Não, não venha me dizer que a arte imita a vida e vice-versa usando como argumento as novelas insuportáveis que você assiste. A vida, meu bem, não tem nada a ver com as suas novelinhas. Na vida real, o mocinho não passa todos os capítulos quebrando a cara pra só se dar bem no final; na vida real, é muito pelo contrário. Você vai aprender, amargamente, que na vida os vilões não morrem e tampouco se regeneram; que na vida nem sempre aparece um extra se você for acabar sozinha; que não dá pra eliminar os personagens quando eles perdem sua razão de ser; que na vida real quase nunca tem uma pessoa tão empenhada em te destruir como nas novelas, na vida real quase todas as pessoas te destroem, ainda que não queiram. Você sabe, meu bem, a vida não tem um roteiro pré-elaborado com soluções para todos os problemas, na vida quase nada se encaixa perfeitamente, a vida não tem intervalo nos momentos cruciais e nem trilha sonora. A vida não te dá um tempo pra digerir o capítulo anterior, não te permite refazer as cenas, decorar as falas, escolher o melhor ângulo de aparição. A vida, meu bem, é um grande improviso, não tem reprise e continua depois do seu último capítulo, sem palmas do elenco ou festa de encerramento.
sexta-feira, abril 27, 2007
terça-feira, abril 24, 2007
Opostos
I
Vestia todos os dias a mesma roupa, prendia os cabelos da mesma maneira e não usava maquiagem. Nunca se sobressaía, pouco falava, apenas caminhava rumo ao nada acompanhada, apenas, pela sua insegurança. Todos os seus dias eram vazios e iguais e ela sentia um medo enorme de perder-se em si mesma, tornar-se um vulto negro que passa despercebido e, de uma hora para outra, cair no esquecimento. Por isso, lutava por se fazer notar através de pensamentos precisos e atitudes nobres. Acabou ficando conhecida, apesar de todo seu esforço, por sua quase vulgar neutralidade, por nunca na vida ter feito a mínima diferença...
II
Ele era um cientista e falava demais. Dizia-se cético e sempre tinha na ponta da língua uma explicação lógica para todas as coisas. A vida era toda feita de probabilidades, regidas pelas leis naturais, oriundas do poder cósmico do Universo e todos os problemas poderiam ser matematicamente resolvidos. Sua racionalidade o fez chato, sua inteligência o fez único, sua dedicação à ciência o fez famoso. Mas, apesar de sua imensa sabedoria, nem por um dia deixou de ser humano. Morreria, antes tarde do que nunca e, de uma vez por todas, teria que se calar. Para a morte não havia solução...
III
No que dizia respeito aos sentimentos, ela era adepta do preto no branco, falava tudo que lhe vinha à mente, nunca media as palavras, transformava todo e qualquer sentimento em frases claras e inteligíveis. Ele era o dono do silêncio, revelava-se, quando o fazia, por gestos dúbios e complicados. Para todas as certezas dela ele emitia um talvez. Para todas as dúvidas, ela criava uma tentativa e ele, reticências. Eram pólos opostos e, apesar disso (ou talvez por isso mesmo), viram-se enredados em uma trama que ela, apaixonadamente, chamava destino e ele, por rebeldia, chamava coincidência...
Vestia todos os dias a mesma roupa, prendia os cabelos da mesma maneira e não usava maquiagem. Nunca se sobressaía, pouco falava, apenas caminhava rumo ao nada acompanhada, apenas, pela sua insegurança. Todos os seus dias eram vazios e iguais e ela sentia um medo enorme de perder-se em si mesma, tornar-se um vulto negro que passa despercebido e, de uma hora para outra, cair no esquecimento. Por isso, lutava por se fazer notar através de pensamentos precisos e atitudes nobres. Acabou ficando conhecida, apesar de todo seu esforço, por sua quase vulgar neutralidade, por nunca na vida ter feito a mínima diferença...
II
Ele era um cientista e falava demais. Dizia-se cético e sempre tinha na ponta da língua uma explicação lógica para todas as coisas. A vida era toda feita de probabilidades, regidas pelas leis naturais, oriundas do poder cósmico do Universo e todos os problemas poderiam ser matematicamente resolvidos. Sua racionalidade o fez chato, sua inteligência o fez único, sua dedicação à ciência o fez famoso. Mas, apesar de sua imensa sabedoria, nem por um dia deixou de ser humano. Morreria, antes tarde do que nunca e, de uma vez por todas, teria que se calar. Para a morte não havia solução...
