Ele estava no balcão do bar e enquanto eu pedia uma cerveja ele chorava por gotas de tequila que transbordaram o copo. Hey, cara, me vê um canudinho. E ele bebeu do balcão. Me olhou de lado com um não dá pra desperdiçar estampado no fundo das pupilas dilatadas. Engasguei-me com o te conheço de algum lugar que não saiu. A minha cerveja chegou, o balcão já estava seco, quis roubar o canudinho, ali, esquecido. Ele sorriu. Engasguei-me de novo e voltei pra pista, sem arranhões.
Eu gritei pra Iaiá que tinha encontrado o homem da minha vida. Olhei pra um lado, pra outro: não, ele não estava logo atrás de mim. Ela, alerta, timidamente disse que também, como quem segreda o proibido. E nos rimos da coincidência. Retrô vazia, imaginei quem seria o outro menino perfeito que fazia os olhos de Iaiá lacrimejantes de emoção. É aquele ali! Eu não sabia se havia dito ou se havia ouvido. Ri de mim, de nós, quando descobri que sim, os dois. Um só, é de quem pegar primeiro.
Sim, eu o conhecia de algum lugar. Há tempos havia atribuído a ele, somente a ele, minha falta de concentração nas aulas da faculdade. Iaiá o admirava menos, que nunca o havia visto, mas talvez por isso, o desejasse mais. Trocamos tapas mentais. Iaiá, você perdeu o discurso dele contra a pena de morte. Ele nunca te pediu cola, Iaiá. Iaiá, você não sabe o que ele é capaz de fazer com um canudinho. Iaiá morria de inveja de mim. Eu morria de inveja dos cabelos ruivos de Iaiá.
Calor. Seguimos o moço até o lounge improvisado nas escadas. Ele brilhava, só ele brilhava. Nós, eu e Iaiá, sorríamos e fazíamos comentários obscenos, porém pertinentes. Você viu aquilo? Eu vi. Uau! “Keep on, with the force, don't stop”. Ele olhou em nossa direção. Duas vezes. Era pra Iaiá. Dei-lhe um tabefe mental. Nele. À ela lancei um olhar assassino que virou gargalhada assim que ela retribuiu. Ele olhou foi pra mim, segundo Iaiá. Ou não, quem sabe?
De repente, a moça. A moça calçava os sapatos mais divertidos do mundo. A moça era magra e tinha um quê blasé. A moça segurou na mão dele. A moça o beijou. Não, ele beijou a moça, singelamente. Ódio. Já chega, vamos embora. Eu pago, tu pagas, ele paga. Pagamos. Adeus? Ainda não. Surpresa: William! William? Eu ouvi, ela ouviu. Ah não, Felipe! Wilson? Que seja. Agora sim. Chama um táxi pra mim?
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