Tu podes assistir ao teu telejornal. Eu faço que não ligo, olho pela janela. Somente ontem fiquei sabendo da morte do tal ditador e isso foi no domingo. Te importa a informação. A mim, agora, interessa somente a lua crescente do céu estrelado lá fora.
Nós não temos tempo, baby. Eu não tenho tempo pra assistir ao telejornal. Não tenho tempo pra ouvir as mazelas das prostitutas de Ipswich. Não tenho tempo pra enterrar todos os corpos em Bagdá. Notaste que faz calor hoje? Essas noites quentes me fazem querer caminhar. Sairias comigo?
Já é tarde, eu sei. Já temos mais de trinta. Deveríamos assistir ao telejornal. Já contei sobre a mocinha do almoxarifado? Ela sempre me pergunta sobre a novela. Faz uma faculdade qualquer e tem aulas à noite, nunca consegue chegar em casa pra novela. Eu não vi. Eu sempre digo que não vi, mas ela sempre me pergunta.
As notícias. Como é que tu irias viver sem elas? Outro dia, no elevador, o vizinho contou-me que voltou a fumar, depois de dez anos. São quinze andares, baby, e eu não sabia o que lhe dizer. Sorri com pesar. Ele sorriu de volta. E foi só. Doze andares de silêncio.
Não há nenhuma novidade no ar. As mesmas bombas e as mesmas celebridades sem calcinha. Atrás dessa parede o vizinho está amassando um cigarro num velho cinzeiro de metal. Em algum lugar a mocinha do almoxarifado está lendo sinopses com lágrimas nos olhos. O Iraque amanheceu nublado hoje, baby, nuvens de fumaça. E no Reino Unido as meninas da vida tremem de medo da reencarnação de Jack.
No próximo bloco. O cano da pia da cozinha está furado e a louça suja se acumula há dias. Dois meses de aluguel atrasado. A poluição da metrópole tem acabado com os meus pulmões. E aquela afta no céu da minha boca ainda arde. Boa noite.
terça-feira, maio 29, 2007
sábado, maio 26, 2007
Porque sim...
Não, eu não preciso de perguntas para as minhas respostas... e entre o “eu não poderia ter feito” e o “eu poderia não ter feito”, eu hei de ficar com o segundo, ainda que nenhum dos dois faça realmente o meu estilo. Eu nunca me arrependo, darling. Poucas vezes eu levo a mão à testa febril e lamento, enquanto tu assobias e te divertes com meu erro. Na maioria delas eu te fito com os olhos meio fechados, o dedo mínimo entre os lábios, um sorriso no canto da boca, os cabelos grosseiramente jogados para o lado esquerdo, num clichê de filme pornô, e me rio por dentro... a ponto de quase te ensurdecer.
quarta-feira, maio 23, 2007
Correspondência extraviada I
R.,
Não lembro exatamente do dia em que tu voltaste. Não saberia dizer se aquele havia sido um dia triste ou um dia feliz ou um dia qualquer. Lembro, no entanto, de um palpitar estranho dentro de mim quando te notei e de quase tudo que veio depois do beijo morno e mudo que me deste.
Tu vieste sem avisar, com um brilho de lágrima nos olhos e um amontoado de palavras bonitas em frases que começavam com letras minúsculas. Contaste-me de tuas andanças pelas calçadas do mundo, disseste que era bom estar de volta e derramaste elogios sobre meus cabelos desalinhados e minhas unhas vermelhas e meus sapatos novos.
No dia em que chegaste, deixaste-me muda por horas, atordoada com tua presença vibrante. O que me escapou da boca depois foi puro delírio. E tu disseste que havia uma afinidade assombrosa entre nós, que meus pensamentos eram os teus e que valia à pena viver por essas coisas.
De uma certa maneira, eu esperava por ti, esperava que viesses. O que eu não esperava é que trouxesses contigo o pedaço de mim que carregaste da primeira vez em que partiste. E ele estava lá e tu o havia embrulhado para presente num papel espelhado e com um laço grande de fita vermelha. Bem sabes do quanto coisas assim me comovem...
Para comemorar teu retorno, bebemos vinho. Disso lembro-me bem porque teu sorriso ficou bordô. Tínhamos a janela grande e o céu sem estrelas e o barulho da rua entrecortado pelo jazz antigo que tu colocaste na vitrola. Lembro da madrugada escura e da luz das velas e de todos os teus suspiros de saudade e de teres me feito supor que, desta vez, ficarias. Moço, não sei se já te disse, tu és a história que eu mais gosto de contar.
