quinta-feira, novembro 26, 2015

Esta noite

Será teu todo o sofrimento. Pela manhã, depois que ele for embora e restarem somente os copos vazios pela casa, os lençóis desalinhados sobre a cama, teu corpo cansado e teus dedos trêmulos tateando o criado-mudo em busca do maço de cigarros. Tu sabes que não deves dizer o tanto que há para ser dito, sabes que cada palavra que te escapar da boca antecipará noites infindáveis de vodka e blues e melancolia. E mesmo assim, tu dirás. Revelarás o que há de mais íntimo e sombrio. Todo teu drama escancarado na tentativa vã de fazer o outro sentir o que tu sentes. Tu sabes, ainda, que ele tem tudo desde sempre planejado, esta noite e a manhã seguinte e o próximo mês e todos os anos que irão se seguir. A presença constante de uma ausência pesada e dolorida, que ele te impõe já há tanto tempo, como um remédio amargo pra curar tua ilusão de que podes ser feliz. Ele te dirá qualquer coisa sobre o fluxo da vida e sobre a rotina e o desapego e tu, resignada, pedirás silêncio. Ele calará as desculpas, transparecendo um alívio que te doerá como uma punhalada de lâmina virgem, um alívio que tu tens certeza de que nunca irás sentir. Os olhos vazios dele te lembrarão de que nunca existiram falsas promessas e tu lamentarás a expectativa que criastes somente com suposições. No que não disserem ficará latente o desejo de que tudo fosse mais leve, de que o mundo fosse outro. Por fim, tu dormirás no peito dele e sonharás com os abismos aos quais nunca deveria ter te atirado.

quarta-feira, novembro 25, 2015

Thirteen

Era cedo ou tarde demais.

Uma terça-feira de um agosto que até hoje não terminou. Ele, eu, a janela, o sofá, taças cheias de um vinho caro e a incerteza do amanhã. Eu agia com a consciência de que cada minuto a mais era também um minuto a menos. E cada detalhe daquele dia é uma fotografia em um mural cheio de ausências e solidões.

Lembro que a desculpa era que bebêssemos juntos. Anos de distância, eu nem sabia ao certo quem iria encontrar. O coração acelerado enquanto ele se aproximava, suor frio, a adolescência toda de volta e, depois, ele me calando os batimentos cardíacos com um beijo... Ele me beijou logo que me viu, como se toda a lacuna fosse nada, como se pudéssemos recomeçar do exato momento em que paramos.

A janela. Uma paisagem noturna sem muito a oferecer e ele evitava me olhar nos olhos. Falamos pouco. O silêncio dizia tudo o que havíamos calado nos últimos anos. E não havia constrangimento naquele tanto de coisas que não éramos capazes de verbalizar. A sala como um bolha isolada no tempo e no espaço, um paradoxo em que os segundos duravam horas que passavam depressa demais.

O sofá e todos os meus protestos silenciados. Eu falava sobre a burocracia do trabalho enquanto ele me beijava a nuca, arrepiando todos os pelos do meu corpo. Declarações de amor em decibéis inaudíveis. Sabíamos que aquilo era tudo que teríamos. Uma noite, um reencontro que era também despedida, um algo maior latente que nunca iria se concretizar. Nossos corpos nus entrelaçados. Um momento.

E quando não foi mais possível estar, nos despedimos, com um abraço demorado. Eu antecipava uma saudade que doeria por meses. Ele, alívio. Ele também sabia o quanto aquilo tudo era efêmero e frágil. Mas ele queria que fosse assim.

E no apartamento de quatro cômodos ficaram as taças de vinho ainda pela metade, a garrafa quase cheia.

Era cedo ou tarde demais.


Carina Round - You And Me

sexta-feira, novembro 13, 2015

Mil

De novo o mesmo sonho. Dessa vez eu, vestido azul, parada na beira de um penhasco num fim de tarde cinza de outono, o vento forte balançando meus cabelos e assoviando nos meus ouvidos. Uma paisagem sombria, uma cidade se revelando ao longe, no meio de muita névoa, um céu esverdeado de ocaso. E a sua voz, que sussurrava: "pula". Eu queria muito pular, mas fiquei imóvel, hesitante... Acordei com o gato me mordiscando o nariz.

Eu nunca pulei. Eu sei que quis e que tudo me compelia. Mas em todas as vezes eu hesito e acordo antes de decidir.

São hoje mil dias. Curiosamente, foi o dia em que parei pra contar. Considerando os sinais que chegaram de ti nos últimos meses, suponho que esse número seja grande o suficiente pra te fazer sentir. E te odeio um pouco por isso.

É que a saudade já não doía mais como antes. Mantive a caixa de lembranças fechada por anos e a capacidade de calar os gritos. Abandonei o calendário. Deixei de supor as coisas todas que poderiam ser e me concentrei em viver as que estavam sendo.

Mas aí, tu voltaste, como sempre volta. Pra me roubar a tranquilidade, o foco e a vontade de te esquecer.

domingo, novembro 08, 2015

Fade in

Como em um filme, a gente vendo ao mesmo tempo o que cada um deles está fazendo, separados por um oceano de mal feitos e ausências. Ela querendo ligar... Não chega a pegar o telefone, ensaiar o número ou algo assim. Só fica ali, jogada no banco da varanda, acariciando as orelhas do cachorro e chorando. Um nó palpável na garganta, que dói há meses como uma infecção que antibiótico nenhum cura. A gente não vê o nó, mas a gente sabe que ele está lá, porque o diretor do filme é muito muito bom, embora o roteiro seja meio bosta já que é uma reunião de clichês intermináveis (tal qual a vida). Ele, dirigindo sua SUV de volta pra casa, nove da noite, sentindo um aperto no peito porque o peito dela dói. Eles são muito ligados. Ele acende um cigarro, fica fazendo bolinhas com a fumaça, lembrando de quando ela ria muito disso. Até aí não tem flashback, tá tudo implícito.

A fotografia é escura e fria. Cada um com suas respectivas solidões se perguntando o que é que o outro está fazendo, enquanto nós podemos ver que estão miseravelmente tristes e ficamos meio putos, tipo, dez minutos de filme e "liga pra ele, porra". Ela não vai ligar e ele tampouco. Esse é um longa, se aquiete.

Ela sai com as amigas, se diverte e se distrai e vai pra casa meio aliviada, meio triste, achando que amanhã será um dia melhor. Nunca é. Ele arranja uma namoradinha ruiva e desinteressante pra matar o tempo, enquanto o tempo vai matando ele aos poucos.

Então entram os flashbacks, quentes e cheios de cor. A gente fica sabendo por que se separaram. Uma sucessão de erros aqui e ali e muita mágoa. Ele ria enquanto brigavam e molhava o chão do banheiro. Ela colocava pouco sal na comida e era muito desastrada.

A essa altura a gente já sabe que os dois vão acabar juntos porque não faria sentido fazer um filme sobre duas pessoas separadas se não fosse pra eventualmente elas estarem juntas. Mas o impacto do reencontro depende do quão desesperadamente eles vão sofrer, a gente precisa ter aquela reação de "até que enfim". Não dá pra saber ao certo por que é que a gente concorda em ver tanta desgraça ao invés de pular direto pro final.

Aí que então já se foram uns cem minutos de película e nada de reconciliação. E no final, ignorando quase duas horas de sofrimento, ele se casa e ela se muda pro Japão. Cenas rápidas, se intercalando em cortes secos. Fade out. E eles nunca se reencontram.

A gente fica frustrado assistindo, mas com aquela sensação de que a realidade é isso aí mesmo, porque o tempo que cura tudo, cura também o amor eterno.