Agora dá pra sentir a distância ao telefone. Ficamos naquela de como estamos, se tudo bem ou se pior, as banalidades, as boas e as más notícias... e a conversa termina com um "a gente se fala" que, desconfia-se, é dito quase que só por força da expressão.
Aí eu atiro o fone no gancho, com desdém, e ensaio aquela lágrima tímida que sou obrigada a engolir porque o homem do gás está tocando a campainha.
A verdade é que a gente sempre questiona as nossas grandes escolhas e nunca dá pra saber, de imediato, se vai haver arrependimento. Tudo o que eu sei, por enquanto, é que a saudade dói... dói como uma farpa de madeira presa debaixo da unha.
E aquela cerveja vai ter que ficar pro mês que vem...
sexta-feira, março 30, 2007
domingo, março 25, 2007
Por um pouco mais de coerência
Hoje eles me falaram sobre a saudade que sentem do tempo em que eu me vestia de lantejoulas e dançava pelo salão até que meus pés parassem de me obedecer. Disseram que dói um pouco não ter mais por perto os meus sorrisos exaltados e os meus olhos vermelhos de tanta cerveja e frisson. Sufocaram-me com nostalgias e soluços e lamentos.
E eu calei, baby. Calei porque não quis revelar que a minha ausência nas madrugadas boêmias em que eles ainda se divertem como nunca, mesmo que sem a minha dança e sem o meu riso e sem o meu olhar inflamado, é culpa sua.
Ah, baby, a verdade é que você nunca soube dançar o meu samba. Eu sei que nunca fui, assim, totalmente fugaz, mas a minha eternidade antes de você era breve e eu era tão mais feliz. E era assim porque, de fato, não me importavam todas as linhas retas e paralelas que hoje você me diz que devemos traçar. Até você chegar, o futuro era algo tão distante que eu nunca havia feito um brinde sequer ao que quer que estivesse por vir.
Ah, não havia censura, meu amor, teus olhares de reprovação não me espreitavam. Eu era a mentira mais bela, a manchete de todas as primeiras páginas. Agora sou essa verdade desinteressante, esse anúncio em letras minúsculas, meio apagado, logo abaixo do obituário semanal.
E então eu me apego a essa tua imagem incontestável porque sei que mesmo que quisesse eu já não conseguiria mais brilhar como antes. Você me fala sobre retrocessos, mas você não sabe que, na verdade, eu tenho vivido uma longa e entediante pausa.
Você me roubou o ar, baby, tirou de mim a embriaguez que me mantinha sóbria, violou minhas noites de insônia e pesadelo. Foi você quem criou esse "talvez" que eu agora repito dia após dia, quando escurece e o vento frio desse inverno que nunca acaba me convida pra caminhar e ver estrelas. Você apagou as letras tortas que eu, durante anos, rabisquei pelas paredes da casa e pelos muros da cidade. Foram as suas constantes súplicas por silêncio que me fizeram calar pra sempre as loucuras todas que gritavam dentro de mim.
Depois de tudo, acaba que eu também não sei mais sambar. Não sei onde foram parar as lantejoulas e nem em que parte do caminho eu perdi o rebolado. Restou buscar consolo nessa valsa lenta, de passos arrastados, que, por mais que eu relute, você teima em tentar me ensinar...
E eu calei, baby. Calei porque não quis revelar que a minha ausência nas madrugadas boêmias em que eles ainda se divertem como nunca, mesmo que sem a minha dança e sem o meu riso e sem o meu olhar inflamado, é culpa sua.
Ah, baby, a verdade é que você nunca soube dançar o meu samba. Eu sei que nunca fui, assim, totalmente fugaz, mas a minha eternidade antes de você era breve e eu era tão mais feliz. E era assim porque, de fato, não me importavam todas as linhas retas e paralelas que hoje você me diz que devemos traçar. Até você chegar, o futuro era algo tão distante que eu nunca havia feito um brinde sequer ao que quer que estivesse por vir.
Ah, não havia censura, meu amor, teus olhares de reprovação não me espreitavam. Eu era a mentira mais bela, a manchete de todas as primeiras páginas. Agora sou essa verdade desinteressante, esse anúncio em letras minúsculas, meio apagado, logo abaixo do obituário semanal.
