Eu não sei se a franja fez com que ela ficasse babaca ou se ela já era babaca antes da franja e eu é que não tinha percebido. O que eu quero dizer é que, depois da franja, a babaquice dela ficou insuportável. Aí que ela fica o dia inteiro mexendo na franja, até a franja ficar oleosa e você começar a sentir nojo de olhar. Veja, na verdade você começa a sentir nojo bem antes da franja ficar oleosa. Que ela tem um metro e setenta e cinco, pesa cinquenta quilos, usa calça branca, barriga de fora, e ainda diz que é gorda e que tem mais celulite que laranja podre. Que ela não para de falar de doença. Da sinusite, da bronquite, da pedra na vesícula, do cálculo renal, da hérnia de hiato, da úlcera, da dor na garganta, no baço, no fígado, na coluna, na omoplata, na dobra de trás do joelho esquerdo. Aí que ela se acha mais foda do que eu porque toma oitenta miligramas de cortisona por dia e eu tomo "só sessenta". Só. E todo dia ela diz que ela não entende como é que eu consigo desenvolver tão bem um raciocínio, como é que eu consigo falar tão bem, como é que eu posso ser tão inteligente e que abençoada que eu sou por, aos vinte e seis anos, ter uma casa própria. A verdade é que ela gosta de se fazer de vítima. Então ela é mais gorda do que eu, mais doente do que eu, mais burra do que eu e mais infeliz do que eu. Até mais pobre do que eu ela é, ainda que a porcaria da minha casa própria aos vinte e seis anos valha menos do que o carro que o pai dela comprou pra ela quando ela fez dezoito. Ela gasta só cinco mil por mês em procedimentos estéticos e já fez lipoaspiração, colocou silicone, aplicou botox e tudo mais. Até anal bleaching ela fez. Ui. E ela não para de falar de Deus e tem mil santinhos em cima da mesa e um terço pendurado no espelho do carro e vai à missa todo domingo e ao clube de swing com o marido todo sábado. E fala que fulana é vagabunda porque "mal divorciou já tá dando pra outro". E mente. Ela tem coragem de te dizer que foi assim, mesmo sabendo que você sabe que foi assado porque você estava lá e você viu. E ela manda chamar a copeira lá atrás pra buscar o chá gelado dela na porcaria do frigobar que fica a cinco míseros passos da cadeira onde ela senta sua bunda magra o dia todo pra ficar oleando a franja e reclamando de dor. E quando o chá gelado acaba ela manda a copeira na panificadora comprar mais e diz que não pode ir porque tá de salto e "as calçadas de Curitiba detonam com os taquinhos dos sapatos". E ela é real. O pior é que ela é real. Se me contassem...
2 comentários:
anal bleaching?
É, isso existe. Bizarro!
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