Fato que o que ficou mesmo daquela noite foi teu riso irônico antes de adormecer. E daqueles dias, os que se seguiram, tua inquietação e a fome de mudança que transparecia em teus olhos quando lias os jornais gringos de domingo e assistias aos teus documentários na televisão. Faz tempo, muito tempo, que sumiste novamente.
Não ficaste sabendo. Andei sem rumo por meses, tentando crer que fosse apenas mais uma turbação, daquelas de que tu costumavas te queixar. Esperei por toques de telefone e toques de campainha e toques de tua mão na minha testa em brasa. Um dia dei-me conta. Turbações daquele tipo nunca duram tantos dias. Acho então que enlouqueci...
Busquei-te, primeiro, nos meus deslizes. Minhas mãos trêmulas tateando teu lugar vazio na cama. Não, não havia deslizes desta vez. Acreditei, depois, que tua ausência fosse apenas um sonho ruim que eu sonhava acordada nas intermináveis noites de insônia que me vieram com tua partida. Procurei-te nos nossos bares, nas nossas praças. Havia sempre um vestígio de ti, mas tu nunca estavas e, numa tarde dessas chuvosas, desisti de tentar te encontrar.
Recobrei a sanidade, faz pouco. Minha embriaguez habitual ainda não me permitiu entender os teus motivos. Acho mesmo que não existem motivos. Há de ser só o teu não caber dentro de ti e o espaço que, por isso, me falta. Tua completude não te permite sempre estares. Há precisão nisso tudo e é mania tua estas idas e vindas...
Espero, então, que voltes em breve, que meu repertório dos teus devaneios já se esgotou e cansa um pouco a quem me ouve este discurso repetido sobre os teus atrasos. Eu continuo no mesmo lugar, tu sabes. Sobrou uma garrafa de vinho na adega. A rua anda mais silenciosa. Comprei discos novos. Sinto falta de ti e do desconcerto que me causavas.
...
Não lembro exatamente do dia em que tu voltaste. Não saberia dizer se aquele havia sido um dia triste ou um dia feliz ou um dia qualquer. Lembro, no entanto, de um palpitar estranho dentro de mim quando te notei e de quase tudo que veio depois do beijo morno e mudo que me deste.
Tu vieste sem avisar, com um brilho de lágrima nos olhos e um amontoado de palavras bonitas em frases que começavam com letras minúsculas. Contaste-me de tuas andanças pelas calçadas do mundo, disseste que era bom estar de volta e derramaste elogios sobre meus cabelos desalinhados e minhas unhas vermelhas e meus sapatos novos.
No dia em que chegaste, deixaste-me muda por horas, atordoada com tua presença vibrante. O que me escapou da boca depois foi puro delírio. E tu disseste que havia uma afinidade assombrosa entre nós, que meus pensamentos eram os teus e que valia à pena viver por essas coisas.
De uma certa maneira, eu esperava por ti, esperava que viesses. O que eu não esperava é que trouxesses contigo o pedaço de mim que carregaste da primeira vez em que partiste. E ele estava lá e tu o havia embrulhado para presente num papel espelhado e com um laço grande de fita vermelha. Bem sabes do quanto coisas assim me comovem...
Para comemorar teu retorno, bebemos vinho. Disso lembro-me bem porque teu sorriso ficou bordô. Tínhamos a janela grande e o céu sem estrelas e o barulho da rua entrecortado pelo jazz antigo que tu colocaste na vitrola. Lembro da madrugada escura e da luz das velas e de todos os teus suspiros de saudade e de teres me feito supor que, desta vez, ficarias. Moço, não sei se já te disse, tu és a história que eu mais gosto de contar.
Fato que o que ficou mesmo daquela noite foi teu riso irônico antes de adormecer. E daqueles dias, os que se seguiram, tua inquietação e a fome de mudança que transparecia em teus olhos quando lias os jornais gringos de domingo e assistias aos teus documentários na televisão. Faz tempo, muito tempo, que sumiste novamente.