E então eu me apego a essa tua imagem incontestável porque sei que mesmo que quisesse eu já não conseguiria mais brilhar como antes. Você me fala sobre retrocessos, mas você não sabe que, na verdade, eu tenho vivido uma longa e entediante pausa.
Você me roubou o ar, baby, tirou de mim a embriaguez que me mantinha sóbria, violou minhas noites de insônia e pesadelo. Foi você quem criou esse "talvez" que eu agora repito dia após dia, quando escurece e o vento frio desse inverno que nunca acaba me convida pra caminhar e ver estrelas. Você apagou as letras tortas que eu, durante anos, rabisquei pelas paredes da casa e pelos muros da cidade. Foram as suas constantes súplicas por silêncio que me fizeram calar pra sempre as loucuras todas que gritavam dentro de mim.
Depois de tudo, acaba que eu também não sei mais sambar. Não sei onde foram parar as lantejoulas e nem em que parte do caminho eu perdi o rebolado. Restou buscar consolo nessa valsa lenta, de passos arrastados, que, por mais que eu relute, você teima em tentar me ensinar...
quinta-feira, março 22, 2007
Maria
Ela sorriu amarelo e acendeu um cigarro. Eu disse que aquilo matava aos poucos. Ela deu de ombros, respondeu que não tinha pressa e me jogou na cara todos os meus anos de vício abandonado.
Unhas feitas, lábios pintados, passos firmes no salto alto, dava para dizer que era uma grande mulher. Mas eu conhecia todos os seus defeitos e sabia que, apesar de forte, era pequena. Fez-se pequena através dos anos, não muitos, mas significativos.
Fazia pouco mais de um mês que eu não a via e ela parecia ter envelhecido anos. Talvez pelo tempo distante eu não houvesse reparado no cinza de seus olhos e na expressão cansada de seu rosto. Ela estava mais magra, seus longos cabelos negros haviam perdido o volume, seu sorriso já não tinha o brilho de outros tempos.
Ela disse que sentia minha falta, que era mais fácil segurar a barra quando eu estava por perto, me pediu para voltar, o olhar marejado, eu disse que não podia, ela sabia que não. Fugiu do assunto e se pôs a reclamar. Reclamou das contas para pagar, da falta de tempo, disse que já não suportava mais essa vida de cão, que queria dormir e nunca mais acordar.
Eu disse a ela que parasse de repetir bobagens, mas compreendi. Compreendi porque conhecia bem o seu sofrimento, sabia que vivia presa a uma vida que o destino a impôs, refém de todos os seus sonhos não realizados, curiosa pelas coisas que não pôde ou não quis conhecer, carregando uma culpa que nunca teve, arrependida por todo o passado que jogou fora.
De súbito, me ofereceu um café:
- Acabei de passar.
- Não, obrigada, eu preciso ir.
- Mas já? Ora, fica mais um pouco, você nunca vem me visitar.
- Eu gostaria, mas tenho mesmo que ir.
- Sei... quer um casaco emprestado? Esfriou um pouco.
- Não, obrigada...
- Tem certeza, eu vou pegar...
- Não precisa. Sério.
- Tá bem, vai com Deus. Eu te amo.
- Também te amo, mãe.
Ela me beijou a testa e disse para eu me cuidar. Quando olhei para trás, já longe, pude ver que chorava. Na verdade, parecia toda feita de lágrimas, as mãos trêmulas aludindo um adeus. Caminhei depressa até o ponto de ônibus, o vento frio congelando-me o corpo. Eu deveria ter aceitado o casaco.
Unhas feitas, lábios pintados, passos firmes no salto alto, dava para dizer que era uma grande mulher. Mas eu conhecia todos os seus defeitos e sabia que, apesar de forte, era pequena. Fez-se pequena através dos anos, não muitos, mas significativos.
Fazia pouco mais de um mês que eu não a via e ela parecia ter envelhecido anos. Talvez pelo tempo distante eu não houvesse reparado no cinza de seus olhos e na expressão cansada de seu rosto. Ela estava mais magra, seus longos cabelos negros haviam perdido o volume, seu sorriso já não tinha o brilho de outros tempos.
Ela disse que sentia minha falta, que era mais fácil segurar a barra quando eu estava por perto, me pediu para voltar, o olhar marejado, eu disse que não podia, ela sabia que não. Fugiu do assunto e se pôs a reclamar. Reclamou das contas para pagar, da falta de tempo, disse que já não suportava mais essa vida de cão, que queria dormir e nunca mais acordar.
