domingo, novembro 08, 2015

Fade in

Como em um filme, a gente vendo ao mesmo tempo o que cada um deles está fazendo, separados por um oceano de mal feitos e ausências. Ela querendo ligar... Não chega a pegar o telefone, ensaiar o número ou algo assim. Só fica ali, jogada no banco da varanda, acariciando as orelhas do cachorro e chorando. Um nó palpável na garganta, que dói há meses como uma infecção que antibiótico nenhum cura. A gente não vê o nó, mas a gente sabe que ele está lá, porque o diretor do filme é muito muito bom, embora o roteiro seja meio bosta já que é uma reunião de clichês intermináveis (tal qual a vida). Ele, dirigindo sua SUV de volta pra casa, nove da noite, sentindo um aperto no peito porque o peito dela dói. Eles são muito ligados. Ele acende um cigarro, fica fazendo bolinhas com a fumaça, lembrando de quando ela ria muito disso. Até aí não tem flashback, tá tudo implícito.

A fotografia é escura e fria. Cada um com suas respectivas solidões se perguntando o que é que o outro está fazendo, enquanto nós podemos ver que estão miseravelmente tristes e ficamos meio putos, tipo, dez minutos de filme e "liga pra ele, porra". Ela não vai ligar e ele tampouco. Esse é um longa, se aquiete.

Ela sai com as amigas, se diverte e se distrai e vai pra casa meio aliviada, meio triste, achando que amanhã será um dia melhor. Nunca é. Ele arranja uma namoradinha ruiva e desinteressante pra matar o tempo, enquanto o tempo vai matando ele aos poucos.

Então entram os flashbacks, quentes e cheios de cor. A gente fica sabendo por que se separaram. Uma sucessão de erros aqui e ali e muita mágoa. Ele ria enquanto brigavam e molhava o chão do banheiro. Ela colocava pouco sal na comida e era muito desastrada.

A essa altura a gente já sabe que os dois vão acabar juntos porque não faria sentido fazer um filme sobre duas pessoas separadas se não fosse pra eventualmente elas estarem juntas. Mas o impacto do reencontro depende do quão desesperadamente eles vão sofrer, a gente precisa ter aquela reação de "até que enfim". Não dá pra saber ao certo por que é que a gente concorda em ver tanta desgraça ao invés de pular direto pro final.

Aí que então já se foram uns cem minutos de película e nada de reconciliação. E no final, ignorando quase duas horas de sofrimento, ele se casa e ela se muda pro Japão. Cenas rápidas, se intercalando em cortes secos. Fade out. E eles nunca se reencontram.

A gente fica frustrado assistindo, mas com aquela sensação de que a realidade é isso aí mesmo, porque o tempo que cura tudo, cura também o amor eterno.

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