

Do som, das imagens... os toques, os cheiros, os gostos. A sinestesia, narcotizada, tentando driblar sua insônia crônica. Não se pode mais dormir do lado de cá.

terça-feira, abril 15, 2008

Correspondência extraviada IV

R.,

Assim como as primeiras, a última carta voltou. Essa vai em envelope pardo junto com as anteriores, para o mesmo endereço, onde sei que nunca te encontro porque você não pode ou não quer mais estar lá.

Responde agora, meu bem, a pergunta de Caio: "tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma?".

Enfim... escrevo (de novo) pra falar sobre o nada. Dessa vez, sem qualquer concordância verbal, porque a verdade é que tu não és a terceira pessoa, você não é a segunda e eu, tampouco, sou a primeira. Existimos? Nem sei. Lá se vão mais pedaços de mim.

Você acharia graça, se houvesse lido a última carta. Talvez ainda ache um dia, se eventualmente vier a lê-la. Meu bom humor não falha. Às vezes, o tamanho do meu sorriso é proporcional á força da chibatada. Dói? Sim, dói. Mas rir da dor é o que me dá forças pra continuar doendo. E eu tenho doído tanto, meu bem, desde que você se foi.

Dia desses lembrei daquela nossa conversa sobre escritos que não vingam ou algo assim. Te dizer que entrei em uma crise com meus devaneios que não há mais boteco, caminhada noturna, gole de vinho ou silêncio que resolva. Aí me veio, como sempre vem, aquela vontade latente de ler tuas estórias... e essa carta acaba sendo mais uma tentativa, possivelmente frustrada, de te convencer a voltar a me escrever.

Oh, it's evil, baby, the way you let your grace enrapture me...

Moço, o que eu sei de ti é tão meu que talvez você não seja nada além do meu alterego se divertindo com a minha carência e com a minha solidão. De fato, você é perfeito demais pra ser, como um dia me pareceu que fosse, real.

A verdade, ou o que eu suponho que seja a verdade, é que eu só te admiro tanto porque não te sei por completo.

Eu sofro. Não é bem um sofrimento, mas vamos colocar as coisas assim mesmo. Eu sofro. Sofro, principalmente, pelas afinidades que a gente não testou. Porque eu não sei se o seu livro preferido do DFW é o mesmo que o meu, se de Hopper, é "Sunlight in a Cafeteria" que você, como eu, gostaria de ter na parede da sala, se você também prefere Nina Simone à Billie Holiday, ou se sua insônia te perturba tanto quanto a minha.

Juro que tento. Tento não repetir discursos burocráticos sobre teus atrasos. Tento não falar sobre a falta que você faz. O que acontece, meu bem, é que há cacos de vidro demais formando agora aquele mosaico de outros tempos. E, então, eu só faço contemplar, incansável, dia após dia e noite após noite, esse espaço vazio perto das minhas cores, guardado pra ti, azulejo errante. E tu não vens.

Ontem, essa, digamos, estranha obsessão me fez alucinar um pouco. Foi, até certo ponto, cômico... Imaginei que te via, eram seis da tarde. Sei que eram seis da tarde porque eu estava na praça e o barulho do sino da Catedral atordoava. Você estava de costas e teu cabelo um pouco mais curto que da última vez. Gritei teu nome, mas você não me ouviu. Acelerei o passo pra te alcançar. Quando eu quase tocava teu ombro, você se virou. Não, não era você. Fiquei com os dedos parados no ar, depois disfarcei, alisei o cabelo, pus as mãos nos bolsos. Pude ver a expressão no teu rosto, que não era, de fato, teu rosto, julgando-me louca. Tirei disso tudo um sorriso e, só por isso, valeu um tanto a pena. Quase impossível sorrir nestes últimos dias.

Chegou aqui pra mim um tempo difícil, meu bem, e senti sua ausência quase como se ela fosse, na verdade, uma presença. Então fiquei caraminholando coisas, pesquisando reveses, elaborando tratados e agora tenho certeza de que sei exatamente qual foi o motivo da tua ida sem volta. É claro que é uma certeza incompleta, uma certeza tipo nítida sensação, mas não deixa de ser uma certeza. E dela me vem uma culpa e um pesar e uma vontade enorme de concertar tudo, de te explicar que um malentendido é uma coisa estúpida demais pra te afastar assim.

Sinto tua falta, tu bem sabes. Da eletricidade, do desconcerto. O que acaba tornando isso ainda pior é que eu só tenho esse acordar todos os dias, tomar banho, escovar os dentes, ir para o trabalho. E esse monólogo infinito, onde eu respondo às minhas próprias perguntas e te questiono, secreta, retórica e ilimitadamente sobre coisas que você não tem como saber.

Não que seja certo que você possa dar sentido a isso tudo. Mas, enfim...

Espero, de novo, que me receba e me leia e me responda e me convença de que há mais no menos. Já sei do não e do nunca, mas me divirto na ilusão. Enquanto isso, procurando uma paisagem de areia onde eu possa me encaixar, eu continuo, meu bem, porque tudo o que me resta é continuar.

...

sexta-feira, abril 11, 2008

Dirty

Acordou enjoado dos erros alheios... e vomitou dez caminhos sem volta sobre os próprios pés.

quarta-feira, abril 09, 2008

Do it to it

Frustração. A avenida se alongando e as pernas cansadas. No mapa era logo ali. O vento frio, os pés descalços, os buracos da calçada... descobriu que, na verdade, é tão lá.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Caio

"Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?"

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Atenção

Um buraco imenso surgindo no meio da minha paciência. É um precipício. Alguém vai acabar se suicidando.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Deveras

São essas urgências, baby, que me fazem tua. Essas vontades que gritam dentro de mim. De pintar as paredes, quebrar azulejos, encher a casa de flores, de aprender a dançar, a cantar, a fazer círculos com a fumaça do cigarro, de te ter aqui comigo segurando os pincéis, as marretas, as mãos sujas de terra, o meu corpo, o teu riso, uma chama. Pra sempre.

domingo, janeiro 20, 2008

Dilema

Eu poderia ficar aqui parada, esperando a correnteza me levar até aquela grande queda d'água logo a frente, aí deixar meu corpo despencar molhado por trinta metros, me arrebentar em uma pedra cheia de limo e desaparecer pra sempre, sem pensar.

Ou eu poderia simplesmente sair da cachoeira e caminhar em passos largos pelo meio da mata, enfrentando espinhos e cobras, até uma estrada qualquer que tenha começo, mas não tenha fim.

Acaba que eu fico aqui parada, mas pensando, segurando firme em um ramo quase podre de uma grande árvore só pra evitar outras estradas, que a que eu trilhei até aqui foi por demais longa e por demais triste. Tentativa de adiar a correnteza, a queda, a pedra, o fim.

Mas o que eu queria mesmo era poder nadar contra a corrente, meu bem. Me ajuda?

Caio

"Pudesse abrir a cabeça, tirar tudo para fora, arrumar direitinho como quem arruma uma gaveta. Tomar um banho de chuveiro por dentro."