I
Vestia todos os dias a mesma roupa, prendia os cabelos da mesma maneira e não usava maquiagem. Nunca se sobressaía, pouco falava, apenas caminhava rumo ao nada acompanhada, apenas, pela sua insegurança. Todos os seus dias eram vazios e iguais e ela sentia um medo enorme de perder-se em si mesma, tornar-se um vulto negro que passa despercebido e, de uma hora para outra, cair no esquecimento. Por isso, lutava por se fazer notar através de pensamentos precisos e atitudes nobres. Acabou ficando conhecida, apesar de todo seu esforço, por sua quase vulgar neutralidade, por nunca na vida ter feito a mínima diferença...
II
Ele era um cientista e falava demais. Dizia-se cético e sempre tinha na ponta da língua uma explicação lógica para todas as coisas. A vida era toda feita de probabilidades, regidas pelas leis naturais, oriundas do poder cósmico do Universo e todos os problemas poderiam ser matematicamente resolvidos. Sua racionalidade o fez chato, sua inteligência o fez único, sua dedicação à ciência o fez famoso. Mas, apesar de sua imensa sabedoria, nem por um dia deixou de ser humano. Morreria, antes tarde do que nunca e, de uma vez por todas, teria que se calar. Para a morte não havia solução...
III
No que dizia respeito aos sentimentos, ela era adepta do preto no branco, falava tudo que lhe vinha à mente, nunca media as palavras, transformava todo e qualquer sentimento em frases claras e inteligíveis. Ele era o dono do silêncio, revelava-se, quando o fazia, por gestos dúbios e complicados. Para todas as certezas dela ele emitia um talvez. Para todas as dúvidas, ela criava uma tentativa e ele, reticências. Eram pólos opostos e, apesar disso (ou talvez por isso mesmo), viram-se enredados em uma trama que ela, apaixonadamente, chamava destino e ele, por rebeldia, chamava coincidência...
Nenhum comentário:
Postar um comentário