Não ficaste sabendo. Andei sem rumo por meses, tentando crer que fosse apenas mais uma turbação, daquelas de que tu costumavas te queixar. Esperei por toques de telefone e toques de campainha e toques de tua mão na minha testa em brasa. Um dia dei-me conta. Turbações daquele tipo nunca duram tantos dias. Acho então que enlouqueci...
Busquei-te, primeiro, nos meus deslizes. Minhas mãos trêmulas tateando teu lugar vazio na cama. Não, não havia deslizes desta vez. Acreditei, depois, que tua ausência fosse apenas um sonho ruim que eu sonhava acordada nas intermináveis noites de insônia que me vieram com tua partida. Procurei-te nos nossos bares, nas nossas praças. Havia sempre um vestígio de ti, mas tu nunca estavas e, numa tarde dessas chuvosas, desisti de tentar te encontrar.
Recobrei a sanidade, faz pouco. Minha embriaguez habitual ainda não me permitiu entender os teus motivos. Acho mesmo que não existem motivos. Há de ser só o teu não caber dentro de ti e o espaço que, por isso, me falta. Tua completude não te permite sempre estares. Há precisão nisso tudo e é mania tua estas idas e vindas...
Espero, então, que voltes em breve, que meu repertório dos teus devaneios já se esgotou e cansa um pouco a quem me ouve este discurso repetido sobre os teus atrasos. Eu continuo no mesmo lugar, tu sabes. Sobrou uma garrafa de vinho na adega. A rua anda mais silenciosa. Comprei discos novos. Sinto falta de ti e do desconcerto que me causavas.
...
segunda-feira, maio 21, 2007
Das coisas que se foram...
Sentou-se no banco da praça como quem pretende nunca mais se levantar. Não fazia sol, também não chovia. O céu estava todo coberto por nuvens, o que fazia dele branco e não azul - estranhou a natural negação de uma coisa tão natural. Olhou no relógio, passava pouco das cinco da tarde, demoraria a escurecer por culpa do maldito horário de verão. Deixou-se ali, sentado no banco da praça. Os pombos ao redor, senhores de muletas, mulheres barrigudas, crianças ranhentas, o sino mudo da catedral, o estardalhaço dos biscates, a suspensão dos ônibus rangendo, falatório, cenas de cinema. Acendeu um cigarro. Desejou uma cerveja, mas estava doente demais para se levantar. A nicotina lhe tirou dos ombros um certo peso que não se sabia como havia surgido. O banco era grande e curiosamente ninguém se sentou ao lado dele. Ficou por ali, sozinho, no banco da praça, observando os pombos e as muletas e as barrigas e as crianças. As torres da catedral pareciam um tanto curvadas. As pessoas caminhavam um tanto curvadas, como as torres da catedral. Filosofou qualquer coisa em voz alta sobre as curvas da estrada e as curvas da vida e sobre não ter como saber o que vem depois das curvas. Uma senhora o fitava, de longe, parecia imaginar-lhe louco, talvez ele fosse, era quase certo que sim. Acendeu mais um cigarro, na brasa do que já havia chegado ao filtro. Observou a fumaça da tragada subindo em direção ao céu, que agora era de um branco mais azulado, e sumindo. Desejou ser fumaça. Desejou subir em direção ao céu e depois sumir. E continuou sentado no banco da praça.
sexta-feira, maio 18, 2007
Das coisas que você traz e das que já eram minhas...
Faltam teclas no meu teclado e então eu me obrigo a essa antiga relação com a caneta. No lugar dos vinte e tantos gigabytes de MP3, o rádio, sintonizado numa estação a dedo escolhida... sem o groove, somente o jazz. Ainda, os velhos hábitos: uma carteira inteira de cigarros, metade de uma caixa de cervejas, a luz de velas iluminando o papel.
De novo? Tem sim alguma coisa. De novo tem o teu rosto fino que se emoldura quando eu fecho os olhos; o som da tua voz repetindo um milhão de vezes as bobagens todas que você me diz; o teu cheiro impregnado na minha roupa, na minha pele. De novo tem o tempo que não passa e a hora de te encontrar que nunca chega. Tem essa ressaca que não me deixa e as olheiras dessa dezena de noites mal dormidas.
Mas essa vontade de largar tudo... essa já é antiga, moço. A diferença é que agora eu quero largar tudo e fugir pro México com você.
