De novo o mesmo sonho. Dessa vez eu, vestido azul, parada na beira de um penhasco num fim de tarde cinza de outono, o vento forte balançando meus cabelos e assoviando nos meus ouvidos. Uma paisagem sombria, uma cidade se revelando ao longe, no meio de muita névoa, um céu esverdeado de ocaso. E a sua voz, que sussurrava: "pula". Eu queria muito pular, mas fiquei imóvel, hesitante... Acordei com o gato me mordiscando o nariz.
Eu nunca pulei. Eu sei que quis e que tudo me compelia. Mas em todas as vezes eu hesito e acordo antes de decidir.
São hoje mil dias. Curiosamente, foi o dia em que parei pra contar. Considerando os sinais que chegaram de ti nos últimos meses, suponho que esse número seja grande o suficiente pra te fazer sentir. E te odeio um pouco por isso.
É que a saudade já não doía mais como antes. Mantive a caixa de lembranças fechada por anos e a capacidade de calar os gritos. Abandonei o calendário. Deixei de supor as coisas todas que poderiam ser e me concentrei em viver as que estavam sendo.
Mas aí, tu voltaste, como sempre volta. Pra me roubar a tranquilidade, o foco e a vontade de te esquecer.
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