III
No que dizia respeito aos sentimentos, ela era adepta do preto no branco, falava tudo que lhe vinha à mente, nunca media as palavras, transformava todo e qualquer sentimento em frases claras e inteligíveis. Ele era o dono do silêncio, revelava-se, quando o fazia, por gestos dúbios e complicados. Para todas as certezas dela ele emitia um talvez. Para todas as dúvidas, ela criava uma tentativa e ele, reticências. Eram pólos opostos e, apesar disso (ou talvez por isso mesmo), viram-se enredados em uma trama que ela, apaixonadamente, chamava destino e ele, por rebeldia, chamava coincidência...
sábado, abril 21, 2007
Malabares
Você tinha que dizer umas verdades praquela moça petulante que se diz sua amiga, quem sabe até dar umas bofetadas na cara dela, com a mão bem aberta, pra marcar os cinco dedos e acabar logo com essa amizade de mentira. Você também tinha que abrir o jogo com aquele cara, falar pra ele o que você sente, parar de esconder dele essas coisas erradas que você teima em fazer. E devia aproveitar pra contar a verdade praquele outro, vai lá, diz pra ele que você não é nada disso que ele pensa que você é, diz pra ele que você é normal, que a sua rotina é um saco, que você não tem coragem de sair da casa da sua mãe por causa da comida, da roupa lavada e essas coisas. E já que é pra entrar num lance de sinceridade, conta logo pros seus pais que você fuma escondida e que está namorando um jogador de futebol. Ah, querida, essa vida que você vive debaixo dos holofotes é uma farsa. Já faz tempo que você se perdeu no meio de tanta filosofia, de tanta parafernália psicológica, de tanto sentimento sem sentido. E agora você fica tentando enganar esse público enorme que te aplaude e não percebe que só está enganando a si mesma. Porque a gente sabe. A gente sabe que você já fez um aborto, que já tentou suicídio e que já tem passagem na polícia. A gente sabe que uma vez você gastou o salário de um mês inteiro jogando na loteria. A gente também sabe que você virou a casaca praquele time chinfrim do seu primeiro namorado. A gente conhece bem todos os seus pequenos e grandes defeitos. Todo mundo conhece, todo mundo sabe. Então pára de se esconder atrás dessa maquiagem, pára de pensar que você pode se livrar de todos os seus erros toda vez que muda a cor do cabelo. Você vai ser sempre assim, vai ser sempre você, não importa onde, nem como e nem quando. Desiste logo desse disfarce idiota. Tira essa roupa e admite, de uma vez por todas, que quando está nua você deixa de existir.
segunda-feira, abril 16, 2007
Tempo
No escuro de um quarto qualquer, o relógio pisca 22:30. No terraço de um prédio o homem planeja minuciosamente seu suicídio. Ela dança entorpecida pelo álcool em uma boate do outro lado da cidade.O senhor muito idoso dá seu último suspiro numa cama de hospital. Continentes adiante uma bomba explode, ensurdecendo a população. Apaga-se a vela do bolo de aniversário, os cachorros latem nervosos. Numa lata de lixo, uma nota de cem reais é encontrada pelo mendigo. Em um bar distante o jogador experiente encaçapa uma bola de bilhar. O casal de namorados se despede em frente ao terminal rodoviário. Soa o terceiro alarme no teatro lotado. Na portaria o vigia dorme profundo. Um homem ferido sangra na esquina. Dois carros se chocam. A garota cega lê um cardápio em braile de um restaurante famoso. As formigas terminam seu trabalho. Alunos de uma faculdade descem as escadarias. O padre vai se deitar. Cai uma lágrima, começa a chuva. Ele acende o cigarro na chama do fogão. A prostituta se insinua para os motoristas no sinaleiro. O PM persegue um ladrão. O mar se agita, o vento derruba uma árvore. A música começa a tocar. Um corpo cai. E no mesmo quarto, agora iluminado pela luz de um velho abajur, o relógio pisca 22:31.
terça-feira, abril 10, 2007
Delírios
Morro um pouco por dia. De saudades. De inveja. De vontade. Aos sábados, cada raio do sol que brilha lá fora me faz lamentar ainda estar aqui dentro, na cama, quando já são mais de três horas da tarde. Vejo as moças na TV desfilando de biquíni no calçadão da minha praia. E sempre me vem lembranças de olhos verdes abruptamente revelados, beijos de motocicleta, caminhadas noturnas em ruas sem postes de iluminação, brisa do mar e filosofia em troncos de árvore, longas jornadas atrás de uma Coca-Cola em uma noite quente...