De novo? Tem sim alguma coisa. De novo tem o teu rosto fino que se emoldura quando eu fecho os olhos; o som da tua voz repetindo um milhão de vezes as bobagens todas que você me diz; o teu cheiro impregnado na minha roupa, na minha pele. De novo tem o tempo que não passa e a hora de te encontrar que nunca chega. Tem essa ressaca que não me deixa e as olheiras dessa dezena de noites mal dormidas.
Mas essa vontade de largar tudo... essa já é antiga, moço. A diferença é que agora eu quero largar tudo e fugir pro México com você.
domingo, maio 13, 2007
Felipe Wilson
Ele estava no balcão do bar e enquanto eu pedia uma cerveja ele chorava por gotas de tequila que transbordaram o copo. Hey, cara, me vê um canudinho. E ele bebeu do balcão. Me olhou de lado com um não dá pra desperdiçar estampado no fundo das pupilas dilatadas. Engasguei-me com o te conheço de algum lugar que não saiu. A minha cerveja chegou, o balcão já estava seco, quis roubar o canudinho, ali, esquecido. Ele sorriu. Engasguei-me de novo e voltei pra pista, sem arranhões.
Eu gritei pra Iaiá que tinha encontrado o homem da minha vida. Olhei pra um lado, pra outro: não, ele não estava logo atrás de mim. Ela, alerta, timidamente disse que também, como quem segreda o proibido. E nos rimos da coincidência. Retrô vazia, imaginei quem seria o outro menino perfeito que fazia os olhos de Iaiá lacrimejantes de emoção. É aquele ali! Eu não sabia se havia dito ou se havia ouvido. Ri de mim, de nós, quando descobri que sim, os dois. Um só, é de quem pegar primeiro.
Sim, eu o conhecia de algum lugar. Há tempos havia atribuído a ele, somente a ele, minha falta de concentração nas aulas da faculdade. Iaiá o admirava menos, que nunca o havia visto, mas talvez por isso, o desejasse mais. Trocamos tapas mentais. Iaiá, você perdeu o discurso dele contra a pena de morte. Ele nunca te pediu cola, Iaiá. Iaiá, você não sabe o que ele é capaz de fazer com um canudinho. Iaiá morria de inveja de mim. Eu morria de inveja dos cabelos ruivos de Iaiá.
Calor. Seguimos o moço até o lounge improvisado nas escadas. Ele brilhava, só ele brilhava. Nós, eu e Iaiá, sorríamos e fazíamos comentários obscenos, porém pertinentes. Você viu aquilo? Eu vi. Uau! “Keep on, with the force, don't stop”. Ele olhou em nossa direção. Duas vezes. Era pra Iaiá. Dei-lhe um tabefe mental. Nele. À ela lancei um olhar assassino que virou gargalhada assim que ela retribuiu. Ele olhou foi pra mim, segundo Iaiá. Ou não, quem sabe?
De repente, a moça. A moça calçava os sapatos mais divertidos do mundo. A moça era magra e tinha um quê blasé. A moça segurou na mão dele. A moça o beijou. Não, ele beijou a moça, singelamente. Ódio. Já chega, vamos embora. Eu pago, tu pagas, ele paga. Pagamos. Adeus? Ainda não. Surpresa: William! William? Eu ouvi, ela ouviu. Ah não, Felipe! Wilson? Que seja. Agora sim. Chama um táxi pra mim?
Eu gritei pra Iaiá que tinha encontrado o homem da minha vida. Olhei pra um lado, pra outro: não, ele não estava logo atrás de mim. Ela, alerta, timidamente disse que também, como quem segreda o proibido. E nos rimos da coincidência. Retrô vazia, imaginei quem seria o outro menino perfeito que fazia os olhos de Iaiá lacrimejantes de emoção. É aquele ali! Eu não sabia se havia dito ou se havia ouvido. Ri de mim, de nós, quando descobri que sim, os dois. Um só, é de quem pegar primeiro.
Sim, eu o conhecia de algum lugar. Há tempos havia atribuído a ele, somente a ele, minha falta de concentração nas aulas da faculdade. Iaiá o admirava menos, que nunca o havia visto, mas talvez por isso, o desejasse mais. Trocamos tapas mentais. Iaiá, você perdeu o discurso dele contra a pena de morte. Ele nunca te pediu cola, Iaiá. Iaiá, você não sabe o que ele é capaz de fazer com um canudinho. Iaiá morria de inveja de mim. Eu morria de inveja dos cabelos ruivos de Iaiá.
