Hoje eles me falaram sobre a saudade que sentem do tempo em que eu me vestia de lantejoulas e dançava pelo salão até que meus pés parassem de me obedecer. Disseram que dói um pouco não ter mais por perto os meus sorrisos exaltados e os meus olhos vermelhos de tanta cerveja e frisson. Sufocaram-me com nostalgias e soluços e lamentos.
E eu calei, baby. Calei porque não quis revelar que a minha ausência nas madrugadas boêmias em que eles ainda se divertem como nunca, mesmo que sem a minha dança e sem o meu riso e sem o meu olhar inflamado, é culpa sua.
Ah, baby, a verdade é que você nunca soube dançar o meu samba. Eu sei que nunca fui, assim, totalmente fugaz, mas a minha eternidade antes de você era breve e eu era tão mais feliz. E era assim porque, de fato, não me importavam todas as linhas retas e paralelas que hoje você me diz que devemos traçar. Até você chegar, o futuro era algo tão distante que eu nunca havia feito um brinde sequer ao que quer que estivesse por vir.
Ah, não havia censura, meu amor, teus olhares de reprovação não me espreitavam. Eu era a mentira mais bela, a manchete de todas as primeiras páginas. Agora sou essa verdade desinteressante, esse anúncio em letras minúsculas, meio apagado, logo abaixo do obituário semanal.
E então eu me apego a essa tua imagem incontestável porque sei que mesmo que quisesse eu já não conseguiria mais brilhar como antes. Você me fala sobre retrocessos, mas você não sabe que, na verdade, eu tenho vivido uma longa e entediante pausa.
Você me roubou o ar, baby, tirou de mim a embriaguez que me mantinha sóbria, violou minhas noites de insônia e pesadelo. Foi você quem criou esse "talvez" que eu agora repito dia após dia, quando escurece e o vento frio desse inverno que nunca acaba me convida pra caminhar e ver estrelas. Você apagou as letras tortas que eu, durante anos, rabisquei pelas paredes da casa e pelos muros da cidade. Foram as suas constantes súplicas por silêncio que me fizeram calar pra sempre as loucuras todas que gritavam dentro de mim.
Depois de tudo, acaba que eu também não sei mais sambar. Não sei onde foram parar as lantejoulas e nem em que parte do caminho eu perdi o rebolado. Restou buscar consolo nessa valsa lenta, de passos arrastados, que, por mais que eu relute, você teima em tentar me ensinar...
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