R.,
Não lembro exatamente do dia em que tu voltaste. Não saberia dizer se aquele havia sido um dia triste ou um dia feliz ou um dia qualquer. Lembro, no entanto, de um palpitar estranho dentro de mim quando te notei e de quase tudo que veio depois do beijo morno e mudo que me deste.
Tu vieste sem avisar, com um brilho de lágrima nos olhos e um amontoado de palavras bonitas em frases que começavam com letras minúsculas. Contaste-me de tuas andanças pelas calçadas do mundo, disseste que era bom estar de volta e derramaste elogios sobre meus cabelos desalinhados e minhas unhas vermelhas e meus sapatos novos.
No dia em que chegaste, deixaste-me muda por horas, atordoada com tua presença vibrante. O que me escapou da boca depois foi puro delírio. E tu disseste que havia uma afinidade assombrosa entre nós, que meus pensamentos eram os teus e que valia à pena viver por essas coisas.
De uma certa maneira, eu esperava por ti, esperava que viesses. O que eu não esperava é que trouxesses contigo o pedaço de mim que carregaste da primeira vez em que partiste. E ele estava lá e tu o havia embrulhado para presente num papel espelhado e com um laço grande de fita vermelha. Bem sabes do quanto coisas assim me comovem...
Para comemorar teu retorno, bebemos vinho. Disso lembro-me bem porque teu sorriso ficou bordô. Tínhamos a janela grande e o céu sem estrelas e o barulho da rua entrecortado pelo jazz antigo que tu colocaste na vitrola. Lembro da madrugada escura e da luz das velas e de todos os teus suspiros de saudade e de teres me feito supor que, desta vez, ficarias. Moço, não sei se já te disse, tu és a história que eu mais gosto de contar.
Fato que o que ficou mesmo daquela noite foi teu riso irônico antes de adormecer. E daqueles dias, os que se seguiram, tua inquietação e a fome de mudança que transparecia em teus olhos quando lias os jornais gringos de domingo e assistias aos teus documentários na televisão. Faz tempo, muito tempo, que sumiste novamente.
Não ficaste sabendo. Andei sem rumo por meses, tentando crer que fosse apenas mais uma turbação, daquelas de que tu costumavas te queixar. Esperei por toques de telefone e toques de campainha e toques de tua mão na minha testa em brasa. Um dia dei-me conta. Turbações daquele tipo nunca duram tantos dias. Acho então que enlouqueci...
Busquei-te, primeiro, nos meus deslizes. Minhas mãos trêmulas tateando teu lugar vazio na cama. Não, não havia deslizes desta vez. Acreditei, depois, que tua ausência fosse apenas um sonho ruim que eu sonhava acordada nas intermináveis noites de insônia que me vieram com tua partida. Procurei-te nos nossos bares, nas nossas praças. Havia sempre um vestígio de ti, mas tu nunca estavas e, numa tarde dessas chuvosas, desisti de tentar te encontrar.
Recobrei a sanidade, faz pouco. Minha embriaguez habitual ainda não me permitiu entender os teus motivos. Acho mesmo que não existem motivos. Há de ser só o teu não caber dentro de ti e o espaço que, por isso, me falta. Tua completude não te permite sempre estares. Há precisão nisso tudo e é mania tua estas idas e vindas...
Espero, então, que voltes em breve, que meu repertório dos teus devaneios já se esgotou e cansa um pouco a quem me ouve este discurso repetido sobre os teus atrasos. Eu continuo no mesmo lugar, tu sabes. Sobrou uma garrafa de vinho na adega. A rua anda mais silenciosa. Comprei discos novos. Sinto falta de ti e do desconcerto que me causavas.
...
Nenhum comentário:
Postar um comentário