É um tipo de raiva, se é que me entendem. Essa angústia toda vai além do verão. Ando sendo o que eu não gostaria de ser em lugares nos quais eu não gostaria de estar. Me chegam uns sorrisos de compaixão seguidos de tapas com a mão aberta na minha face mais frágil. Pedras no caminho que vou guardando pra um dia construir o meu castelo de Pessoa.
O ano que se foi se foi depressa demais. Este veio como alguém que se arrasta por um caminho que não gostaria de trilhar. Em comum: todos os dias iguais, os fins de tarde com a mesma cor, o mesmo sopro noturno a despentear meus cabelos. Uma certa tontura que não se sabe se do álcool ou de alguma outra coisa qualquer. Sono. E tudo gira muito rápido. E não é possível dormir. Alertas, meus dedos errantes entregam todas as minhas verdades.
É um tipo de raiva, se é que me entendem. Essa angústia toda vai além do verão. Ando sendo o que eu não gostaria de ser em lugares nos quais eu não gostaria de estar. Me chegam uns sorrisos de compaixão seguidos de tapas com a mão aberta na minha face mais frágil. Pedras no caminho que vou guardando pra um dia construir o meu castelo de Pessoa.
O ano que se foi se foi depressa demais. Este veio como alguém que se arrasta por um caminho que não gostaria de trilhar. Em comum: todos os dias iguais, os fins de tarde com a mesma cor, o mesmo sopro noturno a despentear meus cabelos. Uma certa tontura que não se sabe se do álcool ou de alguma outra coisa qualquer. Sono. E tudo gira muito rápido. E não é possível dormir. Alertas, meus dedos errantes entregam todas as minhas verdades.
sábado, abril 07, 2007
Pleonasmos, hipérboles, calor e hardcore...
Eram os dedos dela alisando os cabelos dele que me incomodavam. E aquela chama de isqueiro constantemente tremulando enquanto ele levava o cigarro aos lábios. E o silêncio que se fazia entre os dois em alguns momentos e que não constrangia, acalentava. E a maneira como ela o olhava, enquanto ele fingia distração e cantarolava uma canção antiga em uma língua morta.
Era embaraçoso, baby, ver os dois assim. Ele, ingênuo, bebericando doses de gim que lhe queimavam as bochechas pálidas, o olhar apaixonado consumindo as pupilas dela como ácido. Ela, confiante, tragadas profundas num cigarro de cravo, jogando os cabelos pra trás e rindo e articulando frases de duplo sentido para aguçar os sentidos dele.
Ele empostava a voz pra dizer que estava com frio, que estava com sede, que estava com fome, que queria fumar um baseado e dormir até tarde no dia seguinte... e ela não dizia nada, mas seus dedos hesitantes bagunçando os cabelos dele gritavam que ela, só ela, tinha as cobertas e a cerveja e uma geladeira cheia de guloseimas proibidas e seda importada e nenhum despertador no quarto.
Ah, baby, eu sabia, lá no fundo da minha alma cansada e conhecedora das peripécias fantasiosas daquele moço, que ele já era um pouco dela muito antes... muito antes que ela enrolasse aqueles dedos tortos nos cachos ruivos dos cabelos dele, muito antes dessa mania que ela tem de sacar o zippo toda vez que ele pega um cigarro, muito antes de todos esses silêncios e de todos esses olhares e de todos esses suspiros, muito antes que os dois começassem a se esbarrar por aí, pelos bares, pela vida.
Não foi ciúme, baby, acredita... foi só esse ódio que eu tenho dos tais romantismos injustificados. Era por saber dessa posse dele que ela tinha que meu estômago ardia em chamas, e me doía aqui dentro alguma coisa, toda vez que ele lançava a ela um daqueles sorrisinhos idiotas, como que se dando sem saber, o tolo, que ela já estava quase esgotada de tanto o ter.
Era embaraçoso, baby, ver os dois assim. Ele, ingênuo, bebericando doses de gim que lhe queimavam as bochechas pálidas, o olhar apaixonado consumindo as pupilas dela como ácido. Ela, confiante, tragadas profundas num cigarro de cravo, jogando os cabelos pra trás e rindo e articulando frases de duplo sentido para aguçar os sentidos dele.