Eu disse a ela que parasse de repetir bobagens, mas compreendi. Compreendi porque conhecia bem o seu sofrimento, sabia que vivia presa a uma vida que o destino a impôs, refém de todos os seus sonhos não realizados, curiosa pelas coisas que não pôde ou não quis conhecer, carregando uma culpa que nunca teve, arrependida por todo o passado que jogou fora.
De súbito, me ofereceu um café:
- Acabei de passar.
- Não, obrigada, eu preciso ir.
- Mas já? Ora, fica mais um pouco, você nunca vem me visitar.
- Eu gostaria, mas tenho mesmo que ir.
- Sei... quer um casaco emprestado? Esfriou um pouco.
- Não, obrigada...
- Tem certeza, eu vou pegar...
- Não precisa. Sério.
- Tá bem, vai com Deus. Eu te amo.
- Também te amo, mãe.
Ela me beijou a testa e disse para eu me cuidar. Quando olhei para trás, já longe, pude ver que chorava. Na verdade, parecia toda feita de lágrimas, as mãos trêmulas aludindo um adeus. Caminhei depressa até o ponto de ônibus, o vento frio congelando-me o corpo. Eu deveria ter aceitado o casaco.
segunda-feira, março 19, 2007
Metrópole
Gente demais, ela pensou. Gente demais, por todos os lados, andando pra lá e pra cá com pressa, sem pressa. Gente sentada nos bancos brancos, gente parada de pé, horas à espera do ônibus que nunca chega e não vai a lugar nenhum. Gente conversando, brigando, gritando, se impondo, se expondo, surgindo e sumindo em frações minúsculas de tempo. Era gente demais.
E então o menino segurou seu braço e pediu um dinheirinho por favor, que o seu irmão menor está doente e sua mãe está de cama e seu pai morreu assassinado pelos donos da favela porque não pagou uma dívida, moça por favor me dá um trocado. Cinquenta centavos pro pirralho mentiroso ir cheirar cola e ele desce correndo as escadas pro metrô.
E a barulheira dos vendedores ambulantes por todos os lados, olha o boneco de farinha, oito pilhas é só um real, régua mágica quem vai querer, é uma pechincha, é uma pechincha. O homem espancando o gato escondido dentro da caixa de papelão, criançada chorando, a madame do vestido preto, sapato e bolsa de couro de zebra, cara de terror, mão na boca, ai meu deus. Susto, mais um, mais um.
E o automóvel, o bonde elétrico, a lotação. Túneis, passarelas, pontes, avenidas. Poeira, poeira, gases tóxicos, tosse, tosse. A cidade está podre, sim, está. E ainda é abril, a eternidade pro fim do ano ou apenas um segundo.
Um segundo, ela pensou, valeria a pena pelo silêncio. Parou sobre o viaduto. Hesitou. Desistiu. Clichê demais para um fim de vida, clichê demais, não seria assim. Passeou com o olhar sobre a cidade. Teria sorrido, não fosse todo aquele cinza, o congestionamento, o fim de tarde sem sol. E o viaduto era cartão postal da cidade, e a cidade era cartão postal do país. E no céu já se podia ver a lua. Era quase noite na metrópole que jamais dormia.
E então o menino segurou seu braço e pediu um dinheirinho por favor, que o seu irmão menor está doente e sua mãe está de cama e seu pai morreu assassinado pelos donos da favela porque não pagou uma dívida, moça por favor me dá um trocado. Cinquenta centavos pro pirralho mentiroso ir cheirar cola e ele desce correndo as escadas pro metrô.
E a barulheira dos vendedores ambulantes por todos os lados, olha o boneco de farinha, oito pilhas é só um real, régua mágica quem vai querer, é uma pechincha, é uma pechincha. O homem espancando o gato escondido dentro da caixa de papelão, criançada chorando, a madame do vestido preto, sapato e bolsa de couro de zebra, cara de terror, mão na boca, ai meu deus. Susto, mais um, mais um.
E o automóvel, o bonde elétrico, a lotação. Túneis, passarelas, pontes, avenidas. Poeira, poeira, gases tóxicos, tosse, tosse. A cidade está podre, sim, está. E ainda é abril, a eternidade pro fim do ano ou apenas um segundo.
