segunda-feira, março 19, 2007

Metrópole

Gente demais, ela pensou. Gente demais, por todos os lados, andando pra lá e pra cá com pressa, sem pressa. Gente sentada nos bancos brancos, gente parada de pé, horas à espera do ônibus que nunca chega e não vai a lugar nenhum. Gente conversando, brigando, gritando, se impondo, se expondo, surgindo e sumindo em frações minúsculas de tempo. Era gente demais.

E então o menino segurou seu braço e pediu um dinheirinho por favor, que o seu irmão menor está doente e sua mãe está de cama e seu pai morreu assassinado pelos donos da favela porque não pagou uma dívida, moça por favor me dá um trocado. Cinquenta centavos pro pirralho mentiroso ir cheirar cola e ele desce correndo as escadas pro metrô.

E a barulheira dos vendedores ambulantes por todos os lados, olha o boneco de farinha, oito pilhas é só um real, régua mágica quem vai querer, é uma pechincha, é uma pechincha. O homem espancando o gato escondido dentro da caixa de papelão, criançada chorando, a madame do vestido preto, sapato e bolsa de couro de zebra, cara de terror, mão na boca, ai meu deus. Susto, mais um, mais um.

E o automóvel, o bonde elétrico, a lotação. Túneis, passarelas, pontes, avenidas. Poeira, poeira, gases tóxicos, tosse, tosse. A cidade está podre, sim, está. E ainda é abril, a eternidade pro fim do ano ou apenas um segundo.

Um segundo, ela pensou, valeria a pena pelo silêncio. Parou sobre o viaduto. Hesitou. Desistiu. Clichê demais para um fim de vida, clichê demais, não seria assim. Passeou com o olhar sobre a cidade. Teria sorrido, não fosse todo aquele cinza, o congestionamento, o fim de tarde sem sol. E o viaduto era cartão postal da cidade, e a cidade era cartão postal do país. E no céu já se podia ver a lua. Era quase noite na metrópole que jamais dormia.

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