Calor. Seguimos o moço até o lounge improvisado nas escadas. Ele brilhava, só ele brilhava. Nós, eu e Iaiá, sorríamos e fazíamos comentários obscenos, porém pertinentes. Você viu aquilo? Eu vi. Uau! “Keep on, with the force, don't stop”. Ele olhou em nossa direção. Duas vezes. Era pra Iaiá. Dei-lhe um tabefe mental. Nele. À ela lancei um olhar assassino que virou gargalhada assim que ela retribuiu. Ele olhou foi pra mim, segundo Iaiá. Ou não, quem sabe?
De repente, a moça. A moça calçava os sapatos mais divertidos do mundo. A moça era magra e tinha um quê blasé. A moça segurou na mão dele. A moça o beijou. Não, ele beijou a moça, singelamente. Ódio. Já chega, vamos embora. Eu pago, tu pagas, ele paga. Pagamos. Adeus? Ainda não. Surpresa: William! William? Eu ouvi, ela ouviu. Ah não, Felipe! Wilson? Que seja. Agora sim. Chama um táxi pra mim?
segunda-feira, maio 07, 2007
Hoje
Hoje, meu alter ego vai bater à tua porta, com duas garrafas de conhaque equilibradas entre os dedos de uma das mãos, um baseado bem bolado na outra e dez maços de cigarros vagabundos na mochila. Ele vai te pedir pra tocar aquela tal música no teu velho violão e vocês vão gargalhar como crianças, sem saber direito do quê é que estão rindo. Vai haver o peso nas consciências, vai haver o desamor, o desalento, vai haver, até mesmo, inevitável, a despedida... mas isso não importa. Hoje, meu alter ego vai bater à tua porta.
sexta-feira, maio 04, 2007
Espera
Eu fico esperando pelo toque estridente do telefone e pela tua voz me acenando do outro lado da linha. Espero você me dizer que vem, que já descobriu meu endereço e que não vai mais dar atenção aos meus protestos, que não importa quantos "nãos" eu te diga, teu carro já está estacionado em frente ao prédio e você até já subiu o primeiro lance de degraus.
Eu fico esperando pelo som dos teus passos no hall, o barulho surdo da campainha, teu rosto como paisagem no olho mágico, teus gritos me ordenando abrir a porta, que você não tem a noite toda pra esperar e já se cansou de todas essas negativas. Espero pelo teu silêncio, pelos abraços todos que você me prometeu, pelo teu sorriso tímido, pelos teus lábios colados aos meus.
Espero pelo arrepio de medo que eu sei que vou sentir quando tuas mãos trêmulas tocarem as minhas, pelas dúvidas tão cheias de certeza que você desperta em mim, pela vontade de fazer o tempo parar, pelo desapego de todo o resto. Espero, ansiosa, por todas as verdades e mentiras que já deixamos de viver.
Espero ouvir você dizer baixinho que o mundo já não gira mais e que agora somos só nos dois e o som abafado da nossa respiração... e as nossas saudades se anulando na eternidade do teu olhar, ainda que saibamos que o que é eterno pode durar apenas o tempo de um só suspiro.
Espero-te, enfim, já sabes. Basta que venhas e me tome em teus braços. Mas vem logo, que ainda que eu não me canse de esperar, já não suporto mais essa distância, a tua ausência consentida e o meu desejo incontrolável de te ter aqui.
Eu fico esperando pelo som dos teus passos no hall, o barulho surdo da campainha, teu rosto como paisagem no olho mágico, teus gritos me ordenando abrir a porta, que você não tem a noite toda pra esperar e já se cansou de todas essas negativas. Espero pelo teu silêncio, pelos abraços todos que você me prometeu, pelo teu sorriso tímido, pelos teus lábios colados aos meus.
Espero pelo arrepio de medo que eu sei que vou sentir quando tuas mãos trêmulas tocarem as minhas, pelas dúvidas tão cheias de certeza que você desperta em mim, pela vontade de fazer o tempo parar, pelo desapego de todo o resto. Espero, ansiosa, por todas as verdades e mentiras que já deixamos de viver.
Espero ouvir você dizer baixinho que o mundo já não gira mais e que agora somos só nos dois e o som abafado da nossa respiração... e as nossas saudades se anulando na eternidade do teu olhar, ainda que saibamos que o que é eterno pode durar apenas o tempo de um só suspiro.
