R.,
Já é outubro e ainda venta muito e faz frio nessa cidade cinza. Lembro-me que foi em uma noite como a de hoje que tu vieste. Teus lábios estavam gelados quando me beijaste o rosto. Teus dedos arroxeados quando pegaste a chave do carro e me ofereceste a carona que eu, tola, não aceitei.
Dessa vez foi o vento que me trouxe a saudade.
Faz tempo, imprimi tuas letras. Deixo-te junto de DFW na estante. Escrevi teu nome no topo da primeira página, como que para não esquecer que são teus aqueles versos. Os papéis já estão amarelando. E toda vez que te leio me vem essa sensação de luto.
Fico imaginando os teus (ou meus, ou dela) movimentos circulares para levar o cigarro à boca. Tua história me passa pela cabeça como um filme.
Ando te repetindo na esperança de que tu me encontres procurando por ti mesmo, é fato. Nestes tempos de pura eletricidade, não é impossível que aconteça. Engraçado que eu não me canse jamais de me alimentar de sonhos e delírios. Essa estranha sensação de tangibilidade. Sei que, em algum lugar, tu pensas em mim. Assim não fosse e que sentido faria toda essa obsessão? Há de haver algum tipo de ligação inexplicável entre nós.
Espero-te ensaiando as palavras. Há tanto para ouvir de ti, sobre teus motivos, mas não acredito que tu vás falar. Além do mais, já imaginei todas as respostas possíveis para minhas perguntas, de modo que a verdade já não me importa mais. Então vou te falar das lembranças do teu primeiro retorno, da janela grande e do jazz e do teu sorriso bordô. Depois vou te falar do engano, da tolice que foi tua nova partida, do quanto me torturei, em todos esses anos, pelas coisas que te disse sem querer dizer. Por fim, vou te falar de mim e espero, então, que fales de ti. Preciso finalmente saber quem tu és.
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