"Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço."
quarta-feira, outubro 21, 2009
terça-feira, outubro 20, 2009
Mentirinha
- Anna, me empresta esse livro depois que você terminar de ler?
- Putz, cara, empresto, mas antes de você tem a minha mãe e a minha avó na lista.
- Nossa! Sua mãe e sua avó leem Bukowski?
- Ahã. Louco, né?
- Putz, cara, empresto, mas antes de você tem a minha mãe e a minha avó na lista.
- Nossa! Sua mãe e sua avó leem Bukowski?
- Ahã. Louco, né?
terça-feira, outubro 13, 2009
A franja
Eu não sei se a franja fez com que ela ficasse babaca ou se ela já era babaca antes da franja e eu é que não tinha percebido. O que eu quero dizer é que, depois da franja, a babaquice dela ficou insuportável. Aí que ela fica o dia inteiro mexendo na franja, até a franja ficar oleosa e você começar a sentir nojo de olhar. Veja, na verdade você começa a sentir nojo bem antes da franja ficar oleosa. Que ela tem um metro e setenta e cinco, pesa cinquenta quilos, usa calça branca, barriga de fora, e ainda diz que é gorda e que tem mais celulite que laranja podre. Que ela não para de falar de doença. Da sinusite, da bronquite, da pedra na vesícula, do cálculo renal, da hérnia de hiato, da úlcera, da dor na garganta, no baço, no fígado, na coluna, na omoplata, na dobra de trás do joelho esquerdo. Aí que ela se acha mais foda do que eu porque toma oitenta miligramas de cortisona por dia e eu tomo "só sessenta". Só. E todo dia ela diz que ela não entende como é que eu consigo desenvolver tão bem um raciocínio, como é que eu consigo falar tão bem, como é que eu posso ser tão inteligente e que abençoada que eu sou por, aos vinte e seis anos, ter uma casa própria. A verdade é que ela gosta de se fazer de vítima. Então ela é mais gorda do que eu, mais doente do que eu, mais burra do que eu e mais infeliz do que eu. Até mais pobre do que eu ela é, ainda que a porcaria da minha casa própria aos vinte e seis anos valha menos do que o carro que o pai dela comprou pra ela quando ela fez dezoito. Ela gasta só cinco mil por mês em procedimentos estéticos e já fez lipoaspiração, colocou silicone, aplicou botox e tudo mais. Até anal bleaching ela fez. Ui. E ela não para de falar de Deus e tem mil santinhos em cima da mesa e um terço pendurado no espelho do carro e vai à missa todo domingo e ao clube de swing com o marido todo sábado. E fala que fulana é vagabunda porque "mal divorciou já tá dando pra outro". E mente. Ela tem coragem de te dizer que foi assim, mesmo sabendo que você sabe que foi assado porque você estava lá e você viu. E ela manda chamar a copeira lá atrás pra buscar o chá gelado dela na porcaria do frigobar que fica a cinco míseros passos da cadeira onde ela senta sua bunda magra o dia todo pra ficar oleando a franja e reclamando de dor. E quando o chá gelado acaba ela manda a copeira na panificadora comprar mais e diz que não pode ir porque tá de salto e "as calçadas de Curitiba detonam com os taquinhos dos sapatos". E ela é real. O pior é que ela é real. Se me contassem...
quarta-feira, outubro 07, 2009
Correspondência extraviada X
R.,
Já é outubro e ainda venta muito e faz frio nessa cidade cinza. Lembro-me que foi em uma noite como a de hoje que tu vieste. Teus lábios estavam gelados quando me beijaste o rosto. Teus dedos arroxeados quando pegaste a chave do carro e me ofereceste a carona que eu, tola, não aceitei.
Dessa vez foi o vento que me trouxe a saudade.
Faz tempo, imprimi tuas letras. Deixo-te junto de DFW na estante. Escrevi teu nome no topo da primeira página, como que para não esquecer que são teus aqueles versos. Os papéis já estão amarelando. E toda vez que te leio me vem essa sensação de luto.
Fico imaginando os teus (ou meus, ou dela) movimentos circulares para levar o cigarro à boca. Tua história me passa pela cabeça como um filme.
Ando te repetindo na esperança de que tu me encontres procurando por ti mesmo, é fato. Nestes tempos de pura eletricidade, não é impossível que aconteça. Engraçado que eu não me canse jamais de me alimentar de sonhos e delírios. Essa estranha sensação de tangibilidade. Sei que, em algum lugar, tu pensas em mim. Assim não fosse e que sentido faria toda essa obsessão? Há de haver algum tipo de ligação inexplicável entre nós.
Espero-te ensaiando as palavras. Há tanto para ouvir de ti, sobre teus motivos, mas não acredito que tu vás falar. Além do mais, já imaginei todas as respostas possíveis para minhas perguntas, de modo que a verdade já não me importa mais. Então vou te falar das lembranças do teu primeiro retorno, da janela grande e do jazz e do teu sorriso bordô. Depois vou te falar do engano, da tolice que foi tua nova partida, do quanto me torturei, em todos esses anos, pelas coisas que te disse sem querer dizer. Por fim, vou te falar de mim e espero, então, que fales de ti. Preciso finalmente saber quem tu és.
...
Já é outubro e ainda venta muito e faz frio nessa cidade cinza. Lembro-me que foi em uma noite como a de hoje que tu vieste. Teus lábios estavam gelados quando me beijaste o rosto. Teus dedos arroxeados quando pegaste a chave do carro e me ofereceste a carona que eu, tola, não aceitei.
Dessa vez foi o vento que me trouxe a saudade.
Faz tempo, imprimi tuas letras. Deixo-te junto de DFW na estante. Escrevi teu nome no topo da primeira página, como que para não esquecer que são teus aqueles versos. Os papéis já estão amarelando. E toda vez que te leio me vem essa sensação de luto.
Fico imaginando os teus (ou meus, ou dela) movimentos circulares para levar o cigarro à boca. Tua história me passa pela cabeça como um filme.
Ando te repetindo na esperança de que tu me encontres procurando por ti mesmo, é fato. Nestes tempos de pura eletricidade, não é impossível que aconteça. Engraçado que eu não me canse jamais de me alimentar de sonhos e delírios. Essa estranha sensação de tangibilidade. Sei que, em algum lugar, tu pensas em mim. Assim não fosse e que sentido faria toda essa obsessão? Há de haver algum tipo de ligação inexplicável entre nós.
Espero-te ensaiando as palavras. Há tanto para ouvir de ti, sobre teus motivos, mas não acredito que tu vás falar. Além do mais, já imaginei todas as respostas possíveis para minhas perguntas, de modo que a verdade já não me importa mais. Então vou te falar das lembranças do teu primeiro retorno, da janela grande e do jazz e do teu sorriso bordô. Depois vou te falar do engano, da tolice que foi tua nova partida, do quanto me torturei, em todos esses anos, pelas coisas que te disse sem querer dizer. Por fim, vou te falar de mim e espero, então, que fales de ti. Preciso finalmente saber quem tu és.
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quinta-feira, outubro 01, 2009
Planos
Amanhã eu vou gravar em um CD a minha suave voz delicadamente articulando o célebre discurso que consiste na repetição incessante da frase "vá tomar no meio do olho do seu digníssimo cu", pra te mandar pelo correio em um discman com o botão do repeat travado.
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