Um segundo, ela pensou, valeria a pena pelo silêncio. Parou sobre o viaduto. Hesitou. Desistiu. Clichê demais para um fim de vida, clichê demais, não seria assim. Passeou com o olhar sobre a cidade. Teria sorrido, não fosse todo aquele cinza, o congestionamento, o fim de tarde sem sol. E o viaduto era cartão postal da cidade, e a cidade era cartão postal do país. E no céu já se podia ver a lua. Era quase noite na metrópole que jamais dormia.
sábado, março 17, 2007
Preguiça
Sábado. Já é meio-dia. A gente discute sobre a minha preguiça. Dèjá vu. Então eu ponho pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras, do disco que nunca sai do aparelho de som... e você se identifica e me beija e já não importa se eu durmo demais.
Eu sei, o dia lá fora está lindo e eu ainda nem tomei banho. Meu café da manhã é um pouco culpado, que eu vivo de iogurtes e frutinhas que você me traz pra comer na cama e é por isso, você diz, que me falta energia. Aí vem todo o discurso sobre o meu excesso de trabalho e os meus sanduíches no almoço e o meu sacrifício e os prejuízos à minha saúde... lhe calo a boca com um pedaço da pizza de ontem. Por sorte, temos o canal de esportes e a tua paciência pra esperar.
Meu sono é sagrado, sabe? Eu gosto de acordar tarde no sábado, ficar na cama o dia todo, assistindo televisão, lendo revistas antigas ou um clássico da literatura russa. Você quer correr no Ibirapuera. Parece vantagem ser vizinho do parque. Você não percebe que aos domingos não se pode estacionar na frente de casa. Você nem dirige, e esse seu corpo pequeno cabe em qualquer vaga.
E, em todos os sábados, você me arrasta pra dentro das grades daquela prisão esverdeada. Mas eu me canso fácil demais, não consigo acompanhar seu passo, me rendo à grama e observo sua silhueta passar veloz uma, duas, três vezes... a rapidez dos seus batimentos cardíacos faz meu coração parar. Enquanto você transpira o seu cotidiano na pista de cooper, eu escrevo linhas que nunca lhe permito ler.
Depois tem feijoada na casa dos amigos, na Coronel Lisboa, e meus passatempos preferidos: comida, cerveja, baralho, risadas. Eu vejo que você se diverte. Seu sorriso enquanto segura as cartas e o copo é mais agradável que sua cara vermelha e seu corpo suado de horas atrás. Está bem, admito que seus sacolejos de atleta têm um certo charme.
O que pesa entre a gente, e nos distancia, é essa paixão incontrolável que eu tenho pela noite... eu toparia caminhadas noturnas, mas você está sempre cansado demais e a cidade é muito violenta. Você prefere o sol, que ativa as ditas vitaminas nos seus ossos. Eu não tenho ossos, me equilibro sobre meus pés cartilaginosos, que estão sempre mais firmes quando o céu escurece e a gente pode ver estrelas.
Eu costumava caminhar à noite, fumava um maço inteiro de cigarros em breves instantes... e pensava. Eram sempre frutíferos os meus passeios pelo centro da cidade. Foi você quem me fez largar o cigarro. É, eu larguei... mas ainda me mordo de inveja das tragadas profundas que vejo sempre por aí. Está certo que ganhei esse fôlego inimaginável e quase curei minha asma, mas trocaria fácil essa suposta saúde pelo prazer constante da nicotina. Não troco e nem é por você... acredita que o cheiro me incomoda?
Enfim, acaba que você é uma coisa eu sou essa coisa ao avesso. E, não fossem as escovas de dente dividindo espaço na pia do banheiro, não daria pra dizer que somos, no fundo, um só. Vantagem a gente sempre conseguir rir das linhas paralelas que traçamos... e se as gargalhadas não vêm, eu coloco pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras. Aí a gente se beija, eu lhe acompanho, com caneta e papel a tiracolo, nas suas corridas pelo Ibirapuera, você me acompanha, com pesos leves na consciência, nas feijoadas da Coronel Lisboa. E, no fim do dia, seu corpo exausto e a minha ressaca, a nossa cama sempre acaba ficando grande demais pra nós dois...
