Sábado. Já é meio-dia. A gente discute sobre a minha preguiça. Dèjá vu. Então eu ponho pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras, do disco que nunca sai do aparelho de som... e você se identifica e me beija e já não importa se eu durmo demais.
Eu sei, o dia lá fora está lindo e eu ainda nem tomei banho. Meu café da manhã é um pouco culpado, que eu vivo de iogurtes e frutinhas que você me traz pra comer na cama e é por isso, você diz, que me falta energia. Aí vem todo o discurso sobre o meu excesso de trabalho e os meus sanduíches no almoço e o meu sacrifício e os prejuízos à minha saúde... lhe calo a boca com um pedaço da pizza de ontem. Por sorte, temos o canal de esportes e a tua paciência pra esperar.
Meu sono é sagrado, sabe? Eu gosto de acordar tarde no sábado, ficar na cama o dia todo, assistindo televisão, lendo revistas antigas ou um clássico da literatura russa. Você quer correr no Ibirapuera. Parece vantagem ser vizinho do parque. Você não percebe que aos domingos não se pode estacionar na frente de casa. Você nem dirige, e esse seu corpo pequeno cabe em qualquer vaga.
E, em todos os sábados, você me arrasta pra dentro das grades daquela prisão esverdeada. Mas eu me canso fácil demais, não consigo acompanhar seu passo, me rendo à grama e observo sua silhueta passar veloz uma, duas, três vezes... a rapidez dos seus batimentos cardíacos faz meu coração parar. Enquanto você transpira o seu cotidiano na pista de cooper, eu escrevo linhas que nunca lhe permito ler.
Depois tem feijoada na casa dos amigos, na Coronel Lisboa, e meus passatempos preferidos: comida, cerveja, baralho, risadas. Eu vejo que você se diverte. Seu sorriso enquanto segura as cartas e o copo é mais agradável que sua cara vermelha e seu corpo suado de horas atrás. Está bem, admito que seus sacolejos de atleta têm um certo charme.
O que pesa entre a gente, e nos distancia, é essa paixão incontrolável que eu tenho pela noite... eu toparia caminhadas noturnas, mas você está sempre cansado demais e a cidade é muito violenta. Você prefere o sol, que ativa as ditas vitaminas nos seus ossos. Eu não tenho ossos, me equilibro sobre meus pés cartilaginosos, que estão sempre mais firmes quando o céu escurece e a gente pode ver estrelas.
Eu costumava caminhar à noite, fumava um maço inteiro de cigarros em breves instantes... e pensava. Eram sempre frutíferos os meus passeios pelo centro da cidade. Foi você quem me fez largar o cigarro. É, eu larguei... mas ainda me mordo de inveja das tragadas profundas que vejo sempre por aí. Está certo que ganhei esse fôlego inimaginável e quase curei minha asma, mas trocaria fácil essa suposta saúde pelo prazer constante da nicotina. Não troco e nem é por você... acredita que o cheiro me incomoda?
Enfim, acaba que você é uma coisa eu sou essa coisa ao avesso. E, não fossem as escovas de dente dividindo espaço na pia do banheiro, não daria pra dizer que somos, no fundo, um só. Vantagem a gente sempre conseguir rir das linhas paralelas que traçamos... e se as gargalhadas não vêm, eu coloco pra tocar aquela música sobre as sextas-feiras. Aí a gente se beija, eu lhe acompanho, com caneta e papel a tiracolo, nas suas corridas pelo Ibirapuera, você me acompanha, com pesos leves na consciência, nas feijoadas da Coronel Lisboa. E, no fim do dia, seu corpo exausto e a minha ressaca, a nossa cama sempre acaba ficando grande demais pra nós dois...
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