sexta-feira, abril 18, 2008

Caio

"Hoje, existir me dói feito uma bofetada."

Longe...

Sete anos. Sete anos contemplando as mesmas paredes camurça sujas de cera perto dos rodapés, os tacos de madeira comidos pelos cupins, as portas que apodrecem, os batentes enferrujados das janelas.

Pelo menos uma vez por mês, alguma coisa quebra, queima, estraga ou se perde. Tantas lâmpadas, tantas tomadas, tantos chuveiros, tantos copos e pratos, parafernália eletrônica, recordações de família.

Os azulejos vão se desfazendo aos poucos. No chão da cozinha, cinco ou seis lajotas aos pedaços, montadas como um quebra-cabeças, ameaçam ferir meus pés em alguma dessas madrugadas de ressaca e sede.

Não sei porque me veio falar dessas perdas todas, dessas coisas velhas e sujas. Como se eu precisasse registrar a constatação de que tudo que é meu, até mesmo o piso da cozinha, está perdido.

Hoje, quase três da manhã, um mal estar aqui dentro. A casa, de repente, grande demais, assombrada. E posso ouvir estalos, coisas que estilhaçam, crepitar de chama, matéria diluindo.

Lembrei dos tempos de casa cheia, banheiro emporcalhado, latas de cerveja e cinzeiros atulhados espalhados pelo chão, colchões estendidos em todos os cômodos (ainda guardo, no armário, cobertas alheias e, na memória, imagens distorcidas desse tempo junkie). Muitas coisas se quebraram naquela época. Muitas outras se perderam depois que ela passou.

Mas ontem... Ontem havia presença, havia sentido, como nunca tinha havido antes. Havia você me preparando comidinhas e acendendo meus cigarros. Havia o seu toque, o seu olhar, o seu sorriso, nossos planos...

Pessoas. Pessoas também se quebram ou se perdem.

Durante esses sete anos, pessoas foram entrando e saindo da casa, indefinidamente. Algumas ainda aparecem às vezes, quebradas. Outras saíram e nunca mais voltaram, perdidas. Outras ainda, ficam por aqui, em vozes que ecoam, em cheiros e gostos, em imagens insistentes que me vêm, sempre que fecho os olhos.

De tudo, de todos, de ti, ficou essa angústia e esse grito mudo que não cala.

Talvez eu precise da casa cheia novamente. Talvez eu precise só de você. Ou talvez eu precise apenas recuperar esse enorme pedaço de mim que você carregou, sem querer, quando foi embora.

quarta-feira, abril 16, 2008

0 x 1

Um daqueles dias em que surge a dúvida entre beber um chá de camomila ou evaporar como a água da chaleira apitando no fogão.

Vigilância

Não há silêncio. Quando não a cantoria alucinada, buzinadas nervosas, gritos estridentes de miséria, sempre os passos bêbados, chacoalhar de chaves, lágrimas pesadas tocando o chão. Ou a voz embargada que ouço repetindo meu nome quando escondo a cabeça sob o travesseiro. Não há silêncio.

E também não há escuridão. Se não os holofotes e letreiros luminosos, a luz dos postes ou os raios de sol que rabiscam as paredes do quarto. Se fecho os olhos, me vem esse brilho. Antes cegasse, me ilumina. E não há mesmo jeito de haver escuridão.

Do som, das imagens... os toques, os cheiros, os gostos. A sinestesia, narcotizada, tentando driblar sua insônia crônica. Não se pode mais dormir do lado de cá.

terça-feira, abril 15, 2008

Correspondência extraviada IV

R.,

Assim como as primeiras, a última carta voltou. Essa vai em envelope pardo junto com as anteriores, para o mesmo endereço, onde sei que nunca te encontro porque você não pode ou não quer mais estar lá.

Responde agora, meu bem, a pergunta de Caio: "tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma?".

Enfim... escrevo (de novo) pra falar sobre o nada. Dessa vez, sem qualquer concordância verbal, porque a verdade é que tu não és a terceira pessoa, você não é a segunda e eu, tampouco, sou a primeira. Existimos? Nem sei. Lá se vão mais pedaços de mim.

Você acharia graça, se houvesse lido a última carta. Talvez ainda ache um dia, se eventualmente vier a lê-la. Meu bom humor não falha. Às vezes, o tamanho do meu sorriso é proporcional á força da chibatada. Dói? Sim, dói. Mas rir da dor é o que me dá forças pra continuar doendo. E eu tenho doído tanto, meu bem, desde que você se foi.