Eu sei, o dia lá fora está lindo e eu ainda nem tomei banho. Meu café da manhã é um pouco culpado, que eu vivo de iogurtes e frutinhas que você me traz pra comer na cama e é por isso, você diz, que me falta energia. Aí vem todo o discurso sobre o meu excesso de trabalho e os meus sanduíches no almoço e o meu sacrifício e os prejuízos à minha saúde... lhe calo a boca com um pedaço da pizza de ontem. Por sorte, temos o canal de esportes e a tua paciência pra esperar.
Meu sono é sagrado, sabe? Eu gosto de acordar tarde no sábado, ficar na cama o dia todo, assistindo televisão, lendo revistas antigas ou um clássico da literatura russa. Você quer correr no Ibirapuera. Parece vantagem ser vizinho do parque. Você não percebe que aos domingos não se pode estacionar na frente de casa. Você nem dirige, e esse seu corpo pequeno cabe em qualquer vaga.
E, em todos os sábados, você me arrasta pra dentro das grades daquela prisão esverdeada. Mas eu me canso fácil demais, não consigo acompanhar seu passo, me rendo à grama e observo sua silhueta passar veloz uma, duas, três vezes... a rapidez dos seus batimentos cardíacos faz meu coração parar. Enquanto você transpira o seu cotidiano na pista de cooper, eu escrevo linhas que nunca lhe permito ler.
Depois tem feijoada na casa dos amigos, na Coronel Lisboa, e meus passatempos preferidos: comida, cerveja, baralho, risadas. Eu vejo que você se diverte. Seu sorriso enquanto segura as cartas e o copo é mais agradável que sua cara vermelha e seu corpo suado de horas atrás. Está bem, admito que seus sacolejos de atleta têm um certo charme.
O que pesa entre a gente, e nos distancia, é essa paixão incontrolável que eu tenho pela noite... eu toparia caminhadas noturnas, mas você está sempre cansado demais e a cidade é muito violenta. Você prefere o sol, que ativa as ditas vitaminas nos seus ossos. Eu não tenho ossos, me equilibro sobre meus pés cartilaginosos, que estão sempre mais firmes quando o céu escurece e a gente pode ver estrelas.
Eu costumava caminhar à noite, fumava um maço inteiro de cigarros em breves instantes... e pensava. Eram sempre frutíferos os meus passeios pelo centro da cidade. Foi você quem me fez largar o cigarro. É, eu larguei... mas ainda me mordo de inveja das tragadas profundas que vejo sempre por aí. Está certo que ganhei esse fôlego inimaginável e quase curei minha asma, mas trocaria fácil essa suposta saúde pelo prazer constante da nicotina. Não troco e nem é por você... acredita que o cheiro me incomoda?
Enfim, acaba que você é uma coisa eu sou essa coisa ao avesso. E, não fossem as escovas de dente dividindo espaço na pia do banheiro, não daria pra dizer que somos, no fundo, um só. Vantagem a gente sempre conseguir rir das linhas paralelas que traçamos... e se as gargalhadas não vêm, eu coloco pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras. Aí a gente se beija, eu lhe acompanho, com caneta e papel a tiracolo, nas suas corridas pelo Ibirapuera, você me acompanha, com pesos leves na consciência, nas feijoadas da Coronel Lisboa. E, no fim do dia, seu corpo exausto e a minha ressaca, a nossa cama sempre acaba ficando grande demais pra nós dois...
sexta-feira, março 16, 2007
...
A princípio, eram apenas as vozes, o som ofegante de uma respiração do outro lado da linha, a ausência do que ainda não havia se feito presente, a saudade de um não sei quê distante... e o desejo.
De repente, tornou-se vontade. A distância não calculada reverteu-se em apego. Do não ver surgiu a urgência do toque e daí... a loucura.
Até que perdeu-se a razão, e do desejo, e da loucura, fez-se o encontro. E o encontro resumiu-se em sonho, em corpos que se confundiam, imagens que se consumiam... e risos.
Dos risos, a sintonia, o peso de todas as palavras guardadas, de todos os segredos revelados, a nostalgia do estar longe, a precisão de um olhar.
E no final, já não era devaneio, nem abstração, era encanto que vertia sem controle, era o inevitável se fazendo real em momentos de fragilidade. No final, era silêncio e melodia, era o acaso transformando-se em destino. No final, eram planos, o futuro e duas almas que, inexplicavelmente, fundiam-se em apenas uma.
