quinta-feira, novembro 26, 2015

Esta noite

Será teu todo o sofrimento. Pela manhã, depois que ele for embora e restarem somente os copos vazios pela casa, os lençóis desalinhados sobre a cama, teu corpo cansado e teus dedos trêmulos tateando o criado-mudo em busca do maço de cigarros. Tu sabes que não deves dizer o tanto que há para ser dito, sabes que cada palavra que te escapar da boca antecipará noites infindáveis de vodka e blues e melancolia. E mesmo assim, tu dirás. Revelarás o que há de mais íntimo e sombrio. Todo teu drama escancarado na tentativa vã de fazer o outro sentir o que tu sentes. Tu sabes, ainda, que ele tem tudo desde sempre planejado, esta noite e a manhã seguinte e o próximo mês e todos os anos que irão se seguir. A presença constante de uma ausência pesada e dolorida, que ele te impõe já há tanto tempo, como um remédio amargo pra curar tua ilusão de que podes ser feliz. Ele te dirá qualquer coisa sobre o fluxo da vida e sobre a rotina e o desapego e tu, resignada, pedirás silêncio. Ele calará as desculpas, transparecendo um alívio que te doerá como uma punhalada de lâmina virgem, um alívio que tu tens certeza de que nunca irás sentir. Os olhos vazios dele te lembrarão de que nunca existiram falsas promessas e tu lamentarás a expectativa que criastes somente com suposições. No que não disserem ficará latente o desejo de que tudo fosse mais leve, de que o mundo fosse outro. Por fim, tu dormirás no peito dele e sonharás com os abismos aos quais nunca deveria ter te atirado.

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