Dia desses lembrei daquela nossa conversa sobre escritos que não vingam ou algo assim. Te dizer que entrei em uma crise com meus devaneios que não há mais boteco, caminhada noturna, gole de vinho ou silêncio que resolva. Aí me veio, como sempre vem, aquela vontade latente de ler tuas estórias... e essa carta acaba sendo mais uma tentativa, possivelmente frustrada, de te convencer a voltar a me escrever.

Oh, it's evil, baby, the way you let your grace enrapture me...

Moço, o que eu sei de ti é tão meu que talvez você não seja nada além do meu alterego se divertindo com a minha carência e com a minha solidão. De fato, você é perfeito demais pra ser, como um dia me pareceu que fosse, real.

A verdade, ou o que eu suponho que seja a verdade, é que eu só te admiro tanto porque não te sei por completo.

Eu sofro. Não é bem um sofrimento, mas vamos colocar as coisas assim mesmo. Eu sofro. Sofro, principalmente, pelas afinidades que a gente não testou. Porque eu não sei se o seu livro preferido do DFW é o mesmo que o meu, se de Hopper, é "Sunlight in a Cafeteria" que você, como eu, gostaria de ter na parede da sala, se você também prefere Nina Simone à Billie Holiday, ou se sua insônia te perturba tanto quanto a minha.

Juro que tento. Tento não repetir discursos burocráticos sobre teus atrasos. Tento não falar sobre a falta que você faz. O que acontece, meu bem, é que há cacos de vidro demais formando agora aquele mosaico de outros tempos. E, então, eu só faço contemplar, incansável, dia após dia e noite após noite, esse espaço vazio perto das minhas cores, guardado pra ti, azulejo errante. E tu não vens.

Ontem, essa, digamos, estranha obsessão me fez alucinar um pouco. Foi, até certo ponto, cômico... Imaginei que te via, eram seis da tarde. Sei que eram seis da tarde porque eu estava na praça e o barulho do sino da Catedral atordoava. Você estava de costas e teu cabelo um pouco mais curto que da última vez. Gritei teu nome, mas você não me ouviu. Acelerei o passo pra te alcançar. Quando eu quase tocava teu ombro, você se virou. Não, não era você. Fiquei com os dedos parados no ar, depois disfarcei, alisei o cabelo, pus as mãos nos bolsos. Pude ver a expressão no teu rosto, que não era, de fato, teu rosto, julgando-me louca. Tirei disso tudo um sorriso e, só por isso, valeu um tanto a pena. Quase impossível sorrir nestes últimos dias.

Chegou aqui pra mim um tempo difícil, meu bem, e senti sua ausência quase como se ela fosse, na verdade, uma presença. Então fiquei caraminholando coisas, pesquisando reveses, elaborando tratados e agora tenho certeza de que sei exatamente qual foi o motivo da tua ida sem volta. É claro que é uma certeza incompleta, uma certeza tipo nítida sensação, mas não deixa de ser uma certeza. E dela me vem uma culpa e um pesar e uma vontade enorme de concertar tudo, de te explicar que um malentendido é uma coisa estúpida demais pra te afastar assim.

Sinto tua falta, tu bem sabes. Da eletricidade, do desconcerto. O que acaba tornando isso ainda pior é que eu só tenho esse acordar todos os dias, tomar banho, escovar os dentes, ir para o trabalho. E esse monólogo infinito, onde eu respondo às minhas próprias perguntas e te questiono, secreta, retórica e ilimitadamente sobre coisas que você não tem como saber.

Não que seja certo que você possa dar sentido a isso tudo. Mas, enfim...

Espero, de novo, que me receba e me leia e me responda e me convença de que há mais no menos. Já sei do não e do nunca, mas me divirto na ilusão. Enquanto isso, procurando uma paisagem de areia onde eu possa me encaixar, eu continuo, meu bem, porque tudo o que me resta é continuar.

...

sexta-feira, abril 11, 2008

Dirty

Acordou enjoado dos erros alheios... e vomitou dez caminhos sem volta sobre os próprios pés.

quarta-feira, abril 09, 2008

Do it to it

Frustração. A avenida se alongando e as pernas cansadas. No mapa era logo ali. O vento frio, os pés descalços, os buracos da calçada... descobriu que, na verdade, é tão lá.