De repente, tornou-se vontade. A distância não calculada reverteu-se em apego. Do não ver surgiu a urgência do toque e daí... a loucura.
Até que perdeu-se a razão, e do desejo, e da loucura, fez-se o encontro. E o encontro resumiu-se em sonho, em corpos que se confundiam, imagens que se consumiam... e risos.
Dos risos, a sintonia, o peso de todas as palavras guardadas, de todos os segredos revelados, a nostalgia do estar longe, a precisão de um olhar.
E no final, já não era devaneio, nem abstração, era encanto que vertia sem controle, era o inevitável se fazendo real em momentos de fragilidade. No final, era silêncio e melodia, era o acaso transformando-se em destino. No final, eram planos, o futuro e duas almas que, inexplicavelmente, fundiam-se em apenas uma.
terça-feira, março 13, 2007
Sour Times
No rádio tocava aquela música, aquela que eles ouviram juntos tantas vezes. O resto era imagens que a memória resgatava de tempos idos e vividos numa espécie de ilusão. Havia a dúvida e as lágrimas gordas que lhe cobriam o rosto pálido. E ela tinha esperanças de que todo aquele silêncio fosse um sinal de que ele estava a caminho, dirigindo por uma estrada qualquer onde todos os telefones ficam fora de área...
Nobody loves me... it's true... not like you do.
Nobody loves me... it's true... not like you do.
domingo, março 04, 2007
Free
O cara alto e magro que todo mundo dizia que era gay. Usava o cabelo pro lado, emplastado de laquê. Roupas sempre muito justas e coloridas. Queria ser um estilista de renome e criar modelitos para as estrelas de Hollywood.
A gordinha. Andava sempre de rabo de cavalo e só vestia preto, exceto pelo tênis, de um tom verde musgo meio desbotado. Queria escrever e vender muitos livros e ficar famosa.
A dona de casa que andava pra cima e pra baixo com um lenço azul na cabeça, chinelos de dedo nos pés e a pele das mãos meio comida pelos produtos de limpeza. Sempre rezando baixinho, pelos números da Mega Sena.
O garoto cheio de espinhas. Carregava seu skate de um lado para o outro e quase nunca tomava banho, nem escovava os dentes. Treinava muito pra que um dia pudesse disputar campeonatos internacionais.
A ruiva linda, de corpo escultural e longos cabelos, que nunca deixava de combinar os sapatos com o cinto e com a bolsa e que queria fazer implante de silicone.
Por fim, a velha barriguda, que ameaçava os guris da rua com um rolo de macarrão e usava os cabelos presos em um coque imenso atrás da cabeça. Queria de volta o marido morto e chorava todas as noites até adormecer.
E não havia laços afetivos, nem familiares. Nem sequer havia diálogo. Mas moravam todos juntos, numa mesma casa cheia de cômodos. E dividiam os espaços comuns do recinto, as contas de luz, de água e o aluguel...
A gordinha. Andava sempre de rabo de cavalo e só vestia preto, exceto pelo tênis, de um tom verde musgo meio desbotado. Queria escrever e vender muitos livros e ficar famosa.
A dona de casa que andava pra cima e pra baixo com um lenço azul na cabeça, chinelos de dedo nos pés e a pele das mãos meio comida pelos produtos de limpeza. Sempre rezando baixinho, pelos números da Mega Sena.
O garoto cheio de espinhas. Carregava seu skate de um lado para o outro e quase nunca tomava banho, nem escovava os dentes. Treinava muito pra que um dia pudesse disputar campeonatos internacionais.
A ruiva linda, de corpo escultural e longos cabelos, que nunca deixava de combinar os sapatos com o cinto e com a bolsa e que queria fazer implante de silicone.
Por fim, a velha barriguda, que ameaçava os guris da rua com um rolo de macarrão e usava os cabelos presos em um coque imenso atrás da cabeça. Queria de volta o marido morto e chorava todas as noites até adormecer.
E não havia laços afetivos, nem familiares. Nem sequer havia diálogo. Mas moravam todos juntos, numa mesma casa cheia de cômodos. E dividiam os espaços comuns do recinto, as contas de luz, de água e o aluguel...
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