Tu podes assistir ao teu telejornal. Eu faço que não ligo, olho pela janela. Somente ontem fiquei sabendo da morte do tal ditador e isso foi no domingo. Te importa a informação. A mim, agora, interessa somente a lua crescente do céu estrelado lá fora.
Nós não temos tempo, baby. Eu não tenho tempo pra assistir ao telejornal. Não tenho tempo pra ouvir as mazelas das prostitutas de Ipswich. Não tenho tempo pra enterrar todos os corpos em Bagdá. Notaste que faz calor hoje? Essas noites quentes me fazem querer caminhar. Sairias comigo?
Já é tarde, eu sei. Já temos mais de trinta. Deveríamos assistir ao telejornal. Já contei sobre a mocinha do almoxarifado? Ela sempre me pergunta sobre a novela. Faz uma faculdade qualquer e tem aulas à noite, nunca consegue chegar em casa pra novela. Eu não vi. Eu sempre digo que não vi, mas ela sempre me pergunta.
As notícias. Como é que tu irias viver sem elas? Outro dia, no elevador, o vizinho contou-me que voltou a fumar, depois de dez anos. São quinze andares, baby, e eu não sabia o que lhe dizer. Sorri com pesar. Ele sorriu de volta. E foi só. Doze andares de silêncio.
Não há nenhuma novidade no ar. As mesmas bombas e as mesmas celebridades sem calcinha. Atrás dessa parede o vizinho está amassando um cigarro num velho cinzeiro de metal. Em algum lugar a mocinha do almoxarifado está lendo sinopses com lágrimas nos olhos. O Iraque amanheceu nublado hoje, baby, nuvens de fumaça. E no Reino Unido as meninas da vida tremem de medo da reencarnação de Jack.
No próximo bloco. O cano da pia da cozinha está furado e a louça suja se acumula há dias. Dois meses de aluguel atrasado. A poluição da metrópole tem acabado com os meus pulmões. E aquela afta no céu da minha boca ainda arde. Boa noite.
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