terça-feira, abril 03, 2007

"One for my baby (and one more for the road)"...

Outubro mal começou, chove há dias nessa cidade cinza e tenho visto tudo em preto e branco. Não há muito que se fazer por aqui. Ontem bebi, de um só gole, aquele resto de whisky que sobrou da tua última noite de insônia, e fumei quase todos os teus cigarros.

Desde que me aprisionei nas tuas memórias, o tempo parou de passar. Foram semanas... eu deitada no tapete felpudo da sala, ouvindo teus discos de vinil e tentando definir a nossa história. Demorei a dar-me conta de que sequer tínhamos uma.

Fato que vivemos todos esses longos anos numa busca insana um do outro. Eu me buscava, noite após noite, na opacidade dos teus olhos verdes, e tu te buscavas no meu rosto amassado de todas as manhãs. Nossos corpos quase se fundiam, mas nunca nos soubemos assim, tão próximos. E acabou que não tivemos uma história... fomos, juntos, apenas o teu sorriso torto, o teu sarcasmo, um tapa de mão aberta no meu rosto molhado de lágrima. E nosso nada ficou guardado numa pequena caixa de lembranças...

Ainda não desfiz as malas de nossa última viagem pelo infinito... lembro das inúmeras vezes em que a tua voz teimosa repetiu que seriam só alguns dias e que aquilo tudo não era necessário: as alopatias, os panos quentes. Eu carregava frio para os dias de verão, tu dizias. Mas, antes que eu pudesse consentir, teus braços magros amarrotavam minhas compressas no porta-malas do nosso carro. Era sempre assim. E, no fim, nós éramos só estrada. O carro, as malas, aqueles placebos todos ficavam sempre pra trás... flutuávamos nus. Eu curava tua gripe com beijos molhados na tua testa febril, minhas dores de cabeça eram quase irrelevantes.

Mas acontecia que nossos destinos eram por demais incertos e nossas idas nunca terminavam. A insistência era vã. Carregávamos nas costas o peso de quem nunca chega. E sempre voltávamos pro mesmo lugar: o apartamento, no quinto andar do prédio sem vizinhos, na viela mais barulhenta daquela cidade quase fantasma... os paralelepípedos molhados da rua lá embaixo ainda me ferem os ouvidos quando os carros passam.

Então, tu te cansaste de todas estas viagens sem rumo e sem rima, e do estar constante nesta cidade fria, e compraste, com o meu dinheiro, uma passagem só de ida pra algum lugar do qual nunca ouvi falar. E eu fiquei aqui, ouvindo tua música, fumando teu velho estoque de cigarros, buscando teus lábios nos gargalos vazios espalhados pela casa...

Pouca coisa mudou desde que tu partiste. Nossos amigos sempre aparecem, trazem flores pra colorir a nossa sala e me perguntam de ti... digo que de ti não sei há tempos, oculto a minha dor num grande gole de um destilado qualquer e sorrio um riso sincero e lateral. Fingir acaba sendo fácil porque a minha dor é discreta, tu bem sabes. Meu sofrimento não grita desesperos aos ouvidos dos outros, no máximo me despenteia os cabelos e amplia discretamente as minhas olheiras... e eles percebem, há piedade nas respostas mudas que me dão, mostram-me dentes cheios de condolências, mas dá para viver bem assim.

A casa agora está mais clara porque mandei que pintassem as paredes e trocassem o piso. As tábuas novas têm o brilho de uma cor marfim que me cega quando acordo sem sono no meio da madrugada. Teus bonsais, pode parecer que minto, estão fortes como nunca... tenho lhes dado pouca água e teus conselhos absurdos sobre as cinzas de cigarro, agora, diante das folhas verdes, me parecem acertados.

As meninas da rua têm aparecido com mais freqüência, ficam prostradas nas esquinas, seminuas, à espera de amantes que lhe encham os estômagos de vento e os corações de mágoas. Não passam mais os velhos ricos que perguntavam por elas enquanto elas se divertiam com outros velhos ricos nos hotéis afastados do centro... eu durmo quando me canso e acordo sempre com seus gritos de miséria e frio. Alguns bares fecharam, novos surgiram. A polícia ainda faz a ronda todas às sextas-feiras, mas não ouço mais as sirenes. Aos domingos, por causa da feira, a rua tem ficado abarrotada de carros... fico debruçada na janela, observando os passantes felizes com suas sacolinhas cheias de estatuetas e incensos e vestidinhos de boneca.

E o tempo parou de passar, já disse, desde que me aprisionei nas tuas memórias...

Correm boatos tristes de que tu vais voltar, somente pra dizer adeus... bem sei das reticências que teu adeus traz escondidas. Então, sugiro que venhas tarde da noite, durante o meu sono pesado, traga-me um buquê de rosas tristes e puxes rápido o gatilho, num bilhete morno, quase sem palavras... leves tudo de ti que ainda me cerca, dê-me um beijo rápido na testa e vá, pra nunca mais. A estrada te espera e já tenho angústias que me bastam, não quero ouvir-te balbuciar as tuas longas despedidas. Se o teu adeus é assim tão preciso, não permitas que eu te espere acordada... não me deixa mais uma vez o vínculo destes teus olhos sem brilho, que eu já não sei se posso suportar.

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