Ele empostava a voz pra dizer que estava com frio, que estava com sede, que estava com fome, que queria fumar um baseado e dormir até tarde no dia seguinte... e ela não dizia nada, mas seus dedos hesitantes bagunçando os cabelos dele gritavam que ela, só ela, tinha as cobertas e a cerveja e uma geladeira cheia de guloseimas proibidas e seda importada e nenhum despertador no quarto.
Ah, baby, eu sabia, lá no fundo da minha alma cansada e conhecedora das peripécias fantasiosas daquele moço, que ele já era um pouco dela muito antes... muito antes que ela enrolasse aqueles dedos tortos nos cachos ruivos dos cabelos dele, muito antes dessa mania que ela tem de sacar o zippo toda vez que ele pega um cigarro, muito antes de todos esses silêncios e de todos esses olhares e de todos esses suspiros, muito antes que os dois começassem a se esbarrar por aí, pelos bares, pela vida.
Não foi ciúme, baby, acredita... foi só esse ódio que eu tenho dos tais romantismos injustificados. Era por saber dessa posse dele que ela tinha que meu estômago ardia em chamas, e me doía aqui dentro alguma coisa, toda vez que ele lançava a ela um daqueles sorrisinhos idiotas, como que se dando sem saber, o tolo, que ela já estava quase esgotada de tanto o ter.
quinta-feira, abril 05, 2007
Uma hora, pouco mais... ou isso que chamam de eternidade
Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das nove. O moço nunca chegava no horário.
Goles de cerveja que ela não deveria beber. Tragadas num cigarro que não deveriam ser tão freqüentes e tão profundas. Sono. Tosse. Falta de apetite pro risoto de anteontem guardado na geladeira. Todos os dias eram assim. Acordar quando estava quase anoitecendo. Voltar a dormir quando já havia amanhecido. Entre os resmungos e os bocejos: cervejas, cigarros, uma ou outra alopatia, música, alguns rabiscos, banhos, maquiagem, filmes cheios de sentido, sexo, risadas. Valiam, às vezes, caminhadas, um ou outro compromisso riscado na agenda, visitas à mãe doente, compras no supermercado, reuniões com os amigos. Sempre um desejo contido de algo mais, algo maior. Sempre uma culpa por não estar nos lugares certos, fazendo as coisas certas, pelas mentiras, pela falta de sentido e pela filosofia barata e desmotivada de auto-destruição.
Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das dez. O moço nunca chegava no horário.
Goles de cerveja que ela não deveria beber. Tragadas num cigarro que não deveriam ser tão freqüentes e tão profundas. Sono. Tosse. Falta de apetite pro risoto de anteontem guardado na geladeira. Todos os dias eram assim. Acordar quando estava quase anoitecendo. Voltar a dormir quando já havia amanhecido. Entre os resmungos e os bocejos: cervejas, cigarros, uma ou outra alopatia, música, alguns rabiscos, banhos, maquiagem, filmes cheios de sentido, sexo, risadas. Valiam, às vezes, caminhadas, um ou outro compromisso riscado na agenda, visitas à mãe doente, compras no supermercado, reuniões com os amigos. Sempre um desejo contido de algo mais, algo maior. Sempre uma culpa por não estar nos lugares certos, fazendo as coisas certas, pelas mentiras, pela falta de sentido e pela filosofia barata e desmotivada de auto-destruição.
Respirava fumaça doce de incenso. Esperava o moço chegar. Passava das dez. O moço nunca chegava no horário.
terça-feira, abril 03, 2007
"One for my baby (and one more for the road)"...
Outubro mal começou, chove há dias nessa cidade cinza e tenho visto tudo em preto e branco. Não há muito que se fazer por aqui. Ontem bebi, de um só gole, aquele resto de whisky que sobrou da tua última noite de insônia, e fumei quase todos os teus cigarros.
Desde que me aprisionei nas tuas memórias, o tempo parou de passar. Foram semanas... eu deitada no tapete felpudo da sala, ouvindo teus discos de vinil e tentando definir a nossa história. Demorei a dar-me conta de que sequer tínhamos uma.
Fato que vivemos todos esses longos anos numa busca insana um do outro. Eu me buscava, noite após noite, na opacidade dos teus olhos verdes, e tu te buscavas no meu rosto amassado de todas as manhãs. Nossos corpos quase se fundiam, mas nunca nos soubemos assim, tão próximos. E acabou que não tivemos uma história... fomos, juntos, apenas o teu sorriso torto, o teu sarcasmo, um tapa de mão aberta no meu rosto molhado de lágrima. E nosso nada ficou guardado numa pequena caixa de lembranças...