Espero-te, enfim, já sabes. Basta que venhas e me tome em teus braços. Mas vem logo, que ainda que eu não me canse de esperar, já não suporto mais essa distância, a tua ausência consentida e o meu desejo incontrolável de te ter aqui.
terça-feira, maio 01, 2007
"You're just too good to be true"...
"You're just too good to be true"...
Eu adoro o som da tua risada ao telefone e as histórias que você conta e o modo como você me diz pra aproveitar o momento e quase me convence... soubesse você de todas as minhas letras e invenções pra essa nossa história confusa. Acontece que você chegou de repente demais trazendo uma perfeição que me assusta e, acredite, moço, eu não esperava por isso, não esperava que você fosse assim, tão completo. Cada suspiro teu parece um pedaço do céu e a tua serenidade, o teu riso, o teu choro contido, nada parece real... é como um sonho, e eu ainda tenho aquele medo tolo de sonhar, ele é uma das coisas que ficou do nosso passado.
"I can't take my mind off of you"...
As coisas todas que você me disse se repetem minuto a minuto e eu não consigo esquecer. E é engraçado porque, de um certo modo, não era pra ser assim. Nossos risos sem graça e o nosso silêncio parecem um remake daquele conto de amor adolescente... e eu me rio da nossa tolice, mas dentro de mim há uma melancolia e uma saudade estranha que nada abranda. Busco-te nas minhas memórias mais antigas, em um passado do qual eu já quase nem me lembro, e nas linhas recentes que você desperdiçou comigo... te encontro em tantas brechas que o todo que sou fica distante de mim. E acaba que eu não me reconheço, não me encontro mais nesse espaço que antes era meu e que agora parece tão vazio sem você...
"You'd be like heaven to touch, I wanna hold you so much"...
Chega sempre o dia em que a gente se cansa de todos os dias sempre tão iguais. Ontem caminhei pelas mesmas ruas desses últimos dez anos... mas elas estavam tão diferentes. Foi uma noite quente e não havia o ar condensado da minha respiração se misturando à fumaça do meu cigarro; também não havia o barulho do trânsito e o tal perigo que dizem que nos espreita por aí. Eu sei, tudo estava lá, mas por tua causa eu já não noto mais as habituais intempéries. E parece bobo, mas está tudo tão cheio de cor. Eu tenho um sorriso nos lábios que não se esvai nem se algo me dói e meus olhos andam brilhando, moço... e é tudo culpa tua.
"But if you feel like I feel, please let me know that it's real"...
Aí eu desejo não ter te encontrado. E no minuto seguinte, pareço não saber o que seria de mim sem isso. Mas tudo aconteceu numa fração tão pequena de tempo, que quase não dá pra acreditar na intensidade dessas coisas todas que você diz que sente, no conteúdo das tuas frases feitas pra mim, nas fantasias que teu silêncio me segreda. E eu quase te proponho me convencer de que nada disso é mentira, mas ainda nem sei se realmente quero que não seja. E então eu oscilo, sou ora tristeza, ora euforia... pelos teus lábios distantes e pelas imagens que faço do que poderia ser de nós dois.
"I need you baby, and if it's quite, all right, I need you baby to warm a lonely night"...
Eu te quero aqui, pra conferir a cor dos teus olhos e sentir de novo o teu cheiro de maracujá; pra cumprir todas as promessas não feitas e as juras de amor que nunca trocamos... nem que seja só por algumas horas, nem que seja apenas uma vez. Mas aí, moço, vem toda essa vida que eu levei anos e anos pra construir, vem a minha incapacidade de mentir a não ser que seja pra mim mesma, vem um medo sem tamanho de não querer mais sair dos teus braços... que eu não concordo com essa tua filosofia barata de que a vida é feita de momentos; a vida, meu bem, é um tanto quanto mais complicada do que eu sou capaz de explicar nessas poucas linhas... se ao menos não houvesse todas as outras coisas.
“Trust in me when I say: it’s ok”...
E eu me obrigo a me despedir sem um abraço, talvez porque eu não queira a despedida assim, tão próxima do reencontro. Nem sempre a gente pode escolher o caminho que quer seguir. Meus planos mudam a cada dez segundos. Os outros dizem que sou indecisa demais, inconstante demais. Mas eles não sabem... eu sou livre, moço, eu posso voar. Um dia eu volto voando e vou bater à tua porta. Agora eu quero ficar sozinha com meus fantasmas. Ainda que, sozinha, eu queira estar com você.
