terça-feira, março 19, 2013

Lá, aqui

Os olhos. Uma alegoria de verde ou azul ou mel. As mãos escondendo os olhos. O brilho por entre os dedos.

Sonho.

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É dia claro.

Já cedo a loucura me sorri. Eu busco um verbo inconjugável pra dizer que não a quero por perto. É mentira. É verdade. Faltam crases, faltam vírgulas.

Mariana me conta sobre as fazendas e os pastos e as vacas e o leite e fala sobre descansar, sobre o pôr do sol mais lindo e o gramado verde cercando as casas, sobre necessidades, deveres. Eu não a escuto. Sua voz é mecânica, robotizada. Sua vida, idem.

Eduardo acende um cigarro e acena com a cabeça na direção de Mariana como que apontando sua pobreza de espírito. Aproveita minha distração e move o cavalo em um lance de seis casas. "Xeque". Mas eu tenho olhos pro tabuleiro, pro cigarro, pro telefone que não toca, pra Mariana e um outro ainda pra dizer, em silêncio, que não sou boba, ainda que eu seja.

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Confundo memórias com vontades. Sei que dissemos pouco com palavras. Me pergunto se foi encanto ou fúria. Lamento meus impulsos, nossa pressa, tua perfeição.

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Anoitece.

Edu me serve uma bebida quente. É verão e sinto frio. Não como nada há doze dias. Mariana penteia meus cabelos e canta em francês. Ele sorri e diz que precisa ir. Deixa meus remédios ao lado da cama e repete a prescrição duas vezes. Ela se levanta e me beija a testa de um jeito maternal. "Você está febril", ela diz, antes de pegar o casaco e a bolsa. Dou de ombros, desdenhando a não novidade. Eles saem.

Sozinha, no escuro, tateio ao redor buscando meus óculos. Todos os meus movimentos são impensados. Ouço o tique-taque do relógio. O tempo não passa em silêncio. Minhas mãos me gritam segundos. Elas sabem.

Adormeço.

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E, então, você, de novo. Tua barba me fazendo cócegas. Você me dizendo o quanto gosta de Woody Allen, de queijo quente, de livro novo, de chuva, de veludo e seda, de ondulatória e do meu beijo.

Você não faz sentido, mas é bonito. E breve.

Eu querendo que você note o intangível, mas fazendo tudo errado. Céu de baunilha e os conselhos que eu nunca sigo. E algo como arrependimento, mas sem ser, toda vez que você vai embora. E você sempre vai.

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Olhos negros, olhos negros. As entrelinhas que eu não leio. As bobagens que você não conhece. Amnésias e desvios. A outra moça. Os mortos todos. O som irritante do despertador. Distância. Apego. Saudade.

Pesadelo.


Nouvelle Vague - I Melt With You