Ainda não desfiz as malas de nossa última viagem pelo infinito... lembro das inúmeras vezes em que a tua voz teimosa repetiu que seriam só alguns dias e que aquilo tudo não era necessário: as alopatias, os panos quentes. Eu carregava frio para os dias de verão, tu dizias. Mas, antes que eu pudesse consentir, teus braços magros amarrotavam minhas compressas no porta-malas do nosso carro. Era sempre assim. E, no fim, nós éramos só estrada. O carro, as malas, aqueles placebos todos ficavam sempre pra trás... flutuávamos nus. Eu curava tua gripe com beijos molhados na tua testa febril, minhas dores de cabeça eram quase irrelevantes.
Mas acontecia que nossos destinos eram por demais incertos e nossas idas nunca terminavam. A insistência era vã. Carregávamos nas costas o peso de quem nunca chega. E sempre voltávamos pro mesmo lugar: o apartamento, no quinto andar do prédio sem vizinhos, na viela mais barulhenta daquela cidade quase fantasma... os paralelepípedos molhados da rua lá embaixo ainda me ferem os ouvidos quando os carros passam.
Então, tu te cansaste de todas estas viagens sem rumo e sem rima, e do estar constante nesta cidade fria, e compraste, com o meu dinheiro, uma passagem só de ida pra algum lugar do qual nunca ouvi falar. E eu fiquei aqui, ouvindo tua música, fumando teu velho estoque de cigarros, buscando teus lábios nos gargalos vazios espalhados pela casa...
Pouca coisa mudou desde que tu partiste. Nossos amigos sempre aparecem, trazem flores pra colorir a nossa sala e me perguntam de ti... digo que de ti não sei há tempos, oculto a minha dor num grande gole de um destilado qualquer e sorrio um riso sincero e lateral. Fingir acaba sendo fácil porque a minha dor é discreta, tu bem sabes. Meu sofrimento não grita desesperos aos ouvidos dos outros, no máximo me despenteia os cabelos e amplia discretamente as minhas olheiras... e eles percebem, há piedade nas respostas mudas que me dão, mostram-me dentes cheios de condolências, mas dá para viver bem assim.
A casa agora está mais clara porque mandei que pintassem as paredes e trocassem o piso. As tábuas novas têm o brilho de uma cor marfim que me cega quando acordo sem sono no meio da madrugada. Teus bonsais, pode parecer que minto, estão fortes como nunca... tenho lhes dado pouca água e teus conselhos absurdos sobre as cinzas de cigarro, agora, diante das folhas verdes, me parecem acertados.
As meninas da rua têm aparecido com mais freqüência, ficam prostradas nas esquinas, seminuas, à espera de amantes que lhe encham os estômagos de vento e os corações de mágoas. Não passam mais os velhos ricos que perguntavam por elas enquanto elas se divertiam com outros velhos ricos nos hotéis afastados do centro... eu durmo quando me canso e acordo sempre com seus gritos de miséria e frio. Alguns bares fecharam, novos surgiram. A polícia ainda faz a ronda todas às sextas-feiras, mas não ouço mais as sirenes. Aos domingos, por causa da feira, a rua tem ficado abarrotada de carros... fico debruçada na janela, observando os passantes felizes com suas sacolinhas cheias de estatuetas e incensos e vestidinhos de boneca.
E o tempo parou de passar, já disse, desde que me aprisionei nas tuas memórias...
Correm boatos tristes de que tu vais voltar, somente pra dizer adeus... bem sei das reticências que teu adeus traz escondidas. Então, sugiro que venhas tarde da noite, durante o meu sono pesado, traga-me um buquê de rosas tristes e puxes rápido o gatilho, num bilhete morno, quase sem palavras... leves tudo de ti que ainda me cerca, dê-me um beijo rápido na testa e vá, pra nunca mais. A estrada te espera e já tenho angústias que me bastam, não quero ouvir-te balbuciar as tuas longas despedidas. Se o teu adeus é assim tão preciso, não permitas que eu te espere acordada... não me deixa mais uma vez o vínculo destes teus olhos sem brilho, que eu já não sei se posso suportar.
Desde que me aprisionei nas tuas memórias, o tempo parou de passar. Foram semanas... eu deitada no tapete felpudo da sala, ouvindo teus discos de vinil e tentando definir a nossa história. Demorei a dar-me conta de que sequer tínhamos uma.
Fato que vivemos todos esses longos anos numa busca insana um do outro. Eu me buscava, noite após noite, na opacidade dos teus olhos verdes, e tu te buscavas no meu rosto amassado de todas as manhãs. Nossos corpos quase se fundiam, mas nunca nos soubemos assim, tão próximos. E acabou que não tivemos uma história... fomos, juntos, apenas o teu sorriso torto, o teu sarcasmo, um tapa de mão aberta no meu rosto molhado de lágrima. E nosso nada ficou guardado numa pequena caixa de lembranças...
Ainda não desfiz as malas de nossa última viagem pelo infinito... lembro das inúmeras vezes em que a tua voz teimosa repetiu que seriam só alguns dias e que aquilo tudo não era necessário: as alopatias, os panos quentes. Eu carregava frio para os dias de verão, tu dizias. Mas, antes que eu pudesse consentir, teus braços magros amarrotavam minhas compressas no porta-malas do nosso carro. Era sempre assim. E, no fim, nós éramos só estrada. O carro, as malas, aqueles placebos todos ficavam sempre pra trás... flutuávamos nus. Eu curava tua gripe com beijos molhados na tua testa febril, minhas dores de cabeça eram quase irrelevantes.
Mas acontecia que nossos destinos eram por demais incertos e nossas idas nunca terminavam. A insistência era vã. Carregávamos nas costas o peso de quem nunca chega. E sempre voltávamos pro mesmo lugar: o apartamento, no quinto andar do prédio sem vizinhos, na viela mais barulhenta daquela cidade quase fantasma... os paralelepípedos molhados da rua lá embaixo ainda me ferem os ouvidos quando os carros passam.
Então, tu te cansaste de todas estas viagens sem rumo e sem rima, e do estar constante nesta cidade fria, e compraste, com o meu dinheiro, uma passagem só de ida pra algum lugar do qual nunca ouvi falar. E eu fiquei aqui, ouvindo tua música, fumando teu velho estoque de cigarros, buscando teus lábios nos gargalos vazios espalhados pela casa...
Pouca coisa mudou desde que tu partiste. Nossos amigos sempre aparecem, trazem flores pra colorir a nossa sala e me perguntam de ti... digo que de ti não sei há tempos, oculto a minha dor num grande gole de um destilado qualquer e sorrio um riso sincero e lateral. Fingir acaba sendo fácil porque a minha dor é discreta, tu bem sabes. Meu sofrimento não grita desesperos aos ouvidos dos outros, no máximo me despenteia os cabelos e amplia discretamente as minhas olheiras... e eles percebem, há piedade nas respostas mudas que me dão, mostram-me dentes cheios de condolências, mas dá para viver bem assim.
A casa agora está mais clara porque mandei que pintassem as paredes e trocassem o piso. As tábuas novas têm o brilho de uma cor marfim que me cega quando acordo sem sono no meio da madrugada. Teus bonsais, pode parecer que minto, estão fortes como nunca... tenho lhes dado pouca água e teus conselhos absurdos sobre as cinzas de cigarro, agora, diante das folhas verdes, me parecem acertados.
As meninas da rua têm aparecido com mais freqüência, ficam prostradas nas esquinas, seminuas, à espera de amantes que lhe encham os estômagos de vento e os corações de mágoas. Não passam mais os velhos ricos que perguntavam por elas enquanto elas se divertiam com outros velhos ricos nos hotéis afastados do centro... eu durmo quando me canso e acordo sempre com seus gritos de miséria e frio. Alguns bares fecharam, novos surgiram. A polícia ainda faz a ronda todas às sextas-feiras, mas não ouço mais as sirenes. Aos domingos, por causa da feira, a rua tem ficado abarrotada de carros... fico debruçada na janela, observando os passantes felizes com suas sacolinhas cheias de estatuetas e incensos e vestidinhos de boneca.
E o tempo parou de passar, já disse, desde que me aprisionei nas tuas memórias...
Correm boatos tristes de que tu vais voltar, somente pra dizer adeus... bem sei das reticências que teu adeus traz escondidas. Então, sugiro que venhas tarde da noite, durante o meu sono pesado, traga-me um buquê de rosas tristes e puxes rápido o gatilho, num bilhete morno, quase sem palavras... leves tudo de ti que ainda me cerca, dê-me um beijo rápido na testa e vá, pra nunca mais. A estrada te espera e já tenho angústias que me bastam, não quero ouvir-te balbuciar as tuas longas despedidas. Se o teu adeus é assim tão preciso, não permitas que eu te espere acordada... não me deixa mais uma vez o vínculo destes teus olhos sem brilho, que eu já não sei se posso suportar.
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