Eu adoro o som da tua risada ao telefone e as histórias que você conta e o modo como você me diz pra aproveitar o momento e quase me convence... soubesse você de todas as minhas letras e invenções pra essa nossa história confusa. Acontece que você chegou de repente demais trazendo uma perfeição que me assusta e, acredite, moço, eu não esperava por isso, não esperava que você fosse assim, tão completo. Cada suspiro teu parece um pedaço do céu e a tua serenidade, o teu riso, o teu choro contido, nada parece real... é como um sonho, e eu ainda tenho aquele medo tolo de sonhar, ele é uma das coisas que ficou do nosso passado.
"I can't take my mind off of you"...
As coisas todas que você me disse se repetem minuto a minuto e eu não consigo esquecer. E é engraçado porque, de um certo modo, não era pra ser assim. Nossos risos sem graça e o nosso silêncio parecem um remake daquele conto de amor adolescente... e eu me rio da nossa tolice, mas dentro de mim há uma melancolia e uma saudade estranha que nada abranda. Busco-te nas minhas memórias mais antigas, em um passado do qual eu já quase nem me lembro, e nas linhas recentes que você desperdiçou comigo... te encontro em tantas brechas que o todo que sou fica distante de mim. E acaba que eu não me reconheço, não me encontro mais nesse espaço que antes era meu e que agora parece tão vazio sem você...
"You'd be like heaven to touch, I wanna hold you so much"...
Chega sempre o dia em que a gente se cansa de todos os dias sempre tão iguais. Ontem caminhei pelas mesmas ruas desses últimos dez anos... mas elas estavam tão diferentes. Foi uma noite quente e não havia o ar condensado da minha respiração se misturando à fumaça do meu cigarro; também não havia o barulho do trânsito e o tal perigo que dizem que nos espreita por aí. Eu sei, tudo estava lá, mas por tua causa eu já não noto mais as habituais intempéries. E parece bobo, mas está tudo tão cheio de cor. Eu tenho um sorriso nos lábios que não se esvai nem se algo me dói e meus olhos andam brilhando, moço... e é tudo culpa tua.
"But if you feel like I feel, please let me know that it's real"...
Aí eu desejo não ter te encontrado. E no minuto seguinte, pareço não saber o que seria de mim sem isso. Mas tudo aconteceu numa fração tão pequena de tempo, que quase não dá pra acreditar na intensidade dessas coisas todas que você diz que sente, no conteúdo das tuas frases feitas pra mim, nas fantasias que teu silêncio me segreda. E eu quase te proponho me convencer de que nada disso é mentira, mas ainda nem sei se realmente quero que não seja. E então eu oscilo, sou ora tristeza, ora euforia... pelos teus lábios distantes e pelas imagens que faço do que poderia ser de nós dois.
"I need you baby, and if it's quite, all right, I need you baby to warm a lonely night"...
Eu te quero aqui, pra conferir a cor dos teus olhos e sentir de novo o teu cheiro de maracujá; pra cumprir todas as promessas não feitas e as juras de amor que nunca trocamos... nem que seja só por algumas horas, nem que seja apenas uma vez. Mas aí, moço, vem toda essa vida que eu levei anos e anos pra construir, vem a minha incapacidade de mentir a não ser que seja pra mim mesma, vem um medo sem tamanho de não querer mais sair dos teus braços... que eu não concordo com essa tua filosofia barata de que a vida é feita de momentos; a vida, meu bem, é um tanto quanto mais complicada do que eu sou capaz de explicar nessas poucas linhas... se ao menos não houvesse todas as outras coisas.
“Trust in me when I say: it’s ok”...
E eu me obrigo a me despedir sem um abraço, talvez porque eu não queira a despedida assim, tão próxima do reencontro. Nem sempre a gente pode escolher o caminho que quer seguir. Meus planos mudam a cada dez segundos. Os outros dizem que sou indecisa demais, inconstante demais. Mas eles não sabem... eu sou livre, moço, eu posso voar. Um dia eu volto voando e vou bater à tua porta. Agora eu quero ficar sozinha com meus fantasmas. Ainda que, sozinha, eu queira estar com você.
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