Eu tenho essa coisa de respirar fundo, contar até dez, fumar um ou dois cigarros e então simplesmente fazer o fim do mundo parecer cinco mililitros de leite derramado, pelos quais, definitivamente, não vale a pena chorar.
Mas às vezes eu prendo a respiração, conto até cem mil, fumo um maço inteiro de cigarros e, ainda assim, a coisa mais simples do mundo parece mais complicada do que convencer um camelo jurássico a passar pelo buraco de uma agulha no palheiro.
segunda-feira, julho 28, 2008
sábado, julho 26, 2008
Rotina
Contemplar a ferida. Chorar por meia hora. Depois olhar o rosto molhado no espelho do banheiro e parar de sentir. Não exatamente, literalmente. Parar de sentir apenas por um instante, apenas o suficiente para perceber como seria bom não sentir. Então jogar todo o foco nisso. Secar as lágrimas, escovar os dentes, disfarçar as olheiras com pó de arroz, abrir a porta e dizer "cansei, agora chega". De uma vez por todas. Pra não precisar mais repetir essa sequência estúpida em todos os malditos dias.
terça-feira, julho 15, 2008
Correspondência extraviada V
R.,
Eu sei. Não há mais nada a ser dito.
Existe ainda, contudo, aqueles dias em que é você e mais nada. Começo a julgar-me louca.
Ah, a fumaça espessa do cigarro, o armário do banheiro lotado de remédios, essa minha obsessão pelo leste europeu, quintas-feiras sem sentido. Já não sei mais se as coisas sempre foram assim, ou se passaram a ser assim somente depois de você.
Hoje um farol vermelho e meu pé fundo no acelerador. Nos dez segundos que antecederam a constatação de que eu ainda estava viva, tua imagem foi plano de fundo para os meus delírios de adeus mundo cruel. Aquela história de "toda a sua vida" é lenda. Dez segundos. Você e mais nada. E eu já vivi tanta coisa, meu bem.
Eu quis definir esse esquema. Li Freud e Jung e Reich e Lacan. Até entendi, mas ainda não aceitei.
Fato que tenho tentado esquecer. Mas há sempre uma brasa queimando no escuro, minha necessidade de pílulas para dormir, as histórias de meus antepassados, o tédio e tuas cartas gritando meu nome de dentro das gavetas, como se quisessem me impor a tua existência.
A verdade é que tudo me leva à lembrança de coisas que nunca existiram. Passo os dias maldizendo minha estupidez e lamentando a sensatez de outros tempos, mesmo sabendo que, provavelmente, seria tudo igual agora ainda que houvesse sido diferente antes.
Como eu disse, não há mais nada a ser dito, eu sei. Cansei-me de cartas que voltam. Dessa vez, não espero resposta. Dessa vez vou atirar meus devaneios sem envelope e sem selo na caixa de correio mais distante que encontrar.
...
Eu sei. Não há mais nada a ser dito.
Existe ainda, contudo, aqueles dias em que é você e mais nada. Começo a julgar-me louca.
Ah, a fumaça espessa do cigarro, o armário do banheiro lotado de remédios, essa minha obsessão pelo leste europeu, quintas-feiras sem sentido. Já não sei mais se as coisas sempre foram assim, ou se passaram a ser assim somente depois de você.
Hoje um farol vermelho e meu pé fundo no acelerador. Nos dez segundos que antecederam a constatação de que eu ainda estava viva, tua imagem foi plano de fundo para os meus delírios de adeus mundo cruel. Aquela história de "toda a sua vida" é lenda. Dez segundos. Você e mais nada. E eu já vivi tanta coisa, meu bem.
Eu quis definir esse esquema. Li Freud e Jung e Reich e Lacan. Até entendi, mas ainda não aceitei.
Fato que tenho tentado esquecer. Mas há sempre uma brasa queimando no escuro, minha necessidade de pílulas para dormir, as histórias de meus antepassados, o tédio e tuas cartas gritando meu nome de dentro das gavetas, como se quisessem me impor a tua existência.
A verdade é que tudo me leva à lembrança de coisas que nunca existiram. Passo os dias maldizendo minha estupidez e lamentando a sensatez de outros tempos, mesmo sabendo que, provavelmente, seria tudo igual agora ainda que houvesse sido diferente antes.
Como eu disse, não há mais nada a ser dito, eu sei. Cansei-me de cartas que voltam. Dessa vez, não espero resposta. Dessa vez vou atirar meus devaneios sem envelope e sem selo na caixa de correio mais distante que encontrar.
...
De mim, nos outros...
A stranger has come
To share my room in the house not right in the head,
A girl mad as birds
Bolting the night of the door with her arm her plume.
Strait in the mazed bed
She deludes the heaven-proof house with entering clouds
Yet she deludes with walking the nightmarish room,
At large as the dead,
Or rides the imagined oceans of the male wards.
She has come possessed
Who admits the delusive light through the bouncing wall,
Possessed by the skies
She sleeps in the narrow trough yet she walks the dust
Yet raves at her will
On the madhouse boards worn thin by my walking tears.
And taken by light in her arms at long and dear last
I may without fail
Suffer the first vision that set fire to the stars.
Dylan Thomas: Love In The Asylum
To share my room in the house not right in the head,
A girl mad as birds
Bolting the night of the door with her arm her plume.
Strait in the mazed bed
She deludes the heaven-proof house with entering clouds
Yet she deludes with walking the nightmarish room,
At large as the dead,
Or rides the imagined oceans of the male wards.
She has come possessed
Who admits the delusive light through the bouncing wall,
Possessed by the skies
She sleeps in the narrow trough yet she walks the dust
Yet raves at her will
On the madhouse boards worn thin by my walking tears.
And taken by light in her arms at long and dear last
I may without fail
Suffer the first vision that set fire to the stars.
Dylan Thomas: Love In The Asylum
segunda-feira